segunda-feira, 24 de novembro de 2014

HOMENAGEM AO PROF. LEITE DE VASCONCELOS


Agradeço, muito sinceramente o convite para estar presente nesta sessão. Homenagear os que antecederam as nossas gerações é um ato de justiça, um gesto de reconhecimento e uma atitude que dignifica quem tanto se esforçou e que dignifica também quem promove a homenagem. Cabe aqui uma palavra muito especial ao Dr. Luís Raposo por todo o empenho posto não só nesta iniciativa como em tantas outras que prestigiaram o Museu Nacional de Arqueologia, dando-lhe um lugar de destaque no contexto dos museus nacionais. Igual palavra de reconhecimento é devida ao Dr. António Carvalho, atual diretor do Museu, que tem tido a sabedoria de continuar e mesmo aprofundar a obra do seu antecessor.
   
Saúdo o Prof. Carlos Fabião, com quem partilho esta sessão, arqueólogo de renome e uma das não muitas pessoas que tem refletido e escrito sobre a evolução da arqueologia em Portugal, trazendo a terrenos importantes contributos teóricos. Será dele, certamente, a reflexão mais importante sobre Leite de Vasconcelos, no contexto da presente evocação.

Não sou um especialista na obra de Leite de Vasconcelos, nem sequer um dos seus estudiosos. Poderão então perguntar qual o sentido da minha participação. Como todos nós, considero-me devedor profundo da obra de Leite de Vasconcelos, que me tem acompanhado ao longo de toda a minha vida profissional. Mas, na realidade, aceitei o convite que o Dr. Luís Raposo me fez pelo facto de Leite de Vasconcelos ter exercido a sua atividade num contacto permanente com o terreno, em sucessivas e exaustivas recolhas. O que o fez correr o País de lés-a-lés, contribuindo para um despertar de consciências e para uma recolha de materiais, de informações e de conhecimentos que se viriam a revelar de crucial importância científica e de insubstituível valor para a construção da imagem e para a descoberta de um Portugal que ele ajudou a construir. Mas foi o facto de ser hoje investigador da Universidade de Coimbra e presidente da Câmara Municipal de Moura, no Alentejo, que me levou a participar na homenagem a Leite de Vasconcelos. Por um lado, porque ele esteve diretamente ligado a vários estudos realizados no meu concelho. Depois, porque foi o inspirador direto de uma dissertação de licenciatura – Monografia Arqueológica do Concelho de Moura – do seu discípulo José Fragoso de Lima, que constitui, passadas mais de sete décadas, importante base de trabalho, em termos informativos. Finalmente, porque a presença da História, da Arqueologia, do Património e da Cultura são decisivas para o desenvolvimento dos municípios portugueses. A participação dos investigadores na vida política é tão necessária como a de qualquer outro setor da sociedade.

Recorro ao prólogo de “Religiões da Lusitânia”, obra intemporal e inspiradora. Cito: “em 1892  devia realizar-se em Lisboa a 10ª sessão do Congresso Internacional dos Orientalistas, ao qual eu tencionava offerecer uma memoria sobre as Religiões da Lusitania (…). Afinal o Congresso não se realizou (…)”. O Fundo Monetário Internacional surgiu em 1944, o Banco Central Europeu apenas em 1998. Não podem ser responsabilizados. Mas razões financeiras poderão ter estado na raíz do adiamento, uma vez que em 1892 Portugal teve uma das suas cíclicas bancarrotas. O congresso viria a ter lugar em Geneva, em 1894. Nota à margem: estava inscrito no encontro suiço um português, José Maria Rodrigues, da Universidade de Coimbra, que acabou por faltar.

Esse contratempo não impediu Leite de Vasconcelos de fundar, em 1893, o Museu Ethnographico Portuguez, e de dar início à edificação de um publicação, hoje imprescindível: a revista O archeólogo portuguez, cujo primeiro número é dado à estampa em 1895. Mas é a peregrinação de Leite de Vasconcelos pelo país real, circulando de terra em terra, que se revelará decisiva para a construção do conhecimento e para a estruturação de obras como Etnografia Portuguesa e Religiões da Lusitânia. Esta última é publicada, em três volumes, entre 1897 e 1913. A escrita obedeceu a um critério cronológico, que começa na Pré-História e termina, na prática, no período romano. Apenas as últimas 45 páginas são reservadas às chamadas religiões da época dos bárbaros.

Um dos méritos maiores de Leite de Vasconcelos, do qual todos somos grandes devedores e grandes tributários, foi a sua capacidade de associar os conhecimentos académicos a uma leitura etnográfica dos territórios no seu devir permanente. Os grandes factos da História são seguramente importantes. Mas não mais do que os pequenos objetos do quotidiano, associados às crenças, aos gestos e à cultura de um Povo. A compreensão do método de construção de um templo romano, nas suas proporções vitruvianas, é-nos essencial. Mas não mais do que a leitura da arquitetura tradicional e do que entendimento da ligação do Homem à terra. Foi isso que Leite de Vasconcelos nos explicou, com detalhe, ao longo de milhares de páginas. Foi essa aproximação à realidade que, mais tarde, nos ajudou nos nossos percursos de investigação e na leitura das nossas escavações arqueológicas.

Quando o 25 de abril de 1974 chega, o panorama cultural do interior do País era um deserto penoso. O conhecimento histórico-arqueológico de vastas áreas do território carateriza-se, com algumas honrosas exceções, pela inépcia, pelo acientifismo e pelo amadorismo. Os museus municipais não passavam de armazéns onde, com frequência, se misturavam, sem critério nem leitura, peças da maior qualidade com os óculos já sem préstimo do seu responsável. Isto não é uma figura de estilo, estou a relatar um facto que presenciei há muitos anos, não importa onde.

É o decisivo papel das autarquias, acompanhado por uma imprescindível renovação na Universidade, que vem dar um extraordinário impulso ao avanço da investigação. Recordo que as bolsas de estudo eram, nessa altura, raras e que os apoios à investigação parcos e insuficientes. Constato, com mágoa, que 40 anos depois, regressámos à casa da partida e não falta gente nos centros de decisão que olhe os arqueólogos e os historiadores como sibaritas e dissapadores dos magros recursos da Fazenda Pública.

Nos anos que se seguiram a 1974 muitas autarquias apoiaram projetos de investigação saídos das universidades, a que breve trecho se juntaram os de uma nova geração que então começou a espalhar-se pelo território nacional. Projetos como os que têm, ainda hoje, lugar em Mértola e em Silves, assumiram um decisivo papel de estudo e de divulgação de um obscuro e exótico período islâmico. Os primeiros, e ainda que tímidos, esforços de valorização dessa época, estão presentes nas páginas de O archeologo portuguez, com as leituras e traduções de várias peças de epigrafia e com a divulgação de achados numismáticos. Quase todos esses programas de trabalho se aliaram, depois do 25 abril, a planos de divulgação locais e à valorização do património e da identidade de cada sítio. Tributário de Leite de Vasconcelos é, em toda a sua dimensão, esse esforço de compreensão. Permito-me destacar, e não por estar presente um dos seus autores, o projeto de Mesas do Castelinho, desenvolvido ao longo de duas décadas e meia num inóspito cerro do interior alenetejano. A ligação à comunidade e a integração e apropriação dos resultados de um estudo académico por parte da comunidade local não seriam possíveis sem essa proximidade que tantas vezes acompanhamos nas páginas de Leite de Vasconcelos.

Muitas vezes, o seu trabalho não era de escavação, em termos formais. Mas a sua observação do território e a permanente recolha de peças fizeram que o labor desenvolvido tivesse contribuído para ajudar a construir a coleção do Museu Nacional de Arqueologia. O seu método implicava proximidade: “não só me informei de tudo ou quasi tudo o que em Portugal se tem escrito sobre estes assumptos, (…) mas percorri grande parte do país, a fim de conhecer melhor os monumentos de que tenho de tratar”. Do ponto de vista científico, os objetivos a que se propunha podem ser questionáveis, designadamente pelo seu marcado positivismo – mas nisso, como em tantas outaras coisas, quem nunca pecou que atire a primeira pedra – e depois pela procura, e aqui estou a citar o texto de Carlos Fabião, das “tradições populares como depósito de remotas reminiscências das religiosidades pagãs”.

O trabalho realizado em Mértola nos últimos 35 anos é-lhe devedor. Leite de Vasconcelos aí se deslocou-se várias vezes, disso nos deixando interessantes relatos nas páginas do Arqueólogo Português. Quando, em finais do século XIX, Leite de Vasconcelos chegou a Mértola há muito que o brilho daquela que fôra uma importante cidade dos circuitos mediterrânicos se esbatera: “Mértola está hoje muito decaída do esplendor d’ outr’ora, e só pela sua posição topografica, entre a Betica e a Lusitania, na margem do Anas, e a pouca distancia da foz, se explica esse esplendor, porquanto é terra arida, coberta de lousas tristes, e nua de arvoredo. Todavia passaram ali todas ou quasi todas as civilizações da nossa terra. (…) Alem das investigações que Estacio da Veiga empreendeu, e das poucas coisas que fiz agora, é necessario ainda prosseguir com muito afan no estudo da antiga Mertola, para esta se poder conhecer mais miudamente: há ainda muita cousa enterrada, que é conveniente trazer á luz”. De facto, assim seria. Leite de Vasconcelos ali identificou cerca de duas dezenas de cistas, recolheu uma larnax,  bem como moedas e cerâmicas romanas. Procedeu ainda a uma brevíssima intervenção no Rossio do Carmo do qual nos deixou apenas algumas notas e um croquis. Foi provavelmente nos trabalhos realizados por Leite de Vasconcelos (ou até nos de Estácio da Veiga) que se recolheram as “três vasilhas visigóticas” e as “quatro lucernas paleocristãs” ou ainda a pulseira em cobre com duas cabeças do Museu Nacional de Arqueologia. As 11 sepulturas escavadas pertencem, pela sua tipologia construtiva e pela orientação que apresentavam, ao cemitério da Alta Idade Média que ocupou os terrenos do Rossio do Carmo. Dá-nos um interessante testemunho sobre as ruas da vila: “por toda a vila (…) se encontram a cada passo nos muros, nas ruas, nos edifícios, ora columnas lisas ou com lavores, ora várias pedras de caracter archaico, que revelam a antiga grandeza, e a successiva decadencia”. Foi preciso esperar oito décadas para que os trabalhos arqueológicos naquela vila fossem retomados.

Em 1939, já com mais de 80 anos, ainda acompanhava jovens estudantes pelos campos do Alentejo, publicando textos em desconhecidos periódicos como o “Jornal de Moura”. É, também essa dimensão local e o papel que, indiretamente, teve na arqueologia da minha terra que me faz hoje estar aqui dando modesto testemunho sobre este homem da Cultura.

Há coisas que hoje me continuam a assombrar na obra de Leite de Vasconcelos? Deerto que sim. É notável a sua capacidade trabalho, traduzida numa invulgar organização, que lhe permitia reunir, compilar e interpretar dados. Obras como “Religiões da Lusitânia” são resultado de muitas horas de trabalho de investigação, depois traduzidas nesta síntese. Naquela época não havia computadores pessoais, processadores de texto, digitalizadores ou simples fotocópias. Mesmo as simples máquinas de escrever eram uma raridade. Recordo estas carências tecnológicas para sublinhar o esforço de organização que obras tão monumentais requeriam.

Se me perguntassem qual o aspeto que mais me interessa em Leite de Vasconcelos arqueólogo diria, sem hesitação, que é a ligação que faz entre a História, o Homem, o seu meio e as suas crenças mais antigas. Ou seja, quase todo o segundo volume de Religiões da Lusitânia, na secção que se refere às divindades, às crenças e aos cultos. É uma abordagem quase panteísta, sublinhando o papel das pedras sagradas, dos bosques, dos rios, das fontes e dos pontos estratégicos nas margens do mar. Adquire particular relevo a importância dada às divindades de cada região, sem as quais se torna incompreensível o fenómeno dos santos de expressão local, que emergem na Alta Idade Média e que só um discurso normalizador viria a quase eliminar. Digo quase porque muitas comunidades rurais continuam a venerar santos não oficiais. Leite de Vasconcelos gostaria de saber que coisas assim, vivas e coloridas, se mantêm no século XXI. As páginas dedicadas ao culto de Endovélico, de Atégina ou de Trebaruna não só denotam erudição profunda, como nos ajudam a entender que o registo de materiais feito teve por fim a compreensão e explicação de um fenómeno histórico e social. Esse trabalho facilitaria também a recolha de material epigráfico, que hoje é uma das razões de orgulho do museu que fundou.

Sendo autodidata, e sempre mais preocupado com a interpretação do que os aspetos formais da escavação, Leite de Vasconcelos tinha particular preocupação com o registo dos materiais e de tudo o que observava.

Médico, museólogo, linguista, etnólogo, arqueólogo, Leite de Vasconcelos é, provavelmente, um dos últimos homens do Renascimento do nosso País. O seu espólio conserva-se no Museu Nacional de Arqueologia. O seu exemplo também.

Por tudo isto, pelo esforço, pela tenacidade, pelo exemplo e pela proficiência de Leite de Vasconcelos, necessitamos de reinvestir na Cultura. Com a noção muito clara que esse é, claramente, um dos elementos diferenciadores do progresso e do desenvolvimento. No meio de todas as dificuldades, é também nestas áreas que a nossa atenção se deve focar. A arqueologia e a investigação, que tanto beneficiaram nas últimas décadas, não podem ser abandonadas à sua sorte e à mercê de contabilidades momentâneas. Em nome daquilo que tem vindo a ser feito nas últimas décadas e em respeito pelo legado de homens como Leite de Vasconcelos.

Cortar em bibliotecas em tempo de recessão é como cortar nos hospitais durante uma epidemia, escreveu uma bibliotecária canadiana. Já vi muitos ministros em centros comerciais. Não me recordo de me ter cruzado com algum numa biblioteca, numa livraria ou num museu. O notável trabalho desenvolvido nos museus portugueses nas últimas décadas permitiu-nos dar passos significativos em termos de conhecimento e de divulgação. O subdesenvolvimento cultural é a causa do subdesenvolvimento económico, não o contrário. Grande parte do trabalho desenvolvido no Museu Nacional de Arqueologia nas últimas décadas – falemos deste porque é a este que a memória de Leite de Vasconcelos se liga – não implicou gastos faraónicos. Foi, sim, fruto de atos de gestão cuidados e da inteligente e prestigiante direção que Luís Raposo lhe imprimiu. Contrariamente ao estilo português manifestou em voz alta discordâncias com a tutela. Pagou por isso.

O exemplo de Leite de Vasconcelos enquanto arqueólogo, o seu amor a este nosso querido País, levam-me a sublinhar a convicção de que o caminho passa por uma responsabilização coletiva em torno do Património e da nossa memória coletiva. Enquanto investigador da Universidade de Coimbra e presidente da Câmara de Moura continuarei a lutar por isso. Os trabalhos de reabilitação que, modestamente, temos vindo a concretizar, serão continuados. A arqueologia terá neles a parte que lhe cabe. Temos, nos municípios, a obrigação de respeitar o legado que nos foi deixado. E de o melhorar e transmitir às próximas gerações. É uma ideia que está presente, quase sempre de forma subliminar, nas páginas escritas por Leite de Vasconcelos.

Há um paradoxo, notado por Carlos Fabião, no seu texto: o facto de ter conhecido o País a partir de Lisboa, tendo sido um “centralista que produziu uma obra incontornável para qualquer estudo de índole local ou regional”. Desconfiava da capacidade e da competência dos agentes locais. Por isso, diz Fabião, Leite de Vasconcelos não é hoje popular. Permito-me discordar, acentuando o paradoxo. Foi justamente o seu centralismo que salvou, decerto, muita informação e sem ele muita coisa teria desaparecido. Mas isso não é, agora, justificação para um regresso ao passado.

Ao contrário do que recomendam as regras, e escritores como Ernest Hemingway insistiam neste tópico, usei abundamente os adjetivos ao longo do texto. Não foi um lapso, foi um gesto deliberado. Foi uma forma de valorizar o que Leite de Vasconcelos nos legou e de sublinhar a importância do seu labor. Em 2016 assinalam-se os 75 anos do seu desaparecimento. Esta iniciativa prova que Leite de Vasconcelos permanece vivo e bem presente para todos nós. Celebrando-o, celebramos também o seu amor ao Povo Português. Dignificando a sua memória dignificamos também a memória de todos os que, desde 1974, ajudaram a reconstruir um País e a devolvê-lo ao seu Povo. Povo que canta, nunca se rende, diz uma canção corsa que Michel Giacometti imortalizou entre nós. É importante recordar tudo isto, neste ano em que celebram os 40 anos do dia da libertação.

Santiago Macias
Investigador do Programa Ciência 2008 da FCT (Universidade de Coimbra – CEAUCP/CAM)

Presidente da Câmara Municipal de Moura

OK, pensava que "pronto, já está, nem mais um textinho". Enganei-me. Depois da minha participação, na Assembleia da República, no ciclo de painéis homenageando José Leite de Vasconcelos, tentei "esquecer" a conferência. Nada feito. Um persistente Luís Raposo chamou-me à pedra e obrigou-me a entregar o texto. Sai em breve e aqui fica em ante-estreia. Estou bem acompanhado: Pedro Roseta, Gulherme d'Oliveira Martins, Luís Fagundes Duarte, António Valdemar, Luís Raposo, Carlos Fabião, Simonetta Luz Afonso... Resta saber se eles também acham que eu sou boa companhia...

domingo, 23 de novembro de 2014

JOSÉ NELA - IV

Penúltima visita à obra de José Nela. Neste caso, trata-se de um registo de um (suposto?) grupo de amigos, numa súcia junto ao Guadiana. O sítio é identificável. Trata-se da barca. Está lá tudo. A barca, com barqueiros e tudo. O moinho e o açude. Estão lá seis amigos. E umas pin-ups à moda antiga. De braços no ar, festivamente. Há cisnes negros. E um opel, colado à cena. Zé Nela era um fantástico artista pop, sem o saber. Era um pintor de grande talento e não tinha disso ideia. Não o conheci pessoalmente e tenho imensa pena.


OS.6.AMIGOS.QUE.FOUROM.PASSAR.UMA.PARÓDIA.NO.GUADIANA
29.4.1978

sou livre

Ora bem, aqui vai mais um filme que hoje rejeito, mas que na minha adolescência achava uma obra-prima. A minha querida amiga Zuza defendia mesmo que o Ken Russell era um génio. Ora bem, passava-se isto em 1976, 1977, por aí. Quando temos 14 anos há que dar um desconto a esses entusiasmos. Tommy e I'm free. E Roger Daltrey. Recordações que saltam dos sítios mais recônditos da memória. Vá lá a gente saber porquê...

sábado, 22 de novembro de 2014

ENTRE MINUETES, MINARETES, CIDADES E SONS

Em minarete
Mate
Bate
Leve
Verde neve
Minuete
De luar.

Meia-noite
Do Segredo
No penedo
Duma noite
De luar.

Olhos caros
De Morgada
Enfeitava
Com preparos
De luar.

Rompem fogo
Pandeiretas
Morenitas,
Bailam tetas

E bonitas,
Bailam chitas
E jaquetas,
São de fitas
Desafogo
De luar.

Voa o xaile
Andorinha
Pelo baile,
E a vida 
Doentinha
E a ermida
Ao luar.

Laçarote
Escarlate
De cocote
Alegria
De Maria
La-ri-rate
Em folia
De luar.

Giram pés
Giram passos
Girassóis
Os bonés,
Os braços
estes dois
iram laços
o luar.

Colete
Esta virgem
Endoidece
Como o S
Do foguete
Em vertigem de luar.

Em minarete
Mate
Bate
Leve
Verde Neve 
Minuete
De luar.


Um Alentejo português, o de Dórdio Gomes (1890-1976), o de Almada Negreiros (1893-1970). Évora e, na poesia, outras sugestões do sul. Lembrei-me de Dórdio Gomes, nem sei bem porquê... Ainda por cima, em jovem detestava a sua pintura. Agora já não. Na poesia lê-se uma velocidade que a pintura não tem.

Evocações num dia marcado pelo circuito Moura-Safara-Amareleja. A passagem do tempo, a morte e a paisagem alentejana andaram pelo meu dia.

sexta-feira, 21 de novembro de 2014

UM ELÉTRICO CHAMADO DESEJO...


Agora digam lá que esta gente é de sangue frio...

MOURA: A NOSSA ÁGORA SOCIAL

Depois de um período de pequenas obras de adaptação, está pronto o edifício onde vai funcionar a ÁGORA SOCIAL. O conceito é simples. Tão simples como simples e austeras são as instalações.

A saber:

No piso 0 - uma loja social, da responsabilidade da Fundação São Barnabé, bem como um Banco do Tempo.

No piso 1 - a Comissão de Proteção de Crianças e Jovens e um Gabinete de Apoio à Habitação (integrado por um arquiteto, um engenheiro, um medidor-orçamentista e uma técnica de serviços social).

Repito o que, há meses disse: os desafios são sérios. Tão sérios como o empenho desta autarquia em atacar os problemas.

Inauguração - 27.11.2014 (18 horas)


quinta-feira, 20 de novembro de 2014

O GRANDE MUNDO FEUDAL - AINDA E SEMPRE

1121 dias depois de ter fraturado o osso pélvico (as explicações sobre o facto foram algo difusas) a Duquesa de Alba - María del Rosario Cayetana Paloma Alfonsa Victoria Eugenia Fernanda Teresa Francisca de Paula Lourdes Antonia Josefa Fausta Rita Castor Dorotea Santa Esperanza Fitz-James Stuart y de Silva Falcó y Gurtubay (uf, chiça, bolas!) - entregou a alma ao Criador.

Era cinco vezes duquesa, dezoito vezes marquesa, vinte condessa, viscondessa, condessa-duquesa e condestável, além de ser catorze vezes Grande de Espanha (uf, chiça, bolas!).

Veja-se, mais abaixo, como o grande mundo feudal se perpetua. É por estas e por outras que a direita gaulesa treme cada vez que as ruas são tomadas pela populaça em fúria. As recordações de um certo Bourbon ainda não se desvanceram.




No site: http://www.vanitatis.elconfidencial.com/noticias/2013-10-31/cayetano-la-revista-forbes-ha-calculado-nuestra-fortuna-a-ojo-de-buen-cubero_48809/
¿Por qué es tan difícil cifrar la fortuna de la Casa de Alba?
La Casa de Alba es la más importante de España y no sólo por el medio centenar de títulos nobiliarios que colecciona la matriarca, sino también por su ingente patrimonio. Palacios, castillos, apartamentos, valiosas obras de arte, exclusivas joyas… una colección de incalculable valor del cual no existe un acuerdo. Un debate que continúa hoy día, desde la revista Forbes que acaba de estimar su riqueza en 3.000 millones de euros –una cifra redonda- y el propio Cayetano Martínez de Irujo que la considera más modesta.
Esta infinidad de propiedades han ido pasando de generación en generación. Ahora están protegidos por la Fundación Casa de Alba constituida en 1975, con los beneficios fiscales que esto conlleva. No todas sus propiedades están amparadas bajo esta sociedad y aquellas que figuran lo hacen por debajo del precio actual de mercado. Es el caso de los dos palacios favoritos de la duquesa, el de Liria (Madrid) y el de Dueñas (Sevilla), que están tasados ambos ellos en casi 17 millones de euros, cuando sólo el terreno sobre el que reposa el edificio de la capital, situado en la calle Princesa, saldría a la venta por un valor veinte veces mayor.
Teniendo en cuenta que los Alba atesoran cerca de medio centenar de inmuebles entre palacios, castillos, pisos y mansiones, la labor de estimación de su patrimonio se dificulta aún más. De la veintena de fortalezas que posee distribuidas por la Península, destacan el castillo de San Vicente del Pino (Lugo), el de San Leonardo de Yagüe (Soria), el de Narahio (A Coruña) o el de Monterrei (Galicia). A parte figuran los nueve palacios de la familia, que la duquesa de Alba ya ha repartido entre sus hijos como el de Monterrey (Salamanca) que pasó a manos del primogénito o el de Arbaizenea (San Sebastián) que heredó Cayetano o la mansión ibicenca que regaló a Eugenia por su boda con Fran Rivera.
¿Por qué es tan difícil cifrar la fortuna de la Casa de Alba?
La Casa de Alba es la más importante de España y no sólo por el medio centenar de títulos nobiliarios que colecciona la matriarca, sino también por su ingente patrimonio. Palacios, castillos, apartamentos, valiosas obras de arte, exclusivas joyas… una colección de incalculable valor del cual no existe un acuerdo. Un debate que continúa hoy día, desde la revista Forbes que acaba de estimar su riqueza en 3.000 millones de euros –una cifra redonda- y el propio Cayetano Martínez de Irujo que la considera más modesta.
Esta infinidad de propiedades han ido pasando de generación en generación. Ahora están protegidos por la Fundación Casa de Alba constituida en 1975, con los beneficios fiscales que esto conlleva. No todas sus propiedades están amparadas bajo esta sociedad y aquellas que figuran lo hacen por debajo del precio actual de mercado. Es el caso de los dos palacios favoritos de la duquesa, el de Liria (Madrid) y el de Dueñas (Sevilla), que están tasados ambos ellos en casi 17 millones de euros, cuando sólo el terreno sobre el que reposa el edificio de la capital, situado en la calle Princesa, saldría a la venta por un valor veinte veces mayor.
Teniendo en cuenta que los Alba atesoran cerca de medio centenar de inmuebles entre palacios, castillos, pisos y mansiones, la labor de estimación de su patrimonio se dificulta aún más. De la veintena de fortalezas que posee distribuidas por la Península, destacan el castillo de San Vicente del Pino (Lugo), el de San Leonardo de Yagüe (Soria), el de Narahio (A Coruña) o el de Monterrei (Galicia). A parte figuran los nueve palacios de la familia, que la duquesa de Alba ya ha repartido entre sus hijos como el de Monterrey (Salamanca) que pasó a manos del primogénito o el de Arbaizenea (San Sebastián) que heredó Cayetano o la mansión ibicenca que regaló a Eugenia por su boda con Fran Rivera.
Las verdaderas joyas de la Fundación Casa de Alba lo constituyen las valiosas obras de arte que han pertenecido a la familia durante siglos. Estas piezas son las más complicadas de tasar, ya que la constante fluctuación del mercado del arte impide establecer por cuánto se llegaría a vender el Greco, los tres Goya, los ocho Rubens, los tres Tiziano, el Velázquez o cualquiera de las 239 obras plásticas que adornan sus estancias. Al igual que ocurre con los cientos de documentos que obran en su poder y que llenan las estanterías del archivo histórico de la gran biblioteca del palacio de Liria.

quarta-feira, 19 de novembro de 2014

MONÇÃO


Se o Presidente da Câmara de Dhaka, no Bangladesh, se demitisse cada vez que há uma inundação... Vem isto a propósito da reunião de câmara de hoje e de todas as absurdidades que tive de ouvir... Mesmo sem termos tido inundações!


As águas vêm de longe,
trazem o mundo,
os montes a terra as pedras
os bichos e o pólen
as folhas e a luz
a chuva o granizo
e a sede dos homens
o rumor das noites e dos dias.
Rio vivo, quase mudo,
cheio de água
cheio de terra
cheio de tudo.


Poema de Joao Pedro Mésseder (n. 1957)

PODEMOS, MAS PODEMOS POUCO...

Continuam a sentir-se, em Espanha, as ondas de choque, depois da entrevista televisiva de Pablo Iglesias, do movimento "Podemos". Incongruências, hesitações, recuos, falta de respostas concretas, tudo esteve à vista. Pois é... Uma coisa é capitalizar descontentamentos, outra é fazer promessas a torto e a direito, outra ainda é o mundo real. Uma coisa complicada, isto do mundo real. Dá menos "share", menos "sound bites" e mais dores de cabeça.


DOIS MOURENSES

Participei, há poucas hora, no júri da iniciativa MOURENSE DO ANO, promovida pela União de Freguesias de Moura e Santo Amador. Divulgo a informação depois da mesma ter sido publicitada pela União de Freguesias. Os laureados deste ano são Ana Benedita Caro e Francisco José Cravo. Dois amigos a quem felicito, de forma calorosa.



Ana Benedita Ramos Caro, natural da Vila de Amareleja, tem desenvolvido, neste concelho, intensa atividade social e política. Destacamos, em particular, o tempo que dedicou  a um conjunto de iniciativas que resultaram em benefícios para muitas centenas de pessoas. Promoveu a constituição da Moura Salúquia – Associação de Mulheres do Concelho de Moura, entidade que se tem destacado/desdobrado num significativo número de domínios. Foi aberta uma Creche, na Amareleja,  e desenvolvido o projeto para uma outra, em Moura, a inaugurar em breve. Criou-se uma Casa Abrigo destinada a vítima de violência doméstica, e por onde têm passado muitas pessoas em dificuldade.
A Moura Salúquia – Associação de Mulheres do Concelho de Moura tem agora em preparação um novo projeto, destinado à instalação de um lar para a terceira idade na cidade de Moura.



Nasceu em Guimarães, tendo passado a sua infância em Moura e parte da sua Juventude em Portimão. Licenciou-se em Direito na Faculdade de Direito da Universidade de Coimbra. Começou a exercer Advocacia em 1974 e fez toda a sua carreira profissional em Moura, onde se tornou uma referência cívica. Um caminho de cerca de 40 anos, pautados pelo esforço, dedicação, temperança, tenacidade e sentido de justiça, honrando a sua toga,  tendo trilhado um percurso profissional que a todos orienta e incentiva pela qualidade técnica e deontológica da sua prática.
Homem de causas, tem sido um membro ativo do movimento associativo. Além de atleta dedicado ao longo da sua carreira, conduz hoje a Assembleia Geral do Moura Atlético Clube, enquanto seu Presidente, há mais de 30 anos. Preside, igualmente, a Assembleia Geral do Núcleo Sportinguista de Moura, e  desde 2008, à Assembleia Geral dos Bombeiros Voluntários de Moura.

terça-feira, 18 de novembro de 2014

A PROPÓSITO DA LÍNGUA FRANCESA, E DEPOIS DE UMA IDA AOS CORREIOS


Esta manhã, ao enviar uma carta registada para os Estados Unidos, reparei que os avisos de receção são bilingues: português/francês. A língua francesa está hoje, e excetuando alguns resquícios coloniais, equiparada ao latim. Imagino como nos USA olharão para o impresso... Mas os CTT continuam, firmemente, a usar o francês como segunda língua. Em impressos já adaptados ao órrível AO.

Homenageemos a doce língua francesa. Com Gilbert Bécaud e com André Gide, com uma citação conhecida de Les faux-monnayeurs.

Un jour vient où l'être vrai reparaît, que le temps lentement déshabille de tous ses vêtements d'emprunt ; et, si c'est de ces ornements que l'autre s'est épris, il ne presse plus contre son coeur qu'une parure déshabitée, qu'un souvenir... que du deuil et du désespoir.

A Profª. Esther de Lemos deu-nos a ler Gide, nos últimos anos do liceu. As palavras de Gide soam a música.


domingo, 16 de novembro de 2014

FÍSICA ELEMENTAR - POST PARA UM PLÁCIDO DOMINGO

Numa taberna de Moura, pouco depois da chegada do Homem à Lua:

"Que os americanos tenham chegado à Lua custa-me a acreditar. Mas vá, ainda posso aceitar. Agora essa de que a Terra anda... Se a terra andasse onde estariam já a Cadeia Nova e certos olivais que eu cá conheço".

NUDEZ CENTENÁRIA

Retomo um poema, de Robert Graves, que já por aqui andou, para saudar a coragem do projeto fotográfico de Anastasia Pottinger. Que escolheu uma modelo com 101 anos para fotografar. As imagens são de grande impacto e estão no site da artista.

Ver - http://anastasiapottingerphotography.com


The Naked And The Nude

For me, the naked and the nude
(By lexicographers construed
As synonyms that should express
The same deficiency of dress
Or shelter) stand as wide apart
As love from lies, or truth from art.

Lovers without reproach will gaze
On bodies naked and ablaze;
The Hippocratic eye will see
In nakedness, anatomy;
And naked shines the Goddess when
She mounts her lion among men.

The nude are bold, the nude are sly
To hold each treasonable eye.
While draping by a showman's trick
Their dishabille in rhetoric,
They grin a mock-religious grin
Of scorn at those of naked skin.

The naked, therefore, who compete
Against the nude may know defeat;
Yet when they both together tread
The briary pastures of the dead,
By Gorgons with long whips pursued,
How naked go the sometimes nude!

sábado, 15 de novembro de 2014

UMA CIDADE E O SEU MUSEU: 7/20 - NOVA IORQUE

Estive no Metropolitan Museum of Art apenas uma vez. Deu para perceber a imensa riqueza da coleção, a capacidade financeira da instituição (fortemente apoiada pela iniciativa privada, como acontece também em Portugal, como bem sabemos...) e a intensidade da programação. Passei um bom par de horas, logo eu que sou um péssimo visitante de coisas por atacado, dentro do Metropolitan. O museu reflete bem a vibração de Nova Iorque e a sua dinâmica. Achei o ambiente um tanto snobe, mas isso já era de esperar.

Fui hoje surpreendido por uma notícia. Aquela pretty high-brow institution, como lhe chama Adam Pliskin no "Elite Daily" resolveu divertir-se com as fotografias feitas à modelo Kim Kardashian. Como? Comparando o seu generoso traseiro com o de uma estatueta do Neolítico. Os museus são aborrecidos? Não são. São elitistas? Depende das circunstâncias, e disso apenas. Podem ser locais divertidos? Sem dúvida, quando os projetos e as ideias o são.

O seriíssimo Metropolitan Museum vem provar que há espaço para tudo e para todos, mesmo nos locais mais circunspectos.

Sobre a peça do Neolítico (sobre a sô dona KK não vale a pena dar indicações...):
http://www.metmuseum.org/toah/works-of-art/1972.118.104

Tweets do Metropolitan Museum:
https://twitter.com/metmuseum

Site do museu:
http://www.metmuseum.org


PASOLINI: DECAMERON

Primeiro passo na trilogia de Pier Paolo Pasolini. Na altura, há mais de 30 anos, não achei grande graça ao estilo "desconjuntado" dos filmes de Pasolini. O passar do tempo adoçou a sobranceria e ajudou-me a perceber que a poesia se sobrepõe a aspetos formais menos importantes. Em Decameron, emerge a figura maior de Giotto, um autor à procura de completar a sua obra. No meio há de tudo um pouco. A melhor história (digo eu) é a segunda...

Este Decameron, de 1971, é a minha escolha cinéfila da semana.

sexta-feira, 14 de novembro de 2014

LE LION DU FLEUVE MAJEUR

Que é como quem diz o leão de Rio Maior. Estanganhola entrou na História, em 1972. Havia um leão à solta. Deu direito a uma célebre reportagem de Fernando Pessa (v. aqui). Maintenant, que é como quem diz agora, c'est un tigre é um tigre que aparece em Paris. OK, c'est le tigre de la ville lumière. Também soa bem, embora, tal como em Estanganhola, não seja felino nenhum. Mas, ao menos, a malta andou distraída... 


Pintura de Tabary, que não sei se é parente do Tabary do Iznogoud

QUEBRANDO UMA PROMESSA...

Tinha prometido só voltar ao assunto no dia da inauguração. Quebro a promessa. A fotografia foi tirada, ontem à noite (23.34), no Sobral da Adiça. Ao constatar a chuva intensa e persistente que caía por toda a parte, decidi rumar ao Sobral. A obra feita na Ribeira da Perna Seca aguentou o dilúvio e o curso de água não transbordou. Sem esta intervenção (custeada a 100% pelo Município) a noite teria sido bem complicada.

O ESPELHO DA CLASSE DOMINANTE E A RUÍNA DE UM PAÍS

A turbamulta dos tablóides salivou, ao saber do escândalo de ontem. Altos funcionários do Estado envolvidos em escândalos de corrupção? Ena, um verdadeiro pitéu. Não vão faltar as entrevistas de rua, a filosofia de esplanada e os fazedores de opinião.

Disse a um colega, hoje de manhã "Oxalá sejam pistas falsas e tudo isto não passe de um enorme equívoco". Ante a surpresa dele, reafirmei "O pior que pode acontecer ao nosso País é uma coisa destas; banqueiros sem idoneidade, Portugal aguenta, ainda que com muita dificuldade; pequena corrupção, Portugal aguenta, ainda que a desconfiança tudo mine. Uma coisa destas, implicando o coração do Estado, somada a outros escândalos recentes, é uma catástrofe. Para todos nós. Assim vamos ao fundo. Arrastados pela atuação de quem está à frente dos nossos destinos".

Como dizia outro amigo meu "este é o espelho da nossa classe dominante".

quinta-feira, 13 de novembro de 2014

UNITED WORLD COLLEGES

Divulgação de uma iniciativa que considero de grande interesse: as candidaturas à rede internacional dos United World Colleges. Todos os anos esta organização atribui bolsas para estabelecimentos de ensino na Europa, na América, na Ásia e em África.

É menos improvável do que parece. E mais aberto do que se imagina. Sei de duas jovens do interior alentejano (uma de Safara, no concelho de Moura, outra de Mértola) que beneficiaram dessas bolsas. Ou seja, a interioridade geográfica não é fator de exclusão.

As vagas para estudantes portugueses são, neste ano, para os colégios da Arménia (2), dos Estados Unidos, da Costa Rica, de Inglaterra e da Suazilândia.

Os prazos e as condições de candidatura estão em http://pt.uwc.org.

quarta-feira, 12 de novembro de 2014

VELHOS, E CADA VEZ MAIS ESQUECIDOS, MÉTODOS DE TRABALHO

Ao passar, há tempos, na Biblioteca Nacional, dei-me conta que ninguém, ou quase ninguém tomava notas à mão. Havia, por todo o lado, tablets, ibooks, pc's, gadgets eletrónicos de todo o tamanho e feitio.

Sentei-me, quase envergonhado, e puxei de um maço de fichas (mod. 2 da papelaria da Faculdade de Letras de Lisboa, em formato A5). Uso o mesmo modelo de ficha há mais de 30 anos. São vários milhares e estão arrumadas em caixas, de acordo com critérios vagamente mágicos... Uma amiga classifica o espólio, de modo sumário e vexatório, como "aquela lixeira".

Saí da Biblioteca com mais umas dez fichas, pudicamente escondidas dentro de uma capa. Aqui vão exemplos antigos, com um antes e um depois. Já tentei trabalhar num estilo mais século XXI. Nada feito. Continuo fiel às minhas fichas. 


segunda-feira, 10 de novembro de 2014

VAZIO LEGAL

Vistos de fora, devemos dar um ar patusco de nós próprios. Temos coisas únicas e que devem fazer qualquer norueguês morrer de inveja. Uma das nossas características mais divertidas é o imperativo de legislar sobre tudo e mais alguma coisa. Dois exemplos do dia de ontem, a partir do site do Diário de Notícias:

Os pilotos da aviação civil são alvo de ataques com laser, levados a cabo por vândalos sem nome? "[há] a necessidade de se tipificar na lei (criminalização) estes comportamentos, uma vez que há um vazio legal".

Há um surto de legionella e há equipamentos sob suspeita? "Vazio legal impede ficalização da qualidade do ar em edifícios, diz associação [Portuguesa da Indústria da Refrigeração e Ar Condicionado]".


Todos os dias há um grupo, uma associação, uma organização que vem agitar o bendito vazio legal. Muitas vezes preenche-se o vazio. Com mais uma extensíssima lei, com longos e intrincados articulados, cheios de obrigações e imposições. Cada vez que ouço dizer "a legislação foi alterada" sinto um estremecimento. Fica sempre pior, menos legível e com escassa probabilidade de cabal cumprimento. Sei do que falo, posso garantir.