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sexta-feira, 24 de abril de 2026

EQUUS

Júlio Pomar nasceu há 100 anos (10 de janeiro de 1926, para ser preciso). Os cavalos surgem em muitas das suas obras. Na átrio da sede da Caixa Geral de Depósitos, em Lisboa, há um enorme tropel. Voltarei a este tema, dentro de semanas.








O cavalo (Natália Correia)

Teus poros exalam o fumo
Do lar dos deuses de onde vieste.
Rompante de espuma e de lume
És sol quadrúpede ou mar equestre?
 
Desfilando derramas o ouro
Do teu rio inacabável,
Desmedido relâmpago louro
De um deus equídeo possante e frágil.

Tudo existiu para que fosses
No contraluz desta madrugada
Mitológica proporção perfeita
Em purpúrea bruma recortada.

Pois que te é divino mister
Humanos olhos extasiar
A dúvida é só perceber
Se vieste do sol ou do mar.

quinta-feira, 26 de março de 2026

PERGUNTAS DE UM OPERÁRIO LETRADO

Ao escrever hoje um texto, Bertolt Brecht (1898-1956) foi imagem recorrente. Uma vez e outra. Quem constrói as coisas, é o que me pergunto?... E quem tem direito aos nomes? E para quê? Josef Koudelka (n. 1938) e as suas ruínas vieram em meu auxílio.


Quem construiu Tebas, a das sete portas?
Nos livros vem o nome dos reis,
mas foram os reis que transportaram as pedras?
Babilónia, tantas vezes destruída,
quem outras tantas a reconstruiu? Em que casas
da Lima Dourada moravam seus obreiros?
No dia em que ficou pronta a Muralha da China para onde
foram os seus pedreiros? A grande Roma
está cheia de arcos de triunfo. Quem os ergueu? Sobre quem
triunfaram os Césares? A tão cantada Bizâncio
só tinha palácios
para os seus habitantes? Até a legendária Atlântida
na noite em que o mar a engoliu
viu afogados gritar por seus escravos.

O jovem Alexandre conquistou as Índias
Sózinho?
César venceu os gauleses.
Nem sequer tinha um cozinheiro ao seu serviço?
Quando a sua armada se afundou Filipe de Espanha
Chorou. E ninguém mais?
Frederico II ganhou a guerra dos sete anos
Quem mais a ganhou?

Em cada página uma vitória.
Quem cozinhava os festins?
Em cada década um grande homem.
Quem pagava as despesas?

Tantas histórias
Quantas perguntas.




sábado, 21 de março de 2026

POESIA GEOMÉTRICA

Uma fantástica peça no Museu de Silves - quase avant-garde ao jeito ao século XI, com todo o seu matemático geometrismo - levou-me direto a este poema:

O binómio de Newton é tão belo como a Vénus de Milo.
O que há é pouca gente para dar por isso.
óóóó — óóóóóóóóó — óóóóóóóóóóóóóóó
(O vento lá fora).

domingo, 25 de janeiro de 2026

AO DESCONCERTO DO MUNDO

Os bons vi sempre passar
No Mundo graves tormentos;
E pera mais me espantar,
Os maus vi sempre nadar
Em mar de contentamentos.
Cuidando alcançar assim
O bem tão mal ordenado,
Fui mau, mas fui castigado.
Assim que, só pera mim,
Anda o Mundo concertado.

Ao re(ouvir) o poema de Camões na sexta de manhã, no Panteão Nacional, notei a sua espantosa atualidade e pertinência. A cada dia que passa se tomba mais a balança. Manda quem pode...



terça-feira, 23 de dezembro de 2025

A POESIA ATACA

No filme "Marte ataca" os extraterrestres explodiam quando ouviam música.

Parece que a poesia "faz mal" à Inteligência Artificial. A pessoa com pouca da natural sei que faz...

Mesmo que isto (cf. infra) não seja bem verdade é bonito de ler.


domingo, 30 de novembro de 2025

SOBRE A LUZ BRANCA DAS ESTEVAS

Nos campos de Mértola II

Sobre a luz branca das estevas
corre o silêncio quebrado
pelo voo das aves
e o sopro do pulsar da terra.

Flores brancas roxas amarelas
cobrem as raízes dos chaparros
enfeitavam
os lenços
das camponesas
teciam os mantos  
das santas e das deusas.

De colina em colina
de brejo em brejo
aspirando o aroma das estevas
procuras o quê?
aloendros vermelhos?

De repente os olhos caem
na fenda do rio.
Está lá baixo
quieto vivo
um retângulo de água
num tabuleiro de pedra.

Esquálidas de sede
amendoeiras descem a encosta
mas as raízes ficam presas no xisto.
As casas os muros as torres
estremecem na água

À noite chegam as vozes dos astros
no silencio dos mortos e dos vivos.


Foi este o poema que António Borges Coelho me dedicou, no livro editado em agosto deste ano. Seria o derradeiro.

A dedicatória é, para mim, uma pequena-grande condecoração.


.




sábado, 1 de novembro de 2025

CHICHÉN ITZÁ

Por entre as colunas de pedra, um borboleta
negra com vermelho nas asas voava. Entre uma coluna
e outra procura a entrada para o centro onde
se arrancaram corações de cativos e de virgens. Talvez
quisesse que o seu vermelho a tingisse com o sangue
das vítimas; talvez quisesse roubar-lhes, dos lábios,
o último sopro, ou o último grito. Pensei
que a poderia seguir por entre as colunas; mas
o cão que parecia dormir, na perpendicular
de vénus, levantou a cabeça e olhou-me, como
se fosse o jaguar devorador de corações. Tudo tem
a sua lógica quando procuramos dar um sentido
ao acaso. E olhei para o alto da pirâmide
como se lá estivesses, à minha espera, com os teus olhos
presos nas asas da borboleta e a chamar por mim,
como se nao tivesses já o meu coração
sem teres precisado de o arrancar na câmara
dos sacrifícios (ao que dizem, fechada
por motivos de segurança).

Passaram-me, discretamente este poema de Nuno Júdice, ontem, a meio de uma sessão de leitura de poesia. Fiquei com dúvidas que fosse para o ler em público. Pensei que não era. Afinal era, disseram no fim. Fiquei quase feliz por nao ter percebido. Mas só mesmo quase.


sexta-feira, 19 de setembro de 2025

NOS CAMPOS DE MÉRTOLA II

Não é todos os dias que nos enviam uma mensagem dizendo "o prof. Borges Coelho dedicou-te um poema no seu mais recente livro".

O poema, muito belo, intitula-se Nos campos de Mértola II. Há momentos assim, em que se ganha o dia.

Sobre a luz branca das estevas...




 

quarta-feira, 10 de setembro de 2025

LA COGIDA Y LA MUERTE

Participação sonora numa iniciativa da CDU, em Moura.

Escolhi a primeira parte do Llanto por Ignacio Sánchez Mejías, do grande Federico Garcia Lorca (1898-1936).

Ignacio Sánchez Mejías morreu em Madrid, no dia 13 de agosto de 1934, dois dias depois de ter sido colhido em Manzanares.

quinta-feira, 10 de julho de 2025

O CONDE D'AGUILAR

Momento onírico-mágico...
No outro dia sonhei que estava  assistir a um espetáculo de magia do Conde de Aguilar. Há condes de Aguilar em Espanha, mas este ilusionista não era conde. Chamava-se Saul Fernandes de Aguilar (1909-1988) e teve grande notoriedade nas décadas de 40, 50 e 60. Vi-o atuar numa feira em Moura (1970 ou 1971) e todo aquele estilo e cerimonial me causou viva impressão. O Conde d'Aguilar atuava com um ar distante e sobranceiro (ou se é conde ou não se é, que diabo...), fazendo os truques mais improváveis.

Esperei que aparecesse na feira de setembro seguinte, mas não... Aquela vez foi a única, para mim.


Homenagem ao Conde de Aguilar, ilusionista

conde da guarda
conde da foz
conde de foulques de maillé
conde da folgosa
conde de fijó
conde da ervideira
conde de castro marim
conde castro
conde de castelo mendo
conde de castelo melhor
conde de castelo branco
conde de casteja
conde de carnide
conde de caminha
conde de cabral
conde de botelho
conde da borralha
conde do bonfim
conde de bonfils
 conde de bobone
conde de belmonte
conde de barcelona
conde da barca
conde da bahia
conde da azarujinha
conde de avilez
conde de ávila e bolama
conde dos arcos
conda das antas
conde do ameal
conde de alvor
conde de alvellos
conde do alto-mearim
conde de almeida araújo
conde de almarjão
conde de almada
conde das alcáçovas
conde de albuquerque
)conde de aguilar(
conde de águeda

Alexandre O'Neill (1979)

quinta-feira, 3 de abril de 2025

UMA SÓ VOZ, EM MOGUER

 LA PAZ

Hallarme en las manos
jazmines con sol,
con el primer sol;
saber que amanece
en mi corazón;
oír en el alba
una sola voz…

Eso quiero yo.

Regresar sin odios
cerrar sin pasión;
soñarme en las manos
celindas con sol,
el último sol;
dormir escuchando
una sola voz…

Eso quiero yo.

Lembro-me de ter estado em Moguer, há muitos anos, certamente mais de 30.Tal como me lembro das ruas de Moguer transmitirem uma imagem de grande placidez. Ou um sentimento de paz. Quem nasceu em Moguer percebeu isso melhor que eu.

domingo, 23 de março de 2025

PRIMAVERA NADIR

Foi ontem, às 14:40:05. Um raio de sol varreu a rua e deu luz às margaridas mesmo por baixo da janela.

Foi sol de pouca dura, mas deu para dar a esperança que estes dias chatos estão mesmo a acabar.

De Alberto Caeiro:


Quando tornar a vir a Primavera

Quando tornar a vir a Primavera

Talvez já não me encontre no mundo.

Gostava agora de poder julgar que a Primavera é gente

Para poder supor que ela choraria,

Vendo que perdera o seu único amigo.

Mas a Primavera nem sequer é uma coisa:

É uma maneira de dizer.

Nem mesmo as flores tornam, ou as folhas verdes.

Há novas flores, novas folhas verdes.

Há outros dias suaves.

Nada torna, nada se repete, porque tudo é real.

domingo, 5 de janeiro de 2025

AMOR PALAFÍTICO

Regresso, quase 10 anos volvidos, à Carrasqueira. Achei, talvez equivocadamente, que algumas coisas mudaram. Notei, estarei enganado?, que havia uma certa "privatização" de alguns passadiços. Pareceu-me, estarei a ser atraiçoado pela memória?, que havia mais barraquinhas de apoio à pesca. Como a da fotografia, com tanto amor palafítico. Um sítio extraordinário, em qualquer caso.

Repito o poema aqui publicado num já distante 15.3.2015:

Manhã no Sado
Brancas, as velas
eram sonhos que o rio sonhava alto....

Meninas debruçadas em janelas,
viam-se, à flor azul das águas, as gaivotas.
E a Manhã quieta (sorrindo, linda, vinha vindo a Primavera…)
punha os pés melindrosos entre as conchas.
Derivavam jardins imponderáveis
dos seus passos de ninfa
e tremiam as conchas
de súbitas carícias.

Longe era tudo: o medo dos naufrágios,
as angústias dos homens, o desgosto,
os esgares das tragédias e comédias
de cada um, os lutos, as derrotas.
Longe a paz verdadeira das crianças
e a teimosia heróica dos que esperam.

Ali, à beira-rio,
de olhos só para o rio, de ouvidos surdos
ao que não é a música das águas,
um sossego alegórico persiste.
Nem o arfar das velas o perturba.
Nem o rumor dos seios capitosos
da Manhã, que nas águas desabrocham
e flutuam, doentes de perfume.
Nem a presença humana do Poeta
- sombra que a pouco e pouco se ilumina
e se dilui, anónima, na aragem…

Sebastião da Gama

quinta-feira, 19 de dezembro de 2024

O'NEILL

Centenário do nascimento. Hoje.

 








Ó Portugal, se fosses só três sílabas,

linda vista para o mar,

Minho verde, Algarve de cal,

jerico rapando o espinhaço da terra,

surdo e miudinho,

moinho a braços com um vento

testarudo, mas embolado e, afinal, amigo,

se fosses só o sal, o sol, o sul,

o ladino pardal,

o manso boi coloquial,

a rechinante sardinha,

a desancada varina,

o plumitivo ladrilhado de lindos adjectivos,

a muda queixa amendoada

duns olhos pestanítidos,

se fosses só a cegarrega do estio, dos estilos,

o ferrugento cão asmático das praias,

o grilo engaiolado, a grila no lábio,

o calendário na parede, o emblema na lapela,

ó Portugal, se fosses só três sílabas

de plástico, que era mais barato!

 

*

 

Doceiras de Amarante, barristas de Barcelos,

rendeiras de Viana, toureiros da Golegã,

não há "papo-de-anjo" que seja o meu derriço,

galo que cante a cores na minha prateleira,

alvura arrendada para ó meu devaneio,

bandarilha que possa enfeitar-me o cachaço.

 

Portugal: questão que eu tenho comigo mesmo,

golpe até ao osso, fome sem entretém,

perdigueiro marrado e sem narizes, sem perdizes,

rocim engraxado,

feira cabisbaixa,

meu remorso,

meu remorso de todos nós...


ó Portugal, se fosses só três sílabas

de plástico, que era mais barato!

quarta-feira, 20 de novembro de 2024

SAMBA

O Carnaval ainda vem longe, mas é a altura para recordar esta obra com quase um século (1925!) de Di Cavalcanti (1897-1976), um dos grandes nomes da pintura brasileira do século XX.

Sem verão à vista, mas com as imagens do Brasil bem presentes. De Carlos Drummond de Andrade, "O homem e seu carnaval":

Deus me abandonou
no meio da orgia
entre uma baiana e uma egípcia.
Estou perdido.

Sem olhos, sem boca
sem dimensões.
As fitas, as cores, os barulhos
passam por mim de raspão.
Pobre poesia.

O pandeiro bate
é dentro do peito
mas ninguém percebe.
Estou lívido, gago.
Eternas namoradas
riem para mim
demonstrando os corpos,
os dentes.
Impossível perdoá-las,
sequer esquecê-las.

Deus me abandonou
no meio do rio.
Estou me afogando
peixes sulfúreos
ondas de éter
curvas curvas curvas
bandeiras de préstitos
pneus silenciosos
grandes abraços largos espaços
eternamente.



quinta-feira, 7 de novembro de 2024

KLEE, NO NILO

Hino ao Rio Nilo
Salve, ó Nilo!
Que brotas da terra
E vens dar vida ao Egito!
Misteriosa é a tua saída das trevas
Ao irrigares os campos criados por Rá
Tu – inesgotável – que dás de beber à terra!…
Tu crias o trigo, fazes nascer o grão,
Garantindo a riqueza dos templos.
Se paras a tua tarefa e o teu trabalho,
tudo o que existe cai no desespero.
Espalha as tuas águas, ó Nilo!

O hino terá cerca de 3.500 anos. É a celebração de um rio que foi fonte de vida. Lembrei-me dele depois de perguntar a uma amiga "de que pintor gostas?" e de ter ouvido, um pouco surpreso, como resposta, "Paul Klee!".

Paul Klee esteve no Egito um ano antes de morrer, e pintou assim o Nilo. Só os maiores conseguem fazer da complexidade coisas tremendamente simples.


segunda-feira, 14 de outubro de 2024

PAÍS DE POETAS

A montra da Florista O Jardim, na Rua Cândido dos Reis, em Sines, tem poemas. De Al Berto, de Luiza Neto Jorge, de Matilde Rosa Araújo... Isto de sermos um país de poetas evoca-me sempre uma cena (a ideia era boa, a cena é fraquinha, como todo o enredo) de um filme português do início da década de 70, onde vemos poemas nas papeleiras.

Aqui, na florist, é bem melhor. Se a loja estivesse aberta, tinha comprado flores. Juro.




sexta-feira, 11 de outubro de 2024

UM POEMA DE ABDALLAH IBN WAZIR

Não desesperes de chegar a califa

Pois Ibn Amr foi nomeado inpsetor das alfândegas.

Desgraçada época em que se fazem coisas como esta

Colocar altos cargos nas mãos de um limpador de esgotos...


Este texto abre o setor de poesia do 4º. volume do "Portugal na Espnha Árabe". O livro saiu em 1975, mas estava previsto que tivesse saído antes do 25 de abril. A minha irresolúvel dúvida é: a Censura teria deixado passar?...

sexta-feira, 4 de outubro de 2024

CAMÕES & MAPPLETHORPE

Tanto de meu estado me acho incerto,

Que em vivo ardor tremendo estou de frio;

Sem causa, juntamente choro e rio,

O mundo todo abarco, e nada aperto.


É tudo quanto sinto um desconcerto:

Da alma um fogo me sai, da vista um rio;

Agora espero, agora desconfio;

Agora desvario, agora acerto.


Estando em terra, chego ao céu voando;

Num' hora acho mil anos, e é de jeito

Que em mil anos não posso achar um' hora.


Se me pergunta alguém porque assim ando,

Respondo que não sei; porém suspeito

Que só porque vos vi, minha Senhora.


Dois épicos pela manhã. Luís de Camões (1524-1580) e Robert Mapplethorpe (1942-1989). Uns têm, outros não. Por mais que queiram. E por mais que tentem.


sábado, 21 de setembro de 2024

O MAR SEM FIM

Três dias - estes últimos - quase submerso e trabalhando na "engenharia" de um projeto que vai ser interessante, mas de difícil montagem. O mar é o tema e os protagonistas serão dois personagens importantes da História de Portugal.

O mar sem fim começa aqui. E projeta-se, por agora, no Centro de Artes de Sines.

Neither Out Far Nor In Deep

The people along the sand
All turn and look one way.
They turn their back on the land.
They look at the sea all day.

As long as it takes to pass
A ship keeps raising its hull;
The wetter ground like glass
Reflects a standing gull.

The land may vary more;
But wherever the truth may be
The water comes ashore,
And the people look at the sea.

They cannot look out far.
They cannot look in deep.
But when was that ever a bar
To any watch they keep?


Façamos o caminho, com as palavras de Robert Frost e com Der Mönch am Meer, de Caspar David Friedrich. O quadro está na Alte Nationalgalerie, em Berlim.