A chegada ao Poder tem destas coisas. Os que antes clamavam pelo “direito à indignação” pedem hoje comedimento, os que ontem diziam “contestação” balbuciam agora autoridade. É um fenómeno fascinante, o da passagem dos anos e do chamado amadurecimento. Á medida que vai crescendo a barriga parecem aumentar também as adiposidades ideológicas e o acomodamento. Perdem-se o sentido de humor, a irreverência, a vontade do combate de rua e passa-se para uma fase mais triste, a dos consultores de imagem, da preocupação com a cor das gravatas e com a “pose de Estado”. Uma chatice…
No caso da aflitiva afirmação de Ferro Rodrigues torna-se nítida uma característica perene da sociedade portuguesa. Os governos sempre gostaram de gente pacata, que reivindique e que conteste, mas com jeitinho, e que obedeça na devida altura.
Ninguém espera, claro, que os presidentes de câmara sejam arruaceiros nem amotinadores profissionais. Daí até ao modelo Ferro Rodrigues vai um abismo de submissões. O que o Governo (este ou qualquer outro) gosta é de gente que se sinta “penhorada com a visita de V. Exa.”, que peça desbarretada, que implore, que mande fazer lápides de inauguração. Que saiba organizar bonitas paradas com a fanfarra dos bombeiros, que se cale, que meta cunhas, que resolva os problemas pela porta do cavalo. Que não ponha a nu as deficiências da administração, que volte a desbarretar-se, que não pie, que se aconselhe com S. Exas. os governadores civis (essa fantástica e inútil instituição que a democracia preferiu manter). Que não incomode com artigos de jornal, como fez, e bem, o sr. Lopes Guerreiro.
Precisamos de presidentes de câmara que comprem casacos Burberrys, camisas Lacoste e sapatos Gucci. Que se penteiem impecavelmente ou que, no mínimo, comprem perucas de boa qualidade, como o sr. Fernando Gomes, do Porto. Presidentes que cultivem o “ser presidente”. Que peçam, numa catadupa de vénias e genuflexões. Que requeiram, requerimentem, oficiem. Presidentes A4, com carros de alta cilindrada e pesporrência a rodos.
Num País triste, habituado a cultivar o servilismo, a “bolinha baixa”, o “sim sr. doutor”, o “faça lá o jeitinho”, as declarações de Ferro Rodrigues são todo um programa político. Atenção às sagradas hierarquias, que o respeitinho continua a ser muito bonito…































