quinta-feira, 17 de dezembro de 2009

YO NO VOLVERÉ

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YO NO VOLVERÉ

Yo no volveré. Y la noche

tibia, serena y callada,

dormirá el mundo, a los rayos

de su luna solitaria.

Mi cuerpo no estará allí,

y por la abierta ventana

entrará una brisa fresca,

preguntando por mi alma.

No sé si habrá quien me aguarde

de mi doble ausencia larga,

o quien bese mi recuerdo,

entre caricias y lágrimas.

Pero habrá estrellas y flores

y suspiros y esperanzas,

y amor en las avenidas,

a la sombra de las ramas.

Y sonará ese piano

como en esta noche plácida,

y no tendrá quien lo escuche

pensativo, en mi ventana.

Juan Ramón Jimenez

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O quadro de Edward Hopper (1882-1967) intitula-se Nighthawks (1942) e, na sua crueza urbana, não nos transmite exactamente o mesmo sentimento deste intimista Yo no volveré, que espelha a efemeridade das nossas vidas. Gosto de ambos, de Hopper, porque inspirou o hiper-realismo e porque me recorda aqueles bares silenciosos que fecham muito tarde e onde gosto de ir. De Juan Ramón Jiménez (1881-1958), porque gosto dos seus poemas de juventude, como este, escritos com apenas 22 anos. Os especialistas que me perdoem, mas a minha preferência vai para esta fase mais lírica...

quarta-feira, 16 de dezembro de 2009

MUSEU MAIS E MUSEU MENOS (ACTUALIZAÇÃO)

Depois de publicado o texto que abaixo se lê resolvi enfatizar um ponto importante. O projecto que vai ser contratado com a Ventura Trindade abrange:
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A reabilitação do antigo matadouro;
A concepção de um ponto de chegada e correspondência (para o Expresso, designadamente) no quintalão que fica em frente ao espaço acima citado;
A concepção de um ponto de abrigo para os autocarros que fazem o percurso dentro do concelho, junto à escola secundária;
Os arranjos exteriores das áreas a intervencionar.
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Trata-se de uma importante operação de reabilitação urbana, que permite dar resposta cabal a vários problemas, bem como a contribuir para dar novas funções a um edifício emblemático da cidade. Tenho o prazer de intervir e de trabalhar neste programa, enquanto vereador da CMM.
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O processo de selecção teve o acompanhamento de técnicos do Instituto da Mobilidade e dos Transportes Terrestres e do Instituto dos Museus e da Conservação. Notícias vindas a público na nossa cidade, dizendo que se vai gastar uma fortuna a fazer um museu são promovidas pelos analfabetos e pelos ressabiados do costume... Nada de novo, portanto.
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A página web da equipa é a seguinte (o que está previsto para Moura pode aí ser consultado):
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MUSEU MAIS
Foi hoje, enfim.
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A Câmara Municipal de Moura deliberou contratar a equipa Ventura Trindade para proceder à requalificação do antigo Matadouro (futuro Museu). Pelas minhas contas, entre a concretização do contrato e a conclusão da obra passarão, sem dúvida entre 3 a 4 anos. Conclusão deste processo? 2013, talvez. Acompanharei este processo com todo o empenho político e com todo o interesse profissional.
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MUSEU MENOS
Joaquim Oliveira Caetano vai deixar a direcção do Museu de Évora. Os motivos são clássicos e, embora o Joaquim diga que é preciso uma pessoa com outro perfil para ficar à frente da instituição, só posso dizer que é pena. O trabalho que vinha a realizar tem inegável mérito. Embora eu perceba cada vez melhor a sua frase "um director de um museu é como um eunuco num harém; tem todos os prazeres por perto mas não os usa."

Os bons museus, assim com as grandes igrejas, estão cheios de belas peças. Aqui fica uma imagem do Êxtase da beata Ludovica Albertoni, uma escultura de Bernini, datada de 1674. Sei que o Joaquim gosta destas coisas. Da Arte do século XVII, I mean...

AGORA

Mais um filme quase falhado. Agora, de Alejandro Amenabar, tem em ambição o que lhe falta em escrita. A narrativa assenta em três colunas: primeiro, as lutas entre os cristãos radicais e todos os outros (a parábola e as implicações morais das intolerâncias religiosas de ontem e de hoje são mais que explícitas); segundo, as reflexões da filósofa Hypatia de Alexandria sobre o Cosmos; terceiro, a paixão não consumada do escravo Davus por Hypatia. Diga-se, em abono da verdade, que o único momento de grande tensão dramática do filme é a cena do beijo entre Davus e Hypatia.
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O filme naufraga numa trama narrativa que não se consuma. Salva-o a seriedade do tema, a relativa sobriedade com que é tratado, e, sobretudo, o interesse das reconstituições arquitectónicas e dos ambientes urbanos.
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E, como alguém disse algures, é sempre uma inovação ver que os cristãos não são, neste filme, a refeição das feras numa qualquer arena...
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terça-feira, 15 de dezembro de 2009

LONGE DO PARAÍSO

Há uns dias atrás deixei aqui um excerto de um filme chamado O veneno dos trópicos. O seu realizador, Detlef Sierck (1900-1987), tornar-se-ia mais conhecido pelo nome americano de Douglas Sirk. A passagem do tempo dá sempre outras perspectivas sobre as coisas e hoje já gosto dos melodramas de Sirk. Em Tudo que o Céu permite, de 1955, uma viúva apaixona-se por um jardineiro muito mais jovem. Muitos anos depois, Todd Haynes refez o filme dando-lhe o título de Far from Heaven (Longe do Paraíso). A história é mais radical: a viúva passou a ser uma mãe de família, casada com um homossexual reprimido. O jardineiro é negro. Há paixões cruzadas e nunca consumadas. Todd Haynes rodeou a sua trama de tons outonais (há muito que não via um filme com um tão intenso sentido da cor) e de amores impossíveis. Douglas Sirk ficaria feliz por saber que o seu filme teria, décadas mais tarde, uma tão conseguida sequela.
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Fica aqui uma brevíssima e pálida imagem do filme. Fui ver Longe do paraíso com uma amiga, a quem pedi opinião. Respondeu-me, placidamente, "acho o Dennis Haysbert um homem muito sensual". A minha amiga não me chegou a esclarecer se tinha jardim...

COMO DE BRANCOS TEM A ETIÓPIA...

A meio de uma visita ao Museu de Évora, resolve o seu director, Joaquim Caetano, parar e declamar um excerto de um poema de Diogo Bernardes (1520-1605):

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As estátuas do tempo são gastadas;
Também o foram já suas memórias,
Se não foram das Musas conservadas !

Mas não te cantariam mil vitórias
Dos nossos valorosos Lusitanos,
Porque eles mais não são de obras que de histórias.

Os celebrados Gregos, os Troianos,
Os famosos Romãos conquistadores
Não foram mais nas armas soberanos;

Mas se no mundo têm mores louvores,
A causa disso foi porque souberem
Granjear os prudentes escritores.

As honras e mercês que receberam
Opiano e Vergílio foram penas
Com que tão altas cousas escreveram.

Porque menos Coimbra que Atenas,
Porque mais fará Roma que Lisboa
Cantar ao som das armas as Camenas?

De engenhos a quem Febo encordoa
A doce e branda lira, com mão própria,
A quem de verde louro dá a coroa,

Quando entre nós houve maior cópia?
E porém de Mecenas tantos temos
Como de brancos tem a Etiópia...

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É da Carta a Rui Gomes da Gram, depois de partido para a Índia, publicado nas "Flores do Lima".

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O Joaquim explicou depois que o desalento tinha a ver com a montagem da exposição fotográfica de António Carrapato. O dinheiro faltara e a fase final foi rodeada das peripécias que são habituais em circunstâncias que tais... Rimo-nos os dois parvamente. Hábito que conservamos desde há muito quando as coisas dão para o torto. Sobretudo quando constatamos que a falta de interesse pelas Artes não é fruto de governantes licenciados em sítios manhosos. É um problema estrutural da Pátria. Pois se já no século XVI assim era...
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No meio das desgraças, não deixem de ver os Nós, título da exposição de António Carrapato, um fotógrafo talentoso e de um enorme sentido de humor (fotográfico e pessoal). E as ilustrações de livros infantis, que dão outras tonalidades à exposição permanente.
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Mais informações na página web do Museu de Évora:

segunda-feira, 14 de dezembro de 2009

OU ISTO OU AQUILO

Na passada sexta-feira enviei este mail aos trabalhadores da Câmara Municipal de Moura:

Boa tarde
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Por razões de ordem pessoal deixarei, a partir do próximo dia 15, terça-feira, de ser vereador em regime de permanência da Câmara Municipal de Moura.
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Manter-me-ei, contudo, como vereador, compromisso que assumi com o eleitorado do concelho de Moura e com o meu partido e que respeitarei na íntegra. Continuarei, de igual modo, a assegurar a gestão dos pelouros que actualmente detenho.
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Cumprimentos
Santiago Macias

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Ao contrário do que alguns quiseram crer não é, nem pouco mais ou menos, um mail de despedida. O facto de assumir um lugar de investigador na Universidade de Coimbra não me afastará de Moura, nem dos projectos de Moura. Continuarei, tal como referi no mail, a ter as mesmas responsabilidades políticas. Adivinho tempos de trabalho (ainda) mais intenso. Faremos essa avaliação em 2013. Antes, porém, no final deste ano listarei todos os trabalhos em que tenho estado directamente envolvido no nosso concelho. Só porque sim.
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Andarei, creio eu, dividido para o resto dos meus dias. Moura solar e Mértola lunar? Ou ao contrário? Não se pode ter tudo ao mesmo tempo. Embora eu tente. O poema de Cecília Meireles não ajuda a resolver nada mas é bonito.
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Ou se tem chuva e não se tem sol
ou se tem sol e não se tem chuva!

Ou se calça a luva e não se põe o anel,
ou se põe o anel e não se calça a luva!

Quem sobe nos ares não fica no chão,
quem fica no chão não sobe nos ares.

É uma grande pena que não se possa estar
ao mesmo tempo nos dois lugares!

Ou guardo o dinheiro e não compro o doce,
ou compro o doce e gasto o dinheiro.

Ou isto ou aquilo, ou isto ou aquilo...
e vivo escolhendo o dia inteiro!

Não sei se brinque, não sei se estudo,
se saio correndo ou fico tranquilo.

Mas não consegui entender ainda
qual é melhor: se é isto ou aquilo.

DUAS FRASES INTERESSANTES

De José Cutileiro, no seu interessantíssimo in memoriam sobre Alberto da Bélgica:
"Só quando morreu muitos se lembraram que fora vivo."
A sentença é digna de um bom romance. Vale a pena ler o texto no Expresso do passado sábado.
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De Maria José Nogueira Pinto:
"(...) eu sou contra a paz podre e a pasmaceira, a menos que queiram transformar o Parlamento num colégio de freiras, que às vezes parece".
Fala quem sabe, digo eu...

domingo, 13 de dezembro de 2009

KORDA - II

No documentário que acompanha a exposição Korda cita Saint-Éxupery: "só podemos ver com o coração; o essencial é invisível aos olhos". A frase é uma justificação para exprimir o primado das emoções sobre a técnica. A técnica aprende-se depressa, o resto tem a ver com a sensibilidade.
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Alberto Korda tem razão, mas só em parte. É claro que a fotografia vai além da técnica, do grafismo, das luzes e das sombras....
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Aqui ouso abrir uma secção de tentativas minhas, sem sombras nem esoterismos...
Esta foi obtida em Mopti, no Mali, no início de 2008.

KORDA - I

Alberto Korda (1928-2001) tornou-se célebre pela fotografia de Che Guevara, uma imagem captada em 1960. A sua obra vai, contudo, muito além dessa fotografia, que se converteria num símbolo do século XX e que renderia bom dinheiro ao editor italiano Giangiacomo Feltrinelli.
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No edifício da antiga cordoaria está patente até dia 31 de Janeiro a exposição Korda Conhecido Des Conhecido. O talento de Korda é bem visível nas reportagens e no trabalho de fotógrafo acompanhante de Fidel Castro. Foi uma actividade que se prolongou até 1968, quando teve lugar a ofensiva revolucionária, que implicou a nacionalização de todas as actividades em Cuba. O material dos Studios Korda foi confiscado, tendo desaparecido os seus arquivos (Korda fora fotógrafo de moda nos tempos de juventude), excepto as fotografias relacionadas com a actividade revolucionária.
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Duas notas:
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1) O messianismo e o dogmatismo levam a estas coisas (Che criticou mesmo Korda por usar muita película, o que implicava dispêndio de divisas)...
2) Korda deixou de fotografar Fidel por essa altura. Talvez tenha sido coincidência. Em todo o caso, Korda permaneceu fiel à Revolução até à morte.
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Visita de Fidel Castro a Washington (1959)
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A exposição merece uma visita atenta. Há muitas e belas imagens e um interessante documentário (com erros de tradução de bradar aos céus). Veja-se o site:
http://www.korda.com.pt/

PAESE DI MERDA

O Instituto Arqueológico Alemão teve, durante longos anos, uma delegação em Lisboa. A sua biblioteca, sem a pujança da da Calle Serrano, foi fundamental para a formação de várias gerações de jovens estudantes universitários.
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Em 1999, a delegação fechou portas, entregando a biblioteca ao Estado Português. A dita biblioteca ficou nas instalações do IPA, na Av. da Índia. Até que, de um dia para o outro, foi decidido que aquele sítio seria para o novo Museu dos Coches. A biblioteca fechou e foi encaixotada, na esperança de uma reabertura futura. Até hoje.
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É provável que o Estado até venha um dia a cumprir os seus compromissos. Que reabra a biblioteca. Qua a coloque à disposição dos investigadores. Que inscreva no orçamento a exorbitante verba de 30.000 euros anuais para renovação de fundos. Que se preocupe um pouquinho com a cultura. Situações destas nem precisariam de decisão, mas de meros despachos administrativos. Precisamos sim, a outro nível, de gente com formação e interesses culturais. Não é esse, desgraçadamente para todos nós, o caso de José Sócrates. E, depois de Carrilho, os ministros da cultura têm sido criados do poder. Nada mais que isso.
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sexta-feira, 11 de dezembro de 2009

NO OUTRO DIA, EM SETE RIOS

Em tempos, havia o clero, a nobreza e o povo. Era assim que se aprendia noutros tempos, nos bancos da escola. Na época dos reis, era assim que o mundo se arrumava, em grupos ordeiros. Ninguém, de entre as centenas de pessoas que esperavam transporte, em Sete Rios, parecia pertencer ao clero e, muito menos, à nobreza. Restava o povo. Uma sociedade sem classes, aquela de Sete Rios.
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E o povo juntava-se em magotes, ordeiro e bem disposto, à espera que chegasse a sua vez. O povo já se habituou a ser tratado assim um bocadinho à balda e toda a gente acha assim um bocadinho normal que se faça um terminal rodoviário como o de Sete Rios.
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Antes era um barracão que se via da rua e onde se amontoavam as carruganes do metro, à espera de reparação ou coisa do género. Hoje continua a ser um barracão que se vê da rua e por onde se entra pela parte de trás. Foi pintado de novo, há um balcão logo à direita onde se lê "check-in" e outros balcões ao lado omde se lê, sempre, "multibanco fora de serviço". Em frente ficam as casas de banho, nome pomposo para as latrinas. No bar vendem-se as sandes, que são as mesmas de todos os terminais rodoviários. E em todos os bares de todos os terminais há uma moça que grita, esganiçada e de pescoço para trás, como a fadista do quadro do Malhoa, e que berra para a cozinha "é mais uma de chóriço".
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Os autocarros são um pouco mais modernos que os que outrora percorriam todos os lugares do Alentejo, como se procurassem clientes nos cantos mais recônditos. Que davam sempre a volta ao largo, em manobra apertada e depois partiam e deixavam atrás pó e silêncio. Como as camionetas azuis e vermelhas que chegavam a Moura e que tinham escrito de lado "a união faz a força". Como o velho autocarro que, há 25 anos, ía de Beja para Mértola, percorrendo todas as aldeias que conseguia encontrar e que parava para apanhar encomendas e que fazia sempre uma pausa no Vale de Açor para apanhar passageiros inexistentes e para o motorista beber um copo de vinho branco. "É tal e qual como no Líbano", disse-me uns dias depois o Dr. Tesk, que viera do Gemeentemuseum para ver cerâmica islâmica mas que passou afinal os dias a lavar cacos, a comer figos e a beber copos de vinho branco, como o motorista que parava em Vale de Açor.
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"Autocarro das 17.15 para Monte Gordo, autocarro 98, linha 15", anunciou uma voz roufenha e cansada. Era o meu. Esperava-me a viagem do pôr-do-sol. Noite fora, estrada fora, numa sociedade sem classes, em silêncio, até chegar à minha vila.
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Crónica publicada em A Planície de 1.1.2005. O autocarro da fotografia é/era da empresa A Olhanense. Os carros em tons de vermelho e azul, o seu símbolo e o seu lema (A união faz a força) foram familiares aos habitantes do concelho de Moura até meados da década de 70.

DENTE AZUL NO LIBERATO

Liberato goes wireless. Há coisas que há uns dez anos não se imaginavam. Ontem á noite, num bar da Mouraria, o António Finha, o Tarugo e o Jorge Liberato himself entretinham-se a mandar-me para o telemóvel, via bluetooth, uma imensidão de toques de telemóvel.
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Quem diria, há dez anos, que o começo da noite num bar da Mouraria seria animado desta forma? É por essas e por outras que é bom estar, também, em Moura.

quinta-feira, 10 de dezembro de 2009

A NUDEZ DE CRISTO

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A nudez de Adão e Eva na pintura de Masaccio. A nudez dos tectos da Capela Sistina. As gárgulas pornográficas de igrejas e mosteiros. O nu na arte religiosa motiva sempre polémica.
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Neste mosaico, do baptistério dos Arianos, em Ravenna, Cristo está totalmente nu. É, que me recorde, uma das raras vezes em que tal sucede (o baptistério neoniano, na mesma cidade, é outro exemplo). A sua representação não corresponde à imagem do Pantocrator que a arte bizantina irá popularizar, mas sim à visão do Bom Pastor, de tradição órfica. É um Cristo rapazinho e imberbe, de ar inocente e não um Cristo de barbas e olhar impedioso, que se tornaria cada vez mais popular na Europa Oriental.
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Nesta imagem, vemos Cristo, o rio Jordão personificado (à esquerda) e S. João Baptista (à direita). Rodeiam o medalhão central os doze apóstolos.
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O baptistério fica na Via degli Ariani, em Ravenna (Itália).

quarta-feira, 9 de dezembro de 2009

MARIA JOÃO SEIXAS

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Maria João Seixas (fotografia de Enric Vives-Rubio) acaba de ser designada para dirigir a Cinemateca Nacional. Tanto bastou para que se desencadeasse o habitual vendaval de apoios e de críticas. Neste último capítulo, ouvi, como uma das mais extraordinárias, o facto de ser próxima do PS. Que esse simples facto seja motivo para preferência, parece-me mal. Que alguém possa ser excluído por essa razão, é argumento do mesmo nível.
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A nova directora da Cinemateca gosta de cinema e conhece cinema. A RTP2 ficou a dever-lhe um dos melhores programas sobre cinema, no qual apresentava sempre duas obras sobre um mesmo tema. Recordo uma noite, em que o assunto foram os táxis: primeiro, um belíssimo documentário sobre os taxistas de Lima, depois o filme de Jim Jarmush, A noite na Terra.
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Fiquei a dever-lhe muitas noites de bom cinema. E a descoberta de Halfaouine (um filme sobre o início da juventude, e o despertar da sexualidade, de um rapazinho do popular bairro de Tunis), de que aqui deixo um breve excerto:
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AS UNIVERSIDADES NO SEU LABIRINTO


Segundo um estudo, citado na imprensa de hoje, Portugal, devia, ao nível do ensino superior, ter produzido três vezes mais com o mesmo dinheiro.
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Não vejo bem como, quando:
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As universidades têm corpos docentes cada vez mais reduzidos e (falsamente) pluridisciplinares;
É recorrente a contratação a docentes externos, que asseguram uma disciplina ou um seminário, mas que não têm qualquer ligação efectiva à Universidade;
As bibliotecas são, com frequência, insuficientes;
Os alunos chegam impreparadíssimos de um secundário cada vez mais facilitista;
As estruturas curriculares existentes não permitem, pura e simplesmente, um trabalho de continuidade;
A autononomia se converteu num hara-kiri para muitos estabelecimentos;
Estamos a meio caminho, ao nível do financiamento, entre uma tradição estatal, em vias de falência, e um modelo anglo-saxónico sem tradição culturral entre nós.
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Admito, até porque ainda não tive oportunidade de consultar o estudo, que haja muitas falhas de gestão. Tendo, contudo, feito o doutoramento numa universidade francesa (onde as condições de trabalho são de outra galáxia - e eles queixam-se...) pergunto-me, ao nível das Ciências Sociais e Humanas, que parâmetros terão sido utilizados. Com a sobrecarga de tarefas a que alguns docentes são obrigados considero um milagre dos céus que haja, ainda assim, tanta produção científica nos últimos anos. Já agora, descontem-se também aqueles que parasitam lugares e cuja contribuição é, do ponto de vista científico, menos que irrelevante.
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Aconselho a leitura de um artigo publicado na revista "Ocidente" em 1970: A situação da Faculdade de Letras de Lisboa : alguns aspectos, da autoria de António Oliveira Marques, António José Saraiva e Vitorino Magalhães Godinho. Compare-se com a situação dos dias de hoje. Tenha-se, sobretudo, em conta que omeletes sem ovos é coisa difícil de fazer...

NO REGRESSO DA AMARELEJA

Acabou a feira do vinho e da vinha, em Amareleja. Não lemos poemas por estes dias. O Umar-i Khayyam ficou esquecido a um canto. Nem houve mais referências culturais, daquelas puras e duras. Um beber culto e distinto, como dizia há dias o Carlos Júlio? Nem tanto. Fonte de inspiração para pintores? Tenho sérias dúvidas. Em todo o caso, só posso garantir que não ficámos como os protagonistas do quadro de Malhoa.
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Faço votos para daqui a um ano estejamos de novo a falar dos vinhos da Amareleja.
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Uma das próximas edições terá lugar no novo Pavilhão das Cancelinhas, obra promovida pela Câmara Municipal. O financiamento está garantido e a obra vai avançar.
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Não só Vinho, mas nele o Olvido
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Não só vinho, mas nele o olvido, deito

Na taça: serei ledo, porque a dita
É ignara. Quem, lembrando
Ou prevendo, sorrira?
Dos brutos, não a vida, senão a alma,
Consigamos, pensando; recolhidos
No impalpável destino
Que não 'spera nem lembra.
Com mão mortal elevo à mortal boca
Em frágil taça o passageiro vinho,
Baços os olhos feitos
Para deixar de ver.
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Ricardo Reis, in "Odes"
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O quadro de José Malhoa (1855-1933) data de 1907.

terça-feira, 8 de dezembro de 2009

DISPONÍVEL PARA AMAR

A única coisa errada neste filme é o título. Porque a verdade da história é outra. Que o nega.

Chow Mo-Wan, um jornalista, arrenda um quarto no mesmo edifício e no mesmo dia em que So Lai-zhen, uma secretária de uma companhia de navegação. Vão-se cruzando e conhecendo até chegarem à conclusão que os respectivos cônjuges os traem, um com o outro. Essa cumplicidade trará uma amizade reforçada. À medida que o tempo passa, e enquanto Chow e So se convencem que não são mais que amigos, e que não farão o mesmo que outros, os sentimentos dos dois vão-se aprofundando e enraizando. Chow acaba por partir para Singapura sem convencer So a acompanhá-lo. Mais tarde os seus caminhos estarão quase a cruzar-se. Mas disso não passarão.

Disponível para amar é, apesar do título, um filme belíssimo sobre a impossibilidade da paixão. E é, decerto, um dos filmes mais melancólicos que alguma vez vi.





Disponível para amar é um filme realizado em 2000 por Wong Kar-Wai (n. 1958). Protagonizam-no um par de actores de rara e exótica beleza: Maggie Cheung (n. 1964) e Tony Leung (n. 1962). Na altura em que foi estreado em Portugal um crítico, e cineasta, não hesitou em fustigar o filme como barroco e amaneirado. Pois, para quem faz filmes incompreensíveis obras destas são mesmo dispensáveis.

UM


Um ano depis do início do blogue eis um brevíssimo balanço:
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584 textos (média diária de 1,6)
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84400 visualizações de página (média diária de 231)
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289º lugar num total de 2070 de
blogues referenciados
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46 seguidores
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Dias com mais visitas:

1. 8 de Outubro - 1331
2. 12 de Outubro - 1063
3. 9 de Outubro - 840
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O blogue foi visto, até agora, em 64 países e territórios (26 da Europa, 14 de África, 12 da Ásia,11 da América e 1 da Oceania)
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Obrigado a todos os que aqui têm passado e contribuido com os seus comentários.

segunda-feira, 7 de dezembro de 2009

ARGEL X - O ESTRANGEIRO

Aujourd'hui, maman est morte. Ou peut-être hier, je ne sais pas. J'ai reçu un télégramme de l'asile: «Mère décédée. Enterrement demain. Sentiments distingués.» Cela ne veut rien dire. C'était peut-être hier. L'asile de vieillards est à Marengo, à quatre-vingts kilomètres d'Alger. Je prendrai l'autobus à deux heures et j'arriverai dans l'après-midi. Ainsi, je pourrai veiller et je rentrerai demain soir. J'ai demandé deux jours de congé à mon patron et il ne pouvait pas me les refuser avec une excuse pareille. Mais il n'avait pas l'air content. Je lui ai même dit : «Ce n'est pas de ma faute.» II n'a pas répondu. J'ai pensé alors que je n'aurais pas dû lui dire cela.

Hoje, a mãe morreu. Ou talvez ontem, não sei bem. Recebi um telegrama do asilo: "Sua mãe falecida. Enterro amanhã. Sentidos pêsames". Isto não quer dizer nada. Talvez tenha sido ontem. O asilo de velhos fica em Marengo, a oitenta quilômetros de Argel. Tomo o autocarro das duas horas e chego lá à tarde. Assim, posso passar a noite a velar e estou de volta amanhã à noite. Pedi dois dias de folga ao meu chefe e, com um pretexto destes, ele não me podia recusar. Mas não estava com um ar lá muito satisfeito. Cheguei mesmo a dizer-lhe "A culpa não é minha". Não respondeu. Pensei então que não devia ter dito estas palavras.
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Comprei o livro em 3 de Junho de 1979, dia do meu 16º aniversário. Não me recordo porquê. O livro de francês incluía passagens de autores como Albert Camus (1913-1960) e talvez tenha sido esse um dos pretextos da ida à Feira do Livro. Lembro-me do choque que me causaram as duas primeiras frases: Hoje, a mãe morreu. Ou talvez ontem, não sei bem. Li o livro de um fôlego, nessa tarde de domingo. O percurso e a personagem de Mersault assombram-me até hoje.

Uma velha e muito querida amiga insiste, até hoje: "Isso não é normal. Não é livro que se leia no dia em que se fazem 16 anos". Estamos, até hoje, em desacordo.

Sobre a obra de Camus (a fotografia que se publica foi, certamente, feita em Tipasa):

http://webcamus.free.fr/

DIVOS DA ÓPERA

Num interessante texto sobre as divas da ópera, publicado por Jorge Calado no Expresso do passado sábado, surge uma caixa com o título E os divos, senhor?. Transcrevo o início, de frases concisas e certeiras:
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Os divos são os tenores. Soltam dós de peito viris (quando os têm), e fazem de amantes. Os barítonos são os pais, os rivais e os vilões. Aos baixos cabem os profetas, os demónios e os reis amargurados.
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Plácido Domingo e Maria Guleghina em Adriana Lecouvreur