segunda-feira, 9 de março de 2009

KAVAFIS MARTIRIZADO

É, por vezes, muito difícil ler um bom poema. Actores como Diogo Diória ou Luís Miguel Cintra parecem fazê-lo sem esforço, como quem respira. Na realidade, aquele sem esforço é resultado de uma sensibilidade apuradíssima e de longos anos de leitura.
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Ontem, no programa Câmara Clara (RTP2), o poema Ítaca, de K. Kavafis (um texto que nem me parece ser dos mais difícies de ler desse autor) foi chacinado pela actriz Beatriz Batarda. Tabucchi, o escritor convidado, fez um comentário sibilino: disse que a actriz tinha uma bela presença e uma bela voz. Não faltou à verdade, mas também não elogiou a leitura. Afinal, é sempre feio mentir...

Aqui fica, em compensação, uma imagem da ilha de Santorini. Cada um de nós tem a sua Ítaca. E a minha nem é Santorini.

domingo, 8 de março de 2009

EL TRAPO BLANCO Y EL TRAPO NEGRO














El trapo negro (à direita) é uma fotografia, de 1986, do mexicano Manuel Alvarez Bravo (1902-2002), já antes referida neste blogue. A da esquerda não se chama el trapo blanco... A modelo dá pelo nome de Ada e o autor da fotografia, que data de 1982, é o americano Robert Mapplethorpe (1946-1989).
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Em duas fotografias, e no contraste flagrante dos brancos e dos negros, e na sensualidade que delas se desprende, se apresentam duas formas de beleza feminina. A qual não está sujeita a padrões, nem a medidas, nem a receitas, e que nem todas as enciclopédias do mundo se poderiam atrever a querer decifrar.
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Alguém me referiu que el trapo negro expressa "sensualidade, sexualidade e maternidade". Se uma imagem vale mais que mil palavras, aquelas três explicam, de facto, o conteúdo da fotografia. Foi a leitura de uma mulher. De uma mulher bela, diga-se de passagem.
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Algumas das fotografias de Manuel Alvarez Bravo estão disponíveis em http://redescolar.ilce.edu.mx/redescolar/biblioteca/special/manuel_a_b/galeria.htm. Depois do falecimento de Mapplethorpe foi constituída uma fundação: ver http://www.mapplethorpe.org/
Os trabalhos destes dois grandes artistas do século XX podem ser facilmente adquiridos através do site da Amazon.

sábado, 7 de março de 2009

FOI BONITA A FESTA, PÁ

Foi bonita a festa. Mais de 400 amigos de José Maria Pós-de-Mina juntaram-se, ontem à noite, para o homenagear pela distinção de que foi alvo pela revista norte-americana ONEWORLD.
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A cerimónia foi simples, intensa e emotiva. A Comissão Promotora (integrada por pessoas de várias quadrantes políticos) preparou imagens sobre o percurso pessoal de José Maria Pós-de-Mina, assim como sobre o seu papel no projecto das energias renováveis. Intervieram, pela Comissão Promotora, Luís Raposo (ex-vereador eleito pela CDU), Zélia Parreira e Joaquim Santos (ex-presidente da Assembleia Municipal eleito pelo PS). Foram lidas mensagens enviadas pela ONEWORLD e pelo Presidente da Associação Nacional dos Municípios Porugueses (e da Câmara Municipal de Viseu), Fernando Ruas. O homenageado fez uma intervenção final de agradecimento. O resto que se passou fica no coração de cada um de nós.
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O reconhecimento que teve na promoção do projecto de uma Moura mais luminosa e que tem os seus polos principais na Amareleja e em Moura é hoje quase unânime. E digo quase porque o Partido Socialista de Moura primou pela ausência. Ninguém do PS. Nem um vereador, nem um membro das Juntas ou Assembleias de Freguesia, nem um membro da Assembleia Municipal. O despeito, a raiva e a frustração são evidentes. Coisa insólita, porque o maior beneficiado neste processo é o concelho de Moura. E porque este projecto não só está para ficar, como para crescer e tomar novos rumos.
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Deixemo-los com esta breve frase do romancista chinês Jiang Zilong, e que tão bem lhes assenta:
O rancor não é mais que a prova da fraqueza.

quinta-feira, 5 de março de 2009

EGOISTE



Admito que sim, que a publicidade e a manipulação da imagem me interessam. E este é um anúncio célebre. Foi concebido por Jean-Paul Goude (n. 1940) para a Chanel. O perfume era o Égoïste, e aquela sequência de janelas a abrir e a fechar ficou para a história da publicidade.

Curiosidades:
A fachada é uma evocação do célebre Hotel Carlton, em Cannes (so they say, nunca estive em tal sítio). Foi construída num sítio desértico e era fachada e nada mais.
A música é a Dança dos Cavaleiros, da bailado Romeu e Julieta, apresentado em 1938 por Serguei Prokofiev (1891-1953)

quarta-feira, 4 de março de 2009

ALL ABOUT EVE



Vale a pena transcrever o diálogo na íntegra:

Miss Casswell: Oh, waiter!
De Witt: That isn't a waiter, my dear. That's a butler.
Miss Casswell: Well, I can't yell, 'Oh, butler!' can I? Maybe somebody's name is Butler.
De Witt: You have a point. An idiotic one, but a point.
Miss Casswell: I don't want to make trouble. All I want is a drink.
Max: Leave it to me. I'll get you one.
Miss Caswell: Thank you, Mr. Fabian.
De Witt: Well done. I can see your career rising in the east like the sun.

Esta breve cena é do filme All about Eve, de Joseph L. Mankiewicz. O filme data de 1950 e conta com um argumento brilhantemente escrito. Vi-o, pela primeira vez, há muitos anos, na Fundação Gulbenkian. Não é dos filmes mais vistos pelas novas gerações, cinéfilos à parte, mas um dia destes vai ser redescoberto.

E se há muitos diálogos que não se esquecem, e se a história é, ela mesma, um prodígio, a frase do cínico De Witt (George Sanders), prevendo o futuro da quase estreante Marylin Monroe, parece-nos um milagre de premonição. O filme existe em DVD, mas não encontrei versão portuguesa.

terça-feira, 3 de março de 2009

HERMANO LOBO

A revista chamava-se Hermano Lobo e publicou-se entre 1972 e 1976. Muitas das nossas influências e fontes de inspiração e gostos futuros começam quando temos 12 ou 13 anos. Não faço ideia quem , na família de Espanha, comprava a revista. Talvez a prima Pepa, que era então professora.
Em todo o caso, o humor desbragado e provocador (nesse sentido puramente espanhol) da Hermano Lobo fazia-me rir horas a fio. O fim do franquismo anunciava-se em desenhos e em textos que, com muita frequência, só entendia de forma muito parcial. Ainda assim, o gosto pelo non-sense ficou. E a admiração pela criatividade de desenhadores como Chumy Chúmez e Forges. Data também daí a primeira leitura das crónicas de Francisco Umbral. Retomei o percurso deste mais tarde na Interviu, outra revista célebre que misturava a sofisticação da palavra com mulheres pouco vestidas.


O meu desenhador preferido era Jaume Perich Escala (1941-1995), popularmente conhecido como "el Perich". Reservo um lugar no meu coração para a inesquecível, impiedosa e mordaz série de desenhos de El hombre invisible.
A Hermano Lobo está disponível, os deuses sejam louvados, em http://www.hermanolobodigital.com

sábado, 28 de fevereiro de 2009

MOURA ORGULHA-SE!

Homenagem ao Dr. José Maria Pós-de-Mina

A recente nomeação do Dr. José Maria Prazeres Pós-de-Mina, Presidente da Câmara Municipal de Moura, pela organização norte-americana OneWorld, como uma das dez personalidades do ano que, a nível mundial, mais se distinguiram na área dos direitos humanos, justiça social e desenvolvimento sustentável, deu ao concelho de Moura uma grande projecção nacional e internacional.
Consideramos que a associação do nosso concelho à criação de melhores condições de vida para as gerações futuras, a que o nome de José Maria Prazeres Pós-de-Mina fica indissoluvelmente ligado, constitui um forte motivo de orgulho para toda a população do concelho de Moura.
Por essa razão, entendeu um grupo de pessoas constituir uma Comissão Promotora com o intuito de promover um jantar de homenagem ao Dr. José Maria Prazeres Pós-de-Mina, no próximo dia 6 de Março, através do qual a população possa expressar o seu reconhecimento a uma personalidade do concelho cujo trabalho na área das energias renováveis foi internacionalmente valorizado, e para a qual convidamos todos aqueles que se quiserem associar. As inscrições podem ser efectuadas em qualquer Junta de Freguesia do Concelho até dia 3 de Março.

Comissão Promotora: Amílcar Mourão, António Martins, Célia Gomes, Daniel Rodrigues, Francisco Honrado Pereira, Gertrudes Barros, Joaquim Santos, José António Oliveira, José Manuel Lima d'Oliveira. Luís Raposo, Maria Jesus Mendes, Paula Ventinhas, Zélia Parreira

Informações:
92 63 63 657 / 96 53 53 418 / 96 41 44 048



Três breves notas:
1. O título da iniciativa é magnífico. Não sei quem é o/a autor(a), mas que é muito bom, lá isso é.
2. A Comissão Promotora tem um toque de diversidade (a vários níveis) que se saúda e é, para mim, motivo de especial regozijo.
3. No dia 6 de Março lá estarei.

quinta-feira, 26 de fevereiro de 2009

1973, UNS DIAS ANTES DO NATAL

Há sempre, nesta altura do ano, quem venha recordar os natais dos tempos de infância. As idas à Missa do Galo, os cânticos, a neve. Nascido numa família laica nunca fui à Missa do Galo nem lá em casa se celebrava o natal religioso. Nem quase o outro, que as prendas no sapatinho tinham um significado muito diferente do de hoje. Sem que o soubéssemos era um natal pagão, o assinalar do solstício, a família reunida e nada mais.
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De todos os natais lembro-me, com pormenor, do de 1973. Apenas desse. A avó Luzia piorava de mês para mês e fomos visitá-la a Madrid, onde vivia desde há muitos anos. Em Navalcarnero, a 70 kms. da capital começou a nevar, e foi essa a primeira das três ou quatro vezes em que até hoje vi neve. Era dia 19 de Dezembro, fazia muito, muito frio, e nada fazia prever o que se avizinhava.
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No dia seguinte de manhã, a Avenida Menendez Pelayo era um pandemónio de carros da polícia. “Mataram o primeiro-ministro”, dizia-se em cada loja e em cada esquina. A pouco mais de dois quilómetros da casa da avó Luzia, um comando da ETA acabara de fazer voar o carro do almirante Luis Carrero Blanco, o novo homem forte do regime.
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Pudémos ir ver o sítio pouco depois. A espectacular operação deixara marcas bem visíveis. Cem quilos de explosivos colocados sob o pavimento da rua tinham aberto um gigantesco buraco no pavimento da calle Claudio Coello. Supremo requinte, tinham-se dado ao pormenor de pintar um traço vermelho na parede para controlarem o momento em que o Dodge blindado do almirante passava sobre o explosivo. Durante meses, tinham escavado um túnel sob a rua (eram escultores, diziam à vizinhança para justificarem o som das pás e picaretas) até ao momento em que Carrero Blanco saiu da missa e o enorme carro negro foi pelos ares, sobrevoou o telhado do convento, num salto de dezenas de metros, e tombou com fragor no claustro onde Carrero estivera minutos antes. O tio António, padrasto do meu pai, levou-me até lá em silêncio. Combatera na guerra civil pela Falange e talvez, no íntimo, suspeitasse que aquele insólito voo do almirante simbolizava o fim de uma época.
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No fundo da cratera repousava uma coroa de flores. Há coisas que um miúdo de dez anos jamais esquece: aquele buraco lamacento junto à esquina com a calle Maldonado, as fotos do carro caído de lado e amassado no pátio do claustro, a ausência de Franco no funeral (“síndrome gripal” garantia o Ya, jornal do regime, mas toda a gente dizia que o velho estava borrado de medo), o frio da rua naquela primeira manhã de Inverno.
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O regime desfazia-se. Nos meses seguintes os taxistas madrilenos permitiam-se mesmo um humor negro de gosto duvidoso. Quando alguém pedia para ir para ir à calle Claudio Coello era brindado com a pergunta “E a que altura o levo?”.
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Estranhamente, não recordo que prenda tive nesse natal nem se havia presépio ou não. O atentado marcou aquela quadra sem que os anos apaguem tantos e tantos pormenores inúteis.
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Apesar do envolvimento da ETA os anos seguintes levantaram, como sempre sucede, teorias conspirativas, como a da suposta participação da CIA. No meio de tudo nunca se descobriu a identidade do “homem da gabardina branca” que terá entregue, à entrada de um hotel, os horários e os caminhos usados por Carrero Blanco. A pessoa que o poderia identificar foi assassinada por um comando de extrema-direita em 1978, o que só veio adensar o mistério.
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Nos anos seguintes as coisas mudaram. Portugal em 1974, a Espanha pouco depois, encontraram as rotas da liberdade. O meu último natal em Madrid foi em 1974, no nº 63, 4º F, da Menendez Pelayo. O cancro venceu a avó Luzia pouco tempo depois e Madrid deixou de ser sinónimo de casa mas sim outra cidade onde passei a ir apenas de tempos a tempos. E não tanto quanto gostaria. Na calle Claudio Coello, em frente ao nº 104, está hoje uma placa que assinala a morte de Carrero, num acontecimento que marcou a história de Espanha e que marcou de modo indelével os meus dias de infância.

Esta crónica foi publicada no jornal A Planície mas não tenho aqui a data...




O almirante Luís Carrero Blanco (1903-1973) foi o último primeiro-ministro do franquismo. O ditador faleceu menos de dois anos depois. E Arias Navarro já não conta nesta história.

terça-feira, 24 de fevereiro de 2009

SONHO DE UMA TERÇA-FEIRA GORDA

Eu estava contigo. Os nossos dominós eram negros, e negras eram as
nossas máscaras.
Íamos, por entre a turba, com solenidade,
Bem conscientes do nosso ar lúgubre
Tão contrastado pelo sentimento de felicidade
Que nos penetrava. Um lento, suave júbilo
Que nos penetrava... Que nos penetrava como uma espada de fogo...
Como a espada de fogo que apunhalava as santas extáticas!
E a impressão em meu sonho era que se estávamos
Assim de negro, assim por fora inteiramente de negro,
Dentro de nós, ao contrário, era tudo claro e luminoso!

Era terça feira gorda. A multidão inumerável
Burburinhava. Entre clangores de fanfarra
Passavam préstitos apoteóticos.
Eram alegorias ingénuas, ao gosto popular, em cores cruas.

Iam em cima, empoleiradas, mulheres de má vida,
De peitos enormes – Vénus para caixeiros.
Figuravam deusas – deusa disto, deusa daquilo, já tontas e seminuas.

A turba, ávida de promiscuidade,
Acotovelava-se com algazarra,
Aclamava-as com alarido.
E, aqui e ali, virgens atiravam-lhes flores.

Nós caminhávamos de mãos dadas, com solenidade.
O ar lúgubre, negros, negros...
Mas dentro em nós era tudo claro e luminoso!
Nem a alegria estava ali, fora de nós.
A alegria estava em nós.
Era dentro de nós que estava a alegria,
A profunda, a silenciosa alegria...

Poema de Manuel Bandeira, que teve a sorte de nunca ter encontrado as brigadas de bons costumes da PSP. De resto, e como se sabe, "não existe pecado do lado de baixo do Equador".


A fotografia retrata, segundo imagino, um momento de Carnaval. Não tenho a data mas faz parte do "período brasileiro" do grande fotógrafo Pierre "Fatumbi" Verger (1902-1996). Pierre Verger fixou-se em S. Salvador da Bahia em 1946. A partir daí continuou a fazer inúmeras viagens, mas foi no Brasil que, cada vez mais, foi vivendo. Criou a Fundação Pierre Verger, à qual legou todo o magnífico espólio de imagens. Mais informações em:

http://www.pierreverger.org

segunda-feira, 23 de fevereiro de 2009

A ORIGEM DO MUNDO

Poucos livros terão tido tanta importância na minha vida como Para compreender a pintura: de Giotto a Chagall, de Lionello Venturi (1885-1961), lido no Verão de 1980, trinta anos passados sobre a data da primeira edição. Venturi era um historiador e crítico de arte com uma posição social e política bem definida. E o seu livro é um dos mais belos manifestos de libertação que jamais li. E não esqueço, e cito de memória, depois de todos estes anos, as vibrantes páginas de crítica à atitude académica de pintores como Ernest Meissonier (1815-1891), a quem acusava de representar homens sem alma, ou como Jean-François Millet (1814-1875), cujo Angellus interpretava como um acto de submissão ante os poderosos. Assim como recordo com toda a clareza o entusiasmo de Venturi ante um quadro como Os britadores de pedra de Gustave Courbet (1819-1877) e toda a luta que lhe estava subjacente. Com Venturi comecei a compreender as leis básicas da perspectiva, do enquadramento, das diagonais. Mas também, e sobretudo, a importância do papel social da Arte.
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Gustave Courbet era um socialista pouco dado a respeitar as convenções. Concebeu A origem do mundo em 1866, e o mínimo que se pode dizer é que a crueza do seu naturalismo estava, à partida, fadada à imortalidade (o quadro está hoje exposto no Musée d'Orsay, em Paris). Quase me espanta que, quase 150 anos volvidos, os oficiais do Santo Inquisição, agora travestidos com a farda cinza da PSP, percam tempo a apreender livros cuja capa é o quadro de Courbet.
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Só não me espanta por completo porque, há cerca de duas décadas, uma fotografia de Mapplethorpe, provocatoriamente intitulada Man in Polyester Suit (1980), causou enorme celeuma. Que incluiu a sua remoção de uma exposição num museu norte-americano.

A História repete-se. Cabe-nos manter vivo esse ideal de uma Arte que questiona os poderosos, todos os poderosos, e o direito a uma liberdade de expressão sem constrangimentos.

UM BONECO CHAMADO OSCAR

O que têm em comum Alfred Hitchcock, Luis Buñuel, Jean-Marie Straub, Wim Wenders, Jean Rouch, Gene Kelly, Sergei Eisenstein, Jean Renoir, Sergio Leone, Michelangelo Antonioni, Kenji Mizoguchi, Jim Jarmusch, Pier Paolo Pasolini, Theo Angelopoulos, Yasujiro Ozu, Fritz Lang, Jean-Luc Godard, Ingmar Bergman, Frederick Weisman, Robert Flaherty, Akira Kurosawa, Ken Loach, Robert Bresson, Paul Thomas Anderson, Vittorio de Sica ou Andrei Tarkovsky? Nenhum deles ganhou um prémio americano chamado oscar. A maior parte deles nunca teve, sequer, uma das tais famigeradas nomeações. Foi, contudo, graças a eles que a Arte do Cinema se afirmou e, a cada dia, continua a alargar horizontes.
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Orson Welles ganhou um pelo argumento de Citizen Kane, Stanley Kubrick outro pelos efeitos visuais (apenas e só) de 2001: uma odisseia no espaço, Francis Ford Coppola está declarado como morto pela Academia desde 1979 (a despeito desse genial falhanço que foi Do fundo do coração). A lista poderia prolongar-se.
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Os oscars são importantes? Como técnica de vendas, sim. Para o Cinema, raramente.
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Para quem tiver curiosidade, veja-se uma das mais respeitadas listas dos melhores filmes jamais realizados. É a da revista britânica Sight and Sound (a lista é renovada apenas de 10 em 10 anos - a última edição data de 2002):

domingo, 22 de fevereiro de 2009

SUBTERRÂNEOS DE ALFAMA

A melhor maneira de passear pela Lisboa antiga é a pé. Por isso despachei o carro no estacionamento das Portas do Sol. O sistema é sofisticado: colocamos o carro numa plataforma, fechamos as portas e saímos. Um elevador leva o carro por ali abaixo. Para o reavermos pagamos, o cartão identifica a viatura (fiquei com a secreta esperança que me entregassem um Jaguar, mas não...) e o elevador volta a pôr o carro à superfície.
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Sofisticado e até um bocadinho chique. Mas não totalmente seguro. À entrada um aviso previne (e juro que não é brincadeira minha) "não deixe seres vivos dentro da viatura". Fiquei intrigado mas resisti a fazer indagações sobre os terríveis segredos que os subterrâneos de Alfama encerram. Serão vampiros sedentos de sangue humano? Haverá zombies? Por Deus, o que se esconderá no subsolo de Lisboa que leva a tal conselho?

sexta-feira, 20 de fevereiro de 2009

NO CAIRO

A meio do projecto Discover Islamic Art fui convocado para uma reunião no Cairo. Os primeiros dias foram dramáticos. Trabalhava-se na sala de congressos do hotel de manhã à noite. Sem sequer sair à rua. A partir do terceiro dia fui "adoptado" por uma colega egípcia e pelo marido, que era economista e passava pelo local da reunião para a recolher. O Amr passou a levar-me pela noite do Cairo, de bar em bar, fumando narguilé e conversando das coisas da vida. Fomos a esplanadas ver futebol, passámos horas sem conta no El Fishawy, o mais célebre café de Khan el-Kahlili. Habibi, chamava-me às tantas o empregado, e uma vez que me tinha tornado cliente habitual.
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Quando regressava ao hotel, noite dentro, a televisão passava clips musicais das vedetas do Médio Oriente (a música ocidental é tão invulgar no Levante como uma palmeira no Ártico). O êxito do momento era este Etazalt el-Gharam, da libanesa Majida el-Roumi. Até hoje o Cairo permanece sinónimo da Ayda e do Amr, do el-Fishawy, do narguilé e da voz doce da bela Majida.
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Desgraçadamente shuf, shuf, habibi, shuf (olha, olha, meu querido, olha) é o limite do meu conhecimento de árabe neste clip.



Majida el-Roumi é uma mulher do Mediterrâneo. Nasceu em 1956, no Líbano, no seio de uma família católica grega. O seu prestígio, na margem sul deste nosso mundo, é imenso.

quinta-feira, 19 de fevereiro de 2009

E JÁ QUE É CARNAVAL...

Bom, a fotografia é para aí de 1980 ou de 1981. O grupo é 100% mourense. E até lá estão dois políticos actuais. Viva o Carnaval!

quarta-feira, 18 de fevereiro de 2009

TODOS OS SÁS LEÕES DO MUNDO

Do Público de hoje:
Um dos advogados de Júlio Monteiro, Sá Leão, disse não haver "dados novos", mostrando-se convicto de que, em relação ao seu cliente, "o caso fica por aqui". Sá Leão adiantou ainda que Júlio Monteiro foi ouvido pelos dois procuradores do Departamento Central de Investigação e Acção Penal (DCIAP), encarregados do caso, Vítor Magalhães e Pais Faria, e por quatro inspectores da PJ. Pompeu de Sá Leão y Seabra, bispo de Malange
O realizador de filmes eróticos Sá Leão (aqui com Cicciolina)
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Parto do princípio que sejam pessoas diferentes...

terça-feira, 17 de fevereiro de 2009

O POLITÓLOGO, HUGO CHÁVEZ E A VENEZUELA

A vitória de Hugo Chávez no referendo venezuelano causou uma torrente de comentários. De entre estes, os meus preferidos são os dos politólogos profissionais. Na segunda-feira de manhã, o que estava de serviço à Antena Um alinhavou um chorrilho de banalidades, com particular destaque para as lapalissadas “a Venezuela está dividida ao meio” e “Chávez tem o apoio de metade mais pobre da população” (sério? ninguém diria…), terminando com a despeitada sentença “se fosse daqui a dois meses, e com o petróleo mais baixo, não ganhava”.

Mais insólita foi a afirmação de que Chávez é um fenómeno isolado e sem consequências. O que me leva a concluir que há politólogos profissionais que são de uma crassa ignorância quanto à história recente da América Latina. Pior que isso, ignoram-se, ou faz-se por ignorar, o que são as condições sociais de todo um continente e de que modo o imperialismo norte-americano se tem esforçado para as manter. Não há politólogo que apague a consciência política de todo um continente e conviria aos zelosos comentadores saberem que foram e o importante papel político que tiveram Salvador Allende (no Chile), Velasco Alvarado (no Peru) ou Juan José Torres (na Bolívia). Ou quem são Daniel Ortega (na Nicarágua), Evo Morales (na Bolívia) ou Rafael Correa (no Equador).

A minha simpatia por esta fase festiva e de plena consciência social de Hugo Chávez é evidente. E é claro que, falando só na Venezuela, bastariam recordar os consulados sinistros de Pérez Jiménez e de Carlos Andrés Pérez, que roubou tudo quanto pôde, para eu próprio optar pelo lado do povo e da justiça.

Já agora, e para aqueles que desconheçam o brilhantíssimo currículo do presidente colombiano Alvaro Uribe, que pesquisem o tema. Infelizmente, o tema Uribe parece interessar pouco aos nosso media...

RENFE



Outro dos meus anúncios preferidos. O da RENFE (caminhos-de-ferro espanhóis), feito nos inícios dos anos 90. Nada de palavras, apenas o som, a luz e o jogo da lentidão de uns e da rapidez de outros. São ideias tão directas, simples e fáceis de apreender que qualquer pessoa as capta. A publicidade no seu melhor.

segunda-feira, 16 de fevereiro de 2009

MANUAL DE INSTRUÇÕES

A primeira televisão da família foi comprada, talvez em 1968, talvez em 1969, ao sr. Manuel Alfaiate. “É simples, o botão roda para a direita e liga, para a esquerda desliga”. Na realidade havia mais dois botões: o do meio controlava mais luz menos luz, o da direita mais som menos som. “Se houver problema diga qualquer coisa”. Não houve e o His Master’s Voice durou catorze anos. Já toda a gente tinha tv a cores e ainda o João dizia “enquanto esta durar não se compra outra”.
A
Senti uma pouca comum nostalgia da Rua Nova da Estação e da minha primeira tv quando no outro dia me tornei proprietário de um DVD Home Theatre System. Passaram-me para as mãos uma caixa enorme com um aparelhómetro lá dentro, um comando à distância, uma garantia europeia e cinco volumes de instruções. Abri um ao acaso. Diagramas e mais esquemas, folhas e folhas de ordens imperativas. Só me apercebi que estava no livro errado quando li qualquer coisa como “zestaw rozpoczyna odtwarzanie”. Era a versão polaca, pelo menos parece polaco. Dediquei-me então à tarefa de decifrar o volume em português. A diferença do português electrónico em relação ao polaco electrónico não é por aí além…
A
Ao cabo de duas horas, o DVD já funcionava. Um pouco pelo menos. Faltava, pequeno detalhe, o som, apesar das cinco-poderosas-cinco colunas. Pus o volume da tv no máximo para compensar. “Ena, agora sim, temos som” diziam os putos entusiasmados, enquanto o velho televisor se esganiçava e trepidava com a distorção. Mais um quarto de hora e consegui pôr as colunas a funcionar. As laterais, que a do centro estava muda. Reiniciei o sistema. Encostei o ouvido à coluna do centro. Agora sim. Quer dizer, mais ou menos sim. Agora não funcionavam as laterais. O manual da Sony (96 páginas!) mandava-me ir da página 10 para a 17 depois para a 59 e depois regressar à 10. Desliga e volta a ligar. Agora há som mas a imagem está a preto e branco. Já é uma e meia da manhã. Volto ao manual. Leio frases estranhas: “nos DATA CD/ DATA DVD que contêm ficheiros de vídeo DivX para além de faixas de áudio MP3 ou ficheiros de imagem JPEG, o sistema só reproduz os ficheiros de vídeo DivX”. O que é que raio isto quererá dizer?
A
De repente, já passa das duas, funciona tudo. Empurro o móvel contra a parede. Desaparecem a imagem e o som. Volto à casa da partida, como no Monopólio. Dou um berro e acordo os miúdos. Protestos do andar de cima. Mexo em todas as fichas e todos os botões ao mesmo tempo. Afinal era só a ficha SCART que estava fora do sítio. Não sei o que é a ficha SCART mas o Manuel é que me disse dois dias depois que era a ficha SCART que se tinha desligado.
A
São quase três da manhã e estou exausto. O manual de instruções vai para a gaveta mais funda. Os exemplares em inglês, francês, espanhol e polaco vão direitinhos para o balde dos recicláveis. Bem vistas as coisas, o livreco em português podia ter o mesmo destino. Quando o despertador toca às sete amaldiçoo o DVD e só tenho alento para pensar “ao menos o tio Podger* não tinha que estar na Câmara antes das nove da manhã…”. Saio de casa com saudades de ver o Daktari, e o Calimero e o Skippy e aqueles filmes todos que davam no His Master’s Voice a preto e branco. Que não tinha manual mas durou, mesmo sem instruções em polaco, para cima de uma eternidade.
s
* Personagem do livro Três homens num bote de Jerome K. Jerome (há exemplar na Biblioteca Municipal – vejam como o tio Podger pendura um quadro…)
A minha velha tv era mais ou menos assim, com aqueles selectores redondos e tudo. Quando chovia viamos o telejornal às risquinhas, como aquelas gravatas fora de moda.
Este texto foi publicado no jornal A Planície de 1 de Dezembro de 2007.

domingo, 15 de fevereiro de 2009

SÓCRATES REELEITO COM VOTAÇÃO ALBANESA - II

O Santos Silva é o tipo em cima do gajo de pijama


Do blogue 5dias.net, com a mais que devida vénia.

SÓCRATES REELEITO COM VOTAÇÃO ALBANESA

96,43% dos votos não é nada mau. Ainda longe, contudo, do profissionalismo dos 99,98% de Enver Hoxha.
A
Sempre me causou confusão nos países de partido único este raio de imprecisão: quem seriam os 0,02% que não estavam de acordo? Mas quem, Deus meu?