segunda-feira, 9 de abril de 2012

ENTRE SELMA E TULSA

Na Florida um jovem negro, Trayvon Martin, foi morto porque usava um capuz e isso pareceu "suspeito" ao seu assassino.

Em Tulsa, no Oklahoma, dois homens matam mais três negros, ao acaso e sem motivo aparente, para além do ódio racial.

Os acontecimentos de Selma tiveram lugar em março de 1965. Foi há 47 anos. Muitas coisas mudaram. Outras se mantêm.

Alabama, pintura de Robert Indiana motivada pelos acontecimentos de Selma

"DIGA SEMPRE BOM DIA AOS INDÍGENAS!"

Aconteceu-me há uma hora atrás. Uma vez mais. Ao descer a rua prof. Batista da Graça, no centro histórico de Mértola, fui saudado com um sonoro "bom dia!", pronunciado, quase sem sotaque, por um turista nórdico. É muito frequente que isso aconteça. Não sei ler sueco, nem neerlandês, nem alemão. Mas imagino que nos guias para turistas - que os nórdicos lerão de forma metódica - deve estar escrito algo como "O sul de Portugal é um sítio ameno e seguro. Não há notícias de atos de canibalismo desde, pelo menos, os tempos de Viriato. Os nativos são gentis, fazem bom artesanato e, regra geral, cantam bem. São prestáveis e gostam que gostem deles. Diga sempre bom dia aos nativos. Não só para os manter calmos mas, sobretudo, porque lá no sul eles adoram a comunicação verbal".

Não desapontei o casal nórdico. Respondi "bom dia, como estão?" e sorri muito. Porque gosto de falar às pessoas e para eles não darem por mal empregues os euros que deram pelo Rough Guide ou pelo Lonely Planet. Temos que ser uns pelos outros.

O Alentejo típico num bilhete postal dos anos 60.

domingo, 8 de abril de 2012

UNA CASA PORTOGHESA...

Faço isto a título excecional. Não está nos "estatutos" do blogue repetir posts. Este data dos inícios do Avenida. E vale pelas imagens, encontradas ao acaso no youtube, em janeiro de 2009.

De que se trata? De um anúncio do Fiat 500, que deverá ser do final da década de 50. A cantora é a italiana Nuccia Bongiovanni, de voz delicodoce. Não se percebe muito bem a razão de toda aquela saponária, nem a ligação entre a casa portoghesa e la bella macchina, mas isso é o que menos interessa. O anúncio, muito pouco convincente (assim me parece), é de uma enorme ternura.

O fado, que Amália popularizou e que aqui surge como quase-mambo, foi escrito em 1953 e tinha música de Artur Fonseca e letra de Reinaldo Ferreira (filho).

PIETÀ Nº 3: DOMINGO DA RESSURREIÇÃO

Ainda Podgorski

sábado, 7 de abril de 2012

PIETÀ Nº 2: SÁBADO DE ALELUIA


Mais uma variação de Podgosrki sobre o tema da Pietà.

sexta-feira, 6 de abril de 2012

PIETÀ Nº 1: SEXTA-FEIRA SANTA


A Pietà de Michelangelo Buonarroti, de finais do século XV, é uma das obras mais citadas, copiadas e glosadas. Escolhi, para estes dias da Páscoa, quatro imagens do fotógrafo polaco Gregor Podgorski (n. 1965). Um rapaz da minha geração, cujo modo de ver entendo muito bem.

Podgorski retomou Michelangelo e criou cerca de 500 variações da Pietà. No seu site podemos ver quase uma centena (v. aqui).

quinta-feira, 5 de abril de 2012

REGENERAÇÃO URBANA: ANTIGO MATADOURO

Mais um projeto fundamental na revitalização da cidade e do concelho: a obra de adaptação do antigo matadouro municipal. Que conheceu entre os anos 80 do século XX e o início do século XXI uma segunda vida, como estaleiro camarário.

Agora terá um terceiro fôlego como museu municipal. Temos materiais no concelho que justifiquem um tal investimento? Temos, mais até que outros concelhos (esta é uma direta para os que estão sempre em busca "noutros concelhos"). Vejam-se os exemplos que aqui deixei, e que estão longe de ser os únicos: 1, 2, 3, 4, 5, 6, 7, 8, 9 e 10.

Temos, sobretudo, a obrigação de valorizar o que é nosso, ultrapassando todas as dificuldades e todos os problemas, externos e internos. O futuro do museu passará pelas coleções, pelas exposições e pelas iniciativas de caráter cultural e turístico que vierem a ser desenvolvidas no local.

O programa inclui ainda a construção de um ponto de chegada e correspondência, que servirá de apoio aos autocarros de passageiros.

O projeto, do arq. João Maria Trindade, resultou de um concurso público, realizado em 2009. A obra do edifício foi adjudicada à ZUCOTEC, pelo montante de 879.018,57 € + IVA. A obra da área envolvente irá ser concretizada pela VIBEIRAS pelo montante de 306.108,35 € + IVA. A taxa de financiamento comunitário destas obras é de 80%.

quarta-feira, 4 de abril de 2012

INDEPENDENTES - MODO DE ESTACIONAR

Teve ontem lugar a eleição do representante dos municípios alentejanos como vogal do INALENTEJO. Havia dois candidatos, um proposto pelo PS, outro pela CDU. Estiveram presentes 26 câmaras PS, 17 CDU, 10 PSD e 3 independentes (ex-CDU). Contas feitas, o candidato do PS teve 29 votos, o da CDU 27. A aritmética é uma coisa simples. Já se percebeu (há muito) o local de estacionamento dos "independentes". É a vida, já lá dizia alguém...

MAURITÂNIA, A CORES OU TALVEZ NÃO

Da África setentrional falta-me a Mauritânia. Tive um colega mauritano nos tempos de Faculdade, Sow Daouda, cujas coordenadas perdi há muito. Almoçávamos muitas vezes na cantina velha da universidade e eu era convidado regular para festas numa quinta, algures no Murganhal. A Mauritânia do Daouda ficava mais a sul, perto do Senegal, e a elite arabófona nada lhe dizia. Ainda assim, e embora ele pouco me tivesse falado de Nouakchott, tenho essa curiosidade e essa lacuna geográfica.

Mauretanie é o título de uma fotografia de Viviane Sassen, embora eu tenha dúvidas quanto ao local preciso da imagem. O que é justificado pelo título, Ayuel, do retrato de baixo. Entre ambas está uma fotografia de José António Carrera, feita na noite de Nouakchott.

Um dos projetos de Viviane Sassen abre com um texto de Moses Isegawa:

Some people think I'm untrustworthy because I don't look straight at them.
That is perception for you. What we think of others is never the whole truth, for so much is hidden and we end up seeing what we what to see.

Para onde olhamos e o que queremos ver?, interroga-se Aaron Schuman a propósito de Viviane Sassen, no último número da Aperture.

Site da fotógrafa: http://www.vivianesassen.com/
Site da revista: http://www.aperture.org/

terça-feira, 3 de abril de 2012

PARA ALÉM DA CURVA DA ESTRADA

Para além da curva da estrada
Talvez haja um poço, e talvez um castelo,
E talvez apenas a continuação da estrada.
Não sei nem pergunto.
Enquanto vou na estrada antes da curva
Só olho para a estrada antes da curva,
Porque não posso ver senão a estrada antes da curva.
De nada me serviria estar olhando para outro lado
E para aquilo que não vejo.
Importemo-nos apenas com o lugar onde estamos.
Há beleza bastante em estar aqui e não noutra parte qualquer.
Se há alguém para além da curva da estrada,
Esses que se preocupem com o que há para além da curva da estrada.
Essa é que é a estrada para eles.
Se nós tivermos que chegar lá, quando lá chegarmos saberemos.
Por ora só sabemos que lá não estamos.
Aqui há só a estrada antes da curva, e antes da curva
Há a estrada sem curva nenhuma.


Tenho a certeza que Olivier Metzger, ao fotografar aquela esquina de New Orleans, tinha em mente o drug store de Edward Hopper, pintado em 1927. O tratamento da luz é, pelo menos, muito "hopperiano". Mnemónicas à parte, há sempre situações que nos recordam outras e poemas que nos remetem para os nossos caminhos. Gostava mais de Álvaro de Campos nos dias da juventude. Hoje prefiro, claramente, Alberto Caeiro. Deve ser da idade. Da minha, claro.

O quadro está no Museum of Fine Arts, de Boston. O MFA. Uma boa razão para se dizer "o povo está com o MFA!".

WARM-UP


Da entrevista feita a José Maria Pós-de-Mina, presidente da Câmara de Moura, publicada no Diário do Alentejo da passada sexta-feira. Há quem esteja interessado neste tipo de perguntas e de respostas.

segunda-feira, 2 de abril de 2012

BAGDAD CAFÉ

Não é um filme maior na História do Cinema. Não é, sequer, uma daquelas obras marcantes na minha vida. Há, contudo, uma palavra chave que Jasmin diz, já perto do final: "magia". O filme, de 1987, do alemão Percy Adlon (n. 1935) tem muito a ver com magia.

O filme anda à volta da magia e da improbabilidade das coisas. Uma mulher chega, depois de uma crise conjugal, a um motel decrépito, em pleno deserto de Mojave. Em conjunto com a difícil proprietária transforma o Bagdad Café num sítio mágico. E conhece um pintor de ar decadente, que a convida para posar. E que a vai, aos poucos, desnudando. Há uma versão integral na net (v. aqui). Antes da excecional Marianne Sägebrecht dizer, em toda a sua plenitude, "magia", veja-se o terno strip da improvisada e pouco convencional modelo (minutos 1:09:10 a 1:10:50 e 1:11:40 a 1:12:25).

O pintor era Jack Palance, muito mais interessante no final da carreira que no início.

Isto dos Bagdad Café no meio dos desertos deve ser "tradição". No deserto da Síria, em Annabk, há um barzinho com esse nome. Ou havia...

ORDENAMENTO DO TERRITÓRIO

À atenção do licenciado Miguel Relvas, político, ministro e tudo.

No plantel do Futebol Clube do Porto há um potencial candidato a consultor no âmbito do ordenamento do território. Ora vejam esta leitura do jovem Janko:

"No norte do país, no Porto, estão os trabalhadores; no centro, os estudantes; no sul, ou seja, em Lisboa, estão as pessoas que gastam o dinheiro".

Está, portanto, tudo explicado. Ou alguém tem alguma dúvida?

Festa temática "Num casino dos anos 50" de um grupo de funcionários públicos lisboetas.
O terceiro da esquerda, na segunda fila, não deverá ser Cavaco Silva. Mas não garanto.

domingo, 1 de abril de 2012

DOIS PAÍSES, UM SISTEMA

O Picnicão do 25 de Abril? Foi um pouco, sim. Havia de tudo. Bombos e cabeçudos, como numa romaria minhota. Corais alentejanos, como como nos desfiles e encontros habituais na região. Havia estilos um pouco mais formais, ao jeito do PCP e da CGTP. Encontrei nomes como Destriz, Malaqueijo, Curvos, Antuzede e Moita Oeste. Que ficam, respetivamente, em Oliveira de Frades, Rio Maior, Esposende, Coimbra e Marinha Grande. Houve música e, sobretudo, muita espontaneidade. Como a que levou uma freguesia minhota a apresentar, em ante-estreia pascal, os intervenientes de um "Auto de S. João". Cruzei-me, até, com um manifestante que trazia um cachecol do Liverpool F.C. Nem mais.

O alcance político da manifestação é claro. Continuar a insistir na tecla de "orquestração comunista" é um argumento estúpido. Justificar o continuado esvaziamento do interior com a despesa dos executivos das juntas é intelectualmente penoso e financeiramente irrelevante. Deixar estes dossiês nas mãos de "cientistas políticos", que sabem tudo sobre laboratórios teóricos e nada sobre o país em que vivem é um prenúncio de tragédia. Que tem de ser combatida, politicamente.

Ía eu a chegar aos Restauradores quando um camarada de Grândola me enviou uma SMS dizendo que ainda estava no local de partida. Onde? Uns quilómetros acima, junto ao Ritz. Éramos 150.000? 200.000? A querela não me interessa. Sei que as pessoas começam a perder a paciência com tanto corte e com tanta extinção, sem a criação de quaisquer alternativas uo sem a apresentação de soluções. Sei, sim, que a extinção de freguesias com base em critérios numéricos é uma atitude criminosa e absurda. E que, a ser assim, a freguesia de Santo Amador, no concelho de Moura, tem os dias contados.

A minha perplexidade chegou, algumas horas depois, enquanto aguardava, no setor 12 da Luz, o começo do Benfica-Braga. A imprensa on-line quase ignorava a manifestação. Mais de "30.000 pessoas" (sic), dizia o Público, que dava mais destaque às centenas de "jovens ruidosos" (sic) que tinham organizado um protesto no Chiado. Diário de Notícias e Expresso alinhavam pelo mesmo registo, um chamando a atenção para um dos faits-divers do dia, o outro falava do abandono de uma reunião do conselho nacional do PS, por parte de dois deputados, como se de um golpe de estado se tratasse.

Por mais de uma vez tive a perceção da existência de dois países. E que um deles, urbano e supostamente culto, ignora e menospreza o outro. O dia de ontem foi, em toda a sua dimensão, mais uma prova disso mesmo.

QUEIJO FATAL

Fiz uma triste figura, no longínquo dia da minha adolescência em que comprei, na Feira do Livro, Três homens num bote, de Jerome K. Jerome.

Entrei para o combóio e comecei a folhear o livro. Quase de seguida, comecei a rir, primeiro discretamente, depois às gargalhadas. Foi assim durante 25 minutos, até à estação de Queluz, ante o olhar desconfiado de outros passageiros. Já uma vez transcrevi aqui uma das passagens de Três homens num bote, com a qual me identifico profundamente (v. aqui).

Aqui fica o episódio do queijo:


Jorge propôs ainda para o pequeno almoço ovos e toucinho, que são fáceis decozinhar carne fria, chá, pão, manteiga e compota. “Para o almoço - disse ele - poderíamoslevar bolachas, carne fria, pão, manteiga, compota - mas nada de queijo”. O queijo, tal como o petróleo, invade tudo. Toma conta de um barco inteiro. Espalha-se na despensa e dá um gosto a queijo a tudo o que lá está. Chega-se a não saber se se está a comer torta de maçã, salsicha de Francfort ou morangos com leite. Tudo nos parece queijo. O queijo tem um cheiro forte de mais. Lembrei-me logo dum amigo meu que tinha comprado dois queijos em Liverpool. Eram uns belos queijos, moles e redondos, e que espalhavam em volta um aroma da força de duzentos cavalos-vapor, a três quilómetros de distância, e deitava um homem por terra a duzentos metros. Eu estava então em Liverpool, e o meu amigo perguntou-me se não me importava de levar os queijos comigo para Londres, porque ele não voltaria senão daí a um ou dois dias, e parecia-lhe que aqueles queijos não se podiam guardar muito mais tempo.

“- Mas com muito prazer, caro amigo, com muito prazer” - respondi-lhe eu. Fui buscar os queijos e meti-me com eles num trem. Esse trem era um carro velho, puxado por uma pileca sonâmbula, esquelética e vagarosa, que o seu proprietário, no calor da conversa, chegou mesmo a qualificar de cavalo. Pôs os queijos no tejadilho, e partimos numa velocidade que teria feito honra ao mais rápido de todos os cilindros a vapor até hoje construídos e, de princípio, tudo se apresentou tão alegre como um dobrar a finados. Mas quando voltámos a esquina, o vento trouxe uma baforada do cheiro dos queijos, em cheio, sobre o nosso ginete. O odorífero bafo acordou-o bruscamente e, com um relinchar assustado, tomou balanço e largou à velocidade de cinco quilómetros à hora. O vento continuava a soprar na mesma direcção e antes de chegar ao fim da rua ele tinha já alcançado uma velocidade de sete à hora, deixando bem longe, atrás de si, os doentes e as senhoras velhas e gordas. Na chegada à estação, foram necessários dois carregadores, além do cocheiro, para aguentar o corcel, duvido mesmo que o tivessem conseguido, se um dos homens não mostrasse a presença de espírito bastante para lhe atar um lenço às ventas e queimar papel-de-arménia. Tirei o meu bilhete e avancei orgulhoso no cais, com os meus queijos, enquantoas pessoas se afastavam respeitosamente de um lado e de outro. O comboio ia cheio. Tive de subir para um compartimento onde já estavam sete pessoas. Um senhor velho e rabugento protestou mas eu entrei e, pondo os meus queijos na rede, instalei-me com um amável sorriso, dizendo que estava um dia muito quente. Passados alguns minutos, o senhor de idade começou a mostrar-se agitado.

“- Está aqui tão abafado” - disse ele.

“- Até falta o ar” - respondeu o seu vizinho.

Então puseram-se ambos a fungar. À terceira foram tomados de uma sufocação, levantaram-se sem dizer uma palavra. Depois levantou-se uma senhora gorda e disse que era vergonhoso faltar assim ao respeito a uma honesta mãe de família. Carregada com uma mala e oito embrulhos, saiu também. Os quatros viajantes restantes aguentaram-se alguns momentos mas, por fim, um senhor de ar grave, que estava sentado a um canto e que, pelo seu fato e aspecto geral, parecia pertencer a alguma organização de cerimónias fúnebres, disse que aquilo lhe fazia lembrar uma criancinha morta. Ao ouvirem isto, os outros três viajantes precipitaram-se todos ao mesmo tempo para a porta, esbarrando uns nos outros. Sorri ao senhor fúnebre e disse-lhe que, felizmente, o compartimento ficaria todo só para nós. Sorriu-se por sua vez, com ar amável, e respondeu que muita gente tomava a sério coisas sem importância. Mas no decorrer da viagem começou a mostrar-se extraordinariamente deprimido por isso, quando chegámos a Crewe, convidei-o a vir comigo ao bufete beber um copo de cerveja. Aceitou. Dirigimo-nos ao bufete, onde gritámos e vociferámos e batemos com os nossos chapéus de chuva durante um quarto de hora. Por fim apareceu uma rapariga que nos perguntou se desejávamos alguma coisa.

“- O que toma o senhor?!” -perguntei ao meu amigo.

“- Tomo quatro doses de conhaque, se faz favor, menina” - respondeu ele.

Depois de beber à farta, foi-se embora tranquilamente e subiu para outro compartimento, o que eu achei bastante reles. A partir de Crewe, apesar de o comboio ir apinhado, fiquei absolutamente só. Nas paragens das diferentes estações, os passageiros, quando viam o meu compartimento vazio, precipitavam-se para o tomarem de assalto. E eu ouvia-os gritar: “Aqui está o que nos convém, Maria anda cá, temos aqui muitos lugares! - Ora ainda bem, Tom,vamos lá!” E corriam todos, carregados com pesadas malas, empurravam-se em frente da porta para serem os primeiros a entrar. Um deles abria a porta, subia ao estribo ... e, titubeando, caía para trás nos braços daquele que o seguia, vinham todos e, depois de cheirarem, largavam a fugir e iam amontoar-se noutro compartimento ou pagavam o excesso e iam para a primeira classe.

Na estação de Euston desci e levei os queijos a casa do meu amigo. Ao entrar na sala, a mulher dele respirou fundo. Depois perguntou-me: “- O que foi? Não me esconda a verdade, mesmo que tenha acontecido alguma desgraça”. E eu respondi: “- São dois queijos. Tom comprou-os em Liverpool e pediu-me que os trouxesse para aqui”. E acrescentei que certamente ela havia de compreender que eu não tinha qualquer responsabilidade naquela história. Respondeu-me que estava certa disso, mas que tinha duas palavras a dizer ao Tom, quando ele voltasse. O meu amigo ficou em Liverpool mais tempo do que contava, e três dias mais tarde, como ele não tivesse ainda voltado, a mulher veio visitar-me. Perguntou-me: “- O que lhe disse o Tom a respeito dos queijos?” Respondi-lhe que recomendara que os conservassem em sítio fresco e que ninguém deveria tocar-lhes. Ela continuou: “- Há realmente muitas probabilidades de que ninguém lhes toque”. Ele tinha-os cheirado? Era, no meu entender, muito provável, e acrescentei que Tom parecia fazer muito gosto nos queijinhos.- Pensa que ele ficaria muito contrariado - perguntou ela - se eu desse vinte xelins a um homem para que mos fosse enterrar longe daqui? Respondi-lhe que, se o fizesse, não tornaria a ver o seu marido rir. Ocorreu-lhe uma ideia. Propôs-me “- Importava-se de os guardar até o meu marido vir? Eu mandava-os vir para sua casa”. “- Minha senhora - respondi eu -, eu próprio gosto muito do cheiro do queijo, e a viagem que fiz há dias com eles ficar-me-á sempre gravada no espírito como um feliz remate de umas férias agradáveis. Mas, neste mundo, temos que pensar também nos outros. A senhora sob cujo tecto tenho a honra de habitar é viúva e, muito possivelmente, é também órfã. Tem uma maneira forte, direi mesmo eloquente, de se opor a que, como ela diz, “façam pouco dela”. A presença dos queijos do seu marido nesta casa, receio bem, dar-lhe-ia a impressão de que estavam a fazer pouco dela e eu não quero que possam dizer que abusei da viúva e da órfã”. “- Bem! - prosseguiu a mulher do meu amigo, levantando-se. - Só me resta pegar nas crianças e ir com elas para um hotel, enquanto os queijos não são comidos. Desisto de viver mais tempo na mesma casa com eles”. Cumpriu a sua palavra e deixou a casa entregue à mulher a dias. Esta, quando lheperguntaram como podia resistir àquele cheiro, respondeu “Qual cheiro?” e quando lhe puseram o nariz em cima dos queijos e lhe disseram que cheirasse, confessou que sentia um leve aroma a melão. Donde concluíram que ela não corria perigo por viver naquela atmosfera, e deixaram-na lá ficar. A conta do hotel atingiu cinquenta libras esterlinas e o meu amigo, depois defazer os cálculos, verificou que os queijos lhe tinham saído a oito xelins e seis pence por meio quilo. Acrescentou que adorava realmente queijo, mas que as suas posses não lhe permitiam tal estravagância. Deitou os queijos à água no canal, mas foi obrigado a pescá-los, porque os donos das embarcações queixaram-se. Disseram que o cheiro quase os fazia desfalecer. Depois disso, o meu amigo levou-os uma noite escura para o cemitério da paróquia, e deixou-os lá ficar. Mas o coveiro descobriu-os e fez uma zaragata terrível. Alegou que era umapartida que lhe tinham feito para o privarem do seu ganha-pão, acordando os mortos. Por fim, o meu amigo acabou por se ver livre deles levando-os para uma terra à beira-mar e enterrando-os na praia, o que deu ao local uma fama imensa. Os banhistas diziam que nunca tinham reparado na leveza e pureza daquele ar e, durante muitos anos, encheu-se a terra de pessoas fracas e doentes dos pulmões.




Nada melhor para ilustrar esta história que o célebre gag do queijo corso de "Astérix na Córsega"... Já tive um episódio semelhante com um queijo da Serra da Gardunha, que ficou fora da caixa durante um fim-de-semana no verão. A casa não foi pelos ares, mas as janelas tiveram de ficar abertas de par em par durante 24 horas.

sexta-feira, 30 de março de 2012

LUIZ TEIXEIRA BELTRÃO - UM MILITAR NA HISTÓRIA DE MÉRTOLA

Razões político-lúdicas (a parte política é a manif das freguesias, a lúdica a ida à Luz para ver o jogo com o Braga) impedem-me de blogar durante o dia de sábado.

Aqui vai o texto, que só deveria sair amanhã, por ocasião da reabertura oficial do mercado municipal de Mértola. Em todo o caso, este evento também foi adiado.


Quem foi Luiz Teixeira Beltrão? Um militar da arma de engenharia, nascido em 18 de fevereiro de 1871 e falecido em 31 de outubro de 1940. Comandou a Escola Prática de Engenharia entre 1927 e 1929.

Porque teve um papel na história da vila de Mértola? Pelo facto de ter estado direta ou indiretamente ligado a três edifícios importantes da vila: o mercado, o cine-teatro e a escola primária.

O cine-teatro foi construído no local onde antes estava a ermida de Santo António. Em março de 1914 ainda se hesitava quanto ao destino a dar à antiga igreja, usada como armazém de sal e bebidas. Pensava-se instalar no local a escola, mas em setembro de 1915 já se decidira que o imóvel daria lugar a um cine-teatro. O jornal O futuro de Mértola, de 16 de setembro de 1915, informa que o autor do projeto seria o capitão engenheiro Luiz Teixeira Beltrão.

Quanto à escola, e depois de alguma hesitação, decidiu-se, em outubro de 1914, que a igreja do Carmo daria lugar ao edifício escolar. Lê-se n'O futuro de Mértola de 22 de outubro "o edifício é muito elegante e faz honra ao engenheiro [Luiz Teixeira Beltrão, esclarece o mesmo periódico na edição de dia 10 de dezembro do mesmo ano] que foi encarregado do projecto e ficará sendo o melhor e mais belo edifício publico nesta vila". Previam-se anexos, que nunca foram construídos. Lê-se, na edição do citado periódico de dia 25 de junho de 1914, "ao lado deste edifício, e separados do mesmo, serão construídos dois chalets em estilo belga e de preço reduzido, para habitação dos professores". Fica-nos a dúvida sobre o que será um chalet em estilo belga.

Finalmente, e embora não seja o autor do projeto do mercado - da responsabilidade de António Manuel Pereira (engenheiro prático da Mina de S. Domingos - foi ainda o cap. Luiz Teixeira Beltrão a dar parecer favorável para a demolição da muralha medieval, no local onde a Câmara pretendia edificar o mercado (v. O futuro de Mértola de 5 de março de 1914). As obras deste edifício iniciaram-se no dia 11 de janeiro de 1915.

O cine-teatro, antes das obras de reabilitação

O Rossio do Carmo, c. 1980, com o edifício da escola ao fundo

BILL GATES NÃO VAI PARA O INALENTEJO

No país de opereta em que vivemos, acontecem coisas como esta: Fernando Caeiros (ex-presidente da Câmara Municipal de Castro Verde: 1977-2008) não pode continuar na comissão diretiva do INALENTEJO, onde representava os municípios. Porquê? Porque não tem grau académico. É competente? É. Pragmático? Também. Conhecedor dos dossiês? Sem dúvida. Mas não tem nenhuma licenciatura, mesmo daquelas de aviário, e portanto tem de sair.

Houve um parecer qualquer por causa do estatuto, ou do regulamento, ou do nãoseiquantos do gestor público. Que não é aplicável aos deputados e aos membros do governo. Que são quem decide.

Escusam de pensar em Bill Gates para o INALENTEJO. É que o senhor nunca acabou a licenciatura.


JUMPING POPPIES

Referi, na quarta-feira, o hino do Benfica, sem saber que o New York Times dedicara um texto ao assunto (v. aqui). Sei que a frase soa um pouco "à-la-João-Carlos-Espada", mas juro que a intenção não é essa... A peça que o jornal americano edita é curiosa e alude às origens humildes do clube da Luz. Mas tem mais. Uma tradução do hino, composto pelo dirigente benfiquista Paulino Gomes Júnior. As jumping poppies são as papoilas saltitantes com que termina a letra.

Aqui fica também o quadro Primavera, pintado em 1882 por Silva Porto (1850-1893). Porque começou há pouco a estação, porque gosto de Silva Porto. E porque o quadro tem papoilas. Ainda que pouco saltitantes.

Primavera faz parte da coleção da Casa-Museu Dr. Anastácio Gonçalves:
http://www.cmag.imc-ip.pt/




I’m from Benfica / It fills me with pride /I have in me the spirit / That allows common greatness /



I’m from a brave club / That in the hardest of the battles / A rival has never met / In this Portugal of ours /



Being from Benfica / Is having in your soul / The mighty flame / That conquers /



It lifts you to the immense light / From the sun, that high in the sky / Smiling gently kisses / Full of pride /



The very bright shirts / Vibrating through the fields / Like jumping poppies


quinta-feira, 29 de março de 2012

RAYO VALLECANO

A que propósito vem a referência ao clube de futebol do popular bairro de Vallecas, em Madrid?

É que o plantel do Rayo Vallecano, fiel às raízes operárias da sua massa associativa, resolveu aderir à greve geral de hoje.

Alguém me arranja uma proposta para sócio do Rayo Vallecano?

MUSEU DE MOURA - Nº 10: MOEDA DE D. JOÃO V

Termina aqui esta série em torno do Museu de Moura. Numa sucessão pautada pela cronologia encerro no século XVIII. Com uma invulgar moeda em ouro, de D. João V, encontrada em circunstâncias insólitas: fazia parte do enchimento de um muro relativamente recente (finais do século XIX) da alcáçova do castelo de Moura. Quando o muro foi desmontado apareceu, de forma inesperada, a moeda. Não é caso único. Durante a campanha de 2011 recolheu-se, também no interior de um muro, um objeto fálico, cujo uso e explicação será motivo de abordagem datalhada na monografia em preparação.