Trinity, de Carlos Aires.
Uma grande peça, no MACAM.
Uma evocação perfeita, para este dia.
O primeiro "embate" deu-se, há meses, numa cerimónia na Direção de História e Cultura Militar. Estavam expostas algumas fantásticas imagens de alguém que desconhecia. Fiquei, sem razão, quase envergonhado por nunca ter ouvido falar de José Veloso de Castro (1869-1945). Um militar que foi um extraordinário fotógrafo, agora resgatado ao esquecimento pelo trabalho de investigação de Carlos Pedro Reigadas. Um verdadeiro acontecimento.
Um registo de dezenas de fotografias, que ainda pode ser visto, até final do mês, no Museu Militar de Lisboa.
Esta obra de Kiluanji Kia Henda (n. 1979) data de 2007. Retomo-a na altura em que o tema Museu dos Descobrimentos volta a emergir. Mas não irá avançar, decerto. Nós, aqui na Lusitânia somos ótimos palrar e a debater mas muito menos ótimos a decidir...
Uma peça do Laos, do princípio do século XX. Está na Casa da Ásia - Coleeçao Francisco Capelo. O entramado geométrico faz lembrar o padrão das cerâmicas berberes e as mantas da região de Mértola. O meu amigo Cláudio Torres dava-nos, nas aulas (1983... 1984...) uma interessante perspetiva teórica sobre os modos de produção e o seu reflexo nas artes tradicionais. Infelizmente, nunca passou à escrita essas estimulantes ideias.
Podia ser pior...
É uma das minhas manias inofensivas: fotografar as fichas técnicas das exposições e dos museus. Ante o olhar sempre um pouco desconfiado dos meus alunos, explico sempre que é uma das formas de recolher informações: quem faz, quem são os técnicos, quais são as empresas, quem trata disto e daquilo. Ainda na semana passada repeti o gesto. Mais uma vez recolhi dados de interesse.
Faz hoje 50 anos. Até hoje permanece o mistério. Ninguém foi preso.
Transcrevo de https://www.guimaraesdigital.pt/index.php/informacao/cultura/42799-66090:
O audacioso assalto ao Museu de Alberto Sampaio registado a 16 de Novembro de 1975 continua a inquietar a memória dos vimaranenses. E se os culpados que foram julgados e condenados não chegaram a ser encarcerados e a pagar as indemnizações, os seus actos não foram esquecidos pelo crime hediondo de 'lesa-Pátria'. Foram roubadas peças e jóias de incalculável valor, num "golpe protagonizado por um casal que teve a colaboração de outro na fuga que empreenderam de automóvel".
O crime desse domingo de outono é descrito pelo jornal O Comércio de Guimarães, na sua edição de 22 de Novembro de 1975. "Na hora de encerramento o principal funcionário Fernando Cunha foi violentamente agredido e manietado, enquanto os assaltantes roubavam as peças e jóias valiosíssimas que constituíam grande riqueza do tesouro de Nossa Senhora da Oliveira".
"O golpe obedeceu a um plano devidamente estudado, com estratagemas e foi posto em prática a hora que os assaltantes julgaram a mais propícia, como realmente era. Foram roubados os seguintes valores: - Coroa de Nossa Senhora da Oliveira, de ouro e pedras preciosas, do século XVIII; peitoral em prata dourada e peças preciosas, também do século XVIII; meada de ouro puro, com 32 metros; do século XVIII; passador de prata, século XIV; rosário de ouro, também do século XIV, cordão de ouro também do século XVII; orilhão de ouro, século XVII; cruz de ouro (indiana) do século XVII; e outra peça de prata do século XIV".
Os autores do crime pertenciam a um comando do Movimento Democrático de Libertação de Portugal (MDLP), movimento de resistência à crescente influência do Partido Comunista Português e dos vários grupos de Extrema-Esquerda, criado após o 11 de Março de 1975 e extinto a seguir ao 25 de Novembro desse ano, em que a frágil democracia enfrentou o denominado «Verão quente».
O casal composto pelo ex-primeiro-tenente fuzileiro José Maria da Silva Horta, desertor das Forças Armadas após a falhada intentona do 11 de Março, e por Maria Alice da Silva Marques, antiga Secretária de um dirigente do chamado Partido do Progresso.
Houve quem qualificasse o assalto como um "crime de lesa-Pátria". Os autores nunca foram encarcerados. O ex-tenente Silva Horta desapareceu sem deixar rasto, embora tivessem circulado informações de que teria sido identificado no Brasil, e Maria Alice chegou a ser detida em Cascais, mas conseguiu fugir do Hospital Miguel Bombarda, onde estava internada sob prisão. Ambos foram julgados e condenados à revelia, em 1987, a 20 e 15 anos de prisão e ao pagamento de um milhão de contos.
As jóias nunca foram recuperadas, havendo versões de que teriam sido vendidas ao desbarato em diversos lugares. Oxalá, tal não tenha acontecido e que o tesouro continue algures intacto.
Também temos exemplos disto, ainda que num registo diferente:
1975 - o nunca resolvido roubo do Museu Alberto Sampaio.
2002 - o desaparecimento das jóias da coroa portuguesa, ocorrido em Haia.
E esta é uma grande ideia. A UNESCO criou um museu virtual para mostra objetos roubados. Aí podemos saber mais sobre objetos desaparecidos. A esperança é que possam ser localizados e que sirvam todos os podermos apreciar. As fichas são um detalhadas e com a qualidade que se poderia esperar. Ora esguardae...
Ontem, foi dia de ir ao Museu da Arte Contemporânea Armando Martins (MACAM) assistir à entrega do Prémio Gulbenkian Património.
A assombrosa recuperação do estado de ruína em que estava o Palácio do Conde da Ribeira Grande é, desde logo, uma iniciativa de assinalar. Devia o Estado seguir-lhe o exemplo.
E depois há a fantástica coleção que Armando Martins reuniu e a que agora Adelaide Ginga dá vida.
Não resisto a deixar aqui uma imagem da intervenção visual de Carlos Aires (n. 1974), um Cristo Negro detrás do qual passam, em loop, vídeos nada neutros.
https://gulbenkian.pt/
"Guardas à porta do túmulo" é uma pintura orientalista que está na National Gallery of Ireland. O seu autor é Jean-Léon Gérôme (1824-1904) que conheceu bem o Levante Mediterrânico. Ao ver o quadro não pude deixar de me lembrar de um belo filme de Sérgio Tréfaut, "A cidade dos mortos". E não pude deixar de me interrogar sobre o início do uso habitacional dos jazigos no Cairo.
Um prato em bronze do século II, que terá vindo de Kildare, 50 quilómetros a sudoeste de Dublin.
A peça está no fantástico Museu de Arqueologia e olha-nos assim.
Gailearaí Náisiúnta é o nome, em gaélico, da galeria nacional de Arte da Irlanda. Um excelente museu e uma viagem importante pela arte europeia. Parte da coleção foi construída já no século XX, quando a Irlanda não navegava propriamente num mar de prosperidade. Em Portugal não fizemos nada disso. Tivémos Salazar, nada mais. E a palavra cosmopolitismo passou a ser proibida despois de 1926.
Chamou-me a atenção este quadro de telhados na Checoslováquia, pintado no início da década de 20 por Mary Swanzy (1882-1978). O expressionismo, que curoiosamente não vi associado ao nome da pintora, mostrava-se. Antes de ler a legenda pensei que fosse um trabalho de um artista alemão...
Quando uma visita é mais que uma visita.
A ida a Kilmainham Gaol (uma antiga prisão com longo e importante papel na libertação da Irlanda) é uma lição de História e de Cidadania. Toda a tirania inglesa, toda a imperial crueldade, está ali detalhadamente explicada. Os guias nao sao só guias: são empenhados nacionalistas que, tendo de fazer aqueles percursos várias vezes por dia o fazem (pelo menos no que nos calhou) com afinco e profissionalismo.
Conseguir bilhetes não é fácil, pelo que convém reservar com (muita) antecedência.
Ver: https://heritageireland.ie/places-to-visit/kilmainham-gaol/
Faz hoje 10 anos. Abriu ao público a exposição "Água - património de Moura".
Um momento marcante no mandato 2013/2017. Foi uma das muitas iniciativas que então tiveram lugar. Sobre a exposição em si já disse o que havia a dizer. Sublinho sempre que tive o enorme prazer de liderar a equipa que tornou isto possível.
Multidões no Prado e no Reina Sofia. Quem quiser perceber a importância dos museus na cultura contemporânea (e na economia!) tem ali dois vibrantes exemplos. Pode também ir à Gulbenkian, ao MACAM ou ao MAAT.
O Museo Arqueológico Nacional convenceu-me muito menos, em termos de programa museográfico. Mas é coleção é esplendorosa.
Detalhes a reter:
1. A disparate história de um trabalho de Richard Serra, que desapareceu sem deixar rasto. Estamos a falar de uma escultura com várias toneladas... Foi feita nova versão.
2. A supresa Pierre Verger. Conheço o trabalho dele, mas não sabia que tinha um livro monográfico sobre a exposição universal de 1937. Já ando à cata dele nos alfarrabistas internacionais.
Não tinha uma ideia muito precisa da pinacoteca da Casa-Museu Anastácio Gonçalves. O edifício é hoje invisível, depois da construção da Torre FPM 41. Chegar lá é um zigue-zague, numa paisagem urbana que já se quis parisiense e que hoje não é coisa nenhuma.
Lá dentro há naturalistas. Há João Vaz e há Silva Porto (cf. infra). Quanto mais olho, mais gosto. Fico sempre, talvez de forma errada, com a sensação de estar ante uma geração que ficou meio perdida e que não tem o destaque que merece.
MACAM x 2.
Escolhi duas peças da extraordinária coleção reunida por Armando Martins e que está no novíssimo museu lisboeta.
Uma vanitas, de John Baldessari (1931-2020), que espero poder levar um dia ao Panteão Nacional, e uma marinha, de João Vaz (1859-1931), que nunca tinha visto e que é excecional, foram as minhas escolhas do dia.
Ver: https://macam.pt/pt
Há dois anos Lonnie Bunch III (muito gostam os americanos destas tretas do II, III...) veio à Lusitânia falar sobre o papel dos museus, e a escravatura, e o passado colonial etc. O texto promocional da conferência na CULTURGEST dizia: "Lonnie G. Bunch III, Secretary of the Smithsonian Institution, explores the critical need for museums around the world to work collaboratively and creatively to recover and recognize the painful legacies of the slave trade, in order to promote social justice and new visions for the future".
Teorias e práticas prafrentex, inovação, disrupção, novas visões etc. Se estou contra? Não estou, mesmo nada. Apenas cético, como sempre.
Entretanto um tal de Trump teve 77.000.000 de votos e tornou-se (re)presidente. Os efeitos não tardaram:
The Smithsonian Institution is closing its diversity office and freezing all federal hiring. The decision will affect dozens of American museums, research centers and libraries, as well as the National Zoo.
The move to eliminate the Office of Diversity comes in the wake of an executive order from President Trump that describes diversity, equity and inclusion initiatives, or DEI, as "illegal and immoral." The Smithsonian is not a federal agency. But much of its billion dollar budget comes from federal appropriations. Two-thirds of its nearly 6,500 employees are federal workers.
The Smithsonian Institution will close its Office of Diversity, a spokesperson confirmed Tuesday, only a week after President Donald Trump directed all federal diversity, equity and inclusion offices and staff be laid off.
The Washington Post first reported that Smithsonian Secretary Lonnie G. Bunch III emailed staff announcing the closure, calling it the “first step” to address the new federal policy.
E Lonnie Bunch III, secretário-geral da Smithsonian Institution? Meteu a viola no saco, ora essa.