quarta-feira, 18 de fevereiro de 2015

O GABINETE DO DR. CALIGARI

Ainda esta tarde falei neste filme, a propósito das distorções da realidade. Os expressionaistas retratavam um mundo "impreciso" e fora dos cânones. Este extraordinário filme de 1920 - pertence hoje ao domínio público e pode ser visto na net, com toda a facilidade - foi uma das obras mais influentes desta corrente. O seu autor, Robert Wiene (1873-1938), foi rapidamente banido, com a chegada dos nazis ao poder. Toda a sua geração foi perseguida, num mundo destinado a perfeições e não a dúvidas e angústias. Todos eles - Wiene, Lang, Murnau... - fazem parte do meu panteão privado.

Os cenários dos filmes expressionistas estão tortos? Não estão, em toda a sua carga onírica. Bem mais distorcida é a realidade...

terça-feira, 17 de fevereiro de 2015

TERÇA-FEIRA DE CARNAVAL - ESTUDANTINA NA AMARELEJA


"Santiago Macias" (à esquerda) e "António Valadas" (à direita)

Sátira sem dó nem piedade. O Pavilhão das Cancelinhas, o Presidente da Câmara e o Presidente da Junta foram (fomos) o bombo da festa, numa das estudantinas. Carnaval bem ao estilo da Amareleja.

Aqui fica, sem música, mas com texto:
Muita obra por fazer Sem piscina mas tá mal É uma vergonha a estrada de acesso à central Estas nossas autarquias Não fomentam o emprego Arranjam tachos à malta E depois ficam no prego
Garreiam uns com os outros Todos querem ter razão Arranjaram uma guerra Com o nosso pavilhão. Quem se lixa é a malta Sobra sempre pra gente Depois eles fazem as pazes Nós tristes e eles contentes.
Presidente da Junta: Passa pra cá o projeto Eu é que o vou construir. Nem penses que vais ganhar E depois ficares a rir. Tu é que foste o culpado Não digas que sou aldrabão . Eu é que pedi dinheiro Pra fazer o pavilhão.

Presidente da Câmara: Era só o que faltava É preciso atrevimento Sou eu que o vou fazer Vai ser o meu monumento. Dinheiro há na Europa A mim não m'enganas tu Eu também sei manobrar Mete o dinheiro no ***.

segunda-feira, 16 de fevereiro de 2015

SEGUNDA-FEIRA DE CARNAVAL - SALA PRIVADA

O quadro de Francesco Guardi (1712-1793) Il ridotto (c. 1765) não tem, necessariamente, a ver com o Carnaval. Apesar das máscaras. Mas máscaras têm a ver com Carnaval, em todo o caso.

Il ridotto era uma sala num palácio veneziano, onde se jogava e onde outros se dedicavam a atividades ainda menos confessáveis. Os clientes usavam máscara. Sempre me deu a ideia que este ambiente, secreto e onde as identidades se anulam, inspirou parte do filme de Stanley Kubrick Eyes wide shut. Não encontrei pistas em parte algum, e provavelmente estarei errado.

O quadro também me interessa pela invulgaridade da perspetiva, com a presença marcante do teto. Um elemento pouco comum. E que me recorda a inovação "wellesiana" dos contrapicados e dos tetos em Citizen Kane.

Dado adicional: Francesco Guardi está presente em Portugal, no Museu Calouste Gulbenkian. O quadro que aqui se reproduz está mais longe, no Metropolitan, em Nova Iorque.

domingo, 15 de fevereiro de 2015

DOMINGO DE CARNAVAL - PELA RUA VAZIA

As manhãs de Carnaval são um pouco assim. Como esta, numa avenida do Recife. Os dias seguintes são um pouco assim, com ruas vazias. Fernando Pessoa já por aqui passou. Bruno Barbey (n. 1941) é, curiosamente, uma estreia.



Vou com um passo como de ir parar  

Pela rua vazia  
Nem sinto como um mal ou mal-'star  
A vaga chuva fria...


Vou pela noite da indistinta rua  

Alheio a andar e a ser  
E a chuva leve em minha face nua  
Orvalha de esquecer ... 


Sim, tudo esqueço.Pela noite sou  

Noite também  
E vagaroso eu                    ...] vou,  
Fantasma de magia. 


No vácuo que se forma de eu ser eu  

E da noite ser triste  
Meu ser existe sem que seja meu  
E anônimo persiste ... 


Qual é o instinto que fica esquecido  

Entre o passeio e a rua?  
Vou sob a chuva, amargo e diluído  
E tenho a face nua.  

sábado, 14 de fevereiro de 2015

SÁBADO DE CARNAVAL - ZUCA-ZUCA

O cu dela era um fole??? No Centro Cultural de Belém??? Na presença de S. Exa. o Senhor Presidente da República??? Pois bem, foi isso mesmo que aconteceu no dia 25 de janeiro. Uma moda brejeiríssima, na interpretação deste grupo da Aldeia do Corvo. Um momento de boa disposição, minha, nossa e das senhoras do grupo, que estavam divertidíssimas. No público, um ou outro puritano fazia cara de pau. Mas era só cara...

Sábado de Carnaval sem samba, nem zumba, mas com zuca-zuca.

Zuca-zuca, Aldeia do Corvo from Faux on Vimeo.

sexta-feira, 13 de fevereiro de 2015

OS NOMES DESTA TERRA: DE LACALT ATÉ MOURA

Excerto (modificado) de um texto já com algum tempo, mas só agora publicado (conjuntamente com José Gonçalo Valente e Vanessa Gaspar):

Quatro fragmentos de dolia existentes em Moura permitem relançar o debate em torno da toponímia local e a colocação de hipóteses sobre o nome antigo da cidade. Moura conta-se no grupo dos sítios para os quais não dispomos de dados no que à épca romana diz respeito. A hipótese de uma correspondência entre Nova Civitas Arucitana e Moura foi desmontada, há anos e de forma definitiva, por José d’EncarnaçãoAs peças descobertas na Rua de Arouche, na Primeira Rua da Mouraria e nas reservas do Museu Municipal referem, como vimos, a existência de uma Ecclesia Santa Maria Lacaltensis. Ou seja, de uma igreja consagrada a Santa Maria, numa localidade denominada Lacalt ou Lacalta. A concentração de peças num só sítio permite supôr que o nome romano ou tardo-romano de Moura seria esse. A hipótese é plausível, mas deixa outra questão em aberto, o da sua modificação dentro do período islâmico. A ligação entre Julumaniya e Moura é um equívoco que remonta ao século XIX e que não será aqui tida em conta. Se aceitarmos como válido o texto de Ibn al-Faradi e a proposta que, a partir dele, faz David Lopes, fazendo corresponder a islâmica Mura com a atual Moura, ligação hoje aceite de forma generalizada, temos uma base de trabalho para a toponímia posterior ao século XI. Continua por saber o nome da localidade em épocas anteriores.

O nome de Lacalt vem abrir novas possibilidades de explicação para a localização de um topónimo islâmico (Laqant), do qual está próximo foneticamente e para o qual se têm esboçado várias teorias. As referências a Laqant surgem, quase sempre, com a exceção do oriental Yaqut, em textos antigos, reportando-se a acontecimentos cuja cronologia não ultrapassa o período califal.

O que nos dizem as fontes sobre Laqant?

Um primeiro dado tem a ver com a inclusão do sítio nas negociações que tiveram lugar no primeiro momento da islamização. Vários testemunhos, quer islâmicos quer cristãos, sublinham o caráter relativamente pacífico da “conquista” do Garb, nomeadamente no que toca à existência de negociações que terão caraterizado a islamização de uma parte importante do território a norte do Tejo. A existência dos tratados que permitiram situações como essa foi relatada por Muhammad al-Wazir al-Ghassani no século XVII, a partir de um texto de Ibn Muzayn, autor andaluz do século XI.

A enumeração das fontes islâmicas, omissas quanto a locais precisos, ajuda-nos a delimitar o âmbito territoral no qual nos movemos. Ibn Idhari refere, pouco depois de meados do século VIII uma revolta, que teria tido lugar em Beja ou em Laqant e que teria sido conduzida por Ala b. Mughit al-Yassubi. No final do século VIII, ao mencionar-se uma campanha militar conduzida por Abu Ayyub Sulayman, refere-se a retirada que este teria feito para o “país de Firris e Laqant”. Os textos diferem um tanto sobre o início da revolta. Ibn al-Athir, retomando a interpretação do Fath al-Andalus escreveu: “(...)Ala b. Mughit al-Yassubi passou da Ifriqiya à cidade de Beja, no al-Andalus, onde arvorou a cor negra dos Abássidas e fez fazer a hutba em nome de al-Mansur. Numerosos aderentes se lhe juntaram rapidamente”. A mesma suposta origem norte-africana viria a ser retomada por outros autores, embora a veracidade desta informação mereça grandes reservas. Segundo outra versão, a do Behdjat en-nefs, al-Ala ter-se-ia revoltado num local chamado Laqant, pertencente à kura de Mérida, tendo depois marchado sobre Beja e tornado-se senhor de todo o oeste da Península. A localização não é segura, fazendo-se coincidir Laqant com a zona de Fuente de Cantos, perto de Mérida e Firris com Castillo del Hierro, nas serranias a oriente de Sevilha.

Os documentos da Baixa Idade Média (em particular ao longo dos séculos XIV e XV), num período em que se torna necessário definir de forma mais precisa a divisão entre Portugal e Castela, começam a assinalar novos pontos de referência. Por exemplo, mencionam de modo sistemático a ribeira de Alcarache como limite dos novíssimos termos de Mourão e de Villanueva del Fresno. Ainda que esta zona semi-desértica e controlada por isoladas comunidades de pastores pouco interesse pudesse suscitar em época islâmica não há dúvida que marcava o final do território de Beja e o começo de uma outra área de influência. Foi, afinal, desta região que sairam movimentos tão importantes como o que terá tido origem em Laqant, referido expressamente como fazendo parte do “canton de Beja”. Esta região juntou-se a Sulayman b. Martin em 219/835 para fomentar uma revolta que assolou toda a kura de Beja. A importância estratégica de Laqant leva os Madjous, na invasão de 229/844 a enviar destacamentos para este sítio, bem como para Firrish, Moron e Córdova.

Nesta zona, cerca de 50 quilómetros a leste de Beja, e no limte oriental da kura, as ligações familiares e a componente mullawad continuam a marcar presença preponderante. Ibn Hayyan assinala a revolta de Faraj b. Hayr al-Tutaliqi, que se rebelou em 234/848-849 contra o emir Abd al-Rahman II a partir de Aroche e de Dnhkt, topónimo não identificado. Pode tratar-se de um problema de transcrição e a referência reportar-se a Laqant e não a DnhktVencido pelas tropas do emir, põe-se ao serviço deste e é nomeado para diversos cargos, nomeadamente o de governador de Beja.

É ainda o sítio de Laqant que Abd al-Rahman III coloca sob o comando de Abd al-Malik b. al-Asi, jurisdição que passaria, anos depois, para Abd al-Rahman b. Muhammad b. al-Nazzam, juntamente com Firrıis, Llano de los Pedroches e B.tr.l.s.

Perto do final do século X, Laqant era ainda referida como kura: “en el jumada de este año [362 h., ou seja, entre outubro de 972 e outubro de 973), salió el sahib al-radd Abd al-Malik ibn Ibn al-Mundhir Ibn Said a las coras occidentales – que son: Ferris, Laqant, Sevilla, Niebla, Carmona, Morón, Ecija y Sidonia – en visita de inspección (...)”. Pela mesma época, e numa história da conquista da Península, é feita a seguinte referência explícita quando se fala da rota seguida pelas tropas: “después de Sevilla se fué a Lacant (es decir) a un lugar que se llamó “el desfiladero de Musa” en las cercanías de Lacant, en dirección a Mérida”.

Yaqut nos séculos XII-XIII, refere ainda o nome da localidade, mas a verdade é que nunca visitou o ocidente, sendo as suas informações fruto de dados recolhidos junto de outros autores. Sobre Laqant diz que “es el nombre de dos castillos (husun) pertenecientes a Mérida, en al-Andalus: Laqant la Mayor (Laqant al-kubra) y Laqant la Menor (Laqant al-sugra) y están situados de modo que se miran frente a frente”.

Não é possível estabelecer uma ligação direta entre o nome antigo de Moura, partindo do princípio que o mesmo foi Lacalta, e o toponómio de Laqant. A ligação entre ambos parece-nos, contudo, passível de ser sustentada. São conhecidas as ligações antigas entre a zona de Moura e o eixo viário que ligava Mérida a Sevilha. O caminho entre Beja e Sevilha passava a curta distância da nossa cidade e seria, decerto, um meio privilegiado do contacto com a zona costeira meridional.

A mutação do nome, ocorrida presumivelmente nos século X-XI, tal como sucedeu noutros sítios do Garb, como Ocsónoba, justificaria o esquecimento do nome antigo e a “criação” de um novo topónimo.

Versão completa em O sudoeste peninsular entre Roma e o Islão.



quinta-feira, 12 de fevereiro de 2015

UMA LIDE MORTAL, À LUZ DA LUA

Uma das músicas que me fez companhia, no caminho desta tarde, foi o fado A Última tourada real em Salvaterra, cantado por Rodrigo. A morte do Conde dos Arcos, ocorrida em 1779, é um facto conhecido. Menos conhecida, decerto, é a narrativa da colhida do califa Yusuf al-Mustansir, que lidava vacas à noite, em Marrakech. A narrativa é imprecisa e refere apenas o facto em si (cito de memória, e salvo erro, a partir de um texto de Ibn Idhari). Al-Mustansir não era propriamente um maletilla à procura de um lugar ao sol. O seu reinado foi curto. Morreu, no decurso dessa lide, no dia 12 de Dhu'l-Hijja de 620 (6 de janeiro de 1224, no nosso calendário).




Esquecida essa raíz mediterrânica, as corridas organizadas segundo o modelo hoje vigente voltaram ao norte de África pela mão dos colonizadores. Quando estes partiram, as corridas terminaram. De cima para baixo, as praças de touros de Oran, Casablanca e Tânger.

quarta-feira, 11 de fevereiro de 2015

LITUÂNIA MEDITERRÂNICA


Adebayo Akinfenwa jogou no F.K. Atlantas, da Lituânia. Um país da Europa meridional, assevera o Diário de Notícias de hoje. Aqui entre nós, quem nunca provou um bom azeite da Lituânia, não sabe o que anda a perder...


segunda-feira, 9 de fevereiro de 2015

ALGUÉM SABE O QUE É A ESCÓCIA?

Foi há quase 30 anos. A turma daquela pós-graduação da Escola Superior de Belas-Artes de Lisboa era multifacetada e dali iriam sair algumas figuras notáveis (o escriba não se inclui no grupo). As aulas eram variadas e interessantíssimas. Houve alguns momentos de "terror" à mistura. Lembro-me, de forma recorrente, de um. A aula era com o Prof. Frederico George (1915-1994), arquiteto de grande prestígio e nome maior da Academia. Explicava, fazendo esquemas a giz no quadro. Esquiçou uma coluna. A dada altura, virou-se para nós e fuzilou "alguém sabe o que é a escócia? e vejam lá o que vão responder, se fazem favor". Olhou para mim fixamente e pensei "vai-me perguntar a mim e é uma barraca...". Eu sabia que a escócia era uma moldura na base de uma coluna, mas seria incapaz de a localizar, com precisão. Ninguém, numa turma de 25, respondeu. O Prof. George fez um sorriso escarninho e disse, em voz baixa mas percetível, algo como "antes éramos obrigados a saber estas coisas".

Agora já sei, e não esquecerei, o que é a escócia... Com o Prof. Frederico George, e com outros, aprendi a importância do rigor. Aliada à importância, que não é menor, da capacidade de reconhecimento do erro e da necessidade de melhorar em cada momento. Coisa que nem sempre se consegue.

domingo, 8 de fevereiro de 2015

CHEGAR A CASA - ON LOCATION

Dia e meio noutra realidade. Rodagem, em Mértola e em Moura, da curta-metragem "Chegar a casa". A estrear no Festival Islâmico de 2015, com o apoio da Câmara Municipal de Mértola. A quem manifesto o meu reconhecimento pelo interesse com que encarou este projeto, um pouco diferente do que é habitual, no meu percurso.

A participação de jovens alunos da Escola Profissional de Moura integra-se no seu percurso formativo, no domínio do Projeto Interculturalidades. São eles quem "conta" a história de um homem perdido e à procura do sítio de origem.


Da esquerda para a direita: o autor do blogue, Pércida Camará, Azeneide Batista, Sana Contá e Joceline Cabral.

sexta-feira, 6 de fevereiro de 2015

5000 % DE LUCRO?

5000%? Este medicamente dá 5000% de lucro à indústria farmacêutica?

Achei curioso que a denúncia tenha vindo de um ministro politicamente conservador e que antes trabalhou no setor financeiro. E que passou pelos impostos, onde deixou muito boas indicações. Ouvi-o uma vez usar a expressão "aviltante" a propósito dos salários de alguns clínicos do SNS. Atitudes à esquerda num homem de direita. Todos nós temos diferentes facetas. Como se prova com estas evidências.


TERRA ESPANHOLA

Mais um filme dos dias de juventude. Vi-o na Cinemateca, em 1980 ou 1981. O filme é épico, e o empenhamento de Joris Ivens (1898-1989) sente-se em cada fotograma. Não há cinema documental isento, independente ou distanciado. Tudo isso passa pela obra de Ivens, que permaneceu generoso e lutador ao longo da sua carreira. O documentário é O grande género. Uma certeza que foi ganhando foros de quase-religião ao longo da minha vida.

A Guerra Civil Espanhola como tema e como escolha cinéfila desta semana.

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2015

BUAL ASSIM UM POUCO AGRÍCOLA

Durante a reunião, não pude deixar de reparar em dois quadros: um à minha frente, que não consegui identificar, ainda que o estilo me seja familiar; outro à esquerda, de pendor pop. Afinal, constatei no final, era uma obra de Artur Bual (1926-1999). Menos gestualista do que seria de esperar, algo warholiana na repetição de temas. Um pouco na onda deste Alfama. Não sei o que pensaria Bual ao ver-se em ambientes ministeriais... Logo ele, tão pouco formal e tão pouco reverente... Em pano de fundo estiveram diferentes conceções de vida e distintas formas de perceber a sociedade. São, não tenhamos dúvidas, dois países num só.

Ao sair, para o ar frio e húmido do Terreiro do Paço, lembrei-me de um poema de José Gomes Ferreira. Um poeta de quem não gosto especialmente. Mas este poema é um pouco diferente de todos os outros.


Nunca ouvi um alentejano cantar sozinho
com egoísmo de fonte.
Quando sente voos na garganta
desce ao caminho
da solidão do seu monte,
e canta
em coro com a família do vizinho.
Não me parece pois necessária
outra razão
– ou desejo
de arrancar o sol do chão –
para explicar
a reforma agrária
no Alentejo.
É apenas uma certa maneira de cantar.

quarta-feira, 4 de fevereiro de 2015

CURVAS

LAS PERSONAS CURVAS 

Mi madre decía: a mí me gustan 
las personas rectas.
A mí me gustan las personas curvas, 
las ideas curvas, 
los caminos curvos, 
porque el mundo es curvo 
y la tierra es curva 
y el movimiento es curvo; 
y me gustan las curvas 
y los pechos curvos 
y los culos curvos, 
los sentimientos curvos; 
la ebriedad: es curva; 
las palabras curvas: 
el amor es curvo; 
¡el vientre es curvo!; 
lo diverso es curvo. 
A mí me gustan los mundos curvos; 
el mar es curvo, 
la risa es curva, 
la alegría es curva, 
el dolor es curvo; 
las uvas: curvas; 
las naranjas: curvas; 
los labios: curvos; 
y los sueños; curvos; 
los paraísos, curvos 
(no hay otros paraísos); 
a mí me gusta la anarquía curva. 
El día es curvo 
y la noche es curva; 
¡la aventura es curva! 
Y no me gustan las personas rectas, 
el mundo recto, 
las ideas rectas; 
a mí me gustan las manos curvas, 
los poemas curvos, 
las horas curvas: 
¡contemplar es curvo!; 
(en las que puedes contemplar las curvas 
y conocer la tierra); 
los instrumentos curvos, 
no los cuchillos, no las leyes: 
no me gustan las leyes porque son rectas, 
no me gustan las cosas rectas; 
los suspiros: curvos; 
los besos: curvos; 
las caricias: curvas. 

Y la paciencia es curva. 
El pan es curvo 
y la metralla recta. 
No me gustan las cosas rectas 
ni la línea recta: 
se pierden 
todas las líneas rectas; 
no me gusta la muerte porque es recta, 
es la cosa más recta, lo escondido 
detrás de las cosas rectas; 
ni los maestros rectos 
ni las maestras rectas: 
a mí me gustan los maestros curvos, 
las maestras curvas. 
No los dioses rectos: 
¡libérennos los dioses curvos de los dioses rectos! 
El baño es curvo, 
la verdad es curva, 
yo no resisto las verdades rectas. 
Vivir es curvo, 
la poesía es curva, 
el corazón es curvo. 
A mí me gustan las personas curvas 
y huyo, es la peste, de las personas rectas.
Jesús Lizano



Nude n. 142 (1949-50)
Irving Penn

Não é o ângulo reto que me atrai. Nem a linha reta, dura, inflexível, criada pelo homem. O que me atrai é a curva livre e sensual. A curva que encontro nas montanhas do meu País, no curso sinuoso dos seus rios, nas ondas do mar, nas nuvens do céu, no corpo da mulher preferida. De curvas é feito todo o Universo - o Universo curvo de Einstein.
Oscar Niemeyer


Jesús Lizano (n. 1931) é um poeta livre. Irving Penn (1917-2009) foi um fotógrafo livre. Tal como livre foram o espírito e a carreira de Oscar Nimeyer (1907-2012). Curvas e liberdade, de mãos dadas.