segunda-feira, 26 de dezembro de 2016

PRESÉPIOS - II

Arte e relações artísticas com o quotidiano. Uma vez mais.

O primeiro presépio data de 1997. Um jovem escultor chamado Manuel Macias fez este conjunto, na Oficina da Criança, aos 4 anos. Parece-me hoje um trabalho assim meio expressionista (com evocações de Ensor ou de Munch), mas é certo que a intenção do Manuel era tentar ser realista.

O segundo presépio está à entrada de Mértola. Autores deste belo trabalho: Manuel Passinhas e Margarida do Rosário. Na onda George Segal.





PRESÉPIOS - I

Um dia depois do Natal, aqui vos deixo três presépios do meu amigo Gildo (Francisco Hermenegildo). Um mais minimalista (o de baixo), outro de pendor agrícola (o do centro), outro francamente atrevido (o de cima). Tal como disse ao Gildo, a propósito deste último, "és um tipo cheio de sorte; por muito menos que isso o Torquemada mandou muito boa gente para a fogueira...".

Continuação de Boas Festas.


domingo, 25 de dezembro de 2016

WHITE CHRISTMAS, assim tipo em falsete e tudo


O estilo é este. São os Human Nature, com aquele dep-dep-terep-dep-dep e uma voz esganiçada.  O melhor, contudo, é o traje, ao estilo valet parking ou porteiro-de-strip-club. Havia uns assim, em Lisboa, segundo ouvi dizer.

Não sei se Irving Berlin (1888-1989) gostaria desta versão da sua canção de Natal de 1942. Eu gosto.

Valet parking (Burjeel Hospital, Abu Dhabi)

sábado, 24 de dezembro de 2016

SALÚQUIA NATALÍCIA

Esta é a minha Salúquia, a minha Salúquia natalícia. Não aquela onde moro, de forma intermitente, há mais de 50 anos. Mas a outra, da qual temos memória histórica.

Eis de como de uma aiveca se faz uma peça bela e surpreendente.

Julgo que o soneto O dia em que nasci moura e pereça se adequa ao destino trágico da lendária alcaidessa.

O dia em que nasci moura e pereça,
Não o queira jamais o tempo dar;
Não torne mais ao Mundo, e, se tornar,
Eclipse nesse passo o Sol padeça.

A luz lhe falte, O Sol se [lhe] escureça,
Mostre o Mundo sinais de se acabar,
Nasçam-lhe monstros, sangue chova o ar,
A mãe ao próprio filho não conheça.

As pessoas pasmadas, de ignorantes,
As lágrimas no rosto, a cor perdida,
Cuidem que o mundo já se destruiu.

Ó gente temerosa, não te espantes,
Que este dia deitou ao Mundo a vida
Mais desgraçada que jamais se viu!

sexta-feira, 23 de dezembro de 2016

RECORDANDO, ANTES QUE O ANO TERMINE, MAIS OBRAS NAS ESCOLAS

A aposta na Educação passa, também, pela garantia de infraestruturas com qualidade. Temos vindo a fazer isso ao longo dos anos. Decisivas são muitas intervenções que têm vindo a ser feitas. E que continuarão, em 2017, com novos equipamentos.

Para já fica o registo: a substituição das coberturas das escolas do Sete-e-Meio (onde havia, e já não há, fibrocimento) e dos Bombeiros custou um pouco mais de 70.000 euros. É por esse caminho que continuaremos.



O MacGUFFIN DE BERLIM

O suspeito dos atentados de Belim foi morto em Milão. São 1150 quilómetros de estrada, de Berlim a Mião (www.viamichelin.com dixit). Ninguém viu, ao longo destes dias, o principal protagonista.

Os contornos e os detalhes do que se passou nunca serão conhecidos. Ficam claras as fragilidades dos sistemas de segurança. E o modo como estamos expostos a todas as ameaças.


EMINÊNCIA PARVA

O meu interlocutor falava-me de um determinado indivíduo de uma instituição com quem uma entidade camarária dialoga regularmente. Um técnico irritante e habituado a complicar o que é simples. Dizia este meu amigo, "sabes que, no meio disto tudo, ele é uma espécie de eminência parda da instituição". Ri, para espanto da pessoa com quem conversava. "Que se passa?". Eu entendera eminência parva, epíteto que achava muito mais apropriado. Aí rimos os dois.

Tenho conhecido muitas destas eminências ao longo da vida, cardeais especializados em dizer o óbvio como se de profundos pensamentos se tratasse. Gosto em especial dos que intervêm em público, em estilo labioso, dizendo as mais horríveis e lacrimejantes banalidades em tom sapiente. Nessas alturas lembro-me do Sam, a águia dos Marretas...


quinta-feira, 22 de dezembro de 2016

BOAS FESTAS

Eis o postal de Boas Festas da Câmara Municipal de Moura:



Em 2015 foi assim: https://youtu.be/PspYZPHS9Vw

Em 2014 foi assim: https://youtu.be/02OugA2oubM

Trabalho interno, da rapaziada do Gabinete de Comunicação.

ART TODAY: DO TACOAL À FÁBRICA DE PAINÉIS

Art today é o título de um Edward Lucie-Smith (1933), de leitura obrigatória nos meus já longínquos tempos de estudante de História da Arte. O livro, edição da Phaidon, era caríssimo, e fazíamos bicha na Biblioteca de Arte da Fundação Calouste Gulbekian.

Art today, no caso deste textinho, tem a ver com a presença de sugestões de Arte em pequenos objetos ou peças do quotidiano. O cromatismo dos mosaicos de uma mesa, no Tacoal, remeteu-me para uma composição de Piet Mondrian (1872-1944), datada de 1921. O tom amarelado das palettes no exterior da Moura Fábrica Solar recordou-me trabalhos fotográficos de Andreas Gursky (n. 1955), em especial este Times Square e a peça 99 Cent.

A Arte pode ser entretenimento permanente? Deve.




quarta-feira, 21 de dezembro de 2016

VISITA À FÁBRICA

MELHORIAS NA UNIDADE FABRIL EM 2017

Câmara de Moura acompanha consolidação
da produção da Moura Fábrica Solar

O presidente da Câmara Municipal de Moura, Santiago Macias, acompanhado pelo vice-presidente, José Valente, visitou a Moura Fábrica Solar (MFS), esta quarta-feira, 21 de dezembro, a convite do diretor da Projinko em Portugal, empresa que gere a unidade fabril.

Foi com satisfação que o presidente do município, Santiago Macias, deu conta da estabilidade e consolidação do processo produtivo da unidade fabril, depois de a Projinko ter procedido à instalação de novas máquinas e equipamentos na Moura Fábrica Solar, no passado mês de julho.

Além disso, o diretor da fábrica avançou ainda aos autarcas da Câmara de Moura que serão introduzidos melhoramentos na unidade, no início de 2017.

Desde a colocação da primeira pedra da Moura Fábrica Solar que a Câmara Municipal de Moura, tem vindo a acompanhar o processo de gestão da fábrica. O município tem feito sempre todos os possíveis para manter os cerca de 100 postos de trabalho que foram criados com a implementação da MFS, naquela que foi uma das contrapartidas do projeto da central fotovoltaica de Amareleja. Com esta visita, ficaram perspetivados a continuidade e o sucesso da Moura Fábrica Solar e a manutenção dos postos de trabalho.

(nota de imprensa da Câmara Municipal de Moura)

Visita às instalações da MFS, guiado pelo diretor da unidade fabril.

terça-feira, 20 de dezembro de 2016

SPUNTATO ECCO IL DI D'ESULTANZA

Como todo o amador (não no sentido de amar, o que também é verdadeiro, mas no sentido de não profissional, não conhecedor), gosto imenso dos coros verdianos. Os meus preferidos? O coro dos soldados de Il trovatore, e este, da ópera Don Carlo. Estreada em 1867, esta ópera de Verdi (1813-1901) foi várias vezes revista e refeita. O coro canta Spuntato ecco il di d'esultanza / Onore al più grande de' Re! O auto de fé tem lugar de seguida.

Hoje é dia de ópera.

segunda-feira, 19 de dezembro de 2016

SÍRIA REVISITADA

Estive na Síria na primeira quinzena de outubro de 2003. A viagem foi feita em total liberdade, à margem de excursões organizadas. O António Cunha, o motorista Fahd Kanara e eu percorremos o país de norte a sul, da fronteira turca à jordana. Uma viagem extraordinária e irrepetível. Dela dei breve testemunho em livrinho editado em junho de 2005. O texto que aqui se reproduz é o desse livro. Foi, curiosamente, o primeiro post do blogue, em 10 de dezembro de 2008.

Foi com grande constrangimento que vi, há pouco, a destruição numa rua junto à cidadela de Alepo, onde passei várias vezes. A fotografia (de Omar Sanidiki, para a Reuters) contrasta bem com a outra, por mim feita a partir da cidadela, no dia 4 de outubro de 2013.



Na rua que conduz a Bab Sharqi, em Damasco, conserva-se parte de um arco de triunfo romano. Só o arco nos faz recuar aos dias em que S. Paulo viveu naquela rua. O resto há muito deixou de existir e a procura de uma cidade desaparecida torna-se um jogo de imaginação. Talvez Paulo de Tarso passasse todos os dias debaixo do arco de triunfo romano, sobre o qual se passeia agora um gato de ar preguiçoso. Mas aquele monumento é apenas um testemunho raro de uma época esquecida e a História deixa-nos sem respostas na esquina da rua, a que leva a Bab Sharqi, e que está deserta no fim da tarde de sexta-feira.

Dos dias da Damasco romana ficaram alguns monumentos, menos à vista do que poderíamos esperar. As cidades que se lhe seguiram foram ocultando as anteriores e os roteiros turísticos que os poucos visitantes cumprem, religiosamente, guiam-se, quase só, pela cidade dos últimos 300 anos. Mas a geografia de uma cidade não é um mapa para turistas e a topografia dos sítios não se segue, encontra-se. Uma rua à direita, duas à esquerda, ao acaso e à toa, à procura de respostas.

As ruas de uma cidade são terra firme. Dá prazer deixarmo-nos levar, uma rua à direita, duas à esquerda, sempre ao acaso. Não nos perdemos, porque as trepadeiras das ruas de Damasco, a cruzarem-se nas pérgolas à nossa frente, já um dia as vimos, mas não sabemos onde. Talvez num sítio longe de Damasco. São talvez ruas sonhadas ou já vistas.

Muito do passado de Damasco está hoje escondido em bairros recônditos ou quase desapareceu. As cidades não são uma realidade imóvel e imutável. Menos ainda quando falamos de sítios como este, ocupados há milénios e abalados de tempos a tempos por convulsões, pelas dos homens e pelas que surgem das entranhas da terra. O correr dos anos, o simples martelar do sol e da chuva se encarregaram de fazer o resto. É por isso que a topografia antiga de Damasco há muito se modificou e da cidade onde viveu São Paulo só restam o arco romano na rua que vai para Bab Sharqi, a entrada oriental da cidade, a colunata à saída do souk Hamidieh e algumas das paredes da grande mesquita dos omeias.

É na mudez das pedras que está a resposta a tantas questões. São elas que nos contam o que os textos escritos tantas vezes omitem, por desconhecimento, por convicção ou por conveniência. Entre Bosra e Qalb Lozeh, desde a desolação da estepe de Qasr ibn Wardan até ao oásis de Palmyra é sempre nas pedras onde a História foi gravada que procuramos os relatos do passado. William Henry Waddington escrevia, no final do século XIX, que a causa da destruição dos monumentos antigos da Síria se devia aos muçulmanos e aos cristãos, que tinham usado os edifícios mais antigos como matéria-prima para erguer novas construções. Explicação simplista mas, em grande parte, certeira. Assim se destruiu e se refez, em cada dia, o percurso da História.

A Síria Antiga guarda-se nos museus de Damasco e de Alepo. E nos das antigas capitais coloniais do Ocidente, que pilharam, com método e eficácia, um solo inesgotável. Os mosaicos e algumas das colunas de Apameia estão hoje no Museu de Bruxelas. A maior parte da colunata está no local de origem, ao longo da grande avenida que atravessa a cidade. Ao cruzarmos o Orontes e ao chegarmos às ruínas de Apameia esperam-nos dois quilómetros de avenida deserta, guardada por gigantes de sete metros de altura, perfilados no centro de uma cidade com 255 hectares. A desolação e o silêncio de Apameia tornam-se mais evidentes no fim da tarde, quando a luz se começa a desvanecer e quando tentamos imaginar e refazer a cidade que outrora ocupou aquele planalto e da qual não restam mais que as colunas e o espólio que os ocidentais pilharam.

O coração da Síria Antiga está em Palmyra. A saga de Palmyra é notável, e inclui um desafio a Roma e uma independência ganha por pouco tempo. Roma ficava muito longe e a cidade, no meio do seu oásis, a meio caminho entre o Eufrates e o Mediterrâneo, não resistiu à tentação da liberdade. Quatro anos durou a aventura (268-272), tempo curto mas que chegou para imortalizar a cidade e Zenobia, a sua rainha. Os idiomas oficiais em Palmyra eram o grego e o aramaico. O grego ficou nas pedras e já só interessa aos epigrafistas, aquelas pessoas que transformam a história de outras pessoas em traços e símbolos e em fórmulas de gramática. O aramaico cruzou milhares de anos, tornou-se numa ilha de sons que muito poucos entendem e já só é falado em duas ou três aldeias das montanhas do Kalaamoun.

Palmyra é um mostruário de arquitraves, de fustes, de capitéis, de recordações de uma cidade perdida. Chega-se ao oásis de Palmyra depois de cruzar o deserto da Síria, entra-se na cidade pelo ocidente, pela zona onde está o vale dos túmulos. Para lá das ruínas e da cidade nova fica a frescura do oásis. As azinhagas que o cruzam estão, contudo, tão abandonadas como a alameda de Apameia. As hortas, que podiam ilustrar algum relato bíblico ou das Mil e Uma Noites, já pouco produzem, e o rumor da gente que outrora se ouvia pelos vergéis deu lugar ao som dos passos de alguns viajantes mais curiosos. São eles quem franqueia os campos de cultivo, por entre muros que não voltarão a ser reparados e no meio de um silêncio terrível, já só quebrado pelo som dos passos dos que percorrem o oásis à sombra das palmeiras.

O coração de uma Síria intemporal vive em Alepo. Cerca de mil metros separam Bab Antakyah e a cidadela. Em mil metros mergulhamos na máquina do tempo, num souk que saiu das páginas de um texto antigo. O barulho, os pregões, a venda de tecidos repetem-se sem cessar há muitos anos e já um dia ouvimos as vozes dos vendedores do souk de Alepo mas não sabemos onde. Os vendedores, que repartem o espaço com um rigor de geometra, têm centenas de anos. O tempo não passou por eles porque estão resguardados do sol e da luz do dia pela penumbra do souk. O que se vende é tão antigo como o souk, como os sabões de azeite e palma que fizeram a fama de Alepo.

Para lá dos mercados, para além dos monumentos e da História Antiga começa a outra Síria. Aceitemos a hospitalidade do Oriente enquanto o turismo não chega. Aceitemos o chá que nos oferece Muhammad Kadr al-Kadr, o guarda do forte bizantino de Qasr ibn Wardan. Entremos na casa de Brahim Abu Radwan, na aldeia de as-Srouje. Sentemo-nos na sua casa e ouçamo-lo contar a história da sua vida, os anos duros da emigração no Dubai, o regresso à aldeia, a compra de 50 ovelhas e de umas oliveiras. Partilhemos uma refeição de pão e azeite com a família de Lufte Naasif, na aldeia druza de Qalb Lozeh. É uma conversa feliz, feita de muitos silêncios, que se prolonga durante duas horas e poucas vezes, como dessa vez no norte da Síria, estive tão perto de casa. Aceitemos as duas romãs que um rapazito nos oferece à entrada do sítio de Aïn Dara enquanto nos diz “sou curdo”, a vida, o orgulho e o passado de cada comunidade a fazerem-se sentir em cada esquina. Acompanhemos Margarita Curché pelas ruas do bairro cristão de Damasco, por entre as igrejas e as mesquitas que partilham as mesmas ruas, por vezes muito perto, por vezes mesmo lado a lado. Não nos espantemos quando ela cerrar o punho em desafio e clamar em voz alta “aqui somos todos cristãos!”. Margarita refere-se ao bairro, mas o seu bairro é o seu mundo, um mundo que fica junto a Bab Touma, no extremo nordeste da cidade antiga.

Em tempos que já lá vão, a rota de ouro do comércio mediterrânico começava em Sevilha, tocava os portos da Tunísia e ia terminar lá longe, em Alexandria ou em Antioquia. Era um percurso que todos os mercadores conheciam e que várias vezes ao longo do ano tinham que percorrer. À Península Ibérica vinham buscar a prata que faltava a Oriente. Para a Península Ibérica traziam os tecidos e os perfumes que iriam tocar o corpo das andaluzas mais belas. Ou das mais ricas.

Lá longe, para lá de Antioquia, existe ainda ainda um pouco desse mundo. Fica fora das fronteiras da Europa, cada vez mais longe do Ocidente. Às portas do Levante, o ar do Mediterrâneo começa a dar lugar à aridez do deserto. É aí que começa a Síria, onde o Mediterrâneo acaba e até onde chegam as oliveiras. A algumas jornadas do mar fica o oásis de Palmyra e, mais para leste, a imensidão da Mesopotâmia.

domingo, 18 de dezembro de 2016

RIBEIRA DA PERNA SECA - 18.12.2016

Texto lido hoje, durante a cerimónia na Ribeira da Perna Seca:

Poucas coisas ao longo da vida, muito poucas seguramente, me deixaram marcas tão fundas e tão inapagáveis como este processo da Ribeira da Perna Seca.

Um dos momentos mais marcantes ocorreu na noite de 29 de dezembro de 2009. A ribeira transbordara, uma vez mais. O acesso principal à aldeia estava cortado e tivémos de entrar, o José Maria e eu, pela Estrada dos Carapinhais, num percurso mais longo, por entre a escuridão e a chuva que ainda caía. Preparávamo-nos para ouvir um coro de reclamações, à chegada. O que aconteceu foi, para nós, muito pior. Havia um terrível silêncio, um misto de desalento e de tristeza se apossara dos moradores que vivem aqui nesta zona. Ouvia-se apenas aquele rumor da água a correr depressa, quando a ribeira começava a esvaziar lentamente.

Senti, nesse momento, vergonha. Senti, enquanto cidadão português, uma profunda vergonha. Tinha vergonha da nossa falta da capacidade financeira, só ultrapassada com um empréstimo bancário.  Tive vergonha dos governos que fomos tendo, dos seus boys, dos seus bajuladores e puxa-saquistas. Quase tive pena de vários dos meus interlocutores, não pela recusa em colaborar ou em financiar (que aconteceu), mas pelo seu distanciamento e pela sua indiferença.

Percebi o sentido da palavra "abandono". Percebi, em muitas ocasiões, a quem estamos entregues e a forma como o interior é deixado à sua sorte, por governos de gente muitas vezes indiferente e muitas vezes pouco capaz.

Uma pessoa com responsabilidades políticas locais [aqui do Sobral] dizia, em outubro de 2009, "… eu considero que a Câmara, por si só, não tem capacidade financeira para realizar a obra, mas tem de interceder junto de outras entidades…". A declaração inscreve-se na lusitaníssima lógica do "interceder", do "requerer", do "pedir" ou do "pedinchar" junto dos poderosos  (que tem no " ó sôtor faça lá um jeitinho" a sua expressão máxima). Nem nós nem os sobralenses temos de interceder coisa nenhuma. Temos direitos, que não foram respeitados. Precisámos de solidariedade e responderam-nos com legislação e com burocracia.

Dobrada a casa dos 50 anos olha-se o mundo, pela primeira vez, de forma diferente. Uma passagem de “Memórias de Adriano”, de Marguerite Yourcenar, lido na juventude, faz sentido pela primeira vez: “assim como o viajante que navega entre as ilhas do Arquipélago vê despontar, ao entardecer, uma espécie de névoa luminosa e descobre pouco a pouco a linha da costa, eu começo a avistar o perfil da minha morte”. Deitamos contas ao tempo que passou e temos a certeza de estarmos a mais de metade do caminho. Impercetivelmente, passámos essa metade sem nos darmos conta. Foi tudo demasiado rápido e o tempo é, ele mesmo, agora mais rápido.

Olhando a minha linha da costa, penso muitas vezes na importância do dia de hoje e na importância desta obra e do contributo que, no meio de tantos, pude dar. O dia de hoje é um dos dias mais compensadores da minha vida. E esta é a obra mais compensadora, do ponto de vista pessoal, em que pude participar enquanto autarca.

Percebemos, em final de 2009, que não era possível avançarmos para a intervenção faseada que tinhamos preconizado. O resto da história é um conjunto de datas e de números, de nomes de empresas, que aqui pouco nos interessam.

Tenho orgulho no dia de hoje. Pela obra, de certeza que sim. Mas tenho orgulho sobretudo pela capacidade de resistência dos sobralenses. Pela amizade que tantos dos que aqui estão fizeram o favor de me oferecer, ao longo dos anos. Quem vive aqui, quem aqui resiste, merece todo o esforço de que formos capazes. Merece, sobretudo, o nosso respeito.

Vivemos, aqui no interior, num país fantasma.  Temos hoje  caminhos abandonados, pontes esquecidas, aldeias semi-despovoadas e um território que, aos poucos, morre às mãos da indiferença do outro Portugal, o do litoral, onde há uma realidade que nos parece, muitas vezes, coisas de ficção.

Nesse país fantasma viveram e resistiram, durante centenas de anos, centenas de gerações. As dos nossos antepassados. Artesãos, agricultores, professores, sapateiros, pastores, tecedeiras, perde-se o conto ao número e ao nome dos que por nada trocariam os horizontes do seu território por qualquer outro sítio do mundo. Nunca ninguém lhes perguntou quanto queriam por ficar nem quanto valia o seu amor à terra que os vira nascer. Muitos partiram, por não terem meios de subsistência.

Como diz a moda, nós somos devedores à terra. Assumamos essas palavras em sentido global. Somos devedores às nossas aldeias. Somos devedores aos que construíram este concelho. Somos devedores aos que trabalharam e trabalham os campos. Paguemos-lhes todos os dias. Mantendo as escolas, tentando reparar caminhos, comprando maquinaria e pondo-a ao serviço dos munícipes, investindo e fazendo obras.

A obra que hoje se dá por concluída resume tudo isto. Foi uma obra feita com firmeza, com determinação e contando convosco. Fizémos questão de assinalar o dia de hoje, porque essa é uma obrigação que temos para convosco. A política é isto, de uma forma muito simples. Estar próximo, ultrapassar dificuldades e avançar.

Recordo uma parte do que disse na tomada de posse, em 20 de outubro de 2013.

Durante a II Guerra Mundial, quando o esforço militar consumia todos os recursos das ilhas britânicas, foi sugerido ao primeiro-ministro Winston Churchill que cortasse nas verbas da cultura. O homem que conduziu a Inglaterra à vitória sobre a Alemanha recusou perentoriamente. “Se cortamos na cultura, estamos a fazer esta guerra para quê?”. (fim de citação)

É esse um dos tópicos do nosso combate quotidiano. E se nos referimos à cultura, não é à sua vertente literária e artística, apenas. Mas à necessidade de termos uma perspetiva cultural do nosso concelho e do mundo à nossa volta.

É essa perspetiva cultural que nos leva a reabilitar as nossas localidades. É por termos essa certeza que cedemos o terreno e colaborámos no financiamento da Escola Básica Integrada de Amareleja. É por termos essa convicção que interviémos nas escolas e as melhorámos. Foi assim em Santo Amador e em Santo Aleixo. É esse enquadramento cultural que nos leva a renovar redes de águas e a fazer obras como a da Ribeira da Perna Seca, no Sobral da Adiça. Sem gente não há futuro e sem condições para aqui vivermos não há gente. A equação é simples. Tão simples como simples e direta é a nossa determinação. Que é tão firme como a vossa determinação.

De uma coisa tenho hoje a certeza. As soluções e a força estão em nós. Em todos nós. Não há salvadores da pátria, nem profetas nem homens ou mulheres providenciais. Estamos todos nós, com o nosso empenho, o nosso sentido de luta e a nossa capacidade de concretização. Estamos nós e, como diz um velho amigo meu, a “infinita liberdade do espírito”. É a essa a minha firme convicção.

Obrigado, sobralenses!


O triunfo da cor e a placidez do tema estão bem de acordo com o início da tarde de hoje. Régate à Argenteuil está no Musée d'Orsay, em Paris. Foi pintada em 1872 por um muito jovem Claude Monet (1840-1926). E a cor e a placidez sobralenses vão a par do poema, de 1921, de Paul Éluard (1895-1952). Mesmo sem regatas, estava assim a ribeira, azul e luminosa.


La rivière
La rivière que j'ai sous la langue,
L'eau qu'on n'imagine pas, mon petit bateau,
Et, les rideaux baissés, parlons.

sábado, 17 de dezembro de 2016

ÚLTIMO NATAL

Ontem à noite, ao regressar à Câmara, o cenário preparado para a casinha do Pai Natal pareceu-me ainda mais bonito. As renas são esculturas absolutamente notáveis, feitas com muito pouco e muito boa vontade e empenho.

Coisas simples e bonitas, longe das músicas dos sininhos e daquele chingalingalinga enervante. Coisas de Natal.


Último Poema


É Natal, nunca estive tão só. 
Nem sequer neva como nos versos 
do Pessoa ou nos bosques 
da Nova Inglaterra. 
Deixo os olhos correr 
entre o fulgor dos cravos 
e os dióspiros ardendo na sombra. 
Quem assim tem o verão 
dentro de casa 
não devia queixar-se de estar só, 
não devia.

Eugénio de Andrade (1923-2005)

sexta-feira, 16 de dezembro de 2016

PRIMEIRAS LEITURAS: O RAPAZ, O SOLDADO E O MAR

A única coisa que recordo deste livro é que me deixou imensamente triste. Não me recordo do nome do protagonista, mas não tenho dúvidas que era órfão e que havia uma relação ambivalente que ele tinha com um soldado.

A França ocupada pelos alemães era o cenário da história. Devo a Georges Fonvilliers (n. 1921) e a tantos outros autores sem especial reputação o amor à escrita. Fui recuperar a memória deste livro nem sei bem onde. Provavelmente, terei de o voltar a ler, para perceber o que nele gostei. Provavelmente, encontrarei no virar de alguma página, uma parte da minha vida que passou.

quinta-feira, 15 de dezembro de 2016

MOMENTO JINGÓBÉL E O DISCURSO MAIS CURTO DO MANDATO

A fotografia junto ao presépio, com a animada equipa camarária, foi depois de ter sido chamado a discursar quando o Pai Natal chegou à praça e as crianças das escolas estavam à espera dele. Foi assim:

Eu - "Olá meninos!"
Eles - "Olááááá!!!"
Eu - "Então, vamos lá saber, querem-me a mim ou ao Pai Natal?"
Eles - "O Paiiiii Nataaaaaallll"
Eu - "O presidente ou o Pai Natal???"
Eles - "Paiiiii Nataaaaaallll"
Eu - "OK, chega lá aqui Pai Natal! Boas festas para todos"
(aplausos, fim de discurso)

DOS PRESIDENTES AOS FUTUROS PRESIDENTES

Dois dias, primeiro com autarcas, depois com jovens que podem, um dia, vir a ser autarcas: terça-feira com os colegas da Câmara de Beja (presidente e vereadora), quarta-feira com três curiosos e inquisitivos alunos da Escola Profissional de Moura.

Com o Presidente da Câmara de Beja.

08:10 - Nos estaleiros da CMM.

08:40 - O que é e como funciona uma Câmara.

10:00 - Visita ao Pátio dos Rolins.

10:30 - Festa no ambiente solidário da APPACDM.

11:15 - Visita à exposição "Água - património de Moura"

12:15 - Visita às obras da Ribeira da Perna Seca.

13:00 - Passagem por Safara.

15:00 - Visita à Torre do Relógio.

15:45 - O que são e para que servem as obras de reabilitação.

16:05 - O que é e para que serve o CAMM.

16:30 - Com o staff, no gabinete da presidência.
Respostas a questões concretas.

17:00 - Reunião de Câmara.