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quinta-feira, 8 de outubro de 2026

O MISTÉRIO DA LOTAÇÃO DOS ELEVADORES

Há um "mistério" que se agrava. Cada dia que passa se tornam mais estranhos os avisos de lotação nos elevadores. Este, algures na zona oriental de Lisboa, garante que cabem lá 21 pessoas. Medi o sítio: tem 2 metros por 2 metros. Ou seja, 4 m2. Isso dá 0,190 m2 por pessoa. Faz lembrar aquela anedota: "como é que cabem quatro elefantes num mini? resposta: dois à frente, dois atrás".


sexta-feira, 25 de setembro de 2026

40

Número redondo.
Faz hoje 40 anos que comecei a trabalhar na Administração Pública. Era uma quinta-feira, o dia 25 de setembro de 1986. A expetativa é que a carreira se prolongue por mais quatro ou cinco.

 

segunda-feira, 21 de setembro de 2026

CONTOS DA LOUCURA NORMAL: CONIMBRIGA

Ouvido ontem, na cafetaria das ruínas de Conímbriga:

Pessoa 1 - Não vamos ver as ruínas de Conímbriga?

Pessoa 2 - Onde é que isso fica?

Pessoa 1 - Em Conímbriga.

Pessoa 2 - Vamos lá num dia mais fresco, que hoje está muito calor.

Cai o pano.

A cafetaria está virada para as ruínas, que distam do local da "ação" 150 metros.

Duas teses num só momento:

A realidade é sempre melhor que a ficção.

O melhor humor é sempre involuntário.


quinta-feira, 17 de setembro de 2026

LXXV - CRÓNICAS OLISIPONENSES: TU

"Mas tens trabalho fixo?". "Qual é o teu contacto?". "Vais fazer transferências para o estrangeiro, é isso?". Ouvido por mim, numa entidade privada, em Lisboa, há dias. O inquiridor era branco e funcionário da instituição. O inquirido era um homem negro, perto dos 30 anos. Tinha o colete de uma conhecida empresa de obras. A conversa decorria em voz alta. Do outro lado da sala, enquanto aguardava atendimento, eu ouvia tudo com nitidez. O inquiridor tratava o cliente por tu. Percebia-se que não tinham conhecimento prévio. O cliente, manifestamente desconfortável e intimidado, respondia com monossílabos.

Há dois tratamentos por tu: igualdade e superioridade. A questão é que eu não estou a ver o funcionário tratar por tu um jovem yuppie branco com quem nunca se tenha cruzado...

Ai esta terra ainda...


quinta-feira, 3 de setembro de 2026

NO BRITÂNICO

Entre 1980 e 1983, o Instituto Britânico fez parte da minha vida. Duas vezes por semana tinha aulas lá. Os professores eram excelentes (em sucessivos anos letivos: Joseph Tierney, um australiano, e John Ladhams e Margaret Kelting, dois ingleses). Lembro-me do sotaque pausado e muito sofisticado de Miss Kelting. Não aprendi isso com nenhum deles e continuei a falar inglês com sotaque alentejano. Uma vez, no Novo México, disseram-me mesmo, para enorme gáudio da Luísa, "you have a very funny accent, man; where are you from?".

As primeiras aulas foram num convento, nos Inglesinhos, no outro lado do Bairro Alto. Acho que agora é um hotel. Tinha de cruzar aquela zona (era um bairro de portugueses, nesse tempo), passando por bares de má nota e depois pelo Cunhal das Bolas. Passei depois para o Palacete na Rua de São Marçal, outrora propriedade do magnate e mecenas Luís Fernandes e onde também viveu Alves dos Reis.

O Britànico tinha uma magnífica biblioteca - a leitura do Spectator e do Observer faziam parte dos meus rituais de então - e um auditório onde havia ciclos de cinema. As aulas tinham um código rígido: no sex, religion or politics. Mas aprendi imenso. Curiosamente o que mais me marcou foi o espírito analítico na abordagem aos textos, as perspetivas do for and against e a forma de construir um breve ensaio (numa resposta num teste ou num exame, por exemplo). Foram ensinamentos de grande utilidade para o jovem estudante universitário.

Sinais dos tempos: o palacete acaba de ser vendido a uma imobiliária. Haverá menos alunos, imagino, agora é tudo online e digital, e razões de ordem prática levaram o British Council a alienar o imóvel. É assim. Mas é pena.

segunda-feira, 6 de julho de 2026

THE NOR-WAY TO BRAZIL

Excepcionais, Vinícius e Casemiro. E isso não chega.

O resto? São bons, sem serem para a História.

Desde 1990 que o Brasil não ficava pelos 1/8. E tinha então uma seleção muito melhor.

Segue o Campeonato. Ficará para ser recordado pelas piores razões.


sábado, 13 de junho de 2026

FROM MOURA TO AYAMONTE

A primeira parte da história tem uns anos:

Num restaurante de Moura o dono, um jovem simpático e jovial, mostrou-me a ementa: "já viu? traduzi para inglês!". Olhei o menu à porta, com atenção. Estaquei num ponto. Havia grilled lizards. Havia o quê? Lagartos grelhados... Supostamente, o meu amigo queria anunciar aquela parte do porco a que chamamos "lagartos". Publicitava, contudo, algo de completamente diferente. Ou seja lagartos, dos verdes mesmos, na grelha. Expliquei o equívoco e aconselhei-o "tira isso daí, antes que tenhas aqueles ingleses, que acham que somos todos uns bárbaros, à perna". Tirou e passou anunciar uma mais banal grilled meat, ou algo assim.

A segunda parte:

O episódio foi revivido há semanas, numa esplanada de Ayamonte. A Luísa, uma jovem amiga, apontou-me a ementa do bar: "já viste aquilo?". Tinham traduzido "raia com pimentão" por "risca com parrika". Dois erros: raya é risca em espanhol (daí o stripe), e pimentão é/pode ser paprika (não parrika) em inglês. Ah, e raia é fishbase 😁😁😁

Imagino o ar intrigado de um inglês a olhar para aquele stripe in parrika... (what the hell do they eat in Spain?...)





quinta-feira, 14 de maio de 2026

PORTUGAL ATLÂNTICO

Uma brisa fresca soava acima do Douro, mas sem termos chegado ao Rio Minho. Granito, espigueiros, ardósia e muros de pedra ladeando azinhagas. Outro País, diferente do meu. Mas que não me pertence menos.

Rapidamente, no Porto, dei-me conta que a cidade (ainda) não perdeu a alma. Algo que Lisboa já teve e já não tem.

O Portugal Atlântico é a metade de cima do meu País.



sábado, 2 de maio de 2026

O DESPOVOAMENTO DO "INTERIOR": DO SÉCULO XVI ATÉ AOS NOSSOS DIAS

A cópia (melhor dizendo, o rascunho) do Livro das Fortalezas de Duarte Darmas está na Biblioteca Nacional de Espanha. Está classificado como manuscrito MSS/9241 e pode ser consultado online: https://bnedigital.bne.es/bd/es/viewer?id=bf5fbebc-a7d6-4e49-9bb8-a9edcb68bbc3 . Foi o que fiz ontem à tarde, cotejando informações "laterais".

Uma das notas mais curiosas reporta-se à fortaleza de Portelo, no concelho de Montalegre. Anota Duarte Darmas o abandono do sítio (nem o alcaide ali vivia...):

"Alcayde nom no vy por que achey a fortaleza soo sem ningem".

Portelo faz fronteira com Espanha. Ficava a 370 quilómetros da capital do reino. Em 2011 a freguesia de Padornelos tinha 124 habitantes. O abandono é antigo.












Ver fotografia atual do sítio em:

https://www.google.com/maps/@41.8932897,-7.7635064,3a,52.2y,327.19h,98.39t/data=!3m7!1e1!3m5!1sojdCgiP-b2fQYK6Wwdajfg!2e0!6shttps:%2F%2Fstreetviewpixels-pa.googleapis.com%2Fv1%2Fthumbnail%3Fcb_client%3Dmaps_sv.tactile%26w%3D900%26h%3D600%26pitch%3D-8.39%26panoid%3DojdCgiP-b2fQYK6Wwdajfg%26yaw%3D327.19!7i13312!8i6656?entry=ttu&g_ep=EgoyMDI2MDQyOS4wIKXMDSoASAFQAw%3D%3D


sábado, 18 de abril de 2026

MÔDE??? MONDE???

No outro dia dei comigo a pensar em palavras e expressões "que se vão perdendo". Que não fazem sentido nos nosso dias, ou que foram cilindradas por novos usos, pelas redes sociais, pela padronização da estupidez televisiva...

Subitamente, apareceu-me uma expressão quye não ouço há décadas. E que a minha avó Joaquina do Ó Ferreira (1909-1975) usava: môde [por mor de... por causa de...]. O uso era quase sempre interrogativo: "atão isso é môde quê?". Noutras pessoas ouvi o môde passar a monde. Na minha juventude ainda se usava, já mais em tom de brincadeira que outra coisa. Hoje em dia, diria que desapareceu.


sexta-feira, 3 de abril de 2026

PAIXÃO 2026

Trinity, de Carlos Aires.

Uma grande peça, no MACAM.

Uma evocação perfeita, para este dia.



segunda-feira, 23 de março de 2026

MÁSCARA N°. 32: ROTUNDA

Carantonha esfolada, num pilar da estação central do metro lisboeta, e que outrora foi ROTUNDA. Dia 13, às 17:12.

segunda-feira, 9 de março de 2026

C.N.C.D.P.

No sábado passado tive como memória recorrente a Comissão Nacional para as Comemorações dos Descobrimentos Portugueses. Extinta em 2002 às ordens do governo de Durão Barroso. Aquele processo de extinção é um verdadeiro manual de como-não-fazer. A C.N.C.D.P. foi uma verdadeira escola de quadros e de produção de conhecimento. Saber aproveitar esse potencial teria sido importante para o nosso País. Infelizmente, isso não aconteceu.

quinta-feira, 5 de março de 2026

RUA MOITA MACEDO

Às 17:41 de hoje descerrou-se a placa toponímica. Um vento gelado varria o Lumiar. Entre as Ruas Pina Bausch e Querubim Lapa criou-se espaço para Moita Macedo, o poeta, o pintor, o militante comunista. Uma justa homenagem e uma semente para o futuro. As brilhantes palavras de Mário Avelar explicaram tudo e tudo iluminaram. Lá estive, entre amigos e memórias. Que se me repetiram, uma vez e outra, no regresso a casa. Uma muito feliz tarde fria.

Da esquerda para a direita:

Carlos Moedas (Pres. CML), Ricardo Mexia (Pres. J.F. Lumiar), Maria Rosário Macedo e Paulo Macedo.

quinta-feira, 26 de fevereiro de 2026

COLHOADA

É uma das minhas expressões "locais" (Moura e arredores) preferida. Toda a gente (homens e mulheres, novos e velhos) a usa e toda a gente a pode e deve usar.
A palavra é colhoada = conversa aborrecida e longa; tema desinteressante. Tenho uma amiga que foi dar aulas para Moura nos anos 80 e ficou chocadíssima quando um aluno adolescente proferiu a palavra à frente dela.
É palavra que só uso lá, para evitar confusões e mal-entendidos.
Contextos possíveis:
"valente colhoada";
"grande colhoada";
"pregou-lhe uma colhoada"
"tal não tá a colhoada" (esta foi-me dita por uma familiar próxima, quando eu tinha funções autárquicas e tive de atender na rua, longamente, um munícipe);
Ou, de alguém especialmente maçador:
"é grande colhoativo"
Coisas de Moura 💛💛💛


domingo, 8 de fevereiro de 2026

DO ARCO DO CEGO A SANTA APOLÓNIA

Aguardava a conclusão de um trabalho à porta de uma casa de fotocópias, na Rua Dona Filipa de Vilhena. Ia trocando impressões com o meu amigo André Linhas Roxas, enquanto via passar os jovens da escola secundária ali ao lado. Eram 10 horas da manhã. Passa um grupo, munido de refrigerantes e folhados pré-fabricados. Daí a pouco outro grupo, com mais refrigerantes e bolicaos e outras trampas do género. Depois, daí a minutos, mais rapaziada, artilhada com refrigerantes e donuts ou algo parecido. Tinham, todos, ar de excesso de peso.

Não deixei de pensar no tema, durante toda a manhã. À hora do almoço, e tendo de rumar à Baixa, parei na "Maçã Verde", mesmo junto à estação.

"Hoje temos um prato dietético", disse-me o empregado, com ar de boa disposição.

"Qual?", perguntei, meio-desconfiado.

"Rancho à transmontana". Foi isso, mais um copo de vinho tinto, pão e café.

Um almoço excelente, ainda que solitário. Ainda há sítios assim, onde o lixo pré-fabricado não entra.











Receita em:

https://gracatruquesdicas.pt/

sábado, 31 de janeiro de 2026

SEM NOVIDADES NEM SURPRESAS

Houve uma tempestade. Dura e com coisas imprevisíveis.

O pior veio depois. E o pior dura até hoje. Falhas nas comunicações. Ausências de responsáveis no terreno. Impreparação. Inexistente logística. Descoordenação. "Explicações" inenarráveis (do Secretário de Estado da Proteção Civil). Os problemas entregues "aos de sempre": Câmaras, Juntas, Bombeiros, Populações.

Insuficiências conhecidas e explicadas no outro dia, na televisão, por um bombeiro. O que aconteceu foi o que se esperava: o CAOS.




domingo, 25 de janeiro de 2026

AO DESCONCERTO DO MUNDO

Os bons vi sempre passar
No Mundo graves tormentos;
E pera mais me espantar,
Os maus vi sempre nadar
Em mar de contentamentos.
Cuidando alcançar assim
O bem tão mal ordenado,
Fui mau, mas fui castigado.
Assim que, só pera mim,
Anda o Mundo concertado.

Ao re(ouvir) o poema de Camões na sexta de manhã, no Panteão Nacional, notei a sua espantosa atualidade e pertinência. A cada dia que passa se tomba mais a balança. Manda quem pode...



segunda-feira, 29 de dezembro de 2025

TOMARA QUE CHOVA

"Atrás de nós os assentos de betão iam-se enchendo compactamente. à frente, para lá da trincheira, a areia da arena estava cilindrada a preceito, muito amarela. Parecia um pouco empapada pela chuva, mas estava seca ao sol e firme e lisa".

Este excerto, e as páginas que se lhe seguem, são, verdadeiramente, a parte de que gosto do "O sol nasce sempre" (1926), de E. Hemingway (1899-1961). O resto do livro soa-me bastante irritante.

Falámos de Hemingway ontem à noite, por causa dos touros, da boémia e de Cuba. Quando regressei a casa, com um novo guarda-chuva na mão, só pensei "tomara que chova".


segunda-feira, 22 de dezembro de 2025

O HOBBY DOGGING OU QUANDO EU ERA EUSÉBIO...

Aquela cena marada de andar a passear cãezinhos imaginários fez-me recuar a 1970 ou 1971. Tinha uns 7 anos e aprendera a ler relativamente depressa. A narrativas épicas do Jornal do Benfica (o primeiro jornal que li) levavam-se a recriar os jogos europeus numa partida a solo. Ou seja, eu era o Benfica e o Real Madrid em simultâneo. Ou seja, eu era 22 jogadores... E jogava sozinho, para trás e para a frente, em desarmes temerários, em passes infalíveis e em golos espetaculares, marcados por Eusébio.

Um dia, no meio de uma animada partida, reparei que os homens que carregavam o bagaço da azeitona, na Sociedade dos Azeites, riam daquele bailado solitário. Envergonhado, abandonei o terreno de jogo. Assim terminou, aos 7 anos, o que podia ter sido uma carreira promissora.

Ah, mas se me virem agora passear algum cãozinho imaginário ou fulminar Junquera com um indefensável remate, podem internar-me sff.