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segunda-feira, 19 de janeiro de 2026

FRANCISCO SIMÕES (1946-2026)

"Já disse 37 vezes que é do Partido Comunista", comentou-me, ao ouvido, um amigo que assistia a uma palestra de Francisco Simões. Na qual ele recordava a amizade e a cumplicidade artística com um pintor, já falecido. "Exagerado... só disse isso quatro vezes", respondi-lhe.

No fim, apresentei-me a Francisco Simões. Conhecia e admirava a sua obra. Desafiei-o a passar pelo Panteão. Já não irá, com muita pena minha, embora tenhamos uma obra sua em exposição a partir de 5 de março.

Passo, com muita regularidade, pela estação de metro do Campo Pequeno. O grande protagonismo do sítio está nas obras de Francisco Simões. Vou recordar-me disso logo, ao fim da tarde.

sexta-feira, 17 de outubro de 2025

ANTÓNIO BORGES COELHO (1928-2025)

Deixou-nos o António Borges Coelho.

Visitei-o, pela vez derradeira, no passado dia 25 de setembro. Fisicamente não estava bem, mas a cabeça tinha o brilhantismo de sempre. Foi uma conversa divertida, de mais de uma hora. Surpreendentemente, narrou-me dois episódios pessoais, que eu desconhecia. E riu muito, como sempre. Despediu-se de mim de punho cerrado, gesto que amiúde repetia.

A palavra saudade é hoje mais forte do que antes.


Não é exagero dizer que a leitura de "Portugal na Espanha Árabe" moldou o meu percurso. Provavelmente, não me teria tornado historiador sem o impacto causado pelas páginas luminosas que António Borges Coelho escreveu para a 1º. e o 3º. volumes da primeira edição dessa obra. Só conheci o Borges Coelho anos mais tarde, já eu era aluno da faculdade. Infelizmente, nunca fui diretamente seu aluno. Estava de sabática, na fase final do doutoramento e tive de me contentar com uma alternativa. Em todo o caso, ele foi um dos meus professores de eleição, com o muito que me ensinou fora da sala de aulas.

O interesse de António Borges Coelho pelo Islão nunca esmoreceu, sendo depois caldeado pelas investigações sobre os Descobrimentos e, sobretudo, sobre a Inquisição, tema da sua tese de doutoramento. Isso mesmo fica claro com as sucessivas reedições de “Portugal na Espanha Árabe” e com a participação ativa nos projetos “Portugal Islâmico” (1998), “Marrocos-Portugal” (1999) e Museu Islâmico, em Mértola (2001). Uma participação solidária, empenhada e militante.

Em 1998, António Borges Coelho prefaciou “O legado islâmico em Portugal”, livro de que, em conjunto com Cláudio Tores, fui autor. Isso deu-me “pretexto” para, anos mais tarde, lhe fazer uma longa entrevista biográfica, publicada, com outros ensaios, no livro “Historiador em discurso directo” (2003), editado pela Câmara Municipal de Mértola.

Poderia repetir aqui tudo o que escrevi no parecer que a Universidade do Algarve me pediu, em 2009, no âmbito da atribuição do grau de “doutor honoris causa” a António Borges Coelho. Em especial no reconhecimento que todos lhe devemos, nos campos cívico, académico e humano.

(texto escrito no dia 7.10.2024)



quarta-feira, 15 de outubro de 2025

NA MORTE DE JOSÉ AFONSO FURTADO

Terminava o ano de 1987 e a assinatura do protocolo de renovação da Biblioteca Municipal de Moura tinha sido marcada para as 21 horas (de dia 29 de dezembro?, é o que me dita a memória, mas não posso jurar).

Não é uma hora habitual para fechar documentos, mas o Dr. José Afonso Furtado, então presidente do Instituto Português do Livro e da Leitura, cumpria uma maratona de assinatura de protocolos em várias câmaras do sul de Portugal. Estava em marcha aquela que foi, muito provavelmente, a maior revolução cultural do pós-25 de abril. Punha-se de pé a rede de leitura pública.

Recordo-me, nitidamente, de o ver subir com algum esforço as escadas para a presidência da câmara (o equivalente a um terceiro andar) e de comentar, à chegada, "este gabinete bem que podia estar no rés-do-chão...".

José Afonso Furtado foi um brilhante servidor público. E muito mais do que "o pioneiro da era digital do livro", como um jornal hoje o etiquetava. Foi levado à demissão por Santana Lopes (pois evidentemente) e dirigiu depois, durante duas décadas, a Biblioteca de Arte da Fundação Gulbenkian.

Em jeito de rodapé: o projeto da Biblioteca de Moura nunca foi concluído. A mais recente versão, de 2017, foi eliminada por analfabetas vereações .


domingo, 17 de agosto de 2025

AUGUSTO ALVES DA SILVA

Nunca tinha publicado uma fotografia de Augusto Alves da Silva, agora desaparecido.

E tinha ideia de o fazer, depois de ver vários trabalhos seus, em especial este, do início do século. Há aqui um toque kubrickiano, a remeter para as cores de The shining. Está em exposição no MACAM (Museu de Arte Contemporânea Armando Martins). Foi lá que o vi, há algumas semanas.

Na calha está a compra do livro de AAS sobre o Instituto Superior Técnico.

sábado, 12 de julho de 2025

MIGUEL BENTO (1963-2025)

Pois é... Agora foi o Miguel...

E estas palavras, que há uns tempos sabia que tinha de escrever, são das mais amargas em 17 anos de blogue.

Conhecemo-nos em 1983 e ficámos amigos desde então. O Miguel estava nos tempos "tempos livres" e vinha todos os dias de Alcaria Ruiva, numa Casal. Encostava a motoreta à vedação do campo arqueológico e começava o dia. O Cláudio destinou-nos a mesma quadrícula. Falávamos sei lá do quê todo o santo dia. Mas recordo claramente da aprendizagem que aqueles dias foram para mim, com um moço da mesma idade e cujo curso de vida pouco tinha a ver com o meu. O sempre arguto e inteligente Cláudio ensinava-nos coisas da vida, sem a formalidade das aulas. 

Fomos depois colegas na Câmara de Mértola. Viria ele mais tarde, no virar do século a ser vereador da autarquia. Inteligente e persistente, Miguel Bento doutorou-se em 2016 e continuou a sua carreira docente no Politécnico de Beja.

Se há vida de combate e de luta, em todos os sentidos, foi a do Miguel. Pontuou sempre esse combate com uma característica bonomia e com uma calma que nunca lhe vi perder. 

Fomos, ao longo da vida, mantendo contacto permanente e assíduo. Fiz questão de ir visitá-lo no último festival islâmico, para lhe oferecer o meu último livrinho. Saí da lá com um mau pressentimento. Ainda falámos ao telefone um par de vezes: como sempre Mértola, a política, os amigos e outros temas pessoais que não vêm ao caso. Ontem recebi o telefonema que esperava. Hoje vou acompanhá-lo pela vez derradeira. Deixo de ter o convívio de um dos meus melhores. Há quatro ou cinco dos que já partiram que a memória me evoca com regularidade. Junta-se-lhes agora o Miguel Bento.

quinta-feira, 5 de junho de 2025

EDUARDO GAGEIRO (1935-2025)

Não é a melhor, nem a mais celebrada fotografia de Eduardo Gageiro. Mas é aquela que mais me toca. Vem ao blogue pela terceira (e última vez).

Era, seguramente, uma das mais belas curvas do mundo. Tenho disso a mais completa certeza. Ficava em Mértola e era assim, tal como Eduardo Gageiro a fotografou, em 1985. Aquela curva fez-me companhia intermitente, entre o verão de 1983 e a primavera de 1987. A brancura da curva desapareceu, em meados da década de 90. Uma obra disparatada. Uma pena, sem retorno nem remissão. Felizmente temos esta imagem.

sábado, 31 de maio de 2025

FERNANDO VENÂNCIO (1944-2025)

Foi em 2001, num colóquio no CCB. Um toque no ombro e a pergunta "tu é que és o Santiago Macias?". Aquela cara, de ar simpático e descontraído, lembrava-me alguém, mas não consegui situar-me. Respondi, lembro-me das palavras exatas "sou pois! e tu quem és?". Estendeu-me a mão "Fernando Venâncio, sou de Mértola". Aí sim, o nome era-me familiar da crítica literária e, pois claro!, ele era parecedíssimo com o sr. André Venâncio, um senhor muito cordial com quem me cruzei inúmeras vezes nas ruas da vila.

Achei curioso que tivesse querido voltar à terra natal, depois de uma longa ausência na Holanda, onde fez vida e carreira. Falei com ele muitas vezes ao longo de vinte anos. Ainda tive oportunidade de o felicitar pelo seu extraordinário ensaio "Assim nasceu uma língua". Pessoas como o Fernando fazem tanta falta, caramba!

Hoje de manhã, melancolicamente, apaguei o número do Fernando da minha lista. Um hábito antigo, quando um amigo desparece.


sábado, 3 de maio de 2025

MINUTO DE SILÊNCIO

O recente apagão trouxe-me à memória um episódio ocorrido há uns bons 25 anos, numa sessão da Assembleia Municipal. Faltara a luz em todo o sul, e havia uma sessão nessa noite, na Casa do Povo da Amareleja. Cheguei ao local com poucas esperanças de que houvesse sessão. "Como é que isto vai ser?", perguntei-me. A dúvida durou pouco, quando vi um decidido José Maria Pós-de-Mina carregar um caixote com velas. A sessão da Assembleia ia ser à luz da vela! Uma solução pouco habitual, mas assim seria.

Tinha falecido por aqueles dias um conhecido político, pelo que foi proposto um minuto de silêncio no início da sessão começar. Toda a gente se levantou, enquanto eu, como presidente do órgão, controlava o tempo.

Mal me sentei, recebi uma SMS do presidente da câmara, que dizia algo como: "isto foi um bocado caricato; quem entrasse e nos visse de pé, em silêncio, numa sala iluminada por velas, pensaria que estava a decorrer algum tipo de ritual esotérico".

Memórias da vida autárquica...


sábado, 5 de abril de 2025

IN MEMORIAM - AMADOU BAGAYOKO

Agora que Amadou Bagayoko (1954-2025) partiu, recordo-o com este texto, que resultou de uma já distante viagem ao Mali.


BAMACO


DIMANCHE À BAMAKO

É assim que se chama o disco, Dimanche à Bamako. E nós ficamos a imaginar como será o dimanche à Bamako. Haverá acácias e belas mulheres à sua sombra, nos domingos de Bamako? As águas do Níger trarão frescura aos domingos de Bamako? Correrá um pouco do harmattan, o terrível vento do deserto, nas ruas dos domingos de Bamako? Soprará esse vento sobre as águas do Níger, por entre as acácias e as belas mulheres? Que oásis haverá?

Há poucos oásis em Bamako. A planta da cidade vista só em planta é um enredo de ruas direitas e há até guias que falam nas árvores dos bairros de Sogoniko ou de Badalabougou. Foi talvez assim um dia, e agora temos pena de não termos conhecido esses dias e esses domingos de Bamako. Agora os dias são de caos, há fumo, meu Deus, há fumo e mais fumo. A cidade vive envolta em fumo. Dos carros com carburadores asmáticos, do lixo a arder ao lado dos hotéis e dos campos de golfe, do lume dos restaurantes, digamos que são restaurantes, que aparecem por toda a parte. Afinal o vento não sopra em Bamako e por isso o fumo não viaja, ficando a pairar sobre a cidade. A cidade colonial é uma miragem curta nesta parte do Sudão e as glórias passadas fenecem por entre destroços.

Nos dias que não são dimanche há mais trânsito e nota-se muito mais o fumo. Há mais carros, mais motoretas e maquinetas. Nesses dias um milhão de pessoas cruza o gigantesco bairro da lata que Bamako é, e nós ficamos sem perceber nada. De que vivem todas aquelas pessoas? De que vivem os vendedores se não há ninguém para comprar ou, pelo menos, ninguém parece comprar coisa alguma? Quando é dimanche à Bamako respira-se um pouco melhor, sem o travo do gasóleo a arder nas narinas e na garganta. Quando é dimanche podemos fugir mais ao fumo.

Aos domingos podemos esgueirar-nos um pouco mais à vontade, por entre as latas das barracas, por entre os montes de lixo semeados à toa. Para quem gosta dos mercados, há o novo mercado, nos guias lê-se que é novo mas parece já ter nascido com muitos anos. Mais longe, na margem do Níger, uma sugestão de jardim dá um pouco de placidez aos domingos de Bamako.

Há uns séculos atrás ninguém passeava ao longo do Níger nas tardes de domingo porque a cidade ainda não existia. Nesses dias havia pirogas que passavam por entre as ilhotas onde agora os poucos pássaros vão pousar. Mas as pirogas partiram e o rio é agora um deserto de água. Nesses dias lá longe os caminhos do Níger levavam para Tombouctu e para Gao. É para aí que iremos um dia, porque lá onde estão não há fumo, de certeza que não, nem um milhão de pessoas amontoadas, como nesta aldeia de homens e mulheres gentis.

Agora é Inverno em Bamako, aceitemos que 35º possam ser Inverno, e por isso o tempo é muito seco. O calor ainda vem longe e mais longe ainda está a chuva. Tenho dificuldade em imaginar como serão esses domingos de Verão, com a chuva que não pára, o calor terrível, o fumo dos carburadores asmáticos e a maior parte das ruas a serem pasto da lama e dos mosquitos.

Na próxima vez vou chegar a um domingo. Vai ser num dos beaux dimanches cantados por Amadou e Mariam. Nesse domingo haverá, decerto, menos fumo e menos gente perdida a deambular pelas ruas. Haverá, decerto, belas mulheres cujas pulseiras rivalizam, por entre as acácias, com a curva da corrente do Níger.

quinta-feira, 20 de março de 2025

DIOGO MARGARIDO (1932-2025)

Faleceu há dias, aos 93 anos. O facto passou ao lado da comunicação social, tanto quanto me dei conta. É pena, porque Diogo Margarido foi um notável fotógrafo alentejano. Com uma carreira de décadas, e com um belo registo de muitos sítios da região sul.

A Moura deu alguma atenção e essas imagens são, verdadeiramente, únicas e exemplares.

quinta-feira, 20 de fevereiro de 2025

AMÉRICO GOMES (1974-2025)

Américo Gomes, ontem desaparecido, ficará sempre como memória inapagável de uma menos que provável viagem a Bolama, em 2012. A música que se ouvia na ponte do navio era sua. Um tema intitulado Katel Kadjinal, que era então um grande sucesso na Guiné-Bissau.

O comandante Américo Pinto deixava-me deambular por ali. Fotografei e, depois, filmei as marcas da forte ventania que se fazia sentir. Em fundo está Katel Kadjinal.

Américo Gomes era, sem dúvida, um grande músico. E é uma pena que nos tenha deixado tão cedo.





quinta-feira, 16 de janeiro de 2025

DAVID LYNCH (1946-2025)

Hollywood não gostava dele.

Tanto pior para Hollywood.

David Lynch foi um dos mais inovadores e estranhos cineastas do século XX. Há quase 20 aos que não rodava um filme de fundo, depois da viagem que "Inland empire" é. O meu preferido? Blue Velvet, seguido de Lost Highway. Tenho a sensação de que Lynch será (re)descoberto algures no futuro.

domingo, 15 de dezembro de 2024

O SR. ETC. ETC.

Esta inscrição funerária está num museu da cidade de Havana. Chamou-se Pierre-Claude e foi Marquis Duquesne. Era um homem tão importante, mas tão importante, que o desfiar de títulos não chegava. Ele foi isto e mais aquilo e mais aqueloutro. E o resto do seu currículo foram quatro ETC. porque não devia caber tudo na lápide.

 

Na verdade, com tanta honraria, terminou tão horizontalmente como todos os outros.



domingo, 6 de outubro de 2024

AMÁLIA, POR THURSTON HOPKINS

Thurston Hopkins (1913-2014) percebeu muito bem todo o dramatismo de Amália. Como lindamente se vê nesta fotografia de 1958, hoje na coleção da Caixa Geral de Depósitos.

Faz hoje 25 anos que Amália Rodrigues deixou o mundo dos vivos.

terça-feira, 13 de agosto de 2024

GUILLEM ROSSELLÓ-BORDOY (1932-2024)

Acaba de me chegar a triste notícia do desaparecimento de Guillem Rosselló-Bordoy. Já são poucos os que ficam desta geração verdadeiramente extraordinária, depois de nos terem deixado Manuel Acién, Juan Zozaya, Pierre Guichard, Miquel Barceló, Graziella Berti, Gabrielle Démians d'Archimbaud, Riccardo Frankovich, Christophe Picard...

O Guillem, com quem me cruzei pela última vez há quatro anos, num encontro em Palmela - "y tú, que coño haces? por qué demonios hás dejado Mértola?", foram as perguntas iniciais, disparadas no seu inconfundível sotaque mallorquinho - era um caso à parte e um homem verdadeiramente de outra galáxia... Qualquer coisa que se pedisse de ajuda tinha sempre resposta. Na época das cartas, escrevi-lhe por causa de umas plaquinhas em osso do Castelo de Moura. Recebi a resposta, semanas volvidas, com detalhas instruções e a absoluta necessidade de consultar as obras de Ferrandis e o indispensável tratado de Blythe Cott, que eu não conhecia e de que não há exemplares em Portugal.

Licenciou-se em Filologia Semítica - lia e falava árabe fluentemente -, com uma tese sobre as Ilhas Baleares no período islâmico. Entrou, entretanto, ao serviço do Museu de Malhorca, onde trabalhou (e de que foi diretor) durante 40 anos. Doutorou-se em História Antiga em 1972 com a tese "La Cultura Talayótica en Mallorca. Bases para el estudio de sus fases iniciales”. O seu sempre presente interesse pela arqueologia islâmica teria como pedra de toque a obra Ensayo de sistematización de la cerámica árabe en Mallorca, publicada em 1978.

Regressaria ao tema puro e duro da filologia árabe ao doutorar-se, pela segunda vez!, aos 70 anos com uma tese que seria publicada com o título Mallorca musulmana.

Obrigado, Guillem!

Ver: https://www.academiadelpartal.org/files/n9_011_031.pdf

domingo, 21 de julho de 2024

TOUMANI DIABATÉ (1965-2024)

Elyne Road, de Toumani Diabaté, foi a faixa que escolhi para encerrar um documentário que montei, há já muitos anos. Por razões autorais, essa versão permanece inédita. Mas a kora de Toumani Diabaté, que agora desapareceu, era o fecho ideial para um filme muito abaixo da música...

Toumani Diabaté faleceu, anteontem, na sua Bamaco natal. Uma perda sem reparação possível.

segunda-feira, 8 de julho de 2024

JOSÉ BAIOA (1940-2024)

Deixou-nos há dias e tive pena de não ter estado em Mértola. Lembro-me da chegada de José Baioa a Moura, no início dos anos 70. Ainda não era um futebolista veterano, mas para lá caminhava. Envergava a camisola 8. Fez parte, com Bento Feliciano (6) e com Francisco Piçarra (7), de um meio-campo talentoso e empenhado. Era muito rápido e hábil. A entrega e a generosidade daqueles jogadores era total. Ainda não havia SAD, os jogadores eram todas da região e o Maria Vitória estava sempre à cunha. Jogadores como José Baioa para isso contribuíam.

Tenho ideia de que morava na zona da Capinha Rota, mas isso pode não ser preciso. Voltei a encontrá-lo, em Mértola, anos mais tarde. Não me reconheceu, claro, mas quando me apresentaram perguntou, de imediato, "então e o amigo João [meu pai, antigo diretor do MAC], como está?". Depois disso, muitas vezes nos cruzámos, pelas ruas da vila.

Deixou-nos um homem generoso e fraterno, um democrata que se envolveu nas causas do seu Povo. Foi vereador da Câmara de Mértola eleito pela APU, já lá vão 40 anos.

Começam a ser muitas partidas, caramba...



quarta-feira, 12 de junho de 2024

LUÍS CAMACHO (1956-2024)

Fez ontem precisamente dois meses que "encalhei" com o Luís, num restaurante na Rua da Junqueira. Ele estava com um casal amigo. Fez questão de me apresentar: "este meu amigo é quem manda nos mortos". Os amigos dele olhando para mim intrigadíssimos, e o Luís a continuar a conversa comigo, como se aquela "apresentação" fosse a mais natural do mundo. Lá desfiz o equívoco.

Tenho pelo Luís a mais profunda admiração. A carreira dele sempre me causou alguma perplexidade. De um talento fora do comum, trabalhou sempre como se "fazer carreira" não lhe interessasse por aí além. Recordo um conjunto de trabalhos seus, "Símbolos tântricos", que me pareceram absolutamente geniais, numa combinação de gestualismo e de aproximação ao Oriente. Quando, algum tempo depois, comentei com entusiasmo essa série, respondeu-me, como se fosse uma coisa distante e já sem grande interesse, "sim, fiz isso há uns anos...". Assim continuou, talentoso e discreto. Sempre longe dos holofotes.

Estava aqui a pensar que a recordação mais antiga que tenho dele é de o ver na Sociedade dos Azeites, onde o pai era motorista. Ou talvez na récita de finalistas da Escola Industrial, em 1971 (?), com ele a fazer uma rábula, vestido de chinês...

Há dois meses, despedi-me dele dizendo, depois da habitual troca de números de telemóveis, "vê lá se te deixas de tretas e apareces mesmo no Panteão; é sempre a mesma história, que sim, que sim, e depois nunca vais". Estava muito longe de imaginar que seria a última vez.

Entre muitas obras do Luís, há uma que pode ser vista com facilidade: este painel - "Os lacaios", de 1997, que está no Museu Nacional do Azulejo. A fotografia é de Pedro Ribeiro Simões.

São demasiados amigos a partir em pouco tempo. Uma grande, grande porra, tudo isto...



segunda-feira, 3 de junho de 2024

CHRISTOPHE PICARD (1954-2014)

Conheci o Christophe no Castelo de Juromenha, no verão de 1987. Havia trabalhos arqueológicos em curso, dirigidos pelo Fernando Branco Correia e por ele e fui até lá, com o Miguel Rego e o Cláudio Torres. Foi o início de uma amizade longa, interrompida pela doença que o debilitou, cortando-lhe o contacto com o mundo. O Christophe morreu anteontem. Completara 70 anos dois meses antes.

Foi autor de obras fundamentais - uma delas, Le Portugal Musulman, é leitura obrigatória nas minhas aulas - que reposicionaram muitas questões referentes ao Islão neste Extremo Ocidente. Era um homem intectualmente brilhante, afável como poucos e de uma simplicidade pouco comum naquele meio. Tinha coisas engraçadas, quase ingénuas. Um dia, levou-me ao anfiteatro da Sorbonne onde dava aulas. A sala tinha o nome do seu avô, porque toda a sua família andara à volta dos temas da História e da Cultura Antigas. Não por acaso, o Christophe tinha nascido em Tunis.

Foi o presidente do meu júri de doutoramento (está do lado esquerdo, na fotografia), em junho de 2005. Pouco depois lançou-me o desafio de reiniciarmos, em conjunto, uma revisão/renovação do Le Portugal Musulman. Sim, claro, mas depois apareceu Moura, e depois a terrível doença dele.

Tenho, terei sempre para com o Cristophe uma imensa gratidão. E tenho a profunda pena de, nos últimos dez anos, não termos falado uma única vez. O nosso último encontro foi num seminário, perto de Nice, muito pouco tempo antes de ter começado a perder contacto com o mundo.

Uma grande porra, isto tudo...


domingo, 21 de abril de 2024

BARTOLOMEU COSTA CABRAL (1929-2024)

Foi uma carreira longa e perfeitamente realizada, a de Bartolomeu Costa Cabral, que ontem faleceu. Foram muitos os projetos, os prémios, é consensual o reconhecimento dos pares.

Aqui o recordo porque precisamente dentro de um mês vai ser apresentado um livro que tem uma obra sua: a agência de Caixa Geral de Depósitos de Sintra (1978).