domingo, 15 de novembro de 2009

O QUE É O GÉNIO?

Tendo em conta a semana que se aproxima o melhor é começá-la assim...

No início desta cena do filme Amici miei ouvem-se os acordes, um pouco ao estilo do mambo, de Bella figlia dell'amore, uma conhecida ária de Verdi. O que se passa de seguida no interior daquele palácio da alta sociedade merece ser visto. Mais que uma vez.

Che cos’è il genio? È fantasia, intuizione, decisione e velocità di esecuzione. Esta é a frase chave da cena que vos deixo e que deverá, ainda assim, ser evitada pelos que não apreciam humor escatológico. O filme ficou também célebre pela invenção da palavra supercazzola (pretexto para a incompreensível frase Tarapia tapioco come se fosse Antani con la supercazzola prematurata con scappellamento a destra), pela cena da despedida na gare ferroviária e pela inovadora interpretação da ária do Rigoletto que acima referi. 

É uma obra-prima da comédia italiana e relata as aventuras, nem sempre muito recomendáveis, de um grupo de amigos de meia-idade da cidade de Florença. Amici miei (Oh, amigos meus, na tradução portuguesa) foi um sucesso enorme na época. Bem que podia passar de vez em quando na televisão...

 

O filme devia ter sido realizado por Pietro Germi (1914-1974), que escrevera o argumento, mas o desaparecimento prematuro deste pôs a realização nas mãos de Mario Monicelli (n. 1915). O inesquecível grupo era constituído por Ugo Tognazzi (1922-1990), Gastone Moschin (n. 1929), Philippe Noiret (1930-2006), Duilio Del Prete (1938-1998) e Adolfo Celi (1922-1986).

O humor de Oh, amigos meus, tem, também, um toque de melancolia e de sentimento. Mas no sul gostamos das coisas assim, não é verdade?

ARGEL IV - OS DIAS E AS MIRAGENS (2ª parte)

Continuação de:

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A Argel colonial está ainda por toda a parte. Nas ruas, nas tais arcadas onde não se poderá fotografar por razões de segurança, nos palacetes que coroam as colinas em volta do Mediterrâneo. E em sítios como o antigo hotel St. George, instalado em 1889 sobre os restos de um velho palácio hispano-mourisco. Apesar dos trabalhos de renovação com que há 20 anos o paramentaram com um pesado gosto de carpetes e cortinados de decoração densa, no St. George persiste uma aura de brilho que nem as obras conseguiram apagar. As marcas do tempo ficaram amarradas à parede. Haveremos de encontrar fotografias de um tranquilo almoço do Natal de 1920 no jardim do hotel; mais adiante, uma placa junto à entrada do quarto 1101 assinala, respeitosamente, que ali viveu, entre 1942 e 1943, o general Eisenhower. Muito pouco - aquilo que ficou nas fachadas das áreas menos tocadas pela fúria dos melhoramentos - se consegue identificar dessas velhas fotografias. Mesmo assim, justifica-se ainda o “ainda há paraísos”, dito pelo escritor Henry de Montherland depois de uma estadia no St. George .
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É essa ainda um pouco a imagem da cidade de hoje. A descrição feita pelo grande geógrafo al-Idrisi em meados do século XII diz apenas que “Argel se situa à beira-mar; os seus habitantes bebem água doce proveniente de fontes situadas perto do mar e de poços. É uma cidade muito povoada, de comércio florescente, bazares muito frequentados e manufacturas movimentadas”. Embora os livros nos contem toda a saga de Argel ao longo de milénios – cidade de marinheiros, piratas, aventureiros, comerciantes, diplomatas e de todos os desesperados do mar Mediterrâneo -, a sua face actual começou apenas a ser construída após 1830, quando os franceses tomam posse daquele apetecível troço do Norte de África. A pirataria e o corso foram a justificação para as operações militares que se iniciaram naquele ano, com o desembarque de 37000 homens em Sidi Ferruch, e que se iriam prolongar durante muito tempo, sem que a europeização e a cristianização do território alguma vez tivessem sido aceites pelos africanos.
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Ao longo de mais de um século será construída uma próspera e atraente metrópole colonial. Tirando partido do relevo a cidade vai estender-se muito para lá da velha casbah, ocupando os cerros em volta das zonas mais antigas. É, enfim, um pouco da Europa burguesa e capitalista que se vai instalar em pleno Magrebe. A organização urbana da cidade de El-Djezair (as ilhas) há-de, por isso, ser mudada. Os rochedos que deram nome ao aglomerado foram unidos, por força de um enorme aterro, ao continente, criando-se aquele que hoje é conhecido por “velho porto”. A casbah, que antes se estendia até à beira-mar, foi cortada por novas avenidas, ficando apenas, como memória desses tempos, uma pequena ilhota de casas com uma rua a que se deu o nome de “bastião 23”.
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Imagino que terá sido esse sonho de um tempo perdido que deixaram para trás os pieds-noirs (os retornados da Argélia) quando se viram forçados a abandonar esse canto do Norte de África. Nos dias seguintes à independência do país, em Julho de 1962, 5000 pieds-noirs morrerão ou desaparecerão, no meio de infindáveis vinganças. Perto de um milhão sairá em tropel nos meses seguintes.
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E se a memória desses acontecimentos trágicos ficou apenas na memória dos que os viveram, a história da luta da independência está escrita em cada rua e em cada esquina de Argel. Terão morrido entre 300000 e 600000 pessoas, muçulmanas ou cristãs, civis ou militares. Os números precisos jamais serão conhecidos, tal como nunca saberemos da amargura dos refugiados, dos orfãos, dos que foram presos ou deslocados. Fala-se em um milhão de mártires, o que justifica até hoje um culto obsessivo e ao qual não se escapa em Argel.
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A começar pelo monumento aos mártires em Riadh el Feth, que se avista de toda a cidade. O colosso em betão armado e gosto duvidoso alia a memória dos combatentes a um bizarro pragmatismo que voltaremos a encontrar mais vezes. Debaixo do memorial existe um centro comercial, meio-vazio por força da crise económica. E se o triplo obelisco não nos deixa esquecer os mártires, a verdade é que os voltamos a encontrar a cada esquina. Uma das grandes avenidas da cidade é o Boulevard des Martyrs; aos pés da casbah há a Place des Martyrs. Passeamos rodeados por mortos. Uma das grandes artérias comerciais recorda o combatente Didouche Mourad (comandante das forças independentistas na zona de Constantina, abatido em 1955). A outros heróis que não viram o dia da independência – Aït Homouda Amirouche, Youcef Zirout, Mustafa Ben Boulaïd, Mohamed Larbi Ben M’hidi - está também reservado lugar de destaque na toponímia da cidade.E esse aspecto tão ligado ao sacrifício humano parece quase pertencer à genética argelina. Desde há muito que os mártires, de hoje e de ontem, estão presentes na geografia do país. Ao longo de toda a costa multiplicam-se os santuários dos primeiros tempos da cristandade. Em todos eles há basílicas e memórias dos mártires desses dias, a história e a vida de homens e mulheres que morreram em nome de uma crença e de uma causa. Como ainda hoje sucede em Argel, onde os mártires e o sofrimento humano parecem surgir a cada esquina. A paz e uma longínqua tranquilidade são a segunda miragem de Argel.
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sábado, 14 de novembro de 2009

HOCKNEY: OUTRAS NATUREZAS

A reprodução de uma pintura de Josefa de Óbidos e a expressão natureza-morta (um género que nunca me entusiasmou especialmente) fez-me lembrar a obra de um pintor que tem na sua obra algumas naturezas-mortas, mas que se celebrizou, nos anos 60, por pinturas como a que se reproduz mais abaixo. David Hockney (n. 1937) nunca foi, na realidade, um artista pop, embora, por vezes, essa designação lhe tenha sido atribuída. A sua obra evoluiu deste aparentemente frio e gráfico formalismo para tons mais quentes, quase matissianos. Nos últimos anos tem pintado, sobretudo, retratos e a natureza, lida num desenho cada vez mais livre. Haveria que juntar num percurso já longo o trabalho do domínio da fotografia e no desenho.
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A página web do artista é excepcional:
http://www.hockneypictures.com/
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Imagem de cima: A bigger splash (tinta acrílica sobre tela), 1967
Imagem de baixo: Hockney fotografado por R. Mapplethorpe, 1976

TopCo

Ouvi o anúncio, ontem à noite, num dos telejornais. Vai nascer a terceira maior companhia aérea do mundo: a TopCo, resultado da fusão da Iberia e da British Airways. O nome não me parece muito bom, a lembrar uma empresa de compressores. Estou certo que os executivos estudaram a matéria até à exaustão. Como naquele cartoon de Sempé, em que é necessário escolher um nome para uma pomada para sapatos e finalmente se opta pela onomatopeia ZGROUTICH (zgrouitchez vos chaussures...).
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Nomes à parte, já se começaram a fazer contas: as duas companhias, em conjunto, somam mais de 400 aviões, muitas centenas de destinos e perto de 55.000 trabalhadores. Apareceu, numa conferência de imprensa, um serventuário do capitalismo (gosto destas expressões à MRPP) a dizer, com toda a fleuma, que a fusão implica "some job losses". Em linguagem fria, some job losses são despedimentos, hipotecas por vencer, os estudos dos filhos atirados para as calendas gregas, as pensões em risco. Some job losses é uma linguagem fria e sem vergonha...
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A fusão de gigantes desta dimensão não se faz, seguramente, à margem dos governos. A nova companhia irá ou não voar para Gibraltar? 
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sexta-feira, 13 de novembro de 2009

A CÂMARA DOS DIAS DA ARCÁDIA

Este foi o meu primeiro aparelho fotográfico, um Ferrania 1014. Tinha 10 anos quando mo deram. Acompanhou todas as incursões pelas margens do Ardila, até cerca de 1980/81. Era todo em plástico e com uma pequena lente fixa. Funcionava (funcionava é maneira de dizer...) com umas cassetes de formato 126, que deixaram de se fabricar há dois ou três anos.
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A marca, Ferrania, vai buscar o nome à cidade onde está a sede da empresa. O modelo 1014 é do princípio dos anos 70. Não faço ideia o que será feito da relíquia que animava os nossos acampamentos.

NATUREZA-MORTA

O pretexto foi uma colecção de peças de cerâmica recolhida há pouco mais de 30 anos nos terrenos do Convento de Santa Clara, em Moura. Foram salvas, in extremis, por João da Mouca, então responsável pela Biblioteca Municipal e a quem o Município ficou a dever a recolha de um significativo espólio arqueológico.
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Anos mais tarde pude, em conjunto com Miguel Rego, estudar estes materiais, apresentados pela primeira vez num encontro de arqueologia, em Castro Verde, em 1988. Muitos mais anos se passaram até que publicássemos, em 2005, o livro Convento de Santa Clara (Moura) - um conjunto cerâmico do século XVII. O estudo está, ainda, incompleto. Pode ser que, antes da reforma, o Miguel e eu tenhamos tempos para mais uns acertos.
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A pintura de Josefa de Óbidos (1630-1684) foi providencial para nos ajudar a enquadrar cronologicamente os materiais de Santa Clara. A peça mais parecida - é quase idêntica, aliás - com a do quadro tem o nº de inventário 691 CER. Reproduzo outra por ser mais legível graficamente.

Temos então um conjunto de peças - muitas delas são finíssimas e dir-se-ia pertencerem a um boudoir feminino -, que podemos datar do século XVII e que, com toda a probabilidade, foram produzidas em ateliers da zona de Lisboa ou do Alto Alentejo. É um tema em aberto e ao qual talvez volte, um destes dias.

FACE EXPOSTA

Face Oculta? Qual face oculta?
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Desde que o princípio da justiça-espectáculo impera em Portugal que nada é oculto. Nem o segredo de justiça, nem o direito à privacidade, nem os documentos classificados. Como se faz para se saber o andamento de um processo judicial de grandes dimensões? A resposta é fácil: basta comprar o Correio da Manhã ou o 24 horas.
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Face Oculta? Era aconselhável que o sr. procurador renomeasse o processo como Face Exposta...
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APAGÃO

Um jornal da Lusitânia comentava ontem que o apagão que afectou parte do Brasil "prejudicou a imagem de modernidade (...) que o Presidente brasileiro tem procurado projectar".
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Não há nada como um pouco de preconceito neo-colonial...
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O apagão durou duas horas. Fico a cogitar o que terá o mesmo jornal dito, a propósito de modernidade, no dia em que a região nordeste dos Estados Unidos ficou sem energia durante várias horas (14 de Agosto de 2003). Sabendo-se que, nessa altura, várias unidades industriais ficaram de tal modo afectadas que só retomaram a laboração normal uma semana mais tarde.
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quinta-feira, 12 de novembro de 2009

ARGEL III - ELSIE HERBERSTEIN

Dei há dias, numa daquelas gavetas onde guardamos as coisas que não queremos deitar fora e a que não sabemos exactamente o que fazer, com um postal do porto de Argel, publicado por Elsie Herberstein (n. 1963) em 2004, e que ela mesma me deu poucos dias depois de ter sido impresso, durante um jantar num restaurante de nome pomposo e fora de contexto: Le Béarnais.

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Cidadã do mundo, Elsie estava nessa altura no Magrebe, preparando um livro, Alger, simples confidences, que saiu um ano depois na Jalan Publications. Não sei se a cidade me pareceu algum tão espantosamente colorida como ela a desenhou, mas Elsie é, ela mesma, uma pessoa colorida. Os seus cadernos de viagens vão do Cambodja à África do Sul e do Tibete à Guatemala. Não voltei a encontrá-la, mas sei, pela sua página na net, que continua a desenhar e a publicar. É pouco provável que Elsie tenha alguma vez ouvido falar do poeta Ibn Sara (1043-1123), mas este poema, que não é sobre Argel, evoca-me a cidade de forma impressiva, e em tons muito próximos daqueles que ela a viu.

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"Os viajantes da noite murmuram o teu nome
e as areias do deserto derramam sobre quem te pisa
o perfume do almíscar.
E da formosura da invocação sabemos da beleza do invocado
como pelo verdor das margens se pressente o rio".
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Ibn Sara era natural de Santarém.
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Para mais informações sobre o trabalho e o percurso de Elsie Herberstein veja-se

quarta-feira, 11 de novembro de 2009

AMIGOS PARA SEMPRE - III

As fotografias de Oliviero Toscani (n. 1942), em especial as que concebeu para a Benetton, foram sempre marcadas pela beleza, pela audácia e pela polémica. A da mulher negra que amamenta o bebé branco foi das mais contestadas. Gosto dessa, da do jovem moribundo - uma fotografia feita no limite do admissível eticamente - e, em especial desta. Amigos para sempre? Para a eternidade.
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Amiga

Deixa-me ser a tua amiga, Amor,
A tua amiga só, já que não queres
Que pelo teu amor seja a melhor,
A mais triste de todas as mulheres.

Que só, de ti, me venha mágoa e dor
O que me importa a mim?! O que quiseres
É sempre um sonho bom! Seja o que for,
Bendito sejas tu por mo dizeres!

Beija-me as mãos, Amor, devagarinho ...
Como se os dois nascêssemos irmãos,
Aves cantando, ao sol, no mesmo ninho ...

Beija-mas bem! ... Que fantasia louca
Guardar assim, fechados, nestas mãos
Os beijos que sonhei prà minha boca! ...

Florbela Espanca, in "Livro de Mágoas"

A imagem dos religiosos que se beijam, assim castamente (acho que é castamente) é inspiradora. Palavras como as dos poemas fazem sentido nestes, e noutros, momentos. E Florbela Espanca é uma poetisa para a Eternidade.
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Página web de Oliviero Toscani:

http://www.olivierotoscani.com/

A LILI CANEÇAS DE OXFORD

Numa entrevista publicada ontem:
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"O mundo é cada vez menos parecido com a Europa" (Timothy Garton Ash)
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Ligeiramente, mas só ligeiramente, melhor que o inesquecível estar vivo é o contrário de estar morto.

PENSAMENTO MATINAL

O calcanhar de Aquiles. O tornozelo de Ronaldo.
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Onde andam os Homeros do nosso tempo? Quem contará a saga às gerações vindouras?
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terça-feira, 10 de novembro de 2009

ONE FROM THE HEART

Já não se fazem filmes assim...

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É uma história banal (Teri Garr veio depois dizer que o filme era muito intelectual, vá lá um cristão perceber porquê...), de desencontros e de amores. Por norma, uma coisa e outra estão associadas. O filme tem fantasia e alguma inocência. São elementos que a deliberada artificialidade de Do fundo do coração acentua:

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A rodagem foi inteiramente realizada em estúdio, pelo que os exteriores são falsos;

A cidade onde decorre a acção é Las Vegas, uma cidade cenário e que vive à margem do mundo real;

O sol, o céu, a chuva são de plástico;

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As pessoas no filme andam à procura do Amor e do Paraíso (nome da agência de viagens que vemos surgir nos primeiros momentos), mas não sei se, de facto, os encontram. Mas encontram momentos de fantasia e de ilusão. E Coppola sabe passar as ideias para o écran como ninguém. Bendito arrojo de fazer um filme assim, sem ter a noção que era difícil fazê-lo passar junto do grande público...

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Concebido também como desafio aos estúdios de Hollywood, Do fundo do coração atirou a Zoetrope Studios para a falência e fez Coppola passar um mau bocado.

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Do fundo do coração foi desprezado e ridicularizado. Os fracassos são, com frequência, mas estimulantes e interessantes que os êxitos. Quando o vi, em 1982, sofria de mal de amores. O filme não me ajudou mesmo nada nessa altura, mas talvez tenha gostado dessa primeira vez que o vi por causa disso mesmo. Aqui vos deixo o seu início, com as vozes contrastantes de Tom Waits e de Cristal Gayle.

MUROS MUITO MENOS POPULARES QUE O DE BERLIM

Os muros são, sempre foram, uma forma de nos separar a nós, os "bons", dos outros, os "maus". De nós, que somos a "ordem", dos outros, que são o "caos". A vida da morte, a riqueza da pobreza. Podem multiplicar as oposições sff.
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De baixo para cima:
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O muro de Adriano - construído no século II em Inglaterra, não era uma estrutura defensiva capaz de impedir uma invasão, mas sim uma forma de dissuadir a entrada de pequenos bandos e de imigrantes (já então...) indesejados. Era também um símbolo do poder de Roma.
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O muro entre o México e os Estados Unidos - cerca de 1000 km. de muro. 5.000 (cinco mil) mortes nos últimos 13 anos, segundo a Human Rights National Commission of Mexico. A imprensa ocidental tem sido menos lesta a denunciar este tipo de situações que o foi no caso do muro de Berlim. E, no entanto, do ponto de vista da dignidade do ser humano, não percebo em que é que a situação é menos grave. Provavelmente, é-o bem mais.
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Muro a delimitar uma favela no Rio de Janeiro - a incapacidade total do poder político ante a degradação da situação económica e social. As justificações poderão ser piedosas, mas denotam, antes de mais, falta de resposta adequada.
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Muro na Palestina e em Gaza - vergonha maior do início do século XXI, foi concebido e executado ante o silêncio do ocidente. As justificações são longas e escondem o essencial do problema: a imposição da lei da força e a expulsão dos palestinianos das terras que sempre lhes pertenceram. Todos os dias espero que Obama, essa esperança de coisa nenhuma da nossa esquerda descafeinada chegue a Telavive e brade, alto e bom som: "Mr. Netanyahu, tear down this wall!".
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O fotógrafo em frente do muro é Larry Towell (n. 1953). De origem canadiana, alia a sua grande capacidade de repórter - é membro da mítica agência Magnum - à visão política. No seu cartão profissional lê-se apenas "Larry Towell, ser humano".
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Todos estes muros existem. São testemunho de quem os constrói e oprime os outros. Só me pergunto porque raio se fez tanto alarido à volta do muro de Berlim e se esquecem, todos os dias, estes símbolos da repressão. Porque será?

FRANCIS FORD COPPOLA

O cineasta americano Francis Ford Coppola (n. 1939) veio ao Estoril dizer que está "cheio de ideias". Oxalá que sim. Desde 1982, com Do fundo do coração, que não faz um filme digno de figurar na História do Cinema. E a partir daí, fez apenas três filmes muito bons: Os marginais, Juventude Inquieta e Drácula. O último data de 1992. Coppola só sabe fazer filmes bons. Mas para quem fez dois que são absolutamente geniais - Apocalypse now e Do fundo do coração - esperamos sempre mais.
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NB: não vi Youth without without e ainda não vi Tetro.
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segunda-feira, 9 de novembro de 2009

BERLINER MAUER

Os dados são mais que conhecidos: o muro de Berlim foi construído na madrugada de 13 de Agosto de 1961. Tinha uma extensão de 66,5 km de gradeamento metálico e compreendia ainda 302 torres de observação, 127 redes metálicas electrificadas. Dezenas de pessoas morreram tentando cruzar o muro de Berlim para chegar ao sector ocidental da cidade. Nenhuma foi morta ou capturada na direcção inversa.

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O muro foi abaixo, faz hoje vinte anos. O assunto tem, ao longo do dia, suscitado várias reflexões interessantes, como a da Francisco Seixas da Costa. A queda do muro não foi a causa do que viria a suceder nos anos seguintes, mas sim a consequência de décadas de governação dominada por uma elite que se tinha, podemos dizê-lo sem hesitações, acomodado e aburguesado. E corrompido moralmente. Na realidade, a derrota do bloco de leste começa na década de 50 e não trinta anos depois. A derrocada desenha-se com o derrube, processo sumário e vegonhosa execução de Imre Nagy. Repetindo o que ontem escrevi num comentário, no blogue A cinco tons: pensava-se que com o socialismo nasceria o Homem Novo. Bastaria o desejo de transformar a sociedade e sua transformação aconteceria. Não bastou e não aconteceu. E a absoluta estatização da vida levaria - e levou - ao tédio, ao desinteresse e à burocratização do sistema. A absoluta estatização matou também as ambições individuais, esse sal necessário à diferenciação e ao desejo de fazer mais e melhor. A completa burocracia da criação matou as vanguardas, controlou o pensamento e deu corpo a polícias políticas.

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Onde esteve então a vantagem do socialismo e quais as diferenças em relação ao nazismo? A primeira parte da questão liga-se com a segunda. Sem o socialismo de leste teria tardado muito mais a libertação do Terceiro Mundo. Sem a difusão do ideário marxista, a tomada de consciência dos povos colonizados não teria tido a pujança que teve e o sopro libertador que varreu África nos anos 50 e 60 do século XX seria muito mais lento e feito de acordo com o tempo das antigas potências. Estas acabaram, décadas mais tarde, por recuperar o terreno perdido, mas isso é já outra história… E a dinâmica libertadora que, à sombra inspiradora do socialismo, varreu o mundo do pós-guerra não tem paralelo de qualquer tipo nos regimes nazi-fascistas, aos quais a palavra SOLIDARIEDADE foi sempre repulsiva. Dizer e, pior, tentar provar o contrário é uma obscena mentira e uma falácia sem classificação. E nunca será de mais sublinhar que é nas forças de esquerda, com os comunistas à cabeça, que reside a esperança de libertação de vastos sectores do planeta. O laboratório político da América do Sul tem, nesse aspecto particular, ainda muito a dizer.

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Porque sou, no meio de todas as contradições, militante do Partido Comunista Português? Por algumas das razões que me levariam a não o ser num país de leste nos anos 50, 60 ou 70. Antes de mais pela necessidade que há hoje em combater o "establishment". Porque há uma proximidade em relação aos mais desfavorecidos que não vejo noutros partidos. Porque gosto de estar junto do povo, no seio do qual nasci. E porque reconheço no PCP uma ética de actuação e uma modéstia nas atitudes que não vejo também noutros. Estarei sempre deste lado da estrada. Até ao dia da tomada do poder ou até ao momento em que a tentação do pensamento único quiser prevalecer.
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De outros muros, bem menos populares junto da dócil comunicação social que temos, apresentarei alguns dados amanhã.

O ISLÃO ENTRE TEJO E ODIANA

Recebi, há pouco, um mail do Campo Arqueológico de Mértola, anunciando que a exposição O Islão entre Tejo e Odiana está patente em Arraiolos até ao próximo dia 27.
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Li o mail com uma sensação estranha - seria nostalgia? -, por ver que ainda mexe um projecto que eu próprio concebi em 1996 (!) e que a exposição, montada pela primeira vez, em Évora, em 1997 (!), ainda circula. Percorreu dezenas de concelhos - sobretudo da região alentejana -, mostrando, em pouco mais de uma dezena de painéis, os aspectos mais visíveis da presença islâmica em terras do sul. Pensava eu que a mostra estava, em definitivo, arrumada. Enganei-me. Às vezes é bom estarmos enganados.
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O projecto O Islão entre Tejo e Odiana foi financiado pela CCRA desses tempos já distantes.
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Detalhe de peça em corda seca total do Museu de Mértola

ARGEL II - OS DIAS E AS MIRAGENS (1ª parte)

O velho 727 da Air Algérie descreve uma curva apertada e quase acrobática, 360º que causam ansiedade e mal-estar em alguns passageiros. O avião vai descendo depressa, inclinado sobre o lado direito o que nos faz trocar, por momentos, a vista da terra pela do mar, poucas centenas de metros mais abaixo. Alguns minutos mais tarde aterramos, com rapidez e brusquidão, na pista da aeroporto Houari Boumediene, em Argel. Quando saímos, já o aparelho está rodeado por um grupo de militares de metralhadora em punho, olhando desconfiadamente a área em volta. A que país vim eu parar, é a primeira pergunta que faço, sem esperança de ter resposta.


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Não teria vindo a Argel, se tivesse dado ouvidos aos conselhos que me deram. Um país em ebulição, uma guerra civil latente e os atentados não fazem de Argel o melhor dos sítios para fazer turismo ou dissertar sobre arqueologia.


E, contudo, a violência pouco tem de inédito naquela parte do Magrebe. Desde 1980 que a subida do integrismo islâmico começou a pôr os nervos em franja ao poder político argelino. Manifestações estudantis, prisões e mortes foram marcando uma escalada de violência que desembocaram nos graves tumultos de 5 de Outubro de 1988 em Bab el-Oued, bairro popular de Argel. Duas semanas mais tarde hão-de contar-se por centenas os mortos.


A espiral começa, em definitivo, nesses dias. Os islamistas do FIS (Frente Islâmica de Salvação) conquistam a confiança dos bairros populares e irão ganhar, com mais de 50 % dos votos, as eleições locais e regionais de Junho de 1990 e, com 47, 5 %, a primeira volta das legislativas em Dezembro de 1991. O resto da história é bem conhecido: anulação das legislativas, prisão dos lideres integristas, estado de sítio, mais prisões e massacres, perseguições a jornalistas e a quadros superiores, assassinato de estrangeiros, a guerra civil instalada quase até hoje. No meio não faltarão vozes a acusar os militares de estarem por detrás de muitas das acções atribuídas ao FIS, bem como de serem os responsáveis pela corrupção e, em última análise, pelo empobrecimento da população.


Nada disso é visível à chegada, apesar do espalhafato das metralhadoras, nem no percurso que a viatura da embaixada faz pelas ruas de Argel, por entre subidas e descidas rodeadas de vegetação frondosa e onde, de vez em quando, se consegue ter uma vista do centro da cidade, com a casbah ao fundo, o Mediterrâneo à direita e um céu baço por cima. As areias do Saara chegam até aqui e dão ao ar um tom acastanhado. A primeira miragem de Argel é o céu azul, que não dará sinais durante toda uma semana.


Imaginamos sempre os sítios que não conhecemos, como se pudéssemos conceber e urbanizar cidades distantes. Construímos ruas que nunca existirão, praças que não foram construídas, ambientes que são estranhos à realidade, ficcionamos cores e pessoas. Foi um pouco diferente com Argel. Sabia das ruas largas e das longas arcadas de ar acolhedor, que vira em tempos no célebre “Z, a orgia do poder”, supostamente passado algures mas rodado na margem sul do Mediterrâneo. Sem que o tivesse dito a ninguém, era por causa daquele filme e das ruas que mostrava que agora ali estava.


Durante muitos anos, tive de Argel essa imagem dos tempos coloniais, numa cidade pouco magrebina e africana ainda menos. Entre o centro de Argel e o extremo norte da cidade, no bairro de Bab el-Oued, repetem-se os prédios do princípio do século. Colunatas, janelas de desenho elaborado e frontões de recorte neo-clássico dão aos edifícios um ar próspero e por momentos julgamos estar numa cosmopolita cidade europeia.

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Primeira de três partes de uma reportagem publicada no Diário do Alentejo no Verão de 2000. A viagem tivera lugar durante a Primavera desse ano. A fotografia (tirada por volta de 1880) mostra o porto, com os edifícios, já da era colonial, ao longo do Mediterrâneo e a cidade antiga por detrás.

sábado, 7 de novembro de 2009

AMIGOS PARA SEMPRE - II

Antes de me remeter a um silêncio de 48 horas - até segunda-feira, por volta da hora do almoço, altura em que "viajarei" entre Argel e Berlim - aqui fica uma fotografia, que não é das mais citadas, de Henri Cartier-Bresson (1908-2004).

A fotografia foi feita em 1969, em Simiane-la-Rotonde, no sul de França. Como tantas outras imagens de Cartier-Bresson é de uma aparente simplicidade. O "truque" esteve sempre em transformar o instante decisivo em momentos sublimes. A pose dos dois amigos, em primeiro plano, expressa bem a cumplicidade e a perenidade das amizades de infância, aquelas que, juramos naquela altura, são para sempre. Com o passar dos anos são semi-esquecidas. Com o passar de mais anos começamos a ganhar a certeza que nos dias de infância tinhamos razão.

sexta-feira, 6 de novembro de 2009

MAIS MOURENSES

Um leitor anónimo estranhou o meu desconhecimento em relação a nomeações para os prémios MAIS ALENTEJO. Reitero que disse - no site da revista não consegui obter informações - e só através de um blogue cheguei aos nomeados. Aqui deixo, com todo o gosto, o nome dos meus conterrâneos que estão nessa lista:
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Mais Autarca - José Maria Pós-de-Mina
Mais Política - Sílvia Ramos
Mais Teatro/Televisão - Isaac Alfaiate
Mais Literatura - João Mário Caldeira
Mais Artes - Silvestre Raposo
Mais Desporto - Miguel Garcia
Mais Manjares - O Celeiro / Sabores da Estrela
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Fotografia Carlos Monteiro. APEL. Funchal.

BERLIM - 1945

Agora que tanto se fala de Berlim - e a Berlim "voltarei" no dia 9 - é hora de prestar homenagem a um dos nomes maiores da fotografia do século XX. Refiro-me a Yevgeny Khaldei (1917-1997), nascido na Ucrânia no seio de numa família judia. Não ter nascido no ocidente fez com que o seu nome seja conhecido num círculo relativamente restrito. O que é pena, porque o á-vontade com que Khaldei se movimentou entre o experimentalismo e a fotografia de reportagem, o seu talento e sentido plástico fazem dele um artista à altura de George Rodger ou de Robert Capa.
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A fotografia do soldado soviético no topo do Reichstag, uma das mais extraordinárias (e célebres) imagens da 2ª Guerra Mundial, tem vários detalhes "picantes". Relato um deles: a fotografia que a imprensa então publicou teve que ser retocada. É que o soldado exibia dois relógios, um cada pulso. Não havendo necessidade de saber as diferenças de fuso horário entre Berlim e Moscovo era mais que evidente que o conquistador se dedicara a plácidas tarefas de pilhagem...
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À falta de melhor veja-se: http://www.chaldej.de/

quinta-feira, 5 de novembro de 2009

SUBITAMENTE, CECÍLIA MEIRELES

RETRATO

Eu não tinha este rosto de hoje,
assim calmo, assim triste, assim magro,
nem estes olhos tão vazios,
nem o lábio amargo.
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Eu não tinha estas mãos sem força,
tão paradas e frias e mortas;
eu não tinha este coração
que nem se mostra.
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Eu não dei por esta mudança,
tão simples, tão certa, tão fácil:
_ Em que espelho ficou perdida
a minha face?
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Subitamente, outra inspiração, com as palavras de Cecília Meireles (1901-1964). Não foi difícil encontrar uma face que exprimisse, de forma enigmática, a tristeza e a melancolia do retrato. Poderia ter recorrido aos olhos de Anna Magnani. Preferi o ar distante, de tudo e de todos, de Jean Seberg, num filme que já aqui foi citado e que nunca poderei esquecer: Bonjour tristesse.

RECOMEÇO

E assim começa em pleno o novo mandato autárquico. O despacho assinado ontem pelo Presidente da Câmara determina, de forma que a seguir se resume, a seguinte distribuição de pelouros e competências.
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José Maria Prazeres Pós-de-Mina (PCP) - Presidente da Câmara
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Terá a seu cargo a coordenação das quatro áreas definidas no organograma em vigor.
Terá sob a sua responsabilidade directa o Departamento de Gestão, de Recursos Humanos e Financeiros e os serviços que, de acordo com o organograma, dependem directamente do presidente.
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José António Linhas Roxas de Oliveira (PCP) - Vice-Presidente da Câmara
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Responsável directo pela Divisão de Obras Municipais e Conservação e pela Divisão de Serviços Urbanos e Ambiente. Será ainda responsável pela secção administrativa do Departamento Técnico Municipal.
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Maria José Fialho Silva (ind.) - Vereadora em regime de permanência
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Responsável directa pelo Departamento Sócio-Cultural e pelo Espaço de Informação às Mulheres.
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Santiago Augusto Ferreira Macias (PCP) - Vereador em regime de permanência
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Responsável directo pela Divisão de Planeamento e Administração Urbanística e pela Divisão de Apoio ao Desenvolvimento e Assuntos Comunitários

ET IN ARCADIA EGO

Quebrando um hábito meu aqui se publica um post quase privado. Ou melhor, feito a pensar em tempos que já lá vão. E em coisas de que ficaram boas recordações.
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Este é também um post exclusivamente mourense e dedicado aos amigos com quem passava as férias de Verão. À falta de capitais para irmos para o Algarve organizávamos acampamentos nas margens do rio Ardila. Como este, feito em Agosto de 1980.
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Foi, talvez, o último acampamento que fizémos. O ambiente não era exactamente o de "Reviver o passado em Brideshead", que li por essa altura, mas a memória de um tempo feliz e despreocupado ficou. Não há ninguém que não tenha passado por isso...


Em baixo, de guarda ao garrafão e a fumar um cigarro, assim com ar à malandro: António Raposo. É hoje um pacato comerciante, estabelecido no centro da cidade. Não vale a pena perguntar pelo snack-bar do sr. Raposo. Toda a gente em Moura o conhece por Tarugo.
Em cima, e da esquerda para a direita: Rafael Rodrigues, José Francisco Moita, Mário Catarrunas e o autor do blogue.

quarta-feira, 4 de novembro de 2009

ARGEL I - DO FILME ÀS RUAS DA CIDADE

Aqui se inicia uma série de dez textos ou evocações da cidade de Argel. É uma das mais belas cidades do Mediterrâneo, mesmo tendo em conta que não conheço a costa da Dalmácia.

O primeiro fascínio nasceu quando vi o filme Z (1969), de Costa-Gavras (n. 1933), de que aqui deixo um breve excerto. A película inspira-se nos acontecimentos que envolveram o assassinato do deputado comunista Gregoris Lambrakis (1912-1963), ocorrido em Tessalónica. A impossibilidade de rodar o que quer que fosse na Grécia, obrigou os produtores a recorrerem a Argel. Nunca mais esqueci as ruas que vi no filme, nem as extensas arcadas junto ao porto, nem as escadarias que vencem as escarpas junto ao mar.

Há nove anos pude ir, pela primeira vez, a Argel. Alguns anos depois travei amizade com um editor e livreiro argelino, que participara no filme como figurante. Foi ele que me permitiu conhecer a outra cidade de Argel. O regresso não tardará.


SUBITAMENTE, RAINER MARIA RILKE

Mas se tentasses...
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Mas se tentasses isto: de mãos dadas seres
para mim como no copo de vinho o vinho é vinho.
Se tentasses isto.
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Subitamente, uma inspiração. Sem que o esperasse, Rainer Maria Rilke (1875-1926) cruza-se-me no caminho. Nada melhor que esta fotografia, este Un beso (1996), de Helena Cabello e Ana Carceller para dar outro corpo às palavras.

terça-feira, 3 de novembro de 2009

VERONESE

Grande escala é algo que associamos ao nome de Paolo Caliari, dito Veronese (1528-1588). Em especial às suas Bodas de Canãa, pintadas em 1562-63 por encomenda dos beneditinos de S. Giorgio Maggiore, em Veneza. Nem mais nem menos que 66 metros quadrados de pintura (6,66 m. x 9,90 m.). A qual apresenta mais de 130 figuras, onde se identificam diversos artistas da época, incluindo Veronese himself.
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A pintura original está no Museu do Louvre, em Paris. O refeitório do mosteiro veneziano tem em exibição uma cópia, feita com o recurso a sofisticas técnicas de reprodução gráfica.
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Ver, sobre o quadro, o texto que está no site do Museu do Louvre:
http://www.louvre.fr/llv/oeuvres/detail_notice.jsp?CONTENT%3C%3Ecnt_id=10134198673225111&CURRENT_LLV_NOTICE%3C%3Ecnt_id=10134198673225111&FOLDER%3C%3Efolder_id=9852723696500816&bmUID=1138483297476&bmLocale=en

A POP ART E O CINEMA

O cinema São Jorge foi palco, há poucas semanas de uma importante iniciativa: o DOCLISBOA. Quando lá passei a entrada tinha um ambiente mais alternativo que outra coisa. O que não me parece nada mal, antes pelo contrário. Mas senti a falta, na fachada, dos grandes telões pintados que anunciavam os filmes em exibição.
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Era um ofício que dava trabalho a várias oficinas em Lisboa e que parecerá tão remoto e estranho aos mais novos como um televisor a preto e branco. Vários artistas de renome, incluindo o pintor pop James Rosenquist, iniciaram a sua actividade colaborando na feitura destes anúncios. Diga-se de passagem que a pop art incorporou a publicidade e os objectos da sociedade de consumo no seu discurso. Com sucesso e eficácia. Como se pode constatar nas ampliações, deliberadamente exageradas, de pequenos pormenores.

Hey! Let's Go For a Ride. 1961
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Cinema São Jorge (Lisboa)
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Smoker number 1 (Mouth number 12). 1967
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Em homenagem às grandes escalas, de que sempre gostei, aqui ficam dois quadros dos pintores norte-americanos James Rosenquist (n. 1933) e Tom Wesselmann (1931-2004). Paolo Veronese teria gostado de ver estas pinturas. E também, estou certo disso, das telas na fachada no São Jorge.

Sites sobre estes nomes da pop art:
http://www.jimrosenquist-artist.com/
http://www.tomwesselmannestate.org/

segunda-feira, 2 de novembro de 2009

DALILA RODRIGUES

Sendo bem conhecida a forma como se trabalha na Pátria não é preciso ser muito arguto para se perceber que há aqui qualquer coisa mal contada. (publicado neste blogue há dois dias)

É evidente que estas alturas causam uma verdadeira chuva de opiniões, de interpretações e de teses. Não vou por aí, por não ter um conhecimento, por mínimo que seja, deste processo. Mas o comunicado que Dalila Rodrigues acaba de publicar a propósito do seu afastamento da Casa das Histórias vem confirmar que algo não bate certo. E essa é uma matéria que deveria ser esclarecida.

domingo, 1 de novembro de 2009

ESTHER DE LEMOS

Hoje ao jantar falámos da escola e dos professores. Por entre o ar desconfiado dos mais novos recordei os professores do liceu que mais me marcaram. E que foram, realmente, aqueles que, para além da Professora Jacinta, tiveram um papel decisivo no meu percurso de formação. De alguns, desgraçadamente, já não me lembro dos nomes, que tenho apontado algures nos meus papéis. De entre os muitos bons professores que tive - foi bom ter sido aluno no Liceu Nacional de Queluz - recordo sempre Esther de Lemos. Romancista e ensaista, era uma grande professora de Francês e uma exigente e rigorosa mestra em Técnicas de Tradução. E lia poesia com uma voz calma e cativante que também nos levava à procura de textos e de autores.
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Voltei a encontrá-la, muitos anos depois, na sala de leitura da Biblioteca Nacional. Para evitar embaraços disse-lhe que tinha sido seu aluno, no ano lectivo 1979/80, na turma xis e que me chamava fulano de tal. Disse-me que se recordava perfeitamente, mas mesmo que tenha sido só uma expressão de simpatia ficou genuinamente satisfeita por um antigo aluno a ir cumprimentar.
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Tive a curiosidade de tentar saber depois notícias da minha professora. A net não me devolveu grande coisa, a não ser a informação de que Esther de Lemos faz amanhã 80 anos. Uma coincidência engraçada. Espero que esteja ainda de boa saúde e daqui lhe mando uma camélia vermelha, a flor que simboliza o reconhecimento.
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AMIGOS PARA SEMPRE - I

Quando éramos miúdos e alguém da nossa idade nos chamava a atenção perguntávamos, com toda a candura, “olá, queres ser meu amigo?”. E ficávamos muito tristes quando levávamos tampa… Ao longo da vida fui somando tampas, não de amizade mas de outras, em especial nos bailes em Safara e em Pias, dois terrenos difíceis para forasteiros. Em especial para forasteiros desajeitados.
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Mas a questão não é, agora, essa. O problema está nas redes de amizade virtual, naquelas que em que somos assediados com propostas de amizade, por tudo e por nada. A Júlia tinha-me avisado que a netlog e o hi5 e sei lá que mais eram úteis para tentar encontrar pessoas cujo rasto perdemos. Fiei-me na Júlia e na sua confiança nas tecnologias e deu asneira. Ao tentar encontrar um colega dos tempos de faculdade descobri que ele estava registado na netlog. Vai daí tive de me registar também. Estava eu todo convencido que era quase o único santiago macias do nosso rectângulo. É o eras… Só à quinta tentativa consegui arranjar um nome na net, quarenta e seis anos depois de ter sido baptizado na Igreja de S. João.
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Depois de entrar na minha página – acho que é assim que se chama – apareceu uma pergunta qualquer, ainda por cima a máquina trata-me por tu sem me conhecer de lado algum, sobre se queria adicionar não sei quem à minha lista. Distraído fiz ok, na dúvida tenho o costume de responder “sim”, e toda a minha lista de mails disparou em todas as direcções, com pedidos de amizade para pessoas que já são minhas amigas, para outras que são conhecidas e para outras ainda que mal conheço. Até aqui nada de dramático, para além de ter depois ficado com a ligeira sensação de estar a fazer figura de parvo.
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O pior foi começar, horas depois, a receber dezenas de notificações e confirmações do netlog e listagens de amigos dos meus amigos (com a indicação “Fulano de tal tem xis anos e mora em Portugal. Conhece-lo?”). Há ainda uma secção, ainda mais kafkiana, intitulada “membros da netlog que talvez conheças”. E se não conhecer? Deverei dizer que conheço? E se não disser, o que é que me pode acontecer? O mal está feito e vou passar os próximos dias apagando mails e ignorando ou rejeitando amizades de pessoas que não conheço.
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No meio desta cegada toda ainda não consegui chegar à fala com o meu amigo Leopoldo Amado. É historiador, cidadão da Guiné-Bissau, e, tanto quanto sei, vive em Portugal. Se alguém, com netlog, sinais de fumo ou telepatia, souber onde ele pára, que me avise. Obrigado!
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Este texto é publicado na edição de hoje de A Planície.
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Um beijo famoso de dois amigos célebres. Chamavam-se Leonid Brejnev, o da esquerda, e Erich Honecker, o da direita. Apesar dos olhinhos fechados e tudo, não é o que o que os mais novos poderão estar a pensar. Investiguem um pouco que logo percebem.