segunda-feira, 8 de março de 2010

SANTO AMADOR - CENTRO CULTURAL

Foi ontem formalmente inaugurado o Centro Cultural de Santo Amador. Trata-se de uma obra que teve, no seu longo percurso, inúmeros avanços e recuos. O edifício servirá, em simultâneo, de posto de saúde, no rés-do-chão, e de sala polivalente, no primeiro andar. A derradeira fase das obras foi fruto de uma parceria entre a Junta de Freguesia de Santo Amador e a Câmara Municipal de Moura
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A abertura ontem ao público, com um espectáculo de fados, teve direito a casa cheia. Um sucesso mais que merecido.
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A jovem fadista mourense Inês Gonçalves durante a sua actuação

UM POST A PEDIDO DE UMA AMIGA

Os blogues também servem para estas coisas... Na altura do Carnaval uma amiga, que se identifica como Dulcineia, insistiu que publicasse uma fotografia do que ela chama a minha fase Austin Powers. Esta imagem estava mais que esquecida num daqueles albuns que existem em todas as casas. Já nem lembrava de algum dia me terem vestido daquela forma desgraçada.
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Como me tivesse "esquecido" da promessa, a Dulcineia veio agora cobrá-la.
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1. De facto, pareço, pelo menos na roupa, o Austin Powers...
2. Porque é que raio vestem as crianças desta maneira nos casamentos? Ainda assim, não estava assim com um ar muito chateado. Não tinha a noção da figura que estava a fazer...
3. A data? 8 de Dezembro de 1968, para quem gostar de fazer contas.
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domingo, 7 de março de 2010

COSTA MARTINS - HERÓI DO POVO PORTUGUÊS

Morreu ontem, num acidente de aviação, José Costa Martins, um dos capitães de Abril. Couberam-lhe, na madrugada libertadora de 1974, importantes acções militares, que contribuiram para o sucesso da revolução.
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Nos anos de 1974 e 1975 Costa Martins desempenhou papéis políticos preponderantes, tendo sido, designadamente, conselheiro da revolução e ministro do trabalho. Generoso mas ingénuo, e politicamente inábil, Costa Martins foi vitíma dos mais vergonhosos ataques e de difamações inqualificáveis. O episódio do Dia de Trabalho para a Nação destruiu-lhe a carreira. Nenhuma acusação foi, a esse respeito, sequer formulada. Nem havia razão para que o fosse. Mas Costa Martins foi chacinado na praça pública, com a cumplicidade e a conivência de muita gente que gosta de polir os seus ideais de esquerda e o seu socialismo democrático. O seu nome nunca foi devidamente reabilitado e Costa Martins carregou, até ao fim, o fardo dessa infâmia.
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O 25 de Abril continua a ser uma pedra no sapato da direita. Basta ler o que hoje se tem escrito nos comentários à notícia da morte de Costa Martins no matutino Correio da Manhã e no forum do Sol on-line para se perceber que ainda há muita gente a quem a libertação dos portugueses continua a ser uma ideia difícil de engolir. José Inácio da Costa Martins teve, nessa batalha, um importante papel operacional. É de si, Costa Martins, que me vou lembrar quando se comemorarem os 36 anos da revolução.
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AURORA - MURNAU

Aurora foi o primeiro filme de F.W. Murnau (1888-1931) rodado em Hollywood, em 1927. A história é simples e tão velha como o mundo. Um casal de aldeãos vê a sua estabilidade ameaçada pela tentação. Aqui traduzida no corpo de uma mulher. Poderia ser no de um homem. O triângulo amoroso avança e quase termina mal. Até que não.
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Aurora é um filme belíssimo. E de extraordinária modernidade. Tanto na vertigem da montagem, como no encadeado das sequências. E a história, para além de ser conhecida, é aqui tratada com suavidade e paixão. Aurora é um dos mais importantes filmes do mundo.
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Aurora está em oitavo lugar na classificação da Sight and Sound.

sexta-feira, 5 de março de 2010

SAUDADE DA BAHIA (num post quase privado)

Devia, na próxima semana, ir a Salvador da Bahia. Acabei por cancelar a deslocação. Tenho, assim, saudades de uma cidade que nunca visitei. E que é, ao mesmo tempo, a cidade que mais desejo tenho de visitar.
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Este post quase privado, e esta música eterna de Dorival Caymmi, são inteiramente dedicados às senhoras. Em especial, e por ordem alfabética, à Conceição, à Fernanda, à Helena, à Isabel, à Júlia, à Maria dos Anjos, à Maria José e à Paula. Mas muito em especial, muito mesmo, à Débora. Saravá!
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S. Salvador da Bahia (fotografia de Pierre Verger)

quinta-feira, 4 de março de 2010

GEERT WILDERS

O Partido para a Liberdade, de Geert Wilders, foi a força mais votada nas eleições municipais em Almere, cidade de 187.000 habitantes, tendo ficado em segundo lugar em Haia. Wilders e o seu partido têm-se feito notar pelas suas posições anti-Islão.
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Os 21,6% conquistados em Almere representam apenas 9 lugar em 39 no conselho municipal. O PVV não terá a vida fácil. Mas conseguiu, para já, baralhar o jogo político, num ambiente de grande pulverização de votos.
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Onde está, então, a novidade na tolerante e cosmopolita Holanda? É que os habitantes do país, e em particular o homem da rua, passaram a sentir-se ameaçados e estrangeiros na sua própria terra. No momento em que o outro domina e começa a ganhar ascendente, medos antigos são despertados e acontecem coisas assim.
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E a serpente da intolerância e do racismo sai do ovo e ganha campo de manobra.
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AS-SROUJE

O senhor da fotografia chama-se Abu Radwan. Podia ser alentejano, mas é sírio. O Fahd tinha parado naquela aldeia, as-Srouje, para fotografarmos as habitações em terra. Foi quando apareceu este senhor, que falava um pouco de inglês, e que nos convidou para tomar um chá em sua casa. A hospitalidade oriental em toda a sua maneira simples de ser. O sr. Abu Radwan tinha sido emigrante no Dubai. Ao regressar fizera obras na casa, comprara ovelhas e umas oliveiras. Nada de muito diferente do que fazem muitos emigrantes do nosso interior. Vivia uma reforma calma, longe das cidades e da confusão. Quando fiz esta fotografia estava a dizer à miudinha, a filha mais nova, que pusesse um lenço sobre a cabeça.
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Fiz uma série de retratos que me pediu que enviasse depois para um hotel, em Hama. Passaria lá mais tarde para os recolher. Oxalá tenham chegado.
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As-Srouje - Outono de 2003

quarta-feira, 3 de março de 2010

DIBLO DIBALA

Andava eu todo entusiasmado com os Vampire Weekend, que tinha ouvido na Antena 3 (a daquele slogan genial: "a primeira vez é sempre na três"), quando o som da guitarra de Ezra Koenig me fez voltar ao soukous, um ritmo que sempre me foi simpático. Daí até encontrar esta gravação de Diblo Dibala (n. 1954) foi um passo curto. O músico congolês é conhecido como metralhadora, pela sua rapidez e talento no manejar da guitarra. Os moços dos Vampire Weekend até têm um som simpático, mas ao pé do Diblo parece que tocam em câmara lenta.
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TODA A COR DE BIZÂNCIO

Ao ver a exposição sobre o passado histórico de Istanbul não pude deixar de me surpreender com a forma pragmática como o subsolo da cidade é encarado. Numa das mais importantes metrópoles do mundo não se hesita. Quando foram localizados vestígios arqueológicos, as obras do metro pararam e teve lugar uma extensa escavação. Que trouxe à luz do dia nem mais nem menos que o porto do tempo do imperador Teodósio (final do séc. IV). Um importante conjunto de barcos foi exumado. Com eles, parte da carga, materiais cerâmicos e informações da maior pertinência para a compreensão do império romano. Uma atitude culturalmente esclarecida e visões largas permitem também enriquecer substancialmente o património das cidades.
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Chegaram longe os braços de Bizâncio. Chegaram até ao extremo do Mediterrâneo Ocidental, com a ajuda dos mercadores que animavam o mar interior. A imagem que abaixo se vê faz parte de um complexo religioso que em tempos existiu em Mértola. Foi escavado e publicado, em primeira mão, por Virgílio Lopes na sua tese Mértola na Antiguidade Tardia. A representação de animais exóticos liga-se de perto à tradição dos perivolia, tão caros aos imperadores do Oriente. São mosaicos sofisticados, dispendiosos (para alguma coisa serviam os rendimentos das minas...) e produto de importação. Os paralelos para estas peças do séc. VI estão longe de nós, no Líbano e na Palestina.
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terça-feira, 2 de março de 2010

BISSAU V - UM BARCO PARA BOLAMA

O que me espicaçou foi esta imagem. Esta extraordinária e deslocada fachada clássica plantada no meio de uma cidade na Guiné. Na cidade que foi capital. Daí a querer ir a Bolama foi um abrir e fechar de olhos. Os barcos são raros, e incertos no cumprimento de horários. O presidente da Câmara de Bissau começa a fazer telefonemas e mais telefonemas. Às tantas arranja um barco que me dará boleia para Bolama e que volta no dia seguinte. Daí a sair para a foz do Geba foi um ápice. Um funcionário da Câmara de Bissau é designado para me acompanhar. Insisto que não é preciso. O eng. Armando Napoco ri-se e comenta para o lado "ele cá tem problema". Não tinha mesmo. O pior foi no cais de Pidjiguiti. O barco era da AMI. Os jovens clínicos tugas foram aquilo que seria de esperar que fossem: sobranceiros, distantes e gélidos. Sim, condescenderam em levar-me. Não o barco não volta no dia seguinte. Não, também não sabiam quando voltaria. O presidente da Câmara tem a solução: irá um carro buscar-me e a viagem de regresso será feita por terra. 14 horas de carro numa longa digressão quase até à Guiné-Conakry? Nem pensar, recuso. Sempre me horrorizou a ideia de dar trabalho aos outros desta forma. Fica para a próxima, porque haverá uma próxima. O jovem que ia comigo para Bolama ficou impassível. Mas, decerto, mais que aliviado.
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Já não encontrarei os jovens da AMI em Bolama. Talvez lhes contasse a anedota do serrote...
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AMMAIA

Mais outra vitória da persistência. O trabalho de recuperação e valorização da Cidade Romana de Ammaia recebeu hoje o Prémio Vilalva 2009 para a recuperação do património, atribuído pela Fundação Calouste Gulbenkian. É a justa recompensa de muitos e duros anos de trabalho.
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Foto: http://lfx4.ist.utl.pt/arquideia/cidadesnovo.html

ROBEL TEKLEMARIAM

O senhor da imagem chama-se Robel Teklemariam. É esquiador, embora na cidade onde vive, Adis Abeba, não neve. Se não neva esquia-se com rodinhas, que também serve.
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Robel Teklemariam representou a Etiópia nos Jogos Olímpicos de Inverno de 2010. O lugar em que ficou é o que menos interessa. O que importa? A força de vontade, a tenacidade e a imaginação. Quando mais o tempo passa mais disso me convenço. Quanto mais me vou cruzando, semana após semana, com gente aborrecida, preguiçosa e displicente mais disso vou tendo a certeza.
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segunda-feira, 1 de março de 2010

AFONSO VII DE CASTELA E LEÃO FARIA HOJE 905 ANOS

Dizia hoje o Expresso on-line: "Frédéric Chopin faria hoje 200 anos."
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Assim mesmo. Há coisas que se escrevem à homem, sem pestanejar. Coitado do Chopin, que morreu aos 39 anos. Coitado dele se chegasse aos 200. Ou lá perto. Na mesma linha de pensamento podemos dizer Afonso VII de Castela e Leão faria hoje 905 anos. É a isto que se chama lógica.

RETRATOS - PORTUGAL E OS PORTUGUESES VISTOS PELOS IMIGRANTES

O filme de Luísa Homem pode ser visto na íntegra aqui. O documentário tem 57 minutos, mas durante a exibição pareceu-me muito mais curto. Façam lá o "teste".

CHOPIN

Chopin nasceu a 1 de Março de 1810. Há exactamente 200 anos. A sua vida foi curta e intensa. A obra que nos deixou é um dos expoentes do Romantismo. A relação tempestuosa com George Sand e a morte prematura, causada pela tuberculose, rimam bem com a existência torturada dos românticos.
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São célebres as suas peças para piano (com destaque para os nocturnos). Uma interessante tese em tempos defendida pelo Dr. Pedro Santana Lopes, sobre a eventual existência de concertos para violino da autoria do genial polaco não pôde ainda, infelizmente, ser documentalmente comprovada.
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Li Yundi é um pianista chinês (n. 1982).

JOÃO RENDEIRO E O BPP

No Expresso de sábado:
"Fundador do BPP tem reunido com vários clientes do banco disponibilizando-se para os ajudar a avançar com processos judiciais contra o Estado e outras entidades, nomeadamente o Banco de Portugal."
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Desconte-se a imprecisão do texto - fica-se com a ideia, porventura verdadeira, que o BP funciona à margem do Estado -, que a tese é pouco original. Quando as coisas correm bem o mérito é dos empresários que, coitados, vencem na vida apesar das malfeitorias do Estado. Quando dão para o torto - e o caso BPP foi uma estrepitosa barraca - de quem é a culpa? Do Estado. Eis um clássico da Pátria.
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Foto Luiz Carvalho (blogue Instante Fatal)

domingo, 28 de fevereiro de 2010

ANA HATHERLY

SEM AMOR
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Viver sem amor
É como não ter para onde ir
Em nenhum lugar
Encontrar casa ou mundo.
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É contemplar o não - acontecer
O lugar onde tudo já não é
Onde tudo se transforma
No recinto
De onde tudo se mudou.
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Sem amor andamos errantes
De nós mesmos desconhecidos
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Descobrimos que nunca se tem ninguém
Além de nós próprios
E nem isso se tem.

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A corrida solitária da rapariguinha pelas ruas de Sifnos é uma imagem célebre da história da fotografia. Data de 1961 e é seu autor Henri Cartier-Bresson. Ana Hatherly é uma poetisa e ensaísta portuguesa (n. 1929), de marcado pendor experimentalista. A rapariguinha não corre à procura do amor. Mas um dia correrá. Não anda errante. Mas um dia poderá andar.

OUTROS PORTUGUESES

Teve ontem lugar, no Espaço Celeiros, em Évora, o encontro “Novas Culturas, Novos Futuros”, uma iniciativa promovida pela MultiCulti - Culturas do Mediterrâneo, pelo Campo Arqueológico de Mértola e pela Pédexumbo, parceiros da Rede Portuguesa da Fundação Euro-Mediterrânica Anna Lindh.
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O momento alto do encontro coube ao documentário Retratos: Portugal e os Portugueses Vistos pelos Imigrantes, da autoria de Luísa Homem. Um filme sensível e contado na perspectiva dos outros. Um filme que é, também, um documento político, a ser visto agora e dentro de uns anos, quando formos confrontados com novas realidades sociais e com tensões, agora mal perceptíveis, dentro da sociedade portuguesa.
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Pude constatar sem surpresa e ainda que com um pouco de amargura, enquanto moderador do debate, cinco coisas básicas:
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1. Continuamos cheios de boas palavras e de boas e inócuas intenções;
2. O fosso entre as elites bem pensantes e com um discurso muito à esquerda e muito flower-power, mas à margem da realidade, e as pessoas que sentem a rudeza de viver num país e numa cultura diferentes, são mais que visíveis;
3. Os entrevistados no filme têm uma visão acutilante, rigorosa e politicamente definida sobre nós, os outros portugueses;
4. Os entrevistados no filme, e a forma como nós não os conhecemos, são o espelho da nossa má consciência e da nossa incapacidade política;
5. Por mais que jovens supostamente radicais venham dizer horríveis e petulantes banalidades sobre a não validade de conceitos como "país", "origem", "europeu" etc., et pluribus unum é, só, o lema do Benfica.
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Fotograma do filme de Luísa Homem
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Próximas iniciativas deste interessantíssimo projecto:
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19 de Março - Centro Nacional de Cultura (Lisboa)
16 de Abril - Escola Básica 2,3 Miguel Torga (Amadora)
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Ver:
http://falredeportuguesa.blogspot.com/

sexta-feira, 26 de fevereiro de 2010

ARQUEOLOGIA EM ALQUEVA

Foi uma excelente iniciativa da EDIA e testemunha bem a importância do património arqueológico da nossa região. Na sessão que me coube moderar, a desta manhã, foram apresentados resultados muito interessantes sobre necrópoles islâmicos - uma realidade desconhecida entre nós até há 30 anos - e sobre as intervenções em curso no sítio de Torre Velha (Serpa). Ou muito me engano ou ainda ouviremos mais vezes o nome deste sítio.
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Um pormenor que não é pormenor: o investimento da EDIA nestes domínios atinge 14 milhões de euros.
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FELLINI

Espalhafatoso e excessivo, Federico Fellini (1920-1993) marcou a segunda metade do século XX com os seus filmes. Este excerto pertence ao início de 8 1/2, nono classificado na lista da Sight and Sound. Poucos cineastas se poderão gabar de terem origem a um adjectivo (feliniano) e muito poucos se conseguiram manter originais e inventivos até ao fim. Menos considerado na altura entre o público intelectual que Visconti, por exemplo, o facto é que as obras de Fellini suportam bem a prova do tempo. Gosto de quase todos os seus filmes, em especial deste, da Dolce Vita (1960), de Amarcord (1973) e do crepuscular E la nave va (1983). Dois elementos decisivos na sua obra estão aqui presentes: o onirismo e o vento.
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quarta-feira, 24 de fevereiro de 2010

CUIDADINHO, BÁRBARA REIS...

Pois é, é tudo por acaso. Mas no seu lugar, Bárbara Reis, directora do diário Público, eu teria mais cuidado. Não é por nada, claro. É só por uma questão de prudência. Mas a vida está difícil, os empregos estão pela hora da morte e esta fotografia é uma desgraça. E você, Bárbara Reis, até é uma jornalista talentosa e autora de crónicas inteligentes. E tem um ar de pessoa simpática. Não a conheço pessoalmente mas peço-lhe, suplico-lhe, que não volte a publicar fotos do nosso primeiro com este ar de meio-Quasimodo. É que isto está mesmo mau e nunca se sabe quem pode vir a ter problemas na vida...
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PORQUANTO...

É bem conhecida aquela história do mourense a quem o taxista perguntou “a sua casa é aqui para a esquerda, não é?”. “Para a esquerda nunca! Vire à direita!”. E assim se deram voltas e mais voltas até chegar a casa, virando sempre à direita.

A vida é feita de recordações e de factos que lembram outros factos.

Foi assim: vou eu e faço pisca à direita e saio da rotunda e vai uma patrulha da PSP atrás de mim e alto e pára o balho! “O senhor não desfez o pisca, os seus documentos etc e tal”. Pois é, não tinha desfeito o pisca, eu a andar em frente e o sacana do pisca a piscar. E logo à direita. E à frente da polícia, assim como se fosse uma provocação, não era obviamente, mas nestas coisas nunca se sabe o que pensam os outros. Reconheci que sim, que o sacana do pisca dizia que era para a direita. E que o automático não funcionou e que o pisca faz assim um barulhinho maricas (depois disto o Rafael nunca mais me empresta o carro), que eu nem ouvi, mas o guarda (acho que era guarda, mas nisto das hierarquias sou uma nódoa) tinha razão. A gente pede desculpa. Chega? Não chega, ah, ah, boa piada, ó pra ele tão humilde a pedir desculpa. O que vem a seguir? Pedagogia? Uma chamada de atenção? Uma carolada? O quê? Vou ser multado por isto? “O sr. vai ser autuado, por infracção ao artigo etc. etc.”. Aí desligo e deixo de ouvir enquanto puxo a carteira à procura dos 60 euros. Ias em segunda e a trinta? Não fosses. Fosses mais depressa, que pagavas o mesmo. Passam-me o papel para assinar. Aí fico enternecido. O texto começava com uma conjunção coordenativa explicativa. Daquelas que já não se usam: “porquanto o condutor após ter efectuado a manobra da viatura para a direita manteve a sinalização da mesma”. Em tradução livre, o gajo virou e não desfez o pisca. Bom depois daquilo, deu-me vontade de o desfazer, mas ao pontapé. Só que o carro é do Rafael e depois ele zangava-se comigo…

Para a próxima desfaço o pisca, claro que sim sr. guarda. Até porque se na escala de coimas um gajo em segunda e a trinta e por distracção (ias distraído? não fosses) leva 60 euros o que acontecerá numa ultrapassagem a duzentos numa lomba? Pelotão de fuzilamento? Trabalhos forçados na Guiana? Fica-me ainda a vaga esperança que na próxima vez que me distrair, está-me sempre a acontecer este raio das distracções, a tal coisa da coima venha em forma de soneto. E de preferência com uma conjunção coordenativa explicativa.

Moral da história: nunca devemos fazer pisca à direita. Só e sempre para a esquerda.


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Crónica publicada no jornal A Planície em 1 de Fevereiro de 2008

terça-feira, 23 de fevereiro de 2010

BISSAU IV - CARNAVAL

Saí de Bissau muito antes do Carnaval começar. A festa já tinha, contudo, "tido início". Já estavam em funcionamento as mais de 300 (!) tasquinhas que, durante semanas, dão animação à cidade. Foi aí que o Carlos Leles e o Fernando Arlete me iniciaram nas provas do vinho de palma. Uma experiência radical e para ser repetida.
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Pelas descrições que me fizeram e pelas imagens que consegui ver foi/é, decerto, um Carnaval como deve ser. Com improvisação e criatividade. Sem alas de baianas, nem mestres salas e portas bandeiras, nem sambistas trôpegas, tudo copiado à pressa e sem graça. É por isso que, quando olho para os nossos "carnavais", fico deprimido. Valham-nos aquelas festas populares que, de forma improvisada, se fazem, e onde têm lugar verdadeiras e desregradas celebrações.
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Mais fotografias deste autor em:
www.flickr.com/photos/gumbe/

BES PHOTO 2009 - PATRÍCIA ALMEIDA

A esta hora ainda não consegui ter informações sobre o vencedor deste ano do BES PHOTO. A iniciativa é uma das mais ousadas no nosso panorama fotográfico. Dos três projectos seleccionados escolho eu este, de Patrícia Almeida (n. 1970). Não é o mais radical ou avant-garde, mas tem um estilo Woodstock que me tocou pela sua ingenuidade. A série All beauty must die mostra-nos essa juventude cheia de acne e despreocupada, que passa na sua totalidade para as fotografias. Faça-se então o contraponto com o artificialismo do projecto Portobello que, a despeito do nome, temos dificuldade em situar geograficamente... Será o Verão igual em todas as praias de turismo de massas?
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Páginas a ver:
www.patriciaalmeida.com
www.museuberardo.com
www.bes.pt/besphoto

domingo, 21 de fevereiro de 2010

NEWSPEAK

Regressemos a Orwell. Regressemos a 1984. Por causa da newspeak ou novilíngua. Da qual Luís Figo parece ser adepto. Ontem manifestou o seu desagrado por se ver envolucrado na trapalhada do processo da PT. O verbo envolucrar existe, mas não com o sentido que Figo lhe quis dar.
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Envolucrado, na interpretação que o ex-futebolista lhe quis dar, parece mais a junção de envolvido com encalacrado. Deve ser isso.
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sexta-feira, 19 de fevereiro de 2010

O MAUSOLÉU DE HALICARNASSO

Não é que falar de ensino superior me tenha suscitado pensamentos "fúnebres", mas uma revisão do kitsch na arquitectura e no património levou-me, em linha recta, ao Mausoléu de Halicarnasso. Depois de já aqui ter apresentado uma reconstituição, ao vivo, do Partenon, nada melhor que mostrar um monumento que já não existe...
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Trocando por miúdos: das chamadas Sete Maravilhas do Mundo Antigo (uma criação do século II a.C.) só chegaram até nós as Pirâmides de Gizé. As outras foram destruídas e refeitas a partir de várias descrições, mais ou menos precisas (v. imagem de cima). Não sabia da existência de uma versão deste túmulo do século IV a.C., destinado a ser a morada eterna do rei Mausolo e de Artemísia, sua irmã e esposa (ena!). Deparei com o edifício da imagem de baixo, para meu espanto e gáudio, em Pittsburgh, em Abril de 2004. É um memorial dedicado à Guerra Civil e com uma exposição tão pirosa quanto a ideia de reproduzir um monumento da Antiguidade.
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La cerise sur le gâteau: no dia em que lá fui decorriam as primárias do Partido Democrata. O ambiente é muito diferente do das nossas mesas de voto; quem se ocupava de tudo eram umas velhinhas amabilíssimas, com um ar pouco profissional e um inequívoco estilo de chá e bolachas. Os votos eram metidos numas máquinas gigantescas que faziam um estrondo que ecoava pelos corredores. Passeei por ali sem que ninguém, votantes ou delegados, se mostrasse incomodado com a bisbilhotice. Ganhou John Kerry.
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quinta-feira, 18 de fevereiro de 2010

BOLONHA

Não há ainda muito tempo andava muito boa gente histericamente entusiasmada com o processo de Bolonha e com a adaptação dos cursos ao esquema de 3 + 2 de Bolonha. Nunca partilhei do entusiasmo - muitos colegas poderão testemunhá-lo - e tive a certeza que iríamos entrar num período de retrocesso. Posso agora dizer: pronto, já está!
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Tendo feito a licenciatura, e o mestrado, no século passado, posso ser algo suspeito nas minhas opiniões. Ao acabar ontem de corrigir os exames da disciplina de Introdução à arquitectura islâmica, do Mestrado em Arquitectura da Universidade de Évora, dissiparam-se todas as dúvidas. Aqui vão alguns tópicos, fruto de anos de trabalho, dentro e, sobretudo, fora das universidades:
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1. Os alunos saem do secundário com uma preparação cada vez mais sumária e insuficiente. Os filhos da educocracia reinante não sabem escrever e, pior ainda, lêem muito pouco. São frequentes, em estudantes de anos mais avançados, os erros de palmatória em matéria de ortografia e de sintaxe. Não consigo traduzir em palavras o desespero que sinto nessas alturas.
2. Os semestres passam-se a correr e sem a possibilidade de se desenvolver um trabalho minimamente estruturado e consequente. Muitos alunos optam, à partida, por se prepararem para o exame (a ideia de "exame" num mestrado nunca me encaixou completamente, confesso).
3. O sistema de passagem de disciplinas anuais a semestrais, consumado há já longos anos, não trouxe nenhuma vantagem sensível ao sistema de aprendizagem. Pior ainda, passou-se de um sistema em que se privilegiava a realização de trabalhos de investigação ao longo do ano lectivo para um esquema em que os alunos são, de forma mais ou menos evidente, dirigidos para as frequências e para os exames. Imperam a sebenta e um sistema de repetição de ideias onde a criatividade está ausente.
4. Mesmo nos mestrados se assiste a uma multiplicação de disciplinas, que deixam pouquíssimo espaço para o desenvolvimento de uma investigação digna desse nome. Desgraçadamente, já me apareceram trabalhos onde na bibliografia surgem referências à wikipedia. Umberto Eco deu uma entrevista sobre alguns dos malefícios da net. Duvido que tenham eco as suas preocupações.
5. As dissertações de mestrado ressentem-se de tudo isso. A Profª Iria Gonçalves exasperava-se com as nossas falhas nas vírgulas e, no meu caso, com um estilo por vezes pouco académico de escrita. Se ela soubesse como isto está agora...
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Conclusão: quando, no outro dia, contei aos meus alunos que no Mestrado em História Medieval da Universidade Nova tínhamos apenas quatro seminários (dois por ano!) fui olhado com a curiosidade de quem vê uma espécie em vias de extinção. Estarei a ficar velho?
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Bolonha não tem culpa de ter dado o nome a um aborto. Estas são as mais célebres torres medievais da cidade.

MÉRIDA

A avaliar pela ausência de comentários, a matéria fotográfica não é a que mais interessa a quem passa aqui pela Avenida. Menos mal que o autor do blogue gosta de fotografia.
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Esta tem uma pequena história: na Primavera de 2002, em plena "crise criativa", e a um passo de abandonar o projecto de tese, fugi para Mérida durante quatro dias. Para quem se interessa pelo passado islâmico é assim meio contraditório ter passado tantas horas dentro do Museu Romano. Mas precisava do silêncio e de um sítio fotogénico para me servir de pretexto. Esta fotografia foi das últimas a serem feitas. Já só me restavam rolos de baixa sensibilidade (salvo erro, o Delta 100). Resolvi testá-los, e à velha Nikon FM2, enquanto esta vigilante do museu se passeava para trás e para a frente. A definição, e a própria fotografia, não são nada por aí além, mas a sombra do gradeamento dá algum dramatismo à imagem.
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Sobre o Museu de Mérida, um belo projecto de Rafael Moneo (imagem em baixo, do blog uma espécie de coiso) ver:
http://museoarteromano.mcu.es/
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quarta-feira, 17 de fevereiro de 2010

ORNELLA VANONI

No outro dia, uma amiga, das mais antigas e queridas, acusou-me de "grande sentimentalão". Um manifesto exagero. No entanto, e à boleia disso, aqui fica este êxito com 40 (quarenta) anos, do Ornella Vanoni (n. 1934). A canção surge quase no fim do filme Ocean´s Twelve. É bem bonito este encontro. Mesmo se a Ornella parece, com aquele penteado, a Angela Davis em versão branca.
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ANIMAÇÃO NÃO VAI FALTAR

Por ordem alfabética temos:
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Aníbal Cavaco Silva
Fernando Nobre
Manuel Alegre
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Ainda falta o candidato do PCP. E falta saber se o Bloco apoia mesmo Alegre ou avança com candidato próprio.
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Para já:
Cavaco Silva leva vantagem, mesmo sem se mexer muito. A candidatura de Fernando Nobre é a versão soarista-2010 da velha canção "A vingança serve-se fria". Alegre não vai lá, e com o apoio do Bloco menos ainda. O eleitorado do grande centro não vai muito com o estilo pregador televisivo de Louçã. Preparem-se que o ano vai ser longo. E que isto vai ser giro, vai...

VEJAM ATÉ AO FIM...

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TIREM DEPOIS AS CONCLUSÕES.

terça-feira, 16 de fevereiro de 2010

NUNO FERRARI

Chamava-se Nuno Ferreira, mas ficará para a posteridade como Nuno Ferrari. Nasceu em 1935, faleceu em 1996, foi jornalista de A Bola e era um extraordinário fotógrafo. Vi-o muitas vezes, na Luz, em Alvalade, no Restelo, correndo literalmente atrás das jogadas e fotografando com uma enorme classe. Muitas das melhores imagens do nosso jornalismo desportivo são dele.
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A mania da fotografia - uma mania que só ofende as finanças caseiras - devo-a a uma exposição de Nuno Ferrari, em Moura, na Festa de Nossa Senhora do Carmo, em 1970 ou em 1971. Retenho dessa mostra uma extraordinária imagem de um jogo entre o Sporting e o Benfica. Dois jogadores disputam a bola, que tentam cabecear. Na fotografia estão só eles, captados da cintura para cima, sobre um fundo de chapéus de chuva negros. Todo o esforço, toda a vontade de vencer, naquele dia de chuva intensa, couberam no enquadramento magistral de Nuno Ferrari.
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Juntamente com esta fotografia de Eusébio, no Mundial de 1966, fica uma recordação da King Regula, a máquina que o João tinha comprado em Angola e que, às vezes, me deixava experimentar. Era um aparelho simples, mas com um belíssimo fotómetro e com uma lente de fazer inveja a muita sucata que por aí anda.
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CIDADE ALFACINHA

A peça já não está em cena, mas não é essa a questão que agora interessa. A Cornucópia apresentou no S. Luís a peça A cidade, uma colagem de textos de Aristófanes, um autor que viveu há 2500 anos. A cidade é alfacinha, porque há contornos claramente lisboetas na adaptação. A cidade é também portuguesa (e universal), porque as preocupações com o governo da polis não mudaram e porque há temas que permanecem espantosamente actuais. Sobretudo, porque a utopia da cidade perfeita nos persegue. 2500 anos e nem uma só ruga. Uma peça de Aristófanes entra agora na bicha das leituras: Assembleia de Mulheres, na qual elas tomam o poder.
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A Cornucópia rejuvenesceu-se, integrando no elenco jovens estrelas do universo televisivo. O resultado é positivo, embora o tom revisteiro (quase tenho vergonha em confessar que sempre abominei o género) seja exagerado.

domingo, 14 de fevereiro de 2010

LIVRARIAS DE PARIS

O mundo muda a cada instante. Muitas vezes gostamos da mudança. Outras vezes nem por isso. Mantenho fidelidade incondicional às livrarias. É das poucas fidelidades, para além do SLB, que me atrevo a jurar. Gosto das livrarias que não mudam. Nem de rua, nem de arrumação, nem de funcionários. E que ficam assim para a eternidade. Conheci em Paris várias livrarias dessas, em especial entre 1997 e 2005, onde as minhas finanças se afundavam, sem pena nem arrependimento. Continuo a comprar livros de História, de Fotografia e de Arte. Mas alguns dos sítios não têm o mesmo charme.
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As Presses Universitaires de France fecharam, já há anos, a livraria do Boulevard Saint-Michel. É agora uma casa de roupas. A Maisonneuve et Larose, cujo catálogo de estudos islâmicos fui comprando ao longo de anos, está devoluta. Parece que vai ser um restaurante. Tinha a divertida particularidade de nunca ter facturas como Deus manda. Davam aos clientes um papel manhoso, com um carimbo. Acho que aquilo não valia nada, mas sempre me servia para a contabilidade doméstica. Mas a minha preferida era a Geuthner, na Rue Vavin, uma antiga casa editora em cuja livraria se amontoavam livros antigos, velharias, raridades, preciosidades e uma ou outra coisa recente. Entrava-se por um portão, depois de tocar à campainha. Passava-se um corredor, entrava-se num pátio e empurrava-se a porta. A porta tinha um sininho que anunciava a nossa entrada, porque os empregados eram invisíveis. Tudo aquilo um ar de filme de espiões, ou de livro de Graham Greene. Alguns dos melhores livros de arqueologia islâmica lá de casa são "fruto" de elaboradas pesquisas nas prateleiras da Geuthner. Comprados no meio da conversa com um funcionário, profundo conhecedor dos temas e que se entretinha a dizer mal do patrão...
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A Geuthner mudou de sítio. Não fui lá mas aposto que o charme não é o mesmo. De certeza que não é o mesmo.
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Memória sentimental: a Maisonneuve et Larose era aqui...

sábado, 13 de fevereiro de 2010

CÉU PLUVIOSO

As nuvens são tão espessas que se diriam formarem,
para cá da abóbada celeste, fumo de madeira verde.
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A chuva é fina como limalha de prata,
derramada sob um solo de âmbar.
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Por um momento o sol brilha
como escrava que se mostra ao comprador.
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Agora que a chuva regressou, é altura de recordar este belo poema de Ibn Ammar (século XI), na tradução de António Borges Coelho. Que casa bem com a fotografia de Dennis Stock (1928-2010), com um solitário James Dean passeando numa rua cheia de chuva.

BISSAU III - 25 ANOS DEPOIS

Ainda os reconheceria? Ainda se lembrariam de mim? Estariam muito diferentes? Estaríamos muito diferentes? Os reencontros com o passado nem sempre são felizes e muitas vezes desliguei o telefone quando a marcação do número ía a meio. Até ganhar coragem.
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Bissau trouxe-me, por isso, a recordação de dias felizes. Sim, recordávamo-nos todos uns dos outros. 25 anos depois, 20 quilos mais tarde. Não pertenciam todos à mesma rede social (chamemos-lhe assim) da Faculdade de Letras. Mas a Filomena Miranda, o Domingos Semedo e o Pedro Milaco são os mesmos colegas fraternos, simpáticos e descontraídos de quem guardava as melhores memórias. Tal como o Leopoldo Amado ou a Filomena Martins, que estão em Cabo Verde e que gostaria de rever um destes dias. Em Bissau recuperei o paradeiro de colegas senegaleses e mauritanos de quem perdera o rasto. Costumavam convidar-me - o único europeu numa multidão africana - para ir jantar com eles ao Murganhal, na espécie de república onde viviam. O jantar era coisa para acabar às seis da manhã, a horas de apanhar o primeiro autocarro...
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Não vou, seguramente, arriscar esperar mais 25 anos antes de os voltar a reencontrar. De certeza absoluta.
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sexta-feira, 12 de fevereiro de 2010

SOL

Acabo de comprar o jornal SOL. É coisa que faço raramente. Nunca gostei muito da forma nem de muitos dos conteúdos. A banalidade de espreitar pelo buraco da fechadura, como diz o outro, não me motiva por aí além. Achei, contudo, que comprar o jornal era o mínimo a fazer. Por causa de uma coisa chamada liberdade.
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