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quinta-feira, 2 de abril de 2026

FIDEL CASTRO

 “Quanto mais o tempo passa, mais cresce a minha admiração por Fidel Castro. Pela coragem, pela capacidade de resistência, pelo desafio, pela tentativa de criação de um modelo alternativo, por ter criado em tantos de nós a ideia de que a utopia era possível. E quanto mais vejo tantos políticos de pantufas, acomodados e sem uma chispa de entusiasmo ou de imaginação, mais essa admiração cresce”. Escrevi isto em dezembro de 2024. Mais o escreveria agora.

No dia 8 de janeiro de 1959, Fidel Castro entrou em Havana. Triunfava um dos mais improváveis sonhos do século XX. Há uma célebre fotografia do desfile triunfal, onde estão Che Guevara, Fidel Castro e Camilo Cienfuegos. Cienfuegos morreu poucos meses mais tarde, Che faleceu em 1967, Fidel em 2016. A revolução perdeu a sua aura romântica? Sim. Teve momentos e atos com não concordo? Sim, sem dúvida. Mas nunca deixará de nos fazer sonhar. E veio mostrar que a vontade dos povos deve ser mais forte que o imperialismo.

Poucos meses depois desse desfile, em abril de 1959, Castro foi visitar os Estados Unidos. Eisenhower não lhe passou cartão (“esnobou” dizem os brasileiros, e a palavra é fantástica) e foi jogar golfe. O resto da História é conhecida, porque essa viagem se revelaria decisiva. Pico, plagio, copio, sem vergonha e com orgulho, dois excertos de um magnífico texto publicado por Miguel Urbano Rodrigues no “Avante!” e no “Granma”, em 2006. Um texto sem rugas e pleno de verdade:

“A Revolução Cubana configura um desafio à lógica da História. Assim aconteceu com Moncada, com a aventura do Granma, a luta na Sierra, e o choque posterior com o imperialismo norte-americano. A decisão de resistir e a coragem do povo cubano no combate que confirmou ser possível a resistência serão recordadas pelo tempo adiante como acontecimentos épicos da História da humanidade.

Não há calúnia mediática que resista à prova da vida. Definir como ditador um dirigente amado por um povo que governa há quase meio século é um absurdo maldoso. O consenso entre o governante e a sua gente ridiculariza a diatribe forjada pelos seus inimigos”.

O que Cuba fez, ao longo de décadas, foi um combate extraordinário de David contra Golias. O rejeitar a ilha-paraíso-bordel dos vizinhos do lado e o tentar construir uma realidade alternativa. O percurso não foi isento de contradições, nem de erros.

Depois de seis décadas de um bloqueio ilegal (e isso que importa, para quem é a justiça a oeste de Pecos?), o sufoco torna-se quase total. Algo irá mudar, nos próximos tempos. Não será nada de decente… Ter estudado História é, neste caso e assim suponho, uma vantagem. Porque nos remete para o passado e nos dá uma leitura mais abrangente das coisas. E a história recente da América Latina é um longo estendal de ingerências americanas e uma longa luta entre liberdade e opressão. E onde há fome e não há educação nem cuidados de saúde, não há democracia e não há liberdade. Há, em tudo isto, um sim e um não.

É por isso que estou com Lula da Silva e com João Goulart e não com Jair Bolsonaro ou com Costa e Silva. Sim, mil vezes sim, com Chávez e jamais com Pérez Jiménez (cujos esbirros acabaram como acabaram...) ou com Andrés Pérez. Sim com Salvador Allende e nunca com Augusto Pinochet. Sempre com Juan José Torres e com Evo Morales e nunca com Hugo Banzer. Sempre com Rafael Correa e nunca com Lenin Moreno. Sim a Velasco Alvarado e não a Morales-Bermúdez.

Quanto a Fidel Castro, a sua luta perdurará. Sabiamente disse, há quase 73 anos, “a História me absolverá”. Não só já o absolveu, como reconhecerá muito mais que isso.

Crónica em "A Planície"


domingo, 1 de março de 2026

O TURISMO E OS OUTROS, QUE SOMOS NÓS

“Olha para isto! Olha para isto!”, acotovelava-me Cláudio Torres. Andávamos algures entre a cidade antiga de Tânger e a zona nova. Era perto da hora do almoço e uma multidão de gaiatos saia da escola. Uma torrente de juventude e de alegria varria as ruas da cidade marroquina. “Já viste? Isto lá já acabou. São estes é que nos vão salvar”. Vivia-se o verão de 1999 e tanta juventude (só veria algo semelhante, anos mais tarde, na Guiné-Bissau) começava a rarear por cá. Aquela frase “são estes é que nos vão salvar” só anos mais tarde me faria total sentido, mas o Cláudio sempre teve aquela particularidade de ver muito longe.

 

Nos tempos de juventude, gostava de vagabundear, solitariamente, horas a fio, pelos bairros antigos de Lisboa. Corri, muitas vezes, as ruas de Alfama. Ao ali regressar, em 2021, para me fixar no meu local de trabalho (no limite entre Alfama e a Graça) constatei, com consternação que a cidade antiga quase morrera. Crianças não há, os velhos são poucos, os portugueses uma raridade. Há alojamento local, há turistas, há edifícios em obras. Os operários são, maioritariamente, imigrantes. As coletividades definham, as velhas tabernas desapareceram para dar lugar a tretas de “wine and food”. O génio do lugar desapareceu e não voltará.

 

Ao passar, há dias pela Rua de S. João da Praça, entrei no túnel do tempo. Recuei 30 anos. Conduzia um grupo de amigos franceses, mais velhos, pelas ruas de Alfama. Ao acaso, ainda não havia lojas para turistas e eram poucos os “restaurantes típicos”. Em plena rua estava um grelhador com sardinhas. O cozinheiro não estava à vista. E ei-lo que sai, quase em passo de corrida, do seu estabelecimento, de tesoura ainda em punho, para, num golpe rápido, mandar uns borrifos de água para o grelhador e virar as sardinhas. Era o barbeiro que, no meio do atendimento, preparava o almoço. Depois regressou, para dentro da barbearia, no mesmo passo rápido.

 

Os amigos franceses ficaram extasiados, como os grupos de excursionistas sempre ficam, quando desembarcam em sítios longínquos e exóticos e veem coisas que, nos países civilizados, fazem parte dos livros de histórias.

 

Não podemos, seguramente, desejar um mundo congelado no tempo. Muito menos podemos pensar que seria conveniente que não houvesse turistas. Era só o que faltava. Mas a verdade é que esta avalanche, sem a contrapartida juvenil que África ainda tem, levou tudo à frente. Por aquelas bandas ficámos sem os sítios que são o espelho de nós próprios. E que são a nossa identidade. Como a taberna com colunas de ferro forjado onde acabei por almoçar com o grupo gaulês, perto do Chafariz d'el-Rei. Passei por lá há semanas. O sítio tinha vestido um ar sofisticado. Não entrei. Fui afogar as mágoas prandiais do “Pitéu da Graça”, onde os turistas ainda não chegaram em avalanches. Não servem pizzas, nem lasanha, nem hambúrgueres, nem tacos, nem sushi. Só coisas decentes, como vitela no tacho, filetes de peixe galo, petingas fritas, bacalhau com todos...

 

Fico sempre a pensar quanto tempo mais teremos sítios assim. E quando é que, à força do turismo, passaremos, de vez, a ser apenas os outros.


Crónica em "A Planície"







segunda-feira, 2 de fevereiro de 2026

EL SUR

Crónica hoje, em "A Planície":

Ao regressar ontem à noite a casa, no meio do frio e de uma bátega que se abatia sobre Lisboa, recordei-me – quase sem saber bem porquê – de um bilhete-postal de Sevilha. Não de um bilhete-postal qualquer, mas de um que se vê, em dado momento, num filme. Sevilha, o sul e o sol são, em “El sur”, de Victor Erice (1984), uma imagem distante e mítica. O local onde alguém nunca regressou.

Neste filme pouco vulgar conta-se a história de uma miúda fascinada com o passado do pai e com o sul. Ambos se misturam. O filme passa-se no norte e as paisagens meridionais surgem em bilhetes-postais, que nos dão uma visão da distância que acentua o seu onirismo. A música é de Enrique Granados e não podia haver melhor acompanhamento para aquele desfilar de postais coloridos. Que sugerem mistério, distância e nostalgia. Deveria ter sido rodada uma segunda parte, onde todo o mistério da vida do pai no sul seria desvendado. O sucesso do filme, e dificuldades financeiras, inviabilizaram a rodagem da continuação. Há males que vêm por bem e tom de mistério manteve-se. Sempre gostei de filmes onde as miragens nem sempre se concretizam e onde podemos olhar o mundo imaginado um pouco à distância. El sur é uma peça de artesanato, bela e única. Tenho pelo filme uma intensa paixão, que ainda hoje se mantém.

 E ”sul” é uma palavra mágica. Como neste filme de Erice, como no conto de Jorge Luis Borges, que funciona como um túnel do tempo, como em “Viagem em Itália”, de Rosselini, onde as imagens do sul são o cenário de uma reconciliação, como no filme mal compreendido e mal avaliado Sammy going south, de Alexander Mackendrick. E que é a história de um rapazinho que corre todo o continente africano em busca do seu sul.

Cine Arcadia é o nome da sala de cinema que aparece no filme de Victor Erice. Arcadia remete-me para Reviver o passado em Brideshead e para todos os momentos de Arcadia. E para Juan Ramón Jiménez, que escreveu “Mi plata aquí en el sur, en este sur, / conciencia en plata lucidera, palpitando / en la mañana limpia, / cuando la primavera saca flor a mis entrañas!”.

Daqui a pouco, já faltou mais, chega a primavera. Haverá romarias e a Feira de Abril, em Sevilha. Haverá a feira de maio. Haverá o sul, que me falta todos os dias. Em especial nas noites como a de ontem, de chuva e frio e com uma tempestade de nome apropriadamente nórdico.





segunda-feira, 5 de janeiro de 2026

CRÓNICA DO TEMPO, EM VERSÃO FERROVIÁRIA

Em 14 de janeiro de 2011 (faz agora 15 anos) era anunciado que Beja iria perder a ligação direta a Lisboa. Nesse mesmo dia, o Grupo Parlamentar do PCP apresentou, na Assembleia da República, um Projeto de Resolução sobre a manutenção do serviço intercidades Beja-Lisboa-Beja. O documento foi rejeitado pelos votos contra do PS e as abstenções do PSD e CDS/PP. Os deputados Pita Ameixa e Conceição Casanova estavam no grupo que votou contra. Em fevereiro desse ano, o mesmo Pita Ameixa diria que "tem de haver um claro compromisso com a qualidade do serviço, com a qualidade dos equipamentos e com a modernização e eletrificação da infraestrutura ferroviária que, diretamente, serve e tem de continuar a servir Beja". Um discurso oco e sem vergonha, em politiquês vazio. A subserviência mais perfeita ao governo de turno.

 

Em 2014, e já com o PSD no Governo, mudavam as “perspetivas”. O presidente de então da concelhia de Beja do PS e mais tarde alcaide da cidade, Paulo Arsénio, pedia à REFER que insistisse "na eletrificação do troço de 64 quilómetros de via entre Casa Branca e Beja, dotando assim a capital do Baixo Alentejo de condições iguais a outras capitais de distrito", assim como uma melhoria substancial da qualidade do material circulante entre Beja e Casa Branca. E concluía, "o PS aguarda, a partir de agora, resposta das empresas em questão, na expectativa que, num curto espaço de tempo, os utentes da Linha do Alentejo possam retirar algum benefício das diligências que concretizámos". Até hoje, só expetativas e nada de benefícios.

 

Em novembro de 2017, dois políticos do PS, Pedro Marques (ministro do Planeamento) e Pedro do Carmo (deputado) diziam, sem se rirem, que voltaria a haver ligações diretas e que iria ser lançado concurso para a aquisição de composições que permitissem a ligação entre Lisboa e Beja. Nem concurso, nem compras, nem ligação direta. Nada.

 

Depois houve estudos, houve avanços e recuos. Foi posto dinheiro no Orçamento e tirado dinheiro do Orçamento do Estado. Era para ser em 2022, depois em 2024, depois fala-se em 2030. A linha do horizonte, em versão comboio. Prefiro não invocar as “obras de Santa Engrácia”, não vá mais alguma maldição cair em cima deste projeto.

 

Chegado a este ponto, só me dá vontade de dizer: “não façam pouco da gente”. Merecemos um pouco mais de respeito. Os políticos do PS e do PSD aqui da região, se não tiveram nada de concreto para dizer, ao menos estejam calados. Não resolvem nada, mas é mais decente.

Crónica em "A Planície".

domingo, 7 de dezembro de 2025

O MELHOR VINHO DO MUNDO

Tem-se tornado quase fastidiosa a chuva de melhores disto e melhores daquilo: a melhor praia, a melhor bica, o melhor pastel de natal, a melhor marisqueira, o melhor por do sol, o melhor trail etc. Um pesadelo de coisas melhores.

Fui, há meses, a uma cidade muito conhecida, um pouco longe daqui. No regresso “foste ao sítio tal? E ao bar xis?” E eu não, nem a um nem a outro, sou pouco de andar em rebanho. E isto agrava-se com a idade.

Qual é o melhor vinho do mundo?, eis a questão. Há vinhos astronomicamente caros, isso sim. Uma garrafa de Romanée-Conti, de 1945, foi vendida por 480.000 euros; uma garrafa do norte-americano Screaming Eagle, de 1992, chegou aos 455.000 euros. Preços obscenos. Ao pé deles, o Barca Velha a 900 euros quase parece uma coisa de saldos.

Não sou grande bebedor – embora já tenha dado jeito a algumas pessoas dizer o contrário… - e também não sou um conhecedor. Gosto dos vinhos de Penedès, dos alentejanos, dos da Beira Interior, dos durienses, dos californianos, de alguns exotismos madeirenses e açorianos e por aí se fica a minha geografia…

Vem isto a propósito do mais extraordinário vinho que bebi até hoje. Fui há muitos anos, mais de 30, na Corte Azinha, uns cinco quilómetros a nordeste da Corte do Pinto, no concelho de Mértola. Várias vezes me tenho perguntado o que esperávamos encontrar, o Miguel Rego e eu, na Corte Azinha. Era inverno e o dia estava frio. A pessoa com quem fomos falar – porque teria informações sobre sítios arqueológicos, mas afinal não tinha nada por aí além... – recebeu-nos com calorosa cordialidade. Era um “homem do campo”. Parecia-me muito velho mas, provavelmente, seria mais novo do que eu sou hoje. Não me lembro da face, mas recordo-me que era magro, morenamente mediterrânico e, porque é que lembro disto?, usava chapéu. Convidou-nos a entrar e fez questão de nos oferecer um copo de vinho. Foi buscar um garrafão, sim!, à maneira antiga, e encheu-nos os copos com a delicadeza e a cerimónia de quem está a servir um Romanée-Conti. Do vinho recordo-me com nitidez, sim, lembro-me do tom carrascão, de marcada rudeza. Mas a simpatia e a boa vontade em nos ajudar fez com que aquele vinho simples se transformasse no melhor dos nectares. A conversa continuou, mansamente, às vezes com poucas palavras, com o gosto de falar de coisas da vida, com o vinho a temperar a manhã fria. Da arqueologia pouco se adiantou, mas o calor do vinho chegou-nos à alma. Tenho-me lembrado muitas vezes desses momentos.

Falei há dias com o Miguel sobre esta nossa improvável expedição. Os anos vão passando e, com firmeza, se me vai vincando a certeza de que aquele foi o melhor vinho que já bebi. Não me falem em castas, nem em “frutados”, nem em “finais prolongados”. Sem o calor humano não há vinhos que valham a pena. Aquele vinho, um pouco áspero, foi o melhor vinho do mundo. Continua, pelo fator e pelo calor humanos, a sê-lo. Até hoje.

A crónica saiu em "A Planície". A fotografia data de 1999 e é de Martin Parr. Intitula-se Reines de la Nuit (sipping wine). É a melhor fotografia de alguém a beber um copo de vinho.


segunda-feira, 3 de novembro de 2025

ERA UMA VEZ UMA MURALHA

A perda de importância militares das localidades fronteiriças trouxe consigo, em especial a partir de meados do século XIX, o generalizado abandono das fortificações. Muralhas e atalaias, quartéis ou estruturas de apoio forma caindo no esquecimento. Uma má prática do Estado, que as crónicas dificuldades financeiras do País agudizaram e um generalizado desinteresse no Património tornaram mais evidente.

 

A expansão urbana das povoações de maior dimensão – como Moura – levou à destruição de muralhas para permitir a abertura de novas ruas. Ou, como no caso extremo da nossa terra, a muralha islâmica foi, quase toda!, destruída, para dela se extrair salitre, necessário ao fabrico da pólvora. Agora digam lá que reciclar é sempre boa ideia...

 

Há muitos anos, ao consultar o imprescindível Tombo da Villa de Moura, no nosso arquivo municipal, deparei com um texto de 2 de março de 1535, no qual se autorizava o fidalgo Jerónimo Correia a tapar parte da muralha do castelo.

 

Quem dava a autorização? O Infante D. Luís, Duque de Beja (1506-1555), segundo filho de D. Manuel e da sua segunda mulher, D. Maria de Aragão. E o que diz o texto, em concreto? Que era dada autorização a Jerónimo Correia para que pudesse “tapar a barbacã da torre quanto diz com a frontaria das suas casas, que estão pegadas com o muro, e plantar nelas árvores; quando for necessário defender a fortaleza, se desocupará a dita barbacã e se lhe dará serventia, sem impedimento; e também dará [serventia] para o povo ver correr os toiros como até agora fazem e para isso fará portas, que depois se encerrarão”. Atualizei o português, naturalmente, para mais fácil compreensão.

 

O alvará do infante D. Luís tem, a vários níveis, informações relevantes:

 

·      A barbacã [muro mais baixo em frente ao muro principal do castelo] já não tinha utilidade, o que permitia que fosse desativada e lhe fosse dada uma nova função;

·      Como a vila tinha crescido em direção a sul, uma parte da muralha, que corresponde ao espaço hoje ocupado pela “Casa das Nunes” e por edifícios municipais, perdera importância em termos militares;

·      Ou seja, é provável que correspondesse a um edifício situado algures nessa área a referência feita no texto de 1535;

·      A privatização de muralhas e de espaços públicos estava longe ser uma situação inédita, mas esta contratualização tem dados curiosos;

·      Em primeiro lugar, a autorização para plantar árvores, estando associado a este acordo a obrigação de desocupar o espaço [Jerónimo Correia sabia perfeitamente que isso não iria acontecer];

·      Em segundo lugar, assume-se que há um uso misto do espaço e que a população continuará a usar a barbacã para ver correr os touros;

·      Em terceiro lugar, iriam ser construídas portas: por um lado para que o espaço não ficasse sempre aberto, por outro para impedir que o fidalgo o entaipasse, ficando dele pleno proprietário...

 

No desenho de Duarte Darmas, feito cerca de 1510, vemos, da esquerda para a direita, o Convento do Carmo, a barbacã com árvores e a Santa Comba. Não me custa admitir que fosse essa a zona onde Jerónimo Correia tinha as suas casas. O mesmo é dizer que era aí, na esplanada em frente à Santa Comba, que se corriam os touros, para gáudio da população. Não dá para se dizer que foi a primeira praça de touros de Moura, mas dá para ver que há tradições que são antigas e que vêm de muito longe.

Pequenas histórias de uma grande terra.

Crónica em "A Planície".

segunda-feira, 1 de setembro de 2025

DUAS OU TRÊS COISAS SOBRE "O INTERIOR"

No verão de 2020 trabalhei no levantamento fotográfico de agências da Caixa Geral de Depósitos situadas em 156 concelhos (todos os distritos do Continente, mais as ilhas da Madeira, Faial, Terceira e São Miguel). Um trabalho intenso, planeado com rigor quase militar. As fachadas dos edifícios tinham de ter luz plena, o que me obrigava a um esquema rígido. Um dia comecei às 8h 30 em Viana do Castelo para depois fotografar, sucessivamente, na Póvoa do Varzim, em Vila do Conde (um “filme” inesquecível, num caótico dia de feira), em Valongo, em Fafe, em Felgueiras, para ir terminar a jornada em Anadia. Antes de retornar a Mértola. Fotografar no Funchal foi um blitz: apanhar o avião às 7h., tomar um táxi para o Lido, fotografar, regressar à baixa, voltar a fotografar e regressar ao aeroporto para estar em Lisboa antes da hora de jantar.

Foi um trabalho que me deixou inapagáveis marcas emocionais, e que já motivaram um texto, neste mesmo jornal. À medida que aquelas jornadas decorriam, aumentava a minha perplexidade sobre a palavra “interior”. É difícil dizer que Portugal tem “interior” quando os concelhos mais afastados do litoral, como Idanha-a-Nova, por exemplo, estão a pouco mais de 200 quilómetros de Lisboa ou do Porto. Mas é fácil pensar em “interior” quando vamos a Castanheira de Pera, a 30 quilómetros de Coimbra, ou a Ferreira do Zêzere, a pouco mais de 100 quilómetros da capital, e é como se tivéssemos mergulhado noutra dimensão.

Agora que o País esteve em chamas, lá veio a ladainha do “interior” e do apoio ao “interior”. Esquecemo-nos que o País está em chamas porque já não há gente jovem e cada vez menos se cuida dos campos, nesses territórios remotos. O concelho mais “interior” que ganhou população, nos últimos censos, é Vila Nova da Barquinha (Santarém), que está a 60 quilómetros da costa. Para dentro, é a desolação. Não há gente, porque o Poder Central abandonou vastas faixas do território à sua sorte. Quando vêm inaugurar feiras, lá vem a revoada de banalidades elogiosas aos autarcas, ao esforço das populações, à autenticidade do país real. “It kills me”, como dizia o personagem de “Catcher in the rye”, quando elogiam a autenticidade. Parece que estão em visita a uma reserva de criaturas exóticas.

O esforço dos Municípios não chega. É claro que estes têm de ter vistas largas. Não podem comprometer o futuro com festas e festarolas, foguetes e concertos. Em tempos (2013-2017) integrei o Conselho Nacional do Ambiente. Um dia, irritado com tanta basófia, disse ao ministro de turno que dava um certo jeito os governantes lerem dois livros que nos ajudam a enquadrar a realidade atual: “A estrutura da antiga sociedade portuguesa”, de Vitorino Magalhães Godinho, e “Portugal, o Mediterrâneo e o Atlântico”, de Orlando Ribeiro. Respondeu, petulante, “é claro que já li os dois”. Não me pareceu que lhe tenha servido de muito a eventual leitura…

Vamos estando assim, em periferias envelhecidas – não tarda muito também contribuirei para isso –, das quais se lembram de tempos a tempos e da quais se esquecem, na primeira curva da estrada, na hora do regresso.

Crónica em "A Planície"


sexta-feira, 1 de agosto de 2025

MIGUEL URBANO RODRIGUES - 2.8.1925

Faria amanhã 100 anos. Deixou-nos na primavera de 2017, pouco tempo antes de chegar aos 92. Miguel Urbano Rodrigues nasceu em Moura, na Quinta da Esperança, bem perto do Ardila.

 

Conheci o Miguel em 1986 ou 1987. Era ele presidente da Assembleia Municipal de Moura e figura prestigiada do jornalismo. Estava eu a começar a minha carreira como técnico na Câmara de Moura. Foi o começo de uma amizade que durou três décadas. “Não me tratas por você”, deve ter sido uma das primeiras frases que me dirigiu. Uma “ordem”, bem ao seu estilo, direto e sem cerimónias.

 

Parte da sua vida está relatada em dois fascinantes livros de memórias (“O tempo e o espaço em que vivi”). Deveria ter havido um terceiro volume, que não sei se chegou a tomar forma. De qualquer maneira, nesses livros, ora sérios, ora pícaros, sempre motivados politicamente, o Miguel relata episódios que, mesmo quando são pessoais, refletem sempre o tempo e o espaço em que ele viveu. E que são um testemunho imprescindível sobre esse tempo. Boa parte da narrativa anda em torno dos jornais e de prática da escrita.

 

A saída do “Diário Ilustrado”, onde era chefe de redação, em 1957 (na sequência de um processo absurdo, que deu brado e passou fronteiras...) acabaria por dar outro rumo à vida do Miguel. Nos anos 60 está no Brasil, onde se tornará editorialista de política internacional de “O Estado de São Paulo”, o maior e mais prestigiado periódico da América Latina. Não era lugar para qualquer um... Só deixará o posto em 1974, depois de ter ido à embaixada de Portugal em Brasília. O episódio é relatado bem ao seu estilo (“fomos lá, exigimos os passaportes e pusemos o embaixador [José Hermano Saraiva] na rua”). 

 

Dizia com frequência “numa vida há muitas vidas e num homem muitos homens”, frase que se lhe aplicava na perfeição. O seu percurso foi um somatório espantoso de coisas e de acontecimentos (foi crítico tauromáquico, esteve no assalto ao Santa Maria – facto que Henrique Galvão omite –, militou no Partido Comunista Português durante mais de 50 anos, dirigiu “O diário”, foi deputado, foi comentador televisivo, viveu em Cuba e no Brasil e foi um homem de espírito progressista como poucos). Nunca perdeu a argúcia, o sentido de humor e a capacidade crítica. Temperava tudo isso com uma cultura vastíssima, que se refletia num estilo de escrita elegante e fluido.

 

Repito o que já aqui escrevi sobre ele: “Não perdoava falhas na língua portuguesa, nem a ignorância travestida de saber. Uma vez, apareceu num almoço em que estávamos um arrivista que passara pelo jornalismo e que se “interessava pelo Mediterrâneo”. E que andava “a investigar”. Sentou-se à nossa mesa. Depois de muita conversa, às tantas disparou “ó Miguel Urbano, qual é a diferença entre árabes e berberes?”. O Miguel alinhavou, de mau humor, duas ou três frases sobre a questão. A partir daí, e sempre que nos encontrávamos, recordava “aquele moço é de uma ignorância enciclopédica”.

 

Escrevi quando ele partiu que à medida que amigos nos vão deixando – começo a entrar nessa idade – há uma parte das nossas vidas que fica para trás e há uma parte de nós que já não volta. Senti isso com duas ou três pessoas muito especiais. O Miguel é, será sempre, uma delas.

 

Dele retenho uma frase essencial e cada vez mais importante nos nossos dias: “a pátria do Homem é o planeta Terra”.Foi um homem de corpo inteiro. Chamou-se Miguel Urbano Rodrigues. Foi um mourense ilustre. Amanhã é o dia do seu centenário.


Crónica em "A Planície"


terça-feira, 1 de julho de 2025

A RIUIS ANATIS FLUMINIS EXTREMUM MUNDI UIDERI POTEST

Moura é um exemplo interessante para o estudo da arquitetura militar medieval e moderna. Não que qualquer das suas fortalezas seja excecional, em termos de qualidade do que foi edificado. Não é esse o caso. Mas dão pistas interessantes para a compreensão do sítio e para a sua leitura topográfica.

 

Para uma fortificação medieval do mundo mediterrânico Moura parece um modelo perfeito. Ocupa o topo de um cerro (o do castelo, que ainda por cima tem nascentes no seu interior), está entre dois cursos de água (o Brenhas e o da Roda, hoje quase todo “encanado”), tem terras férteis à sua volta e tem uma linha de muralhas de difícil acesso.

 

A força do sítio medieval de pouco lhe serviu depois do século XVI. Chegou, literalmente em força, a artilharia. Uma realidade que a Idade Média não conhecia, desta forma. Qualquer canhão situado nos espaço em volta do castelo – na zona da Porta Nova, por exemplo ou, muito em particular, no alto da Salúquia – fazia facilmente “tiro ao alvo” em direção ao castelo. Encontrámos, nas escavações realizadas em 2003, vestígios de um desses bombardeamentos, com restos de projéteis por entre os escombros das ruínas. Foi essa fragilidade que levou à construção de uma estrutura militar, hoje desparecida, na Salúquia (ficou o nome, na Rua do Forte).

 

Depois da Restauração houve a necessidade de proteger Moura com novos amuralhamentos. A chamada muralha nova, de que sobrevivem alguns troços (Muralha Nova, Boavista, Santa Catarina, Jardim etc.), foi sendo construída, na segunda metade do século XVII, a partir de um desenho ideal de Nicolau de Langres (que nunca foi executado na íntegra). Muitas casas foram demolidas, para dar lugar à edificação de um sistema defensivo razoavelmente complexo. Adaptada ao terreno, e às urbanizações que já existiam, a muralha de Moura não tem o rigor geométrico de outras. Foi, ao longo dos anos, sofrendo várias destruições. Uma das mais importantes ocorreu em 1707, quando a cidade foi cercada pelo Duque de Osuna. Vários pontos das muralhas, medievais e modernas, foram destruídos. Salvou-se a torre de menagem, porque as freiras do convento do castelo imploraram que não fosse destruída, por poder tombar para cima do local onde viviam as freiras. O torreão virado ao Convento do Carmo escapou por pouco. Recordo um excerto das Memórias Paroquiais de 1758: “para a parte do Carmo tem outra grande torre o castello. E levantando-se no ar metade da torre com as minas que lhe fizerão, cahio sobre a metade que tinha ficado fixa, couza que este povo atribuhe a prodigio da imperatriz do Carmo, porque cahindo fora do muro deyxaria o convento todo arrazado” (…)”. Deverá também datar dessa época a célebre “brecha do jardim”, nome hoje em desuso, mas que faz parte do passado de muitos de nós. A ruína parcial que a igreja de S. João Batista sofreu, em 1708, foi, certamente, um “efeito colateral” dos bombardeamentos e das minagens que o poderoso chefe militar espanhol promoveu.

 

Alguns destes tópicos já foram tema para publicações. Outros serão ponto de partida para trabalhos futuros. A riuis Anatis fluminis extremum mundi uideri potest? Das margens do Guadiana vê-se o resto do mundo? Certamente que sim. Desde que se consiga ver. E se queira ver.


Crónica em "A Planície".



Moura, no desenho de Nicolau de Langres (1657)


domingo, 1 de junho de 2025

IL SIGNORE FAUSTO GIACCONE

Não tenho o hábito de “pedir amizade” no facebook a pessoas que não conheço. A exceção foi, há já uns bons 10 anos, um fotógrafo italiano chamado Fausto Giaccone. A razão era simples: tinha/tenho por ele uma enorme admiração, tanto pelo trabalho fotográfico, como pela atitude cívica.

Os tempos passaram, até um dia me solicitarem uma iniciativa a desenvolver no Panteão Nacional, para comemorar os 50 anos do 25 de abril. A primeira ideia foi celebrar o Povo e a sua presença no Panteão. Houvera um antecedente – com os trabalhos de Artur Pastor – e este era o momento de repetir a ideia, noutro registo. Fausto Giaccone fotografara o processo de ocupações de terras no Couço, em agosto de 1975. Uma reportagem única, a todos os títulos. Entrei em contacto com o fotógrafo através das redes sociais. Resposta rápida e positiva, e o começo de um enorme desassossego. Da exposição – primeiro só a preto e branco, depois também com imagens a cores – se passou para a produção de um catálogo. Escolha de imagens, idas e vindas ao atelier Black Box. Depois não há dinheiro e é preciso procurar soluções… Só o apoio financeiro do Instituto Italiano de Cultura, da Câmara de Coruche e da Junta do Couço permitiu que o livro chegasse ao fim. E ainda, e sempre, o empenho do editor italiano Claudio Corrivetti e da POSTCART, que produziram um catálogo magnificamente impresso.

Na primeira vinda a Lisboa ficou desfeito o “mistério” da rápida aceitação do pedido de amizade. O Fausto pensava que eu era presidente da câmara de MORA, terra onde ele estivera em 1975, e não de MOURA. Bendito equívoco.

A exposição já lá vai (esteve patente entre 7 de maio e 25 de agosto de 2024). O lançamento do catálogo foi em julho, houve uma conversa-debate em setembro na livraria STET e a exposição está neste momento em Coruche. Isto ficou por aqui? Nem por sombras. Há meses telefonou-me um cineasta com ligações a Moura (não a Mora…), chamado Sérgio Tréffaut. Queria pôr-se em contacto com o Fausto, porque estava a organizar uma exposição sobre imagens de fotógrafos estrangeiros em Portugal durante os tempos da Revolução. Assim se fez. “Venham mais cinco” pode ser vista em Almada, e as fotografias do Fausto estão lá.

Este novo projeto foi a oportunidade para reencontrar um homem excecional. Que manteve, ao longo de 40 anos, com os amigos do Couço uma relação fraterna e próxima. Constatei isso no reencontro de julho de 2024. Celebrámos este percurso há dias, num restaurante nas avenidas novas que lhe causou impressão muito favorável, no ano passado. É um sítio de comida tradicional, ambiente familiar e clientes 100% portugueses. Suspirou na altura “non abbiamo più questo a Roma” (já não temos disto em Roma)

Do alto dos seus 81 anos continuou a falar com entusiasmo dos projetos futuros, da esperança no futuro, na convicção que o fim da História não será “este” dos tempos que vivemos. No final disparou-me um “sei sempre combattivo” (és sempre lutador), uma frase que não é coisa pouca, vinda de quem vem. Soube-me a condecoração.


quinta-feira, 1 de maio de 2025

VIVA SALAZAR???

Foi esse comentário de um mourense nas redes sociais que me chamou a atenção. Viva Salazar!, alguém escreveu. Viva Salazar! Claro que viva. Viva Salazar, o que lançou toda uma juventude para o braseiro das guerras em África. Viva Salazar!, sobre quem pesa a morte de 10 mil militares portugueses, que pereceram nessas guerras, “mortos ao serviço da Pátria”. Viva Salazar!, o da PIDE, o dos campos de concentração do Tarrafal e de S. Nicolau. Viva Salazar!, o que prendeu dezenas de milhares de pessoas por razões políticas. O que cortou vidas, que expulsou do Ensino Superior gente distinta, que mandou matar pessoas às mãos cheias (os entusiastas de Salazar saberão quem foram Catarina Eufémia, Bento Gonçalves, Humberto Delgado, José Dias Coelho?). Viva Salazar!, o melífluo que chegou a catedrático sem ter defendido uma tese de doutoramento. Viva Salazar!, o que empurrou para a emigração em França cerca de um milhão de portugueses. Viva Salazar!, o que empurrou os nossos compatriotas para os “bidonvilles”. Viva Salazar!, o tacanho, que promoveu e manteve a Censura, a tal que proibia jornais, livros, filmes e peças de teatro. Viva Salazar!, pois claro. Viva a taxa de analfabetismo de 26% em 1971 (3% em 2021). Viva a Educação do fascismo, em que o Ensino Superior era só para alguns: 49.500 estudantes no Ensino Superior em 1971 (433.000 em 2021). Viva a taxa de mortalidade infantil de 52 por mil em 1971 (4 por mil em 2021). Viva Salazar!, o que deixou um país atrasado e sem infraestruturas. Viva Salazar, mais a taxa de cobertura de esgotos de 17% em 1971 (86 % em 2021). E mais a taxa de cobertura de rede de águas ao domicílio, que era de 40% em 1971 (96% em 2021). Viva Salazar!, e todos estes exemplos do país atrasado e sem condições que nos deixou. Viva Salazar!, mais uma Saúde que era pior, mas muito pior!, do que é hoje. Viva Salazar!, mais um Portugal em que havia 94 médicos por 100.000 habitantes (564 por 100.000 habitantes em 2021). Viva Salazar!, cujo regime garantia, em 1971, 66 anos de esperança de vida (82 anos em 2021). Viva Salazar!, pois claro! Tantas razões que há para celebrar o regime fascista, não é verdade? Ah, mas havia respeito e era tudo gente séria! Então não era... Podemos começar pelo escândalos de pedofilia nos anos 60. E podemos continuar com a promiscuidade entre empresas e Estado. Com a “pequena” diferença que era tudo abafado e trabalhado às escondidas. Viva Salazar? Repito o que já aqui escrevi: poderia falar no número de gimnodesportivos, na prática desportiva, nos equipamentos culturais, no ensino da música, na investigação científica, na qualidade das publicações universitárias, no papel do poder autárquico desde 1974. Poderia falar, e detalhar, a melhoria das condições de vida das pessoas.

 

A Democracia é isto: as pessoas poderem dize disparates sem sentido como “Viva Salazar”. E uma pessoa poder escrever o que entende sem ir parar a Caxias, ao Aljube, a Peniche ou ao Tarrafal. Perceberam, caros saudosistas?


Fotografia (Alfredo Cunha): Amadora, antes do 25 de abril

Crónica em "A Planície"


terça-feira, 1 de abril de 2025

EX

Quando terminei as minhas funções na autarquia mourense, em 21.10.2017, tinha precisa noção de que muita coisa iria mudar na minha vida, nos dias seguintes.


Rematei o discurso de despedida dizendo  “continuarei, com toda a convicção a seguir, solidário e solitário, a percorrer os caminhos em que acredito. Com esta minha terra e com esta minha gente sempre no meu espírito e para sempre na minha memória”. Só me vinham à lembrança duas estrofes de um poema de Kavafis “como preparado há muito, (…), / despede-te dela, da Alexandria que se vai embora”. O ato em si, naquela tarde de sábado, revestira-se de momentos da mais completa falta de nível, próprios de quem os organizara. Quando um amigo me comentou o sucedido, ri, encolhi os ombros e perguntei “do que estavas à espera?”. E segui em frente, com Moura colada à pele, para sempre.


Esses momentos foram reavivados ao ler, na imprensa, que “pelo menos 32 presidentes de câmara anteciparam as suas saídas e cerca de metade foram nomeados para cargos públicos em entidades de gestão do território, empresas de gestão de resíduos ou habitação” (Público de 19.3.2025). Quando, nos primeiros dias de 2017, tomei a decisão de não me recandidatar, sabia que não iria para nenhum “cargo”. Nunca tal sucederia, em qualquer circunstância. A decisão, tomada a frio, de regressar à minha atividade profissional, fora a pedra de toque.

Em todo o caso, havia pontos que estavam, para mim, mais que claros:

1.      1. A "saída profissional" de um ex-autarca deveria, em princípio, ser o regresso à profissão de origem. Regressaria à Câmara de Mértola e ao meu trabalho de sempre;

2.     2. A passagem pela vida autárquica não seria trampolim, social ou profissional.

Nunca necessitara da vida política para “trepar”, nem precisava dos cargos políticos para viver. Divirto-me sempre (sim, isto é um pouco “sádico”, eu sei…) quando se aproximam as eleições e vejo o ar de aflição dos que têm no cargo político a sua boia de salvação social (quando não financeira…).

No regresso à “vida civil” quase não tive surpresas: 1) o telefone deixou de tocar; 2) um par de “amigos” e “amigas” afastou-se rapidamente (num caso ou noutro fui surpreendido, noutros nem tanto); 3) aqueles com quem efetivamente contava mantiveram-se, até hoje e, creio eu, assim será para sempre.

O regresso à profissão foi menos fácil do que contaria, e esse foi o elemento de surpresa. Quem “esteve na política” é olhado com uma certa suspeição. A travessia do deserto durou de outubro de 2017 a fevereiro de 2021, mais tempo do que imaginaria. Pelo meio fui escrevendo livros, organizando exposições e regressei à docência na Universidade. Constatei aqui, com amargura, que muitas das coisas que tinham mudado tinham sido para pior. Participei em júris (na Gulbenkian, na Caixa Geral de Depósitos…). Tomei posse como Diretor do Panteão Nacional há quatro anos. Um facto que embaraçou a Câmara da minha terra… Verifiquei, com agrado, com profundo prazer, que continuo a ser bem recebido no meu concelho. Isso deu-me a tranquilidade que, noutras alturas, me faltou.

Foram, profissionalmente, os melhores anos da minha vida? Entre 2005 e 2017, seguramente que sim. A entrega foi total. Um mergulho intenso e sem repetição possível.

Dedico esta crónica a todos os que, solidariamente, estiveram de alma e coração na política. E que não precisaram do cargo como boia de salvação social ou financeira. Os outros, que se preocupem com o próximo mês de outubro. E com o dia em que deixarem o cargo. Porque, na saída, não somos “todos iguais”. Mesmo nada, tenham a santa paciência…

Crónica em "A Planície"


sábado, 1 de março de 2025

O MEU PEQUENO GRANDE MUNDO

“Esta ideia das paisagens originais surgiu-me de imprevisto: escrevi num romance (O Cerco de Cartum) uma frase onde referia que, ao longo da vida, nunca deixamos as paisagens da infância”. Quem o disse foi o escritor Olivier Rolin, quando iniciou o seu “Paisagens originais”. O livro é sobre cinco autores (Hemingway, Nabokov, Borges, Michaux, Kawabata) e nele se explicam os seus percursos, tomando como ponto de partida a influência que as paisagens iniciais tiveram nas suas obras.

 

À medida que o tempo corre firmam-se-me duas convicções, que já passaram por estas crónicas: “a lo largo del tiempo, y cuando empezamos a envejecer, pensamos en volver a los sítios de donde hemos salido” (António Malpica, historiador) e “un hombre sabe que se esta haciendo viejo porque comienza a parecerse a su padre” (Gabriel García Márquez, escritor). Constato tudo isso, agora com mais nitidez. Os últimos sete anos já são mais dos que os que faltam para encerrar a carreira. Algo que encaro sem pressa, nem angústia nem ansiedade. Nem, muito menos, com frustração. Olho, muitas vezes, para as minhas paisagens originais.

 

Olivier Rolin tinha uma parte da razão. Talvez porque as memórias primitivas sejam as mais firmes, há coisas que, absurdamente, me são convocadas à memória. Como o pontão do Arroyo del Albahacar, à saída de Paymogo, que estava sempre infestado de lagartixas. Como as amoreiras na Estrada do Sobral. Como a vereda do Barranco da Cerca. Como a barbearia do Mestre José Salvador, na Ladeira da Salúquia. Muitos dos sítios que fizeram parte dessas recordações mais antigas não existem. Na verdade, o que nós não deixamos é a memória das paisagens originais. Porque os sítios mudam e as terras onde nascemos e onde crescemos já não existem, factualmente. É como se os paradoxos de Zenão fossem aplicados ao urbanismo e aos sítios...

 

A Moura onde nasci já não existe. Ou foi deixando de existir. Ficou e ficará, sempre, o seu “espírito do lugar”. Aquilo a que os romanos chamavam “genius loci”. O que caracteriza cada sítio, que o marca e o identifica (a alegria dos habitantes de uma terra, o tipo reservado dos moradores de outra, o temperamento ácido dos naturais de uma certa localidade), e que é passado, sem que disso nos demos conta, de geração em geração, século após século. Nos meus cíclicos regressos a Moura fui-me dando conta de uma maneira de ser e de estar das pessoas que se vai renovando, com inesperada regularidade. A arte de ser mourense. É nesse registo do dia-a-dia que está o meu pequeno grande mundo. O afastamento físico pode, por vezes, enfraquecer laços ou fomentar o esquecimento. Mas não apaga, seguramente, a memória das pequenas coisas. Ou as recordações de cada rua, de cada esquina, de cada sítio. E isso acontece, a cada regresso. Quando, de forma impercetível, se reconstroem e são evocadas as paisagens de infância.


Crónica hoje, em "A Planície"


sábado, 1 de fevereiro de 2025

O ANDRÉ!, antes que seja demasiado tarde

Não acredito em homens providenciais nem em “salvadores da pátria”. Não vejo, portanto, que as soluções para os problemas, sejam eles quais forem, se possam resumir a uma pessoa. Isto pode parecer contraditório com o título da crónica, mas não é. Apoio a candidatura de André Linhas Roxas à frente da qualificada equipa que sei que ele está a constituir. A chave estará nele e na equipa. E considero que as qualidades técnicas e humanas do André farão dele o Presidente que o concelho precisa. Porquê?

         Porque já basta de protocolos assinados e de projetos que se desenham, mas que daí não passam. Já basta de promessas e mais promessas, do “agora é que é”, “no próximo ano já estará resolvido” e, no final, lá vem mais um carrossel de promessas e de ilusões. E, queridos conterrâneos, de ilusionismo já temos que chegue.

         Oito anos (oito!) de Partido Socialista à frente dos destinos do concelho e pergunta-se: o que foi concretizado, de raíz, por iniciativa da autarquia? A praia fluvial / estação náutica? Uma obra que não resposta a nada e que custou mais de dois milhões de euros. Isto faz sentido? O passadiço na estrada da Amareleja? Um novo centro escolar? O quê mais? Uma Câmara Municipal não é uma agência de eventos nem uma empresa de festas. Tem de ser muito mais que isso.

         O que aconteceu ao longo destes últimos anos não me surpreendeu. A falta de preparação técnica da equipa autárquica, a sua falta de conhecimentos aqui nos trouxeram. As portas abertas que, em 2017, se anunciavam depressa se fecharam. Não há diálogo nem proximidade com os munícipes. Não há projetos de futuro nem se vê nada que ultrapasse o muito curto prazo. Alguém se pode ter iludido. Eu não.

         Daí que seja necessário construir uma alternativa, e depressa. Em 2010, o André era, para mim, o filho do Rodrigo e o neto do sr. Luís José. Contactei-o, pela primeira vez, em Mértola, desafiando-o a voltar a Moura. Foi o começo de uma boa e fraterna amizade. O André participou, de forma direta e ativa, em muitos dos projetos que forma concretizados, que tiveram lugar nos anos que se seguiram (não os vou enumerar, porque uma crónica não chegaria só para isso) e nos quais o André foi peça essencial. Nunca foi subserviente nem “yes man”. Propunha, argumentava, concordava e discordava. Como fazem as pessoas com valor. E com valores humanos e com conhecimento técnico. Com opiniões próprias e com ideias claras. Fiquei, de início, um pouco surpreendido com o seu envolvimento político. Depois percebi que era esse o caminho certo: dele e para o concelho. A forma como se afirmou política e socialmente no concelho, fez parte desse percurso.

         Dentro de oito meses teremos eleições autárquicas. É a grande oportunidade de o concelho de Moura escolher o André e a sua equipa para uma verdadeira alternativa para o futuro. Porque já chega de promessas, de projetos, de visitas de governantes e de almoçaradas em feiras. Precisamos de gente com proximidade, que se proponha concretizar obras a sério, que se comprometa em fazer e não em falar. Precisamos do André pela sua capacidade de diálogo, pela relação direta com as pessoas, por ele ser como é, competente, conhecedor, direto, franco e leal. Precisamos de retomar um caminho e seguro, antes que seja já demasiado tarde. Precisamos de uma Câmara liderada pela CDU. É tão simples quanto isso.

Crónica em "A Planície"