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quinta-feira, 22 de janeiro de 2026

O CRONISTA ANACRÓNICO









António Araújo escreveu uma crónica sobre um espião. Até aí, nada de novo. Mas depois resolveu inovar. E disse que o espião foi preso antes de ir para o outro lado da Cortina de Ferro. Cortina de Ferro? Em 1994??? Bois Yeltsin era o Presidente da Rússia. Ver muitos filmes do 007 dá nisto...

Aldrich Hazen Ames (1941-2026), a morte de um traidor
A detenção teve lugar na manhã de segunda-feira de 21 de Fevereiro de 1994, quando Ames se preparava para sair de casa rumo ao trabalho. No dia seguinte, estava previsto que viajasse até Moscovo, onde iria participar numa conferência, pelo que o FBI, não querendo correr o risco de que ele se escapulisse em definitivo para o outro lado da Cortina de Ferro, antecipou a sua prisão.

https://www.publico.pt/2026/01/18/mundo/noticia/aldrich-hazen-ames-19412026-morte-traidor-2160956

segunda-feira, 22 de setembro de 2025

SORTIDO FINO

Os dias podem ser chatos e cansativos. Mas nunca verdadeiramente aborrecidos.

Hoje. logo pela manhã:

Leitura de um texto do Pe. Portocarrero de Almada, que defende a ida de Afonso de Albuquerque para o Panteão. Bom, já lá está desde 1966... A menos que seja outro Afonso de Albuquerque.

Leitura do que já se sabia. Razão para ter "orgulho" em tal criatura.

Leitura das tiradas racistas de um ativista radical recentemente assassinato (assassinato esse que condeno).


terça-feira, 3 de junho de 2025

HAGIOGRAFIA

O artigo do "Expresso" sobre o almirante candidato não é um perfil. É uma hagiografia. Começou a promoção de uma ficção política.


segunda-feira, 17 de fevereiro de 2025

A HOLA!, A MAIOR REVISTA DO MUNDO E UMA DAS MAIORES DE ESPANHA

Comprei, há dias, a Hola!, para uma pessoa amiga que estava hospitalizada. Como ela diz, é "a revista da calhandrice" 😀. Fiquei a saber que a revista se vende na Península por 2,90 € e em Portugal (!) por 3 €.

Havia um conhecido catedrático de História Medieval espanhol que batia com a unha no mapa, na parte da Península que corresponde a Portugal, murmurando esta herida... Os da Hola! devem ser sobrinhos dele 😀😀😀.


sexta-feira, 3 de janeiro de 2025

2025 EM QUATRO PARÁGRAFOS

O que esperar deste ano em que entramos? Nunca os tempos foram tão incertos e tão preocupantes como aqueles que vivemos.

 

Fora de portas: Rodeados por líderes, em geral, muito fracos, com uma guerra que se arrasta na Ucrânia (importaria ler um pouco de História e ver “como isto começou”…), por entre os interesses americanos, a incompetência europeia e um Kremlin que sempre foi o herdeiro do império bizantino, o que causa preocupação são as quase quatro mil ogivas nucleares ativas. E não falemos de Gaza, que é a vergonha de todos nós. A nível internacional, não há motivos para tranquilidade.

 

Em Portugal: Importa fazer perceber ao Governo que o problema não é o Estado. E que, mais do que nunca, precisamos de serviços públicos de qualidade (a começar pela Saúde), que precisamos de segurança (sem paranoias securitárias e a falsa ideia de que Portugal é um país perigoso), que precisamos de transportes públicos em condições, que precisamos do ensino público. Precisamos de trabalho pago com justiça e com dignidade.

 

No Alentejo: A nossa região passa por uma revolução demográfica sem precedentes. A integração dos imigrantes é o nosso grande desafio. Por mais que a alguns custe encaixar a ideia, a imagem folclórica do Alentejo criada pelo fascismo é para as vitrinas da História. O Alentejo do século XXI já é outro. Tenho ainda a esperança em duas coisas: primeiro, que se acabe, de vez, com a miragem de um aeroporto em Beja como alternativa a Lisboa; segundo, que se consiga fazer de Évora uma digna capital europeia da cultura em 2027.

 

Em Moura: Para a minha terra faço votos de mudança política e que o atual e incompetente executivo seja removido por uma Câmara de maioria CDU. Porque o meu concelho merece tempos de esperança.


Texto hoje, no "Diário do Alentejo"



segunda-feira, 16 de setembro de 2024

ODEMIRA, SETEMBRO DE 1974

Um amigo fez-me chegar este extraordinário excerto do Diário do Alentejo, de setembro de 1974. Uma desavença entre o pároco de Odemira, durante as Festas da Senhora da Piedade, acabou com a Banda dos Leões (Moura) tocando o "Avante, camarada". Uma cena de filme italiano. Na Sicília, não na Lombardia, claro.

sexta-feira, 12 de janeiro de 2024

MARGEM SUL E MARGEM NORTE

Manhã nos Capuchos, na Caparica. O papel das autarquias na Arqueologia e no Património. Agora que celebramos os 50 anos do 25 de abril, convém recordar que há claramente um antes e um depois na Cultura. Coube-me um papel neutro, o de moderador numa das sessões. Cada vez me impressiona mais a diversidade, pertinência e qualidade dos projetos que, em todo o País, vão tendo lugar.

Ao fim da tarde, passagem pela banca dos jornais para comprar a "Visão - História". Muitos séculos da história de Lisboa. Com referência a uma intervenção do poder cordovês na cidade, que teve lugar no ano 985 d.C..




segunda-feira, 27 de fevereiro de 2023

DUARTE DARMAS - HOJE, NO "PÚBLICO"

Duas páginas na edição de hoje do "Público", num belo e rigoroso trabalho de Lucinda Canelas, vêm, hoje, ampliar bastante a divulgação que tem sido feito deste projeto sobre os desenhos de Duarte Darmas na fronteira alentejana.

A caminhada prossegue. A exposição encerra amanhã em Serpa, para reabrir, logo de seguida, em Mértola. A vila do Guadiana é o sexto ponto de paragem.


sexta-feira, 25 de fevereiro de 2022

QUANDO ESGOTEI A LOTAÇÃO DO RESTELO

Bem, não sou exatamente os Metallica. E, portanto, isto é mais "tipo-virtual".

Mas soube há pouco que a minha entrevista à SAPO 24 https://24.sapo.pt/atualidade/artigos/santiago-macias-diretor-do-panteao-nacional-sou-um-malcomportado-fumo-charutos-e-vou-as-corridas-de-touros teve 23.259 visualizações de página, com um tempo médio de leitura de 07:27 minutos.

Ena. O Estádio do Restelo tem 19.900 lugares de lotação. Portanto...

terça-feira, 27 de julho de 2021

CUMUNICASSÃO ZOOCIAL

Um jornal promove um "debate" sobre as autárquicas. Esqueceram-se de convidar o outro partido representado na Câmara Municipal.

Outro jornal recolhe as opiniões dos partidos na sequência de uma reunião com o INFARMED. "Esqueceram-se" de um partido. Qual? O mesmo que está representado na Câmara de Cascais.

E qual é esse partido? O Partido Comunista Português. O silenciamento é sistemático. Acho imensa graça é virem depois os da cumunicassão zoocial virem dar lições de moral... Oh, se acho! Devem estar a começar as palpitantes reportagens sobre o perigo público que é a Festa do Avante!...






segunda-feira, 14 de junho de 2021

O PANTEÃO NO "PÚBLICO"

Trabalho jornalístico de Lucinda Canelas no "Público" sobre o Panteão Nacional, com fotografias de Daniel Rocha. Um triplo privilégio.

O plano de trabalho trienal foi apresentado à tutela no final de maio. O que disse ao "Público" reflete uma parte do que foi escrito e que deverá ser posto em prática. Num monumento com tanta carga do passado, o que importa é, como sempre, preparar o futuro.

Aguardo, como todos os colegas, com grande expetativa, as possibilidades que o PRR nos irá abrir. Depois, é fazer o caminho.




quinta-feira, 10 de dezembro de 2020

OS MÁRTIRES NA COMUNICAÇÃO SOCIAL

É sempre um dado fundamental. Ter good press. Só isso só não basta. A publicidade por si só não chega... Publicidade sem nada mais é propaganda balofa a coisa nenhuma.

Creio não ser esse o caso, felizmente, de "Guerreiros e Mártires", no Museu Nacional de Arte Antiga. O trabalho de uma vasta equipa resultou numa exposição que, posso dizê-lo sem imodéstia, é um trabalho coletivo de qualidade. E que, do ponto de vista pessoal, encerra um capítulo na minha vida profissional. O "sucesso visual" do que pode ser visto deve muito, mas muito mesmo, ao trabalho de Manuela Fernandes e de Sónia Teixeira Pinto. A SIC, o Expresso, o Público, a Antena 2, agora a RTP têm dado destaque a "Guerreiros e Mártires".

Ver - https://www.rtp.pt/play/p6677/e511302/as-horas-extraordinarias


quinta-feira, 12 de novembro de 2020

PROLEGÓMENOS AO NACIONAL-TAVARISMO

E escreve João Miguel Tavares:

"a democracia é precisamente o regime em que posições abjetas podem ser defendidas de forma legitima, da castração química de pedófilos às 35 horas de trabalho na função pública".

Ou seja, para João Miguel Tavares, e na escala de abjeções, castração química de pedófilos=35 horas de trabalho semanais. Uma equivalência abjeta, pode dizer-se.

De resto, e como bem nota António Filipe, o PCP defende as 35 horas, tanto no setor público como no privado. Infelizmente, a seriedade das propostas não é notícia, hoje em dia.

Ao Tavares, vai-lhe acontecer como ao Dr. Estranhoamor, no filme: solta-se-lhe o braço... É uma questão de tempo.



sábado, 26 de setembro de 2020

BULA MG-48-04

No meio de um interminável projeto de investigação entrei, há dias, no Museu Militar de Elvas. Toda aquela parte da fortaleza está organizada com rigor e disciplina castrenses. Os militares que nos recebem são de uma disponibilidade total. No meio do calor da tarde, e ante o meu atarantamento, um deles sugeriu “não se esqueça de visitar o setor das viaturas, fica na parte de trás”.


O forte é imenso. Muitas vezes dei comigo a pensar – ao olhar para o esplendor de Elvas ou de Almeida, mas também para obras menos complexas como Campo Maior, Ouguela, Arronches ou Moura – “que gente extraordinária foi aquela que, em poucos anos, mudou a face dos castelos medievais? que homens eram aqueles que construíram as defesas de um País em muito pouco tempo? que alma tinham e com que convicção o fizeram?”. Não saberemos os seus nomes, mas a eles devemos quase tudo.


Era nisso mesmo que pensava ao percorrer o forte. No anonimato dos homens e na importância da preservação da memória. A dado momento, passo por um carro de combate. Um chaimite – só o nome é fantástico, por aquilo que evoca – com o nome pintado. Leio BULA. Procuro informações adicionais, mas não há rigorosamente nada. Tenho uma quase certeza “esta foi a viatura em que evacuaram Marcelo Caetano do Quartel do Carmo no dia 25 de abril de 1974”. Tomo nota da matrícula, MG-48-04. Tomado de um estranho impulso, faço uma coisa que nunca fizera. Toco a chapa do blindado, enquanto penso “estou a tocar a História e estou a tocar o dia mais importante do século XX de Portugal”. Ao chegar a casa, vou rever a reportagem de Alfredo Cunha. Irrepetível e genial. E já ele pode fotografar milhares de coisas, que nunca voltará aquele dia único, “o dia inicial inteiro e limpo / onde emergimos da noite e do silêncio”, de que nos falou Sophia de Mello Breyner Andresen. Lá estão os blindados e lá está o chaimite.


No calor da tarde de Elvas ficara uma viatura. O nome (Bula) é de um sítio a norte de Bissau. Mas nada, no museu, nos explica o que é Bula e onde fica, que carro é aquele e que importância teve, num dia decisivo para todos nós. Sinto um estranho embaraço. Como historiador, sempre me causou estranheza a forma como, em Portugal, lidamos com o passado. Renegamos a memória, ocultamos os factos e temos vergonha dos nossos libertadores. Aquela viatura – uma caixa de metal com um nome e uma matrícula – é muito mais que um carro com rodas. Nela teve lugar um momento decisivo do século XX português. Devia ser objeto de pedagogia e não de esquecimento.


Nestas alturas, lembro-me sempre de uma entrevista que fiz a António Borges Coelho, há já muitos anos. A dada altura, disse algo como “a memória do passado recente é ocultada, porque muitos dos que estão no poder são filhos e netos dos de outrora; são os mesmos e protegem-se”. Essa frase não mais me saiu da cabeça. E justifica, muito provavelmente, a envergonhada situação em que está um certo chaimite. O tal em que Marcelo Caetano viu, pela última vez, Lisboa e que tem a matrícula MG-48-04.


Crónica publicada no "Diário do Alentejo" (25.9.2020)




quarta-feira, 26 de agosto de 2020

NOVO ÉS, VELHO SERÁS

Fotografia - Robert Mapplethorpe
 

Um texto importante, o de Carmen Garcia, no "Público". Na primeira pessoa e sem sentimentalismos fáceis. Direto ao tema.

Era uma vez um lar

Como aluna de Enfermagem, ainda com insuficiente sentido crítico, fiz o melhor que consegui. Num esforço hercúleo para não fugir, franzi o sobrolho em concentração, coloquei um bocadinho de creme perfumado debaixo do nariz, tal como a minha orientadora tinha feito, e uma máscara. E depois passámos horas a fazer pensos.

A Fundação Maria Inácia Vogado Perdigão Silva, em Reguengos de Monsaraz, foi o primeiro lar onde entrei na vida, era ainda aluna de Enfermagem. Lembro-me dos tectos altos do edifício, da simpatia da funcionária que nos recebeu, vestida com uma bata azul e branca aos quadradinhos, e de uma sala de convívio que me pareceu gigante. Infelizmente as recordações boas terminam aqui. E começa o cenário dantesco.

Como aluna de Enfermagem, ainda com insuficiente sentido crítico, fiz o melhor que consegui. Num esforço hercúleo para não fugir, franzi o sobrolho em concentração, coloquei um bocadinho de creme perfumado debaixo do nariz, tal como a minha orientadora tinha feito, e uma máscara. E depois passámos horas a fazer pensos.

Tudo isto que vos conto aconteceu em 2009 e suponho que, ao longo destes 11 anos, muita coisa tenha mudado. Só que aparentemente não mudou o suficiente. E sabem qual é o verdadeiro problema, muito maior que qualquer trica política? É que este lar está longe de ser caso único.

Contei há dias, na minha página pessoal de Facebook, que no início da minha carreira comecei a fazer umas horas num lar de onde acabei por me despedir após ser repreendida aos gritos porque, num dia quente de Agosto, coloquei protector 50+ no rosto de um idoso de 80 anos que andava a trabalhar na horta. Aparentemente e segundo me gritaram, o protector era demasiado caro para ser utilizado assim. Ainda estou para perceber o que raio seria este “assim”, mas nesse dia percebi que, nestes casos, não pode existir um “se não os podes vencer, junta-te a eles”. A única solução, quando não conseguimos mudar as más práticas, é vir embora e denunciar. Mesmo que as denúncias caiam quase sempre em saco roto.


Sei que é importante que no caso de Reguengos se apurem responsabilidades. Também sei as coisas terríveis que os meus colegas lá viram e viveram. Sei do cheiro a urina, dos idosos só de fralda, do calor abrasador e da falta de condições. Mas também sei que é ainda mais importante que nos façamos ouvir agora, enquanto sociedade, para mudar de uma vez por todas o paradigma de muitos lares deste país.


Não vou cair no caminho fácil do “se fossem cães estava toda a gente indignada”, porque, além de ser um argumento vazio, me parece falacioso. Eu também me preocupo com os cães. E isso não quer dizer que não me preocupe com os idosos. Ou com as crianças. Preocupo-me com todos aqueles que, sendo frágeis, temos obrigação de proteger. E preocupo-me ainda mais quando percebo que falhamos.


Reguengos pode servir como bode expiatório, mas está longe de ser caso único. Pensem nos lares que conhecem, pensem em quantos deles têm quartos individuais, em quantos respeitam a sabedoria dos idosos, em vez de os infantilizar, pensem naquelas salas de estar que parecem antecâmaras da morte… E as imobilizações? Já pensaram sobre isso? Todos os estudos apontam que as imobilizações não reduzem de forma significativa o número de acidentes, mas, ainda assim, continuamos a ver em todo o lado idosos presos a camas, cadeirões e cadeiras de rodas.


Parece-me que é altura, enquanto sociedade, de levantarmos a voz e de exigirmos respeito e dignidade para com aqueles que nos deram a vida. É altura de não nos calarmos, de denunciarmos, de não deixarmos passar, de pressionarmos a Segurança Social para que faça inspecções surpresa e para que não feche mais os olhos.


A minha avó, que felizmente esteve sempre em casa connosco, dizia muitas vezes: “Filho és, pai serás, como fizeres assim encontrarás.” E eu acho que podemos adaptar esta frase para um “novo és, velho serás”.

domingo, 19 de julho de 2020

QUANDO O PATRIMÓNIO É ARMA POLÍTICA

A recente decisão turca de reconverter a basílica de Santa Sofia em mesquita é mais um capítulo na já longa história do monumento. De basílica para mesquita, depois museu, agora novamente mesquita. Esta última mudança causou comoção e protestos um pouco por todo o nosso mundo ocidental. A intenção fora expressa por Recep Tayyip Erdogan, em março de 2019, durante a campanha eleitoral para as eleições municipais. O tema nem sequer é recente. Há mais de 50 anos, o poeta islamista Necip Fazil Kisakurek protestava publicamente contra o estatuto de museu dado à antiga mesquita. E profetizava que o regresso ao passado seria uma questão de tempo. Não se enganou.

Esta decisiva mudança de estatuto representa um retrocesso? Não tenho dúvidas que as modificações de uso de monumentos, determinadas de modo reativo e como forma de marcar uma agenda política, são sempre um recuo. Também aqui não há novidades. No fundo, e de forma talvez demasiado simplificadora, aquilo que nós, ocidentais, valorizamos do ponto de vista cultural e patrimonial, é aquilo que outros rejeitam. A destruição dos Budas de Bamyan e de importantes testemunhos históricos e artísticos em Palmyra são as duas faces da intolerância e, também, de uma forma de afirmação política anti-ocidental. Nestes dois casos, tal como no de Santa Sofia, estamos ante exemplos de monumentos e de sítios classificados pela UNESCO como Património da Humanidade.

Não é tanto sabermos que a antiga basílica de Constantinopla volta a ser mesquita que é o fator principal de preocupação. Em boa verdade, o monumento está na Turquia e é aos turcos que, em última análise, cabe uma decisão sobre o uso a dar aos seus edifícios históricos. Claramente, têm esse direito, por muito que tal custe a um paternalismo ocidental que me faz lembrar, irresistivelmente, o episódio do astrónomo turco em “O principezinho”. O tal que só foi levado a sério quando se passou a vestir como nós.

O problema principal está nos danos colaterais. Erdogan, que se veste como nós, tem uma agenda política claramente traçada, desde há muito. Ao reverter Santa Sofia,passando por cima da Convenção do Património Mundial de 1972,deu mais um claro sinal à Europa. E arriscou, também, abrir a caixa de pandora do Património. Claro que deu garantias que fica “quase tudo” como antes. Toda a gente, independentemente do seu credo e nacionalidade, pode continuar a visitar a mesquita. E também está garantida a preservação dos mosaicos cristãos que cobrem as paredes interiores de Santa Sofia. Que serão, pudicamente, tapados com cortinas ou com raios laser durante as orações. Uma operação que terá de ser repetida 1825 vezes por ano. A tentação seguinte será, bem o temo, a cobertura dos mosaicos por períodos mais dilatados de tempo. Soluções diplomáticas como este “tapa-destapa” esbarram, mais cedo ou mais tarde, na realidade do quotidiano, nas pressões de grupos radicais e nos interesses políticos à qual a realidade e a perenidade do Património são alheias.

Hoje, no "Público"

sábado, 11 de julho de 2020

NÃO MATAR A MEMÓRIA

O alvoroço tem sido constante. E tem vindo num crescendo ruidoso, que se torna difícil de suportar. Exige-se a remoção de estátuas e de outros monumentos em memória de figuras históricas. Chefes militares, políticos, clérigos, todos têm sido alvo da fúria purificadora. Nem o Padre António Vieira escapou...
Se tomarmos como padrão a ética do século XXI, pouco escapará. Camões tinha um escravo, Afonso de Albuquerque foi um facínora, D. João II de perfeito só tinha o cognome e podemos multiplicar os nomes e as figuras. Nenhum corresponde ao padrão de neutralidade em que alguns querem tornar os nossos dias. É tão simples quanto isto: o contexto cultural, económico, social, religioso e político de 1383 ou de 1755 nada têm a ver um com o outro e, muito menos, com os valores dos nossos dias. A esta luz, quase tudo o que outrora se fez ou é ofensivo ou agressivo ou viola os direitos de minorias. Dizia-me, há dias, um historiador de arte, a propósito de um muito assertivo, e absurdamente incensado, grupo de pressão “vais ver que ainda vão armar estrilho à volta dos Painéis de S. Vicente, por haver poucas mulheres representadas...”. Não me espantará se qualquer coisa do género emergir.
Que fazer, então? A solução mais fácil é a do arrasamento. Como fizeram os taliban com os budas de Bamyan. Elimina-se aquilo de que discordamos. O que implica, também, eliminar a memória do que se passou. Ou reescrever ou tentar recriar essa mesma memória, o que é igualmente perigoso.
Foi esse tremendo equívoco que esteve na base do falhanço do abortado Museu da Descoberta (nunca percebi a razão do singular, para ser sincero). Assinalar datas, personagens e factos não implica, necessária e obrigatoriamente, o retomar do discurso nacionalista e da vulgata heróica. Ao contrário, a presença física desses heróis do passado – o Padrão dos Descobrimentos e Afonso de Albuquerque, em Belém; Vasco da Gama, em Angra do Heroísmo, António Raposo Tavares, em Beja – ajudam-nos a explicar factos e a contextualizar atitudes. A maior parte delas condenáveis, à luz da nossa moral.
Por mais que não gostemos de muitas coisas que se passaram, elas aconteceram, são factos que fazem parte do nosso passado e que não podem ser apagados. Mandar fora estátuas, padrões, inscrições, quadros, porque “ofendem” ou são “opressivos” é abrir uma caixa da pandora que será depois quase impossível fechar. Continuo a defender que é preferível a contextualização à destruição, a pedagogia à negação. Porque a outra tentação, a do apagamento, é claramente perigosa. Pode até ser mais simpática e consensual num primeiro momento. Virá depois o vazio e o pôr em risco a memória. Que é, manifestamente, algo de que não podemos prescindir. Nem individual, nem coletivamente.

Texto publicado ontem, no "Diário de Alentejo"

sábado, 20 de junho de 2020

UM POUCO DISCRETO CONVITE À REBALDARIA

Escreve Daniel Oliveira no Expresso:

"A paciência acabou esta semana, quando se confirmou que entidades sediadas ou com filiais em paraísos fiscais fora da UE podem concorrer sem qualquer restrição aos apoios extraordinários do Governo. Fogem a pagar os impostos cá, mas têm direito a usar os impostos dos de cá. Com prioridade sobre muitos cidadãos desesperados. 
As perdas fiscais de milhares de milhões anuais não são uma fatalidade, resultam de cumplicidade. Com assinatura: PS, PSD, CDS e IL. E a conveniente ausência do Chega. Fossem uns tostões para beneficiários do RSI e Ventura gritaria presente. Já para aborrecer quem lhe paga...".

É raro que esteja tão de acordo com Daniel Oliveira como hoje. A verdade é que só o PCP, os Verdes, o Livre e o BE estiveram contra esta inacreditável medida. Os nossos impostos vão financiar quem foge aos impostos. Nem o D. Corleone se lembraria de tal coisa.

quarta-feira, 20 de maio de 2020

PRO MEMORIA

O Estado é aquela entidade, só aparentemente abstrata, na qual muitos gostam de bater desalmadamente. E que, por vezes, parece ser uma coutada dos ricos e poderosos. Uma tradição antiga e que a República apenas reformatou.

Ontem, o Governo da República passou a números concretos o apoio aos grandes grupos de comunicação social. O orçamento da Cultura vai, em grande parte, para a RTP. O Património Cultural, que é parte decisiva da nossa memória coletiva, as bibliotecas, o apoio à criação não têm tanta atenção. Veja-se o valor de apoio às Artes, que é pouco superior ao que cabe à IMPRESA. Aguarda-se, com impaciência, o que tem a dizer José Gomes Ferreira.