domingo, 7 de agosto de 2016

LA CITÉ DES 4000

Na realidade, são mais de 4000 os textos publicados desde o começo do blogue, em dezembro de 2008. São 4000 os que se contabilizam neste momento, mas houve 10 ou 15 que tiveram de ser eliminados, derivado a um vírus...

Um blogue é, apenas, um trabalho de planeamento e de disciplina. Uso uns 15 a 20 minutos diários, mais duas ou três horas por mês a escolher temas e a recolher dados.

Espero que os meus 4000 sejam mais venturosos que a Cité des 4000 (projeto de Clément Tambuté e de Henri Delacroix: 1956-1966), um bairro de La Courneuve (junto a Paris), que devia ser uma solução de alojamento e se tornou um imenso quebra-cabeças político e social. À falta de outra solução, os blocos estão a ser demolidos.

Os meus 4000 textos também se empilham, mas pacificamente.

sábado, 6 de agosto de 2016

ANTÓNIO GUTERRES - CANDIDATURA À ONU

De fácil a campanha nada terá. À segunda votação, António Guterres continua a liderar. O candidato a secretário-geral da ONU parece consolidar posições. Nada está garantido, contudo. O embaixador Francisco Seixas da Costa chama, com subtileza, a atenção para diversas nuances no seu blogue.

Oxalá dê certo. A seriedade deve ser valorizada. E há uma manifesta diferença entre Guterres e criaturas como Barroso e Portas. Isso deve ser sublinhado. Digo eu, que pertenço a outra família política e fico, sem complexos tolos, torcendo por ele.


PONTE SOBRE O TEJO - 50 ANOS


Admito que possa ser discutível usar um poema de Mario Benedetti (El puente) para assinalar os 50 anos da Ponte sobre o Tejo. Mas a ponte, que é muito bonita, isso merece. Quando era pequeno tinha pavor ao cruzar a ponte. Talvez por isso hoje goste tanto do poema e da passagem "ahí está el puente / para cruzarlo o para no cruzarão / yo lo voy a cruzar / sin prevenciones".


Para cruzarlo o para no cruzarlo

ahí está el puente
en la otra orilla alguien me espera
con un durazno y un país

traigo conmigo ofrendas desusadas
entre ellas un paraguas de ombligo de madera
un libro con los pánicos en blanco
y una guitarra que no sé abrazar

vengo con las mejillas del insomnio
los pañuelos del mar y de las paces
las tímidas pancartas del dolor
las liturgias del beso y de la sombra

nunca he traído tantas cosas
nunca he venido con tan poco

ahí está el puente
para cruzarlo o para no cruzarlo
yo lo voy a cruzar
sin prevenciones

en la otra orilla alguien me espera
con un durazno y un país.



sexta-feira, 5 de agosto de 2016

DE COMO O OFFICER CRABTREE REENCARNOU NUM REPÓRTER DE CMTV

Diálogo entre um repórter da CMTV e um emigrante, que não é emigrante.

Repórter:
Eu agora ia pedir ao capitão para ver se consegue mandar parar o próximo, o próximo que é francês. O próximo aí.
Olá, boa tarde. Para a CMTV, em direto. Vem de onde?

O francês, que é mesmo francês:
Francia [não se deve ter dado conta que já estaba em Bilar Formojo].

Repórter:
Cantes hores à conduir duran le viaje?

O francês, que é mesmo francês e que não percebeu pevas da pergunta:
On a conduit depuis Salamanca.

Repórter:
Vá lá, merci.
Capitão, ia pedir-lhe outro, que este é mesmo francês.

Link - https://youtu.be/3p_Meat99A8

OBRIGADO, CMTV!

quinta-feira, 4 de agosto de 2016

SALLÚQUIA - A BELLA MOURA

A edição acaba de ser apresentada pela Câmara Municipal de Moura. A peça foi executada ao vivo pelo Prof. José Azevedo de Souza.

É pertinente um Município publicar valsas? Decerto. Esta peça, composta por Alfredo Keil por volta de 1905 foi uma encomenda da empresa Água Castello. Decidiu agora a Câmara de Moura gravar um CD, divulgando mais esta peça do nosso património.

Interpretação - Mauro Dilema

Está no youtube: https://youtu.be/pUg6oPUDYcs

quarta-feira, 3 de agosto de 2016

TRÊS DIAS??? JURA!!!

Sempre tive uma certa ternura por estes estudos. Tais como por outros, os que dizem que o chocolate é bom e é mau, que o café faz bem e faz mal, que amendoim faz isto e faz aquilo.

Essa de só trabalhar três dias por semana... Bem feitas as contas, e como tenho 53 anos, acho que já devo ter tempo para a reforma. Uns divertidos, estes australianos...


terça-feira, 2 de agosto de 2016

PORTUGAL E OS PORTUGUESES VISTOS POR DENTRO MAS DE FORA - IV/X: TOD PAPAGEORGE


O Tejo, Belém, fotografia de 1989. Muitos fotógrafos descobriram o "exótico português" nos anos 50 e 60. Tod Papageorge (n. 1940) faz este registo no final dos anos 80. É um Portugal diferente do que Koudelka ou Cartier-Bresson registaram. O preto das roupas ainda dá um ar meridional. Mas por aí se fica esse recuo no tempo.

É sempre interessante a imagem que outros constroem de nós. Embora eu não tenha a certeza de que somos exatamente assim.

segunda-feira, 1 de agosto de 2016

MOURA - 25 ANOS MAIS TARDE

No dia 1 de agosto de 1991 mudei-me, de armas e bagagens, para Mértola. Uma decisão acertada e que condicionou a minha vida. Na altura, pensava apenas terminar o mestrado e fazer carreira académica. O destino decidiu de outro modo, num tempo em que ser autarca não fazia parte das minhas mais remotas intenções. Voltei para Moura em 2005, a minha vida passa agora por esta terra. A hora do balanço ainda vem longe. Limito-me a recordar aquela quinta-feira de agosto, na qual pensei - pensa-se cada coisa na vida... - que acabara de comprar um bilhete só de ida para Mértola. No fundo, nunca daqui saí. De Mértola, de outro modo, também não. Ah, quanto do meu passado / Foi só a vida mentida / De um futuro imaginado!, é mais ou menos isso...


O Andaime


O tempo que eu hei sonhado 
Quantos anos foi de vida! 
Ah, quanto do meu passado 
Foi só a vida mentida 
De um futuro imaginado! 

Aqui à beira do rio 
Sossego sem ter razão. 
Este seu correr vazio 
Figura, anônimo e frio, 
A vida vivida em vão. 

A ‘sp’rança que pouco alcança! 
Que desejo vale o ensejo? 
E uma bola de criança 
Sobre mais que minha ‘s’prança, 
Rola mais que o meu desejo. 

Ondas do rio, tão leves 
Que não sois ondas sequer, 
Horas, dias, anos, breves 
Passam — verduras ou neves 
Que o mesmo sol faz morrer. 

Gastei tudo que não tinha. 
Sou mais velho do que sou. 
A ilusão, que me mantinha, 
Só no palco era rainha: 
Despiu-se, e o reino acabou. 

Leve som das águas lentas, 
Gulosas da margem ida, 
Que lembranças sonolentas 
De esperanças nevoentas! 
Que sonhos o sonho e a vida! 

Que fiz de mim? Encontrei-me 
Quando estava já perdido. 
Impaciente deixei-me 
Como a um louco que teime 
No que lhe foi desmentido. 

Som morto das águas mansas 
Que correm por ter que ser, 
Leva não só lembranças — 
Mortas, porque hão de morrer. 

Sou já o morto futuro. 
Só um sonho me liga a mim — 
O sonho atrasado e obscuro 
Do que eu devera ser — muro 
Do meu deserto jardim. 

Ondas passadas, levai-me 
Para o alvido do mar! 
Ao que não serei legai-me, 
Que cerquei com um andaime 
A casa por fabricar. 

Fernando Pessoa - "Cancioneiro" 

MONIZ PEREIRA (1921-2016)

Conheceu uma carreira longa e marcada por sucessos. Grande parte dela, quase toda em boa verdade, foi desenvolvida no Sporting, o seu clube de sempre. Atleta, campeão, treinador e fazedor de campeões, Mário Moniz Pereira deixou-nos ontem. Carlos Lopes terá sido a sua mais conhecida "criação", mas é injusto resumir a um só atleta - ainda que de extraordinária qualidade - décadas de trabalho.

Se um aspeto marca a carreira deste português incomum é ter contribuído para arrumar na prateleira das inutilidades a imagem do lusitano bem comportadinho, mas sempre destinado a lugares secundários. Se hoje temos campeões e gente que se afirma no desporto, em muito o devemos ao Prof. Moniz Pereira.

Facto lateral, mas não menos importante, Moniz Pereira foi um talentoso compositor de fados. Valeu a pena? Claro que valeu a pena, senhor professor.


domingo, 31 de julho de 2016

É SEMPRE NATAL NO PARAÍSO...

RECECIONISTA: Happy Christmas!
DEBBIE: Oh, is it Christmas today?
RECECIONISTA: Of course, madam. It's Christmas every day in Heaven.

É assim que começa a última cena do filme "O sentido da vida", dos Monty Python. Graham Chapman aparece disfarçado à Freddy Breck, à Tony Bennett ou à Engelbert Humperdinck, algo assim. Cito o diálogo amiúde, referindo a um velho amigo que há pessoas que estão sempre nesta onda, para elas "é sempre natal no paraíso". Gostava de ter essa nonchalance, mas aos 53 anos já lá não vou. Aproveito assim os momentos livres fotografando (menos do que gostaria), lendo (menos do que deveria), estudando (muito menos do que seria obrigatório), blogando etc.

Aqui fica o filme da semana, dedicado a todos aqueles para quem é sempre natal no paraíso.


sábado, 30 de julho de 2016

VALSANDO AO SOM DA ÁGUA

É hoje, ao fim da tarde. A Câmara Municipal de Moura edita um CD com uma valsa composta por Alfredo Keil. A peça deverá ter sido composta por volta de 1905. A "Valsa da Água Castello" foi interpretada pelo Prof. Mauro Dilema. A capa do CD, na mais pura Arte Nova reproduz, com fidelidade, a partitura original.

Recuperar músicas esquecidas, ainda que de um romantismo um tanto fora de moda, faz parte daquilo que é a missão de uma autarquia.

Marquemos encontro às 19 horas, nas instalações de Moura do Conservatório Regional do Baixo Alentejo (antigo Café Cantinho). A peça será interpretada ao vivo pelo Prof. José de Souza.

A Água Castello estará presente.


sexta-feira, 29 de julho de 2016

UMA PROCISSÃO FÚNEBRE EM MOURA, NO DIA 29 DE JULHO DE 1816

Relato de uma procissão fúnebre, em julho de 1816, faz hoje exatamente 200 anos.

No livro de atas da vereação de 1816 da Câmara de Moura encontra-se esta descrição (fols. 61-61v.):

“No dia 29 de julho de presente anno de 1816 se ajuntarão nas casas da Camara desta villa todos os officiaes de justiças, misteres, e todos os pautados em procuradores da Camara, e em veriadores, que para esse fim tinhão sido avisados no dia antecedente. Sahio das ditas casas a porcição funebre, formada em duas allas, puchadas pelo cavalheiro José Mathias de São Paio Lobo, que levava o estandarte real de lutto, hindo adiante delle huma escolta de cavalaria do regimento numero 5, que emtão se achava de quartel nesta mesma villa. Atras do estandarte seguião-se todos os officiaes de justiça, depois destes os misteres, logo os pautados em procuradores da camara, depois deles os pautados em veriadores, e procurador da camara autual, e na sua retaguarda a companhia de milicianos, que há nesta villa, comandada pelo tenente della Bentto Maria Segurado. Caminhou a porcição pela Praça em direitura à Rua do Morgadinho, dahi à Rua de Serpa, aonde quebrou o primeiro escudo o veriador mais velho o capittão mor desta villa Francisco de Paula Limpo Quaresma. Seguio a porcição athe a Rua de Santo Agostinho, e fazendo volta o Rocio da Gloria, ahi quebrou o segundo o veriador segundo Marianno Bestel Vinha. Continuou a porcição pela Rua de Gonçalgaracia [sic], e emcaminhado-se a Rua da Assaboeira de frente do passo della quebrou outro escudo o terceiro veriador Sebastião Casqueiro Viera [sic] Gago. Daqui seguiu a porcição pela Rua Longa em direitura a Igreja Matriz de São João Baptista, e fora do adro della se repetio huma piquena oração.”

O falecimento da rainha, D. Maria I, ocorrera quatro meses antes, no Rio de Janeiro, mas só em finais de julho as forças vivas da vila de Moura organizavam o cortejo fúnebre. Os aspetos organizativos são curiosos, com a presença de uma tradição antiga, a da quebra dos escudos representativos da rainha falecida. Mas os aspetos mais interessantes reportam-se ao percurso da procissão, que é o mesmo da que ainda hoje se cumpre na Festa de Nossa Senhora do Carmo. Mudaram os nomes de todas as ruas, mas os locais de passagem do cortejo não sofreram alterações: da praça passa-se à Rua do Morgadinho (Miguel Bombarda), depois à Rua de Serpa (Serpa Pinto), em direção à Rua de Santo Agostinho (9 de abril). A partir desse ponto inicia(va)-se o regresso. Primeiro pelo Rocio da Glória (Largo Gago Coutinho), depois pela Rua de Gonçalo Garcia (5 de outubro), infletindo para a Rua da Assaboeira (Dr. Garcia Peres), antes de chegar à Praça pela Rua Longa (Santana e Costa). Como alterações dignas de registo refira-se o facto de hoje a grande procissão de julho alternar entre as ruas de Santana e Costa e de Arouche. E de não terminar, como é evidente, em S. João mas sim no Carmo.

Memórias da Moura oitocentista. Uma prova de que os gestos do quotidiano são também, uma construção no tempo. Uma evidência de que tudo aquilo que fazemos, nas nossas terras, não é fruto do acaso.


CORES DE VERÃO: CASAS

Última cor desta parte do verão.

As casas, em sítios assim (Capri), viram as costas ao mar, por causa do vento. Talvez seja isso, não sei porque nunca fui a Capri. Podia ser uma imagem do Algarve ou do Magrebe. Ao fim e ao cabo, é um pouco de tudo isso. O génio de Henrique Pousão durou pouco, levado pela tuberculose (1859-1884). Esta tela data de 1882. Ruy Belo (1933-1978) foi outra pessoa que nos deixou antes do tempo.  E este é um dos poemas dele de que mais gosto. O mar está em fundo...

O lugar onde o coração se esconde
é onde o vento norte corta luas brancas no azul do mar
e o poeta solitário escolhe igreja pra casar
O lugar onde o coração se esconde
é em dezembro o sol cortado pelo frio
e à noite as luzes a alinhar o rio
O lugar onde o coração se esconde
é onde contra a casa soa o sino
e dia a dia o homem soma o seu destino
O lugar onde o coração se esconde
é sobretudo agosto vento música raparigas em cabelo
feira das sextas-feiras gado pó e povo
é onde se consente que nasça de novo
àquele que foi jovem e foi belo
mas o tempo a pouco e pouco arrefeceu
O lugar onde o coração se esconde
é o novo passado a ida pra o liceu
Mas onde fica e como é que se chama
a terra do crepúsculo de algodão em rama
das muitas procissões dos contra-luz no bar
da surpresa violenta desse sempre renovado mar?
O lugar onde o coração se esconde
e a mulher eterna tem a luz na fronte
fica no norte e é vila do conde

quinta-feira, 28 de julho de 2016

CORES DE VERÃO: BARCOS

O vendedor de frutas está dentro de um barco. O cenário é tropical e quase idílico. Foi assim que Tarsila do Amaral (1886-1973) imaginou esta cena, em 1925. Na Praia da Rocha não há vendedores de frutas - a ASAE não deve deixar, imagino eu - , mas sobram os de bolas de berlim. Na Praia da Rocha também não há os barcos de outrora, mas sobram as propostas de passeios típicos. Mergulhemos, pois, na leitura, em Tarsila do Amaral  e num poema de Fernando Pessoa, que passou pelo blogue em 17.11.2010 (nessa altura com uma fotografia de Werner Bischof).


A minha vida é um barco abandonado
Infiel, no ermo porto, ao seu destino.
Por que não ergue ferro e segue o atino
De navegar, casado com o seu fado?

Ah! falta quem o lance ao mar, e alado
Torne seu vulto em velas; peregrino
Frescor de afastamento, no divino
Amplexo da manhã, puro e salgado.

Morto corpo da ação sem vontade
Que o viva, vulto estéril de viver,
Boiando à tona inútil da saudade.

Os limos esverdeiam tua quilha,
O vento embala-te sem te mover,
E é para além do mar a ansiada Ilha.

Fernando Pessoa - "Cancioneiro"

quarta-feira, 27 de julho de 2016

CORES DE VERÃO: SEREIAS

Estas sereias, de Di Cavalcanti (1897-1976), sambam em terra firme. A tela data de 1925. Onde há mar e praia há sereias - já lá dizia Dick Farney "sempre sorrindo, sempre sorrindo" - e essa é uma caraterística de todos os mares e de todas as praias. A ironia fica por conta de William Butler Yeats (1865–1939).

Os dias seguem, coloridos e pouco tranquilos para aquilo que, por norma, se designa como "férias".


A drunken man's praise of sobriety


Come swish around, my pretty punk,
And keep me dancing still
That I may stay a sober man
Although I drink my fill.

Sobriety is a jewel
That I do much adore;
And therefore keep me dancing
Though drunkards lie and snore.

O mind your feet, O mind your feet,
Keep dancing like a wave,
And under every dancer
A dead man in his grave.

No ups and downs, my pretty,
A mermaid, not a punk;
A drunkard is a dead man,
And all dead men are drunk.

terça-feira, 26 de julho de 2016

CORES DE VERÃO: ROCHAS

Quarto dia.

Foi já na fase final da sua vida que John Graz (1891-1980) pintou esta vista do Atlântico com rochas. E não foi no seu Brasil de adoção, mas sim em Rhode Island, bem mais a norte. Dominam o azul do céu e o azul do mar sobre as rochas cinzentas.  As rochas algarvias são mais douradas que cinzentas, é verdade, mas o naturalismo português não parece ter dado muita atenção a este território.

A Luz que Vem das Pedras

A luz que vem das pedras, do íntimo da pedra, 
tu a colhes, mulher, a distribuis 
tão generosa e à janela do mundo. 
O sal do mar percorre a tua língua; 
não são de mais em ti as coisas mais. 
Melhor que tudo, o voo dos insectos, 
o ritmo nocturno do girar dos bichos, 
a chave do momento em que começa o canto 
da ave ou da cigarra 
— a mão que tal comanda no mesmo gesto fere 
a corda do que em ti faz acordar 
os olhos densos de cada dia um só. 
Quem está salvando nesta respiração 
boca a boca real com o universo? 

Pedro Tamen - "Agora, Estar" 


segunda-feira, 25 de julho de 2016

CORES DE VERÃO: MAR

Anita Malfatti (1889-1964), pintora brasileira, deixou-nos este farol, datado de 1915  Não há faróis sem mar. Por isso escolhi esta imagem, com nítidas evocações expressionistas. Na Praia da Rocha não há nenhum farol. Restam-me aqueles de que fala Álvaro de Campos. 


Faróis

Faróis distantes, 
De luz subitamente tão acesa, 
De noite e ausência tão rapidamente volvida, 
Na noite, no convés, que conseqüências aflitas! 
Mágoa última dos despedidos, 
Ficção de pensar... 

Faróis distantes... 
Incerteza da vida... 
Voltou crescendo a luz acesa avançadamente, 
No acaso do olhar perdido... 

Faróis distantes... 
A vida de nada serve... 
Pensar na vida de nada serve... 
Pensar de pensar na vida de nada serve... 

Vamos para longe e a luz que vem grande vem menos grande. 
Faróis distantes ... 

Álvaro de Campos - "Poemas" 


domingo, 24 de julho de 2016

CORES DE VERÃO: AREIA

Voo em pouso é o título desta tela do modernista brasileiro José Pancetti (1902-1958). A areia é o segundo tópico destas dias. Sal e areia e areia e sal. As praias são uma maçada, por causa disso. Mas, ao que parece, não há alternativa. O sal de Robert Graves (1895-1985) não é bem este, mas isso não é relevante. Até porque o poeta tem lugar cativo aqui no blogue e, isso sim me importa.



A pinch of salt

When a dream is born in you
With a sudden clamorous pain,
When you know the dream is true
And lovely, with no flaw nor stain,
O then, be careful, or with sudden clutch
You'll hurt the delicate thing you prize so much.

Dreams are like a bird that mocks,
Flirting the feathers of his tail.
When you seize at the salt-box,
Over the hedge you'll see him sail.
Old birds are neither caught with salt nor chaff:
They watch you from the apple bough and laugh.

Poet, never chase the dream.
Laugh yourself, and turn away.
Mask your hunger; let it seem
Small matter if he come or stay;
But when he nestles in your hand at last,
Close up your fingers tight and hold him fast.

sábado, 23 de julho de 2016

CORES DE VERÃO: SAL

Começam os dias de pausa, que o ano já passou do meio para a frente. O blogue não tem direito a férias, mas vai cingir-se a um binómio pintura-poesia. Assim será até ao próximo sábado. Entre o naturalismo e o modernismo andaremos, pelo menos no que às imagens diz respeito.

Escuta, escuta: tenho ainda
uma coisa a dizer.
Não é importante, eu sei, não vai
salvar o mundo, não mudará
a vida de ninguém - mas quem
é hoje capaz de salvar o mundo
ou apenas mudar o sentido
da vida de alguém?
Escuta-me, não te demoro.
É coisa pouca, como a chuvinha
que vem vindo devagar.
São três, quatro palavras, pouco
mais. Palavras que te quero confiar,
para que não se extinga o seu lume,
o seu lume breve.
Palavras que muito amei,
que talvez ame ainda.
Elas são a casa, o sal da língua.

Poema de Eugénio de Andrade (1923-2005)

Salinas, obra de 1946, de Cândido Teles (1921-1999), pintor de Ílhavo

sexta-feira, 22 de julho de 2016

O RIO DE ANDREAS GURSKY

Diverti-me, há uns anos (final de 2009), a fazer uma listagem das dez fotografias mais caras de sempre. Num mundo volátil, estas coisas mudam rapidamente. Dei-me conta, há dias, que um certo gosto "historicista" entrou em declínio e que há novos valores, ligados ao mercado da Arte, às galerias e aos leilões que tomou o lugar de imagens antigas.

Se recorrermos à wikipedia (mea culpa, mea maxima culpa...) constatamos que no top 25 há oito de Andreas Gursky (n. 1955) e sete de Cindy Sherman (n. 1954). Há fatores de promoção que se sobrepõem a todos os outros.

Qual a fotografia que lidera? Rhein II, feita em 1999 e vendida em 2011 pela bonita soma de 4.300.000 dólares. Ao contrário do outrora, a manipulação não só é feita como explicada. Andreas Gursky eliminou pessoas que passeavam cães e uma fábrica, que perturbava o enquadramento. A fotografia não é só registo, é composição e correção da composição. Adeus Cartier-Bresson...

E Andreas Gursky gostará de Mark Rothko?