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quinta-feira, 1 de outubro de 2026

HORA DI BAI

Hora di bai? Sim, “hora da partida”, em caboverdiano. (Re) verifiquei, quase com espanto, há semanas, que me faltam, em termos oficiais, menos de três anos para o final da minha carreira profissional. Dela não tenho razão de queixa, que os ziguezagues feitos foram por opção própria. Por vezes, por escolhas demasiado solitárias.

Quando terminei a licenciatura, em julho de 1985, tinha colegas que apostavam que faria carreira universitária. Um deles comentava o meu estilo de condução - prudente e não muito veloz - dizendo “tens condução de professor da faculdade”. Uma frase divertida e absurda. A Academia, naquela altura, não me seduzia nem um pouco. Mas também não a rejeitava. O mestrado, na Nova, e o doutoramento, em França, fizeram parte desse caminho. Depois houve a carreira autárquica (12 anos, zero de arrependimento), depois a direção do Panteão (já lá vão cinco anos e meio) e agora há a clepsidra, que avança sem cessar. Regresso, como sempre, a “Memórias de Adriano”: “dizer que os meus dias estão contados não significa nada; sempre assim foi; é assim para todos nós”. E, como sempre, retomo o trabalho.

Quando vier o outono de 2029 - é essa a “hora di bai”, se entretanto não for alterada e partindo do princípio que lá chegarei - a bússola apontará para um sítio entre 120° e 130° do local onde me encontro. “Nha sonho” está 215° a sudoeste.

Toda a nossa vida é uma geografia. De terras, de pessoas, da família, dos amigos. E dos outros, também. A passagem pelos sítios e os contactos com as pessoas são um lento cerzir de histórias. Misturam-se cores e padrões, como num tapete berbere. E, às vezes, muitas vezes, dá vontade de voltar às origens. E de nunca mais delas sair. Viajei pouco, ao longo destes 63 anos. Somam-se alguns sítios, num percurso sentimental curto. De que tenho sempre saudades? De Roma, de Tunis, de Damasco, de Argel, do Cairo, de Tadmur, de Hydra, de Atenas, de Granada. E, claro, do Tarrafal. Moura e Mértola serão sempre casos à parte.

O Panteão Nacional tem-me deixado pouco tempo “pessoal”. Coisa sem solução, ainda menos nesta idade, mergulho sempre demasiado no que faço. Em 2027 haverá mais uns quantos livros - quatro, se as contas não falharem, entre compromissos académicos e outros. O tempo é agora de acalmia. Não é ainda o momento, outra vez Yourcenar, de ver a linha da costa por entre uma névoa luminosa. Mas aproxima-se o momento do balanço, a hora de pensar no que será a vida depois da vida que tenho há 40 anos. Ainda não é hora de parar, o que só acontecerá quando não houver força para mais. Mas começa a ser o momento de planear a “hora di bai”. Que vai incluir uma família mais alargada, e esse é outro fator decisivo na equação sentimental. Voltarei a todos estes temas na crónica de 1 de outubro de 2029.

Crónica em "A Planície"


terça-feira, 1 de setembro de 2026

NAS FRONTEIRAS DE UM PAÍS À MESA

De entre as tarefas que recordo com mais estranheza da minha carreira autárquica está, sem qualquer dúvida, a da missão de confirmar a correta localização dos malhões que delimitam Portugal e Espanha. Isso cabia ao Município, tanto quanto recordo, nos terrenos da Herdade da Contenda (o conhecido e sempre citado 1008 é o da fotografia). Era feita depois uma ata, que se remetia ao Ministério dos Negócios Estrangeiros.

Com poucas exceções, a nossa fronteira está mais que fixada há muitos séculos. Quais são as exceções? Olivença (cuja área continua sem linha de fonteira marcada nas cartas militares), situações como a do Castelo de Piconha (que só passou para o território de Espanha pelo Tratado de Lisboa de 1864, um curioso documento que vale a pena ser lido) ou da região de Rio de Onor, onde um comunitarismo quase poético resistiu até ao século XX. De resto, as fronteiras estão fixadas e são conhecidas desde há muito. Até por isso se torna difícil perceber todas as subtilezas, e todos os conflitos que persistem por esse mundo fora. Aí se incluem as tensões das línguas, das minorias, dos territórios que mudam várias vezes de soberania – como a Crimeia, desde há séculos foco de sangrentas batalhas –, dos enclaves em território “hostil”.

Portugal é um exemplo incomum de estabilidade territorial. Não tivemos a unificação de várias coroas, como a Espanha do final do século XV. Não passámos por um processo de “criação” de línguas nacionais, como sucedeu em França ou em Itália. Não temos minorias étnicas (os ciganos são, a esse nível, uma situação particular e geograficamente transversal). Estamos pacificamente instalados.

Sempre acreditei que foi essa estabilidade que nos permitiu virar para dentro e dar asas à criatividade culinária. Depois de algumas incursões por outros países (pouco mais de 25, em todo o caso…) vincou-se-me esta ideia: os nossos “conflitos” são à mesa. De norte a sul, passando pelas ilhas, a variedade, a diversidade e a criatividade são absolutamente extraordinárias. Com pratos específicos de cada sítio e que é impossível encontrar fora de uma fronteira cultural e gastronómica específica. O xerém do Algarve, as açordas do Alentejo, os maranhos da Beira Baixa, a chanfana mais a norte, as minhotas papas de sarrabulho, a terrível alheira do Nordeste, fazem parte daquilo que nós somos. E que se prolonga no prazer de estar com outros. E de convidar à nossa mesa. Tentem lá receber um convite na Escandinávia…

Que as coisas assim se mantenham e nos livrem dos horrores gastronómicos – para que conste, nunca pus os pés num KFC e há uns bons 10 anos que não entro num McDonald’s – que, esses sim, ameaçam a nossa civilização. Conservemos a paz. Que em guerra não há tempo para cozinhar. A nossa paz trouxe-nos a paz à mesa. Assim nos mantenhamos.


Imagem no blogue http://acstcmm.blogspot.com/

Crónica em "A Planície"

segunda-feira, 3 de agosto de 2026

E EM MOURA, HOUVE UMA MESQUITA?

Houve, claro. Em rigor, houve duas. Primeiro uma, dentro do castelo, depois, outra, na Mouraria. O que sabemos de qualquer uma delas é muito pouco. Não temos a certeza das localizações. Hipóteses temos, mas certezas não há. Não temos vestígios das construções, embora tenhamos, quanto à do castelo, “suspeitas”.

Fiquemos, por agora, pela mesquita do castelo. O que dela se sabe remonta ao século XVIII. E chegou-nos pela mão de James Murphy, “architect”. Que por aqui andou por vilta de 1789/1790 e depois publicou, em 1795, o livro “Travels in Portugal”. Refere uma inscrição que está junto à fonte do castelo do seguinte modo: “a cópia da inscrição B (imagem VII) foi-me dada pelo Padre [João] de Souza. A original, segundo ele me disse, está sobre a antiga fonte, junto ao castelo de Moura”. Uma informação bastante precisa e correta. A inscrição foi lida, nos anos 40 do século XX, por um célebre arabista checo, Alois Nykl (1885-1958). Mas Nykl, ao traduzir o original árabe, referiu apenas que a inscrição assinalava a construção de uma torre. Foi precisar esperar mais 40 anos até que Ana Labarta (n. 1950) e Carmen Barceló (1949-2024) explicassem, num novo estudo, que a torre a que a inscrição se referia não era uma torre qualquer, mas sim uma almenara. Ou seja, a estrutura utilizada nas mesquitas para o chamamento à oração.

Como se costuma dizer, aí o caso mudou de figura. É que o promotor da construção foi al-Mutadide Billahi, que governou no sudoeste peninsular entre 1042 e 1069. Pergunta básica: porque é que o homem mais poderoso do ocidente se preocupou em mandar construir uma almenara numa fortificação de menor importância, como era o caso de Moura na época? É preciso recuar um século, para se perceber que a região entre Moura e Aroche era particularmente rebelde e avessa a submissões ao “poder central”. Ar-Razi, no “Akhbar muluk”, diz que os habitantes desta região exploravam a prata “em segredo”. E Ibn Hayyan, no “Muqtabis V”, refere as alianças regionais e o poder de uma família local, os Banu Tutalliqi (que tiraram o nome da zona da Toutalga, naturalmente…), no combate a Córdova. Ou seja, e essa é uma ideia que defendo há muito, a construção da almenara foi um gesto de apropriação política do território (e da sua prata) e não uma mera campanha de obras públicas.

Mas, afinal, onde se situaria a mesquita? Com toda a probabilidade – diria que com 90% de certeza – no local onde mais tarde se construiu a igreja de Santiago. Cujas ruínas estão junto ao posto de turismo. Com que argumentos?

Foi comum a sobreposição de igrejas de Santiago (em especial junto às alcáçovas, como é o caso) ao espaço de antigas mesquitas. Havia que limpar o “pecado”…

A igreja de Santiago ocupou o espaço de uma construção anterior. Num dos extremos é visível a esquina do edifício mais antigo, que não só não está alinhado com os muros da igreja, como limita uma rua do período islâmico. Para mais, essa esquina apresentava um “spolium” (aproveitamento de uma pedra funerária romana), forma de valorizar o edifício que integrava.

No outro lado da rua islâmica, as escavações de 2012 puseram à vista o muro de uma construção, que poderá ser a base da almenara.

Resumindo, houve mesquita, certamente desativada em meados do século XIII. E estava no local que as escavações arqueológicas permitiram identificar. Mais tarde se construiria outra, fora de portas, na Mouraria. Coisas da Arqueologia e da História da nossa terra.

Crónica em "A Planície".

A imagem é do livro de Murphy.

quinta-feira, 2 de julho de 2026

UM ESTÁGIO EM MEM MARTINS

Ou no Casal de S. Marcos. Ou nos Moinhos da Funcheira. Os primeiros dois sítios ficam no concelho de Sintra. O derradeiro no da Amadora. Era essa a ação de formação, esse estágio, que proporia à Ministra do Trabalho, a inacreditável Maria do Rosário Ramalho. E a todos aqueles que apoiam as (agora chumbadas) alterações à legislação laboral. Algo parecido aqueles programas patetas da televisão, em que as pessoas têm de sobreviver em ilhas desertas ou coisa que o valha. Aqui o desafio seria bem mais simples: teriam de ir trabalhar em Lisboa (na Rua da Junqueira, por exemplo, que não há transporte direto para lá) e viver com o salário mínimo. Seis meses de “ação de formação”. Nada de carro com motorista nem cartão de crédito da empresa. Tirava o passe social e ala, que se faz tarde. Para vos poupar trabalho, a deslocação acima referida traduz-se em cerca de três horas diárias. Mais as horas de trabalho, de preferência com um daqueles patrões feroz paladino do “crescimento” e da “produtividade”. Um dia após outro. Sempre a mesma rotina. Sem alternativas, nem flexibilidade. Sem possibilidade de amealhar. Sem possibilidade de acompanhar de forma adequada o crescimento dos filhos. Sem possibilidade de estar presente no envelhecimento dos pais. Eles próprios, que já foram sugados pelo sistema, irão com sorte parar a um lar barato. Daqueles que são notícia, de vez em quando, sempre por más razões. Um dia após outro, sempre assim, sem possibilidade de respirar, nem de aspirar a uma coisa “simples” chamada Felicidade. E a uma outra chamada Liberdade. Que não só de votos vive a Democracia, tenham lá paciência.

 

Por isso, acho que Mem Martins ou os Moinhos da Funcheira (seis meses bastariam…) seriam um excelente treino para a Ministra do Trabalho, a inenarrável Maria do Rosário Ramalho. Ou para aquele que, em tempos, disse esta coisa fantástica: “quem é rico pode viver no Chiado, quem não é, não pode. É assim”. Ou um outro, que teve este “pensamento” não menos fantástico “não podemos ter pessoas da classe média ou média baixa a viver em prédios classificados”.

 

Seis meses, vejam lá, só isso, não peço mais, com o salário mínimo, horários alargados de trabalho, bancos de horas, o uso obrigatório dos transportes públicos. Os engarrafamentos colossais, os autocarros em ritmo de procissão, os comboios à cunha.

 

Todos os dias vejo pessoas e vidas assim. Não conheço os pormenores. Mas conheço-lhes o cansaço. Ao fim da tarde, na estação de comboios de Entrecampos, há sempre um magote de pessoas que regressa do emprego. Têm ar de exaustão e vestem, quase sempre, roupas modestas. Gente moída por horas a fio de trabalho. Aguardam, resignadamente. O problema, pelo menos um deles, é que aguardem resignadamente…


Logo mais, ao fim do dia, irei apanhar os transportes públicos, como quase sempre faço. Haverá muita gente – com uma larga maioria de africanos ou de portugueses de origem africana. Mas não me cruzarei com “decisores”, nem com “comentadores”, nem com “politólogos”, nem com todos aqueles que entusiasticamente falam em “produtividade” e em “crescimento”. Como se isso fosse um toque de magia. E que da vida das pessoas nada conhecem. Nem tal lhes interessa.


Crónica em "A Planície"



Blog Algueirão - Mem Martins

terça-feira, 2 de junho de 2026

DAMNATIO MEMORIAE

Ao ler os documentos do Panteão Nacional não pude deixar de ficar intrigado com a ausência do nome do arquiteto que finalizou o projeto da cúpula (Luís Amoroso Lopes) nos textos que assinalam o final dos trabalhos. Que se terá passado para tão drástico esquecimento? Alguém disso se encarregou... O tempo se encarregou de remeter ao anonimato quem o quis apagar. Hoje é o nome do arquiteto que surge quando se fala do monumento e não o de outras pessoas.


A expressão que me ocorre é “damnatio memoriae”. Significa “condenação da memória”. Equivalia, em Roma, a apagar qualquer traço ou vestígio que pudesse lembrar uma pessoa que tivesse sido votada ao esquecimento. Como se ela nunca tivesse existido.


A História é fértil em episódios assim. Um dos meus preferidos é o da lápide mandada fazer para assinalar a construção de uma torre no castelo de Silves, no verão de 1227. Quem veio a seguir, mandou apagar o nome do construtor. Uma atitude banal. E tão menor quanto banal.


Na terceira linha da inscrição foi, como se pode ver na imagem, intencionalmente destruído o nome de quem mandou fazer a construção e que o arabista Lévi-Provençal identificou como tendo sido Abu l-Ula Idris, filho de Yaqub al-Mansur. Especula-se que o nome do construtor possa ter sido mais tarde apagado por ordem de Ibn Mahfuz, que ali se rebelou contra os almóadas.


Esta tentação de apagamento da memória é tanto mais intencional e violenta, quanto menores são os autores das perseguições. Tal como Ibn Mahfuz tentou apagar a memória de quem o antecedera e tinha construído a torre, há sempre pequenos protagonistas e autores menores que se esforçam por apagar o passado. Como se a História tivesse começado com eles e antes deles nada houvesse. Ora, quem estuda História, como é o caso do autor destas linhas, sabe muito bem que as coisas não são assim.


É sempre uma luta de polos opostos. Entre as atitudes positivas e as negativas. Entre escrever e apagar a escrita. Entre a construção da memória e a sua destruição. Entre o que tem luz e o que a não tem. Como nos filmes, nas óperas, nos bailados de final feliz, em que o bem triunfa sobre o mal, também nas tentativas de apagamento da memória é a verdade que teima sempre em triunfar. É tudo uma questão de tempo e de não se deixar que a memória do passado seja apagada.


Crónica em "A Planície"



quinta-feira, 7 de maio de 2026

O CHIC-NIC

Em “Agosto 1914”, Alexander Soljenistsine relata a visita de um nobre russo ao Louvre. Fazia-se acompanhar, na deslocação ao célebre museu parisiense, por um criado que transportava uma cadeira. Quando lhe apetecia apreciar Arte, numa determinada sala, dizia ao criado “la chaise, là” [a cadeira, ali] apontando o local onde queria ficar sentado. A aristocracia russa foi varrida em 1917. Os gestos de quem olha o mundo de cima é que não.
 
Lembrei-me dessa passagem do livro ao tomar conhecimento, há dias, da realização de um “chic-nic”, em pleno Parque Eduardo VII, em Lisboa. Por um valor entre 150 e 300 podia-se usufruir de uma parte do jardim – privatizado por umas horas -, degustando iguarias, preparadas por restaurantes caros, e ouvindo música. Cada um gasta o que lhe pertence como muito bem entende. E onde quer. Mas – e há aqui um enorme MAS – o que é que não se pode admitir?
·      Que um jardim público seja privatizado, ainda que por umas horas, para usufruto de uns quantos;
·      Que o acesso ao local seja, por isso, limitado;
·      Que o evento tenha financiamento público (75.000 euros), daí resultando que o que a todos pertence só para alguns reverta;
·      Que não haja um mínimo de sensibilidade social e se passe ao lado dos problemas do mundo real (numa cidade, a capital, de está de pernas para o ar);
 
Perguntará o leitor o que interessa isso a quem vive em Moura, a mais de 200 quilómetros do evento. Interessa também, num momento em que se tentam privatizar praias, em que se cortam caminhos percorridos historicamente pelas populações, em que o acesso aos campos é cada vez mais difícil, em que o que é de todos passa a ser usado apenas por alguns. Em tom proprietário e com desprezo pelos “de baixo”.
 
O “chic-nic” (fantástica e parola designação) é um sinal dos tempos. Da forma arrogante de exercer o poder, da total sobranceria ante os mais desfavorecidos. Há quem nunca aprenda.  Não resisto a recordar Maria Antonieta, a rainha que gostava de organizar piqueniques chiques (chic-nics, portanto) nos jardins de Versalhes. E que acabou por ser a protagonista principal de um evento coletivo na Praça da Concórdia, em Paris, em 16 de outubro de 1793. Como me comentou um amigo, monárquico!, “aquilo foi de perder a cabeça”.
 
Tanto desvario e tanta falta de humildade são um sinal evidente dos tempos que vivemos. Um certo “direito do mais forte à liberdade”, para usar livremente o título do filme de Rainer Fassbinder. Aos mais desalentados (e no meu ceticismo crónico não sou exatamente um “otimista”) recordo sempre que a História não acabou; que esta é a cava da onda; que constatamos o que, em astronomia, se designa por “movimento retrógrado aparente” – em que um planeta parece recuar visto a partir de um ponto fixo, mas tal não passa de uma ilusão de ótica. Como a própria História se encarregará de explicar.

Crónica em "A Planície"

A imagem é de um conhecido "nude-nic", pintado por Manet.




quinta-feira, 2 de abril de 2026

FIDEL CASTRO

 “Quanto mais o tempo passa, mais cresce a minha admiração por Fidel Castro. Pela coragem, pela capacidade de resistência, pelo desafio, pela tentativa de criação de um modelo alternativo, por ter criado em tantos de nós a ideia de que a utopia era possível. E quanto mais vejo tantos políticos de pantufas, acomodados e sem uma chispa de entusiasmo ou de imaginação, mais essa admiração cresce”. Escrevi isto em dezembro de 2024. Mais o escreveria agora.

No dia 8 de janeiro de 1959, Fidel Castro entrou em Havana. Triunfava um dos mais improváveis sonhos do século XX. Há uma célebre fotografia do desfile triunfal, onde estão Che Guevara, Fidel Castro e Camilo Cienfuegos. Cienfuegos morreu poucos meses mais tarde, Che faleceu em 1967, Fidel em 2016. A revolução perdeu a sua aura romântica? Sim. Teve momentos e atos com não concordo? Sim, sem dúvida. Mas nunca deixará de nos fazer sonhar. E veio mostrar que a vontade dos povos deve ser mais forte que o imperialismo.

Poucos meses depois desse desfile, em abril de 1959, Castro foi visitar os Estados Unidos. Eisenhower não lhe passou cartão (“esnobou” dizem os brasileiros, e a palavra é fantástica) e foi jogar golfe. O resto da História é conhecida, porque essa viagem se revelaria decisiva. Pico, plagio, copio, sem vergonha e com orgulho, dois excertos de um magnífico texto publicado por Miguel Urbano Rodrigues no “Avante!” e no “Granma”, em 2006. Um texto sem rugas e pleno de verdade:

“A Revolução Cubana configura um desafio à lógica da História. Assim aconteceu com Moncada, com a aventura do Granma, a luta na Sierra, e o choque posterior com o imperialismo norte-americano. A decisão de resistir e a coragem do povo cubano no combate que confirmou ser possível a resistência serão recordadas pelo tempo adiante como acontecimentos épicos da História da humanidade.

Não há calúnia mediática que resista à prova da vida. Definir como ditador um dirigente amado por um povo que governa há quase meio século é um absurdo maldoso. O consenso entre o governante e a sua gente ridiculariza a diatribe forjada pelos seus inimigos”.

O que Cuba fez, ao longo de décadas, foi um combate extraordinário de David contra Golias. O rejeitar a ilha-paraíso-bordel dos vizinhos do lado e o tentar construir uma realidade alternativa. O percurso não foi isento de contradições, nem de erros.

Depois de seis décadas de um bloqueio ilegal (e isso que importa, para quem é a justiça a oeste de Pecos?), o sufoco torna-se quase total. Algo irá mudar, nos próximos tempos. Não será nada de decente… Ter estudado História é, neste caso e assim suponho, uma vantagem. Porque nos remete para o passado e nos dá uma leitura mais abrangente das coisas. E a história recente da América Latina é um longo estendal de ingerências americanas e uma longa luta entre liberdade e opressão. E onde há fome e não há educação nem cuidados de saúde, não há democracia e não há liberdade. Há, em tudo isto, um sim e um não.

É por isso que estou com Lula da Silva e com João Goulart e não com Jair Bolsonaro ou com Costa e Silva. Sim, mil vezes sim, com Chávez e jamais com Pérez Jiménez (cujos esbirros acabaram como acabaram...) ou com Andrés Pérez. Sim com Salvador Allende e nunca com Augusto Pinochet. Sempre com Juan José Torres e com Evo Morales e nunca com Hugo Banzer. Sempre com Rafael Correa e nunca com Lenin Moreno. Sim a Velasco Alvarado e não a Morales-Bermúdez.

Quanto a Fidel Castro, a sua luta perdurará. Sabiamente disse, há quase 73 anos, “a História me absolverá”. Não só já o absolveu, como reconhecerá muito mais que isso.

Crónica em "A Planície"


domingo, 1 de março de 2026

O TURISMO E OS OUTROS, QUE SOMOS NÓS

“Olha para isto! Olha para isto!”, acotovelava-me Cláudio Torres. Andávamos algures entre a cidade antiga de Tânger e a zona nova. Era perto da hora do almoço e uma multidão de gaiatos saia da escola. Uma torrente de juventude e de alegria varria as ruas da cidade marroquina. “Já viste? Isto lá já acabou. São estes é que nos vão salvar”. Vivia-se o verão de 1999 e tanta juventude (só veria algo semelhante, anos mais tarde, na Guiné-Bissau) começava a rarear por cá. Aquela frase “são estes é que nos vão salvar” só anos mais tarde me faria total sentido, mas o Cláudio sempre teve aquela particularidade de ver muito longe.

 

Nos tempos de juventude, gostava de vagabundear, solitariamente, horas a fio, pelos bairros antigos de Lisboa. Corri, muitas vezes, as ruas de Alfama. Ao ali regressar, em 2021, para me fixar no meu local de trabalho (no limite entre Alfama e a Graça) constatei, com consternação que a cidade antiga quase morrera. Crianças não há, os velhos são poucos, os portugueses uma raridade. Há alojamento local, há turistas, há edifícios em obras. Os operários são, maioritariamente, imigrantes. As coletividades definham, as velhas tabernas desapareceram para dar lugar a tretas de “wine and food”. O génio do lugar desapareceu e não voltará.

 

Ao passar, há dias pela Rua de S. João da Praça, entrei no túnel do tempo. Recuei 30 anos. Conduzia um grupo de amigos franceses, mais velhos, pelas ruas de Alfama. Ao acaso, ainda não havia lojas para turistas e eram poucos os “restaurantes típicos”. Em plena rua estava um grelhador com sardinhas. O cozinheiro não estava à vista. E ei-lo que sai, quase em passo de corrida, do seu estabelecimento, de tesoura ainda em punho, para, num golpe rápido, mandar uns borrifos de água para o grelhador e virar as sardinhas. Era o barbeiro que, no meio do atendimento, preparava o almoço. Depois regressou, para dentro da barbearia, no mesmo passo rápido.

 

Os amigos franceses ficaram extasiados, como os grupos de excursionistas sempre ficam, quando desembarcam em sítios longínquos e exóticos e veem coisas que, nos países civilizados, fazem parte dos livros de histórias.

 

Não podemos, seguramente, desejar um mundo congelado no tempo. Muito menos podemos pensar que seria conveniente que não houvesse turistas. Era só o que faltava. Mas a verdade é que esta avalanche, sem a contrapartida juvenil que África ainda tem, levou tudo à frente. Por aquelas bandas ficámos sem os sítios que são o espelho de nós próprios. E que são a nossa identidade. Como a taberna com colunas de ferro forjado onde acabei por almoçar com o grupo gaulês, perto do Chafariz d'el-Rei. Passei por lá há semanas. O sítio tinha vestido um ar sofisticado. Não entrei. Fui afogar as mágoas prandiais do “Pitéu da Graça”, onde os turistas ainda não chegaram em avalanches. Não servem pizzas, nem lasanha, nem hambúrgueres, nem tacos, nem sushi. Só coisas decentes, como vitela no tacho, filetes de peixe galo, petingas fritas, bacalhau com todos...

 

Fico sempre a pensar quanto tempo mais teremos sítios assim. E quando é que, à força do turismo, passaremos, de vez, a ser apenas os outros.


Crónica em "A Planície"







segunda-feira, 2 de fevereiro de 2026

EL SUR

Crónica hoje, em "A Planície":

Ao regressar ontem à noite a casa, no meio do frio e de uma bátega que se abatia sobre Lisboa, recordei-me – quase sem saber bem porquê – de um bilhete-postal de Sevilha. Não de um bilhete-postal qualquer, mas de um que se vê, em dado momento, num filme. Sevilha, o sul e o sol são, em “El sur”, de Victor Erice (1984), uma imagem distante e mítica. O local onde alguém nunca regressou.

Neste filme pouco vulgar conta-se a história de uma miúda fascinada com o passado do pai e com o sul. Ambos se misturam. O filme passa-se no norte e as paisagens meridionais surgem em bilhetes-postais, que nos dão uma visão da distância que acentua o seu onirismo. A música é de Enrique Granados e não podia haver melhor acompanhamento para aquele desfilar de postais coloridos. Que sugerem mistério, distância e nostalgia. Deveria ter sido rodada uma segunda parte, onde todo o mistério da vida do pai no sul seria desvendado. O sucesso do filme, e dificuldades financeiras, inviabilizaram a rodagem da continuação. Há males que vêm por bem e tom de mistério manteve-se. Sempre gostei de filmes onde as miragens nem sempre se concretizam e onde podemos olhar o mundo imaginado um pouco à distância. El sur é uma peça de artesanato, bela e única. Tenho pelo filme uma intensa paixão, que ainda hoje se mantém.

 E ”sul” é uma palavra mágica. Como neste filme de Erice, como no conto de Jorge Luis Borges, que funciona como um túnel do tempo, como em “Viagem em Itália”, de Rosselini, onde as imagens do sul são o cenário de uma reconciliação, como no filme mal compreendido e mal avaliado Sammy going south, de Alexander Mackendrick. E que é a história de um rapazinho que corre todo o continente africano em busca do seu sul.

Cine Arcadia é o nome da sala de cinema que aparece no filme de Victor Erice. Arcadia remete-me para Reviver o passado em Brideshead e para todos os momentos de Arcadia. E para Juan Ramón Jiménez, que escreveu “Mi plata aquí en el sur, en este sur, / conciencia en plata lucidera, palpitando / en la mañana limpia, / cuando la primavera saca flor a mis entrañas!”.

Daqui a pouco, já faltou mais, chega a primavera. Haverá romarias e a Feira de Abril, em Sevilha. Haverá a feira de maio. Haverá o sul, que me falta todos os dias. Em especial nas noites como a de ontem, de chuva e frio e com uma tempestade de nome apropriadamente nórdico.





segunda-feira, 5 de janeiro de 2026

CRÓNICA DO TEMPO, EM VERSÃO FERROVIÁRIA

Em 14 de janeiro de 2011 (faz agora 15 anos) era anunciado que Beja iria perder a ligação direta a Lisboa. Nesse mesmo dia, o Grupo Parlamentar do PCP apresentou, na Assembleia da República, um Projeto de Resolução sobre a manutenção do serviço intercidades Beja-Lisboa-Beja. O documento foi rejeitado pelos votos contra do PS e as abstenções do PSD e CDS/PP. Os deputados Pita Ameixa e Conceição Casanova estavam no grupo que votou contra. Em fevereiro desse ano, o mesmo Pita Ameixa diria que "tem de haver um claro compromisso com a qualidade do serviço, com a qualidade dos equipamentos e com a modernização e eletrificação da infraestrutura ferroviária que, diretamente, serve e tem de continuar a servir Beja". Um discurso oco e sem vergonha, em politiquês vazio. A subserviência mais perfeita ao governo de turno.

 

Em 2014, e já com o PSD no Governo, mudavam as “perspetivas”. O presidente de então da concelhia de Beja do PS e mais tarde alcaide da cidade, Paulo Arsénio, pedia à REFER que insistisse "na eletrificação do troço de 64 quilómetros de via entre Casa Branca e Beja, dotando assim a capital do Baixo Alentejo de condições iguais a outras capitais de distrito", assim como uma melhoria substancial da qualidade do material circulante entre Beja e Casa Branca. E concluía, "o PS aguarda, a partir de agora, resposta das empresas em questão, na expectativa que, num curto espaço de tempo, os utentes da Linha do Alentejo possam retirar algum benefício das diligências que concretizámos". Até hoje, só expetativas e nada de benefícios.

 

Em novembro de 2017, dois políticos do PS, Pedro Marques (ministro do Planeamento) e Pedro do Carmo (deputado) diziam, sem se rirem, que voltaria a haver ligações diretas e que iria ser lançado concurso para a aquisição de composições que permitissem a ligação entre Lisboa e Beja. Nem concurso, nem compras, nem ligação direta. Nada.

 

Depois houve estudos, houve avanços e recuos. Foi posto dinheiro no Orçamento e tirado dinheiro do Orçamento do Estado. Era para ser em 2022, depois em 2024, depois fala-se em 2030. A linha do horizonte, em versão comboio. Prefiro não invocar as “obras de Santa Engrácia”, não vá mais alguma maldição cair em cima deste projeto.

 

Chegado a este ponto, só me dá vontade de dizer: “não façam pouco da gente”. Merecemos um pouco mais de respeito. Os políticos do PS e do PSD aqui da região, se não tiveram nada de concreto para dizer, ao menos estejam calados. Não resolvem nada, mas é mais decente.

Crónica em "A Planície".

domingo, 7 de dezembro de 2025

O MELHOR VINHO DO MUNDO

Tem-se tornado quase fastidiosa a chuva de melhores disto e melhores daquilo: a melhor praia, a melhor bica, o melhor pastel de natal, a melhor marisqueira, o melhor por do sol, o melhor trail etc. Um pesadelo de coisas melhores.

Fui, há meses, a uma cidade muito conhecida, um pouco longe daqui. No regresso “foste ao sítio tal? E ao bar xis?” E eu não, nem a um nem a outro, sou pouco de andar em rebanho. E isto agrava-se com a idade.

Qual é o melhor vinho do mundo?, eis a questão. Há vinhos astronomicamente caros, isso sim. Uma garrafa de Romanée-Conti, de 1945, foi vendida por 480.000 euros; uma garrafa do norte-americano Screaming Eagle, de 1992, chegou aos 455.000 euros. Preços obscenos. Ao pé deles, o Barca Velha a 900 euros quase parece uma coisa de saldos.

Não sou grande bebedor – embora já tenha dado jeito a algumas pessoas dizer o contrário… - e também não sou um conhecedor. Gosto dos vinhos de Penedès, dos alentejanos, dos da Beira Interior, dos durienses, dos californianos, de alguns exotismos madeirenses e açorianos e por aí se fica a minha geografia…

Vem isto a propósito do mais extraordinário vinho que bebi até hoje. Fui há muitos anos, mais de 30, na Corte Azinha, uns cinco quilómetros a nordeste da Corte do Pinto, no concelho de Mértola. Várias vezes me tenho perguntado o que esperávamos encontrar, o Miguel Rego e eu, na Corte Azinha. Era inverno e o dia estava frio. A pessoa com quem fomos falar – porque teria informações sobre sítios arqueológicos, mas afinal não tinha nada por aí além... – recebeu-nos com calorosa cordialidade. Era um “homem do campo”. Parecia-me muito velho mas, provavelmente, seria mais novo do que eu sou hoje. Não me lembro da face, mas recordo-me que era magro, morenamente mediterrânico e, porque é que lembro disto?, usava chapéu. Convidou-nos a entrar e fez questão de nos oferecer um copo de vinho. Foi buscar um garrafão, sim!, à maneira antiga, e encheu-nos os copos com a delicadeza e a cerimónia de quem está a servir um Romanée-Conti. Do vinho recordo-me com nitidez, sim, lembro-me do tom carrascão, de marcada rudeza. Mas a simpatia e a boa vontade em nos ajudar fez com que aquele vinho simples se transformasse no melhor dos nectares. A conversa continuou, mansamente, às vezes com poucas palavras, com o gosto de falar de coisas da vida, com o vinho a temperar a manhã fria. Da arqueologia pouco se adiantou, mas o calor do vinho chegou-nos à alma. Tenho-me lembrado muitas vezes desses momentos.

Falei há dias com o Miguel sobre esta nossa improvável expedição. Os anos vão passando e, com firmeza, se me vai vincando a certeza de que aquele foi o melhor vinho que já bebi. Não me falem em castas, nem em “frutados”, nem em “finais prolongados”. Sem o calor humano não há vinhos que valham a pena. Aquele vinho, um pouco áspero, foi o melhor vinho do mundo. Continua, pelo fator e pelo calor humanos, a sê-lo. Até hoje.

A crónica saiu em "A Planície". A fotografia data de 1999 e é de Martin Parr. Intitula-se Reines de la Nuit (sipping wine). É a melhor fotografia de alguém a beber um copo de vinho.


segunda-feira, 3 de novembro de 2025

ERA UMA VEZ UMA MURALHA

A perda de importância militares das localidades fronteiriças trouxe consigo, em especial a partir de meados do século XIX, o generalizado abandono das fortificações. Muralhas e atalaias, quartéis ou estruturas de apoio forma caindo no esquecimento. Uma má prática do Estado, que as crónicas dificuldades financeiras do País agudizaram e um generalizado desinteresse no Património tornaram mais evidente.

 

A expansão urbana das povoações de maior dimensão – como Moura – levou à destruição de muralhas para permitir a abertura de novas ruas. Ou, como no caso extremo da nossa terra, a muralha islâmica foi, quase toda!, destruída, para dela se extrair salitre, necessário ao fabrico da pólvora. Agora digam lá que reciclar é sempre boa ideia...

 

Há muitos anos, ao consultar o imprescindível Tombo da Villa de Moura, no nosso arquivo municipal, deparei com um texto de 2 de março de 1535, no qual se autorizava o fidalgo Jerónimo Correia a tapar parte da muralha do castelo.

 

Quem dava a autorização? O Infante D. Luís, Duque de Beja (1506-1555), segundo filho de D. Manuel e da sua segunda mulher, D. Maria de Aragão. E o que diz o texto, em concreto? Que era dada autorização a Jerónimo Correia para que pudesse “tapar a barbacã da torre quanto diz com a frontaria das suas casas, que estão pegadas com o muro, e plantar nelas árvores; quando for necessário defender a fortaleza, se desocupará a dita barbacã e se lhe dará serventia, sem impedimento; e também dará [serventia] para o povo ver correr os toiros como até agora fazem e para isso fará portas, que depois se encerrarão”. Atualizei o português, naturalmente, para mais fácil compreensão.

 

O alvará do infante D. Luís tem, a vários níveis, informações relevantes:

 

·      A barbacã [muro mais baixo em frente ao muro principal do castelo] já não tinha utilidade, o que permitia que fosse desativada e lhe fosse dada uma nova função;

·      Como a vila tinha crescido em direção a sul, uma parte da muralha, que corresponde ao espaço hoje ocupado pela “Casa das Nunes” e por edifícios municipais, perdera importância em termos militares;

·      Ou seja, é provável que correspondesse a um edifício situado algures nessa área a referência feita no texto de 1535;

·      A privatização de muralhas e de espaços públicos estava longe ser uma situação inédita, mas esta contratualização tem dados curiosos;

·      Em primeiro lugar, a autorização para plantar árvores, estando associado a este acordo a obrigação de desocupar o espaço [Jerónimo Correia sabia perfeitamente que isso não iria acontecer];

·      Em segundo lugar, assume-se que há um uso misto do espaço e que a população continuará a usar a barbacã para ver correr os touros;

·      Em terceiro lugar, iriam ser construídas portas: por um lado para que o espaço não ficasse sempre aberto, por outro para impedir que o fidalgo o entaipasse, ficando dele pleno proprietário...

 

No desenho de Duarte Darmas, feito cerca de 1510, vemos, da esquerda para a direita, o Convento do Carmo, a barbacã com árvores e a Santa Comba. Não me custa admitir que fosse essa a zona onde Jerónimo Correia tinha as suas casas. O mesmo é dizer que era aí, na esplanada em frente à Santa Comba, que se corriam os touros, para gáudio da população. Não dá para se dizer que foi a primeira praça de touros de Moura, mas dá para ver que há tradições que são antigas e que vêm de muito longe.

Pequenas histórias de uma grande terra.

Crónica em "A Planície".

segunda-feira, 1 de setembro de 2025

DUAS OU TRÊS COISAS SOBRE "O INTERIOR"

No verão de 2020 trabalhei no levantamento fotográfico de agências da Caixa Geral de Depósitos situadas em 156 concelhos (todos os distritos do Continente, mais as ilhas da Madeira, Faial, Terceira e São Miguel). Um trabalho intenso, planeado com rigor quase militar. As fachadas dos edifícios tinham de ter luz plena, o que me obrigava a um esquema rígido. Um dia comecei às 8h 30 em Viana do Castelo para depois fotografar, sucessivamente, na Póvoa do Varzim, em Vila do Conde (um “filme” inesquecível, num caótico dia de feira), em Valongo, em Fafe, em Felgueiras, para ir terminar a jornada em Anadia. Antes de retornar a Mértola. Fotografar no Funchal foi um blitz: apanhar o avião às 7h., tomar um táxi para o Lido, fotografar, regressar à baixa, voltar a fotografar e regressar ao aeroporto para estar em Lisboa antes da hora de jantar.

Foi um trabalho que me deixou inapagáveis marcas emocionais, e que já motivaram um texto, neste mesmo jornal. À medida que aquelas jornadas decorriam, aumentava a minha perplexidade sobre a palavra “interior”. É difícil dizer que Portugal tem “interior” quando os concelhos mais afastados do litoral, como Idanha-a-Nova, por exemplo, estão a pouco mais de 200 quilómetros de Lisboa ou do Porto. Mas é fácil pensar em “interior” quando vamos a Castanheira de Pera, a 30 quilómetros de Coimbra, ou a Ferreira do Zêzere, a pouco mais de 100 quilómetros da capital, e é como se tivéssemos mergulhado noutra dimensão.

Agora que o País esteve em chamas, lá veio a ladainha do “interior” e do apoio ao “interior”. Esquecemo-nos que o País está em chamas porque já não há gente jovem e cada vez menos se cuida dos campos, nesses territórios remotos. O concelho mais “interior” que ganhou população, nos últimos censos, é Vila Nova da Barquinha (Santarém), que está a 60 quilómetros da costa. Para dentro, é a desolação. Não há gente, porque o Poder Central abandonou vastas faixas do território à sua sorte. Quando vêm inaugurar feiras, lá vem a revoada de banalidades elogiosas aos autarcas, ao esforço das populações, à autenticidade do país real. “It kills me”, como dizia o personagem de “Catcher in the rye”, quando elogiam a autenticidade. Parece que estão em visita a uma reserva de criaturas exóticas.

O esforço dos Municípios não chega. É claro que estes têm de ter vistas largas. Não podem comprometer o futuro com festas e festarolas, foguetes e concertos. Em tempos (2013-2017) integrei o Conselho Nacional do Ambiente. Um dia, irritado com tanta basófia, disse ao ministro de turno que dava um certo jeito os governantes lerem dois livros que nos ajudam a enquadrar a realidade atual: “A estrutura da antiga sociedade portuguesa”, de Vitorino Magalhães Godinho, e “Portugal, o Mediterrâneo e o Atlântico”, de Orlando Ribeiro. Respondeu, petulante, “é claro que já li os dois”. Não me pareceu que lhe tenha servido de muito a eventual leitura…

Vamos estando assim, em periferias envelhecidas – não tarda muito também contribuirei para isso –, das quais se lembram de tempos a tempos e da quais se esquecem, na primeira curva da estrada, na hora do regresso.

Crónica em "A Planície"


sexta-feira, 1 de agosto de 2025

MIGUEL URBANO RODRIGUES - 2.8.1925

Faria amanhã 100 anos. Deixou-nos na primavera de 2017, pouco tempo antes de chegar aos 92. Miguel Urbano Rodrigues nasceu em Moura, na Quinta da Esperança, bem perto do Ardila.

 

Conheci o Miguel em 1986 ou 1987. Era ele presidente da Assembleia Municipal de Moura e figura prestigiada do jornalismo. Estava eu a começar a minha carreira como técnico na Câmara de Moura. Foi o começo de uma amizade que durou três décadas. “Não me tratas por você”, deve ter sido uma das primeiras frases que me dirigiu. Uma “ordem”, bem ao seu estilo, direto e sem cerimónias.

 

Parte da sua vida está relatada em dois fascinantes livros de memórias (“O tempo e o espaço em que vivi”). Deveria ter havido um terceiro volume, que não sei se chegou a tomar forma. De qualquer maneira, nesses livros, ora sérios, ora pícaros, sempre motivados politicamente, o Miguel relata episódios que, mesmo quando são pessoais, refletem sempre o tempo e o espaço em que ele viveu. E que são um testemunho imprescindível sobre esse tempo. Boa parte da narrativa anda em torno dos jornais e de prática da escrita.

 

A saída do “Diário Ilustrado”, onde era chefe de redação, em 1957 (na sequência de um processo absurdo, que deu brado e passou fronteiras...) acabaria por dar outro rumo à vida do Miguel. Nos anos 60 está no Brasil, onde se tornará editorialista de política internacional de “O Estado de São Paulo”, o maior e mais prestigiado periódico da América Latina. Não era lugar para qualquer um... Só deixará o posto em 1974, depois de ter ido à embaixada de Portugal em Brasília. O episódio é relatado bem ao seu estilo (“fomos lá, exigimos os passaportes e pusemos o embaixador [José Hermano Saraiva] na rua”). 

 

Dizia com frequência “numa vida há muitas vidas e num homem muitos homens”, frase que se lhe aplicava na perfeição. O seu percurso foi um somatório espantoso de coisas e de acontecimentos (foi crítico tauromáquico, esteve no assalto ao Santa Maria – facto que Henrique Galvão omite –, militou no Partido Comunista Português durante mais de 50 anos, dirigiu “O diário”, foi deputado, foi comentador televisivo, viveu em Cuba e no Brasil e foi um homem de espírito progressista como poucos). Nunca perdeu a argúcia, o sentido de humor e a capacidade crítica. Temperava tudo isso com uma cultura vastíssima, que se refletia num estilo de escrita elegante e fluido.

 

Repito o que já aqui escrevi sobre ele: “Não perdoava falhas na língua portuguesa, nem a ignorância travestida de saber. Uma vez, apareceu num almoço em que estávamos um arrivista que passara pelo jornalismo e que se “interessava pelo Mediterrâneo”. E que andava “a investigar”. Sentou-se à nossa mesa. Depois de muita conversa, às tantas disparou “ó Miguel Urbano, qual é a diferença entre árabes e berberes?”. O Miguel alinhavou, de mau humor, duas ou três frases sobre a questão. A partir daí, e sempre que nos encontrávamos, recordava “aquele moço é de uma ignorância enciclopédica”.

 

Escrevi quando ele partiu que à medida que amigos nos vão deixando – começo a entrar nessa idade – há uma parte das nossas vidas que fica para trás e há uma parte de nós que já não volta. Senti isso com duas ou três pessoas muito especiais. O Miguel é, será sempre, uma delas.

 

Dele retenho uma frase essencial e cada vez mais importante nos nossos dias: “a pátria do Homem é o planeta Terra”.Foi um homem de corpo inteiro. Chamou-se Miguel Urbano Rodrigues. Foi um mourense ilustre. Amanhã é o dia do seu centenário.


Crónica em "A Planície"


terça-feira, 1 de julho de 2025

A RIUIS ANATIS FLUMINIS EXTREMUM MUNDI UIDERI POTEST

Moura é um exemplo interessante para o estudo da arquitetura militar medieval e moderna. Não que qualquer das suas fortalezas seja excecional, em termos de qualidade do que foi edificado. Não é esse o caso. Mas dão pistas interessantes para a compreensão do sítio e para a sua leitura topográfica.

 

Para uma fortificação medieval do mundo mediterrânico Moura parece um modelo perfeito. Ocupa o topo de um cerro (o do castelo, que ainda por cima tem nascentes no seu interior), está entre dois cursos de água (o Brenhas e o da Roda, hoje quase todo “encanado”), tem terras férteis à sua volta e tem uma linha de muralhas de difícil acesso.

 

A força do sítio medieval de pouco lhe serviu depois do século XVI. Chegou, literalmente em força, a artilharia. Uma realidade que a Idade Média não conhecia, desta forma. Qualquer canhão situado nos espaço em volta do castelo – na zona da Porta Nova, por exemplo ou, muito em particular, no alto da Salúquia – fazia facilmente “tiro ao alvo” em direção ao castelo. Encontrámos, nas escavações realizadas em 2003, vestígios de um desses bombardeamentos, com restos de projéteis por entre os escombros das ruínas. Foi essa fragilidade que levou à construção de uma estrutura militar, hoje desparecida, na Salúquia (ficou o nome, na Rua do Forte).

 

Depois da Restauração houve a necessidade de proteger Moura com novos amuralhamentos. A chamada muralha nova, de que sobrevivem alguns troços (Muralha Nova, Boavista, Santa Catarina, Jardim etc.), foi sendo construída, na segunda metade do século XVII, a partir de um desenho ideal de Nicolau de Langres (que nunca foi executado na íntegra). Muitas casas foram demolidas, para dar lugar à edificação de um sistema defensivo razoavelmente complexo. Adaptada ao terreno, e às urbanizações que já existiam, a muralha de Moura não tem o rigor geométrico de outras. Foi, ao longo dos anos, sofrendo várias destruições. Uma das mais importantes ocorreu em 1707, quando a cidade foi cercada pelo Duque de Osuna. Vários pontos das muralhas, medievais e modernas, foram destruídos. Salvou-se a torre de menagem, porque as freiras do convento do castelo imploraram que não fosse destruída, por poder tombar para cima do local onde viviam as freiras. O torreão virado ao Convento do Carmo escapou por pouco. Recordo um excerto das Memórias Paroquiais de 1758: “para a parte do Carmo tem outra grande torre o castello. E levantando-se no ar metade da torre com as minas que lhe fizerão, cahio sobre a metade que tinha ficado fixa, couza que este povo atribuhe a prodigio da imperatriz do Carmo, porque cahindo fora do muro deyxaria o convento todo arrazado” (…)”. Deverá também datar dessa época a célebre “brecha do jardim”, nome hoje em desuso, mas que faz parte do passado de muitos de nós. A ruína parcial que a igreja de S. João Batista sofreu, em 1708, foi, certamente, um “efeito colateral” dos bombardeamentos e das minagens que o poderoso chefe militar espanhol promoveu.

 

Alguns destes tópicos já foram tema para publicações. Outros serão ponto de partida para trabalhos futuros. A riuis Anatis fluminis extremum mundi uideri potest? Das margens do Guadiana vê-se o resto do mundo? Certamente que sim. Desde que se consiga ver. E se queira ver.


Crónica em "A Planície".



Moura, no desenho de Nicolau de Langres (1657)