segunda-feira, 4 de julho de 2011

CAMPO MAIOR: tic TAC toe

27 ou 28 anos se passaram. Não voltara a ver aquela colega dos tempos de liceu. Tinham-me dito que estava para os lados de Campo Maior. Acabei por revê-la, quase por acaso, numa curva da estrada. Em 3 ou 4 minutos não se revêem 27 ou 28 anos. Estas conversas começam pela inevitável e piedosa mentira "estás na mesma", claro que não estamos, estou velho e barrigudo e cheio de cabelos brancos. Continuamos a achar normal gostar dos Uriah Heep (que, segundo parece, ó meu Deus, ainda existem...) e isso é normal, mas damos um espetáculo estranho quando abanamos a cabeça nos concertos, convencidos que ainda temos 17 anos. Os 3 ou 4 minutos na curva da estrada foram uma compressão do tempo, tens filhos? e tu? ainda estás por Moura? ainda vais a Odemira? um interrogatório cerrado com mais perguntas que respostas. Estas passagens rápidas pelo passado acontecem, cada vez com mais frequência, cada vez com mais perguntas e cada vez com menos respostas, à medida que o tempo corre.

Un virage sur la route (1900/1906) - Paul Cézanne

domingo, 3 de julho de 2011

BEJA - IMAGENS DA CIDADE ANTIGA


O colóquio Beja - imagens da cidade antiga vai ter lugar nos dias 13 e 14 de Outubro de 2011. Pretende dar-se, e tendo como mote os recentes trabalhos arqueológicos dirigidos pela Profª M. Conceição Lopes no forum, uma imagem da cidade antiga e das transformações que ela sofreu entre a época romana e o final do mundo islâmico. Parece-nos interessante, ao mesmo tempo, dar uma visão sobre a construção da património arqueológico da cidade ao longo do tempo, incluindo a forma como se perspetiva a futura integração dos testemunhos da cidade romana que têm sido trazidos à luz do dia.

Dia 13 (manhã)

Painel 1 - A cidade de Pax Iulia

Jorge Alarcão (Universidade de Coimbra): Enigmas da cidade de Beja

Maria da Conceição Lopes (Universidade de Coimbra): Arqueologia das cidades de Beja – tempos e templos da acrópole

José d’Encarnação (Universidade de Coimbra): Sociedade e cultura em Pax Iulia, através da epigrafia

Tomás Cordero Ruiz (Instituto de Arqueologia de Mérida): La transformación de la arquitectura y el paisaje del SW de Lusitania durante la Antigüedad Tardía


Dia 13 (tarde)

Painel 2 - Da Antiguidade à Reconquista

Santiago Macias (Universidade de Coimbra/CAM): Bispos, ulemas, muwalladun e revoltas – Beja entre os séculos V e X

Fernando Branco Correia (Universidade de Évora): A imagem de Beja em Ibn Hayyan

Hermenegildo Fernandes (Universidade de Lisboa): Da cidade islâmica à cristã: alguns novos (e outros velhos) problemas topográficos

Stéphane Boissellier (Université de Poitiers): Beja, une ville pas comme les autres : centralité historique et centralité fonctionnelle à partir de la Reconquête


Dia 14 (manhã)

Painel 3 - O património arqueológico na imagem da cidade

Miguel Alba Calzado (Consórcio de Mérida): Transformaciones del paisaje urbano de Augusta Emerita (ss V-X)

Joaquim Caetano (MNAA-IMC): Lugar Comum. Memória e invenção da cidade antiga nos memorialistas da Beja moderna

Eugénio Castro Caldas: Intervenção no forum de Beja

Cláudio Torres (CAM): Musealizando o futuro


Dia 14 (tarde)

Visita às escavações arqueológicas


O colóquio é organizado pelo Centro de Estudos Arquelógicos das Universidades de Coimbra e Porto/Campo Arqueológico de Mértola.

Coordenação científica:
Maria da Conceição Lopes (Universidade de Coimbra - CEAUCP/CAM)
Santiago Macias (Investigador do Programa Ciência 2008 da FCT - CEAUCP/CAM)

O local do encontro e o programa definitivo (incluindo a lista de entidades que o irão apoiar) serão disponibilizados em breve.
A entrada será livre e não carecerá de inscrição prévia.

sábado, 2 de julho de 2011

CAMPO MAIOR: TIC tac toe

Raid a Campo Maior na passada quinta-feira. O que deveria ter sido uma reunião rápida com o Presidente Ricardo Pinheiro e com o vereador Sérgio Bicho, para uma troca de impressões sobre as próximas feiras nacionais da olivicultura acabou por se transformar numa visita que se prolongou por toda a tarde, graças à enorme amabilidade dos autarcas campo-maiorenses.


Campo Maior é uma vila muito bonita, onde o novo e o velho se conjugam. Ao notável património histórico e cultural da vila juntam-se agora novas peças. Como a adega que Álvaro Siza Vieira desenhou para o industrial Rui Nabeiro. Com quem tive, aliás, um breve e simpático encontro.




Há pretextos para voltar, em breve, a Campo Maior. De 27 de Agosto a 4 de Setembro são as Festas do Povo:

sexta-feira, 1 de julho de 2011

SANTO AMADOR, O ÚLTIMO PORTO DO ARDILA




Mais de seis anos separam as duas imagens. Referem-se à mesma exposição, Mértola, o último porto do Mediterrâneo. A fotografia de cima foi tirada no Castelo de S. Jorge, em Lisboa, onde a exposição foi apresentada ao público pela primeira vez, em Fevereiro de 2006. A de baixo foi tirada há dois dias, no Centro Cultural de Santo Amador, onde estará patente no âmbito da edição de 2011 do ERVANÇUM.


Santo Amador faz parte de um périplo que já incluiu a Fundação Millenniumbcp, o Centro Cultural de Cascais, o Grupo Pró-Évora, o Campo Arqueológico de Mértola, entre outras entidades. Estava agendada uma próxima exibição em Tlemcen, na Argélia, no âmbito da programa Capital Cultural Islâmica 2011, que, imagino, terá sido sacrificada pela crise. Quando olho para os painéis, para os folhetos explicativos e para o DVD com as imagens de reconstituição das ruínas arqueológicas, não posso deixar de sentir um moderado contentamento pela vida, relativamente prolongada, desta exposição.


O ERVANÇUM é uma iniciativa da Junta de Freguesia de Santo Amador (v. programa completo aqui).

quarta-feira, 29 de junho de 2011

SECRETÁRIA DE ESTADO DO TURISMO

Nos membros do novo governo há quem me mereça simpatia: como, por exemplo, Cecília Meireles. Neste caso, por causa do nome (v. aqui), com passagens frequentes por este blogue.


Fotografia de Ansel Adams

terça-feira, 28 de junho de 2011

AS YOU LIKE IT




All the world's a stage,
And all the men and women merely players:
They have their exits and their entrances;
And one man in his time plays many parts,
His acts being seven ages. At first the infant,
Mewling and puking in the nurse's arms.
And then the whining school-boy, with his satchel
And shining morning face, creeping like snail
Unwillingly to school. And then the lover,
Sighing like furnace, with a woeful ballad
Made to his mistress' eyebrow. Then a soldier,
Full of strange oaths and bearded like the pard,
Jealous in honour, sudden and quick in quarrel,
Seeking the bubble reputation
Even in the cannon's mouth. And then the justice,
In fair round belly with good capon lined,
With eyes severe and beard of formal cut,
Full of wise saws and modern instances;
And so he plays his part. The sixth age shifts
Into the lean and slipper'd pantaloon,
With spectacles on nose and pouch on side,
His youthful hose, well saved, a world too wide
For his shrunk shank; and his big manly voice,
Turning again toward childish treble, pipes
And whistles in his sound. Last scene of all,
That ends this strange eventful history,
Is second childishness and mere oblivion,
Sans teeth, sans eyes, sans taste, sans everything.




Uma pintura conhecida, de De Chirico e um fotograma celebérrimo, do filme Morangos Silvestres, do sonho de Isak Borg. Servem-me para enquadrar uma passagem de uma peça de William Shakespeare, que fazia parte do meu livro de inglês do 11º ano e que tem a ver com a passagem do tempo. Pertence à peça As you like it, escrita por volta de 1600. No monólogo, Jacques, raio de coincidência, resume a vida de um homem a sete fases.


A parte engraçada, uma das poucas neste dia, foi a procura de uma tradução portuguesa. Vai de Do jeito que você gosta até Como quiserdes. São títulos que exprimem conceitos bem diferentes. Mas quem disse que tudo tem de ser linear?

segunda-feira, 27 de junho de 2011

SEKOU TOURÉ

Este post sobre Sekou Touré (1922-1984) foi motivado por uma conversa tida ao jantar, no dia 20, com o meu amigo Miguel Urbano Rodrigues. Por várias vezes me tem chamado a atenção para as contradições que, ao longo da vida, presenciamos e vivemos. E para os percursos pouco lineares que seguimos. Num homem há vários homens, diz ele amiúde.

Isso fez-me recordar uma passagem do primeiro volume do seu O tempo e o espaço em que vivi (pp. 233-234):


Sekou surpreendeu-me. Fez um gesto amistoso e informou que podia como jornalista contar com toda a ajuda do seu Governo no desenvolvimento da minha reportagem. Depois, esclareceu que veria com simpatia a vinda para a Guiné dos meus companheiros do "Santa Maria"; (...) Percebi então que me recebera antes do início de uma reunião da Comissão Política. O cenário e o à vontade traduziam, afinal, uma deferência.
(...) Muitos anos depois, quando os crimes da ditadura guineense eram comentados pelos mass media, imagens daquela manhã no Palácio Presidencial de Conakry ganhavam nitidez na memória. Senti sempre dificuldade em perceber os mecanismos da transformação do I Sekou Touré, o sindicalista revolucionário e marxizante, o autor do famoso 'Não' a De Gaulle, o admirador entusiasta de Fidel Castro, no II Sekou Touré, o caudilho primário e cruel cujos últimos anos de governo ficaram assinalados por banhos de sangue. Daqueles 18 membros da Comissão Política do seu partido, antigos coompanheiros de luta, creio que somente um, Dialo Sayfoullah, então presidente da Assembleia Nacional, não foi assassinado a mando de Sekou. Morreu antes, em consequência de um cancro.
Dois homens incompatíveis viveram na fundação do primeiro estado da antiga África Ocidental Francesa que conquistou a independência. O segundo negou o primeiro.


Sekou Touré governou na Guiné-Conakry entre 1960 e 1984. Morreu nos Estado Unidos, vítima de crise cardíaca.

domingo, 26 de junho de 2011

NÃO SERÁ MELHOR FECHAR O PAÍS?

No "Público" on-line de hoje (v. notícia completa aqui):

Documento feito, à revelia da Refer, pelo anterior Governo do PS deixa a rede ferroviária circunscrita basicamente ao eixo Braga-Faro, Beira Alta e Beira Baixa. Restantes linhas seriam amputadas ou desapareceriam.

O documento foi apresentado à troika como uma medida eficaz de redução da despesa pública, uma vez que tem um forte impacto simultâneo nas contas da Refer e da CP. Na primeira empresa reduz custos de manutenção e de exploração e na segunda permite-lhe acabar com o serviço regional onde este é mais deficitário (embora nalgumas linhas a abater exista um significativo tráfego de mercadorias). - fim de citação

Embora nalgumas linhas a abater exista um significativo tráfego de mercadorias? Ora, ora, não macem com detalhes, por favor! E começa a parecer evidente que a Solução Final para acabar, de vez, com a despesa, é mesmo fechar o País.


PARIS, JE T'AIME




O filme Paris, je t'aime data de 2006. Nele, vários realizadores contam histórias curtas, tendo como pano de fundo os bairros de Paris. São histórias em diferentes tons e que focam realidades que pouco têm a ver entre si. O resultado final é muito interessante. A minha história preferida é a que Alexander Payne (n. 1961). escreveu e dirigiu. Centra-se no 14º bairro, à partida um dos menos turísticos. Payne, contudo, teve a genial ideia de colocar Carol, uma carteira de Denver a contar as suas sensações sobre a cidade, falando num francês muito elementar, mas que dá encanto a toda a narrativa. Dois detalhes: o que se vê no início são os edifícios que Ricardo Bofill desenhou para a Place de Catalogne; e há um delicioso, e propositado equívoco na visita ao cemitério de Montparnasse quando Carol confunde Simon Bolívar com Simone de Beauvoir.

No final da história Carol conclui: ça c’était le moment ou j’ai commencé à aimer Paris et le moment que j’ai senti que Paris m’aimait aussi.

Talvez a minha amiga Luísa tenha concluído o mesmo, por estes dias.

sábado, 25 de junho de 2011

TUNÍSIA IX: CENAS DA VIDA QUOTIDIANA NO HOTEL AMILCAR

A última paragem daquela viagem foi Cartago. Passáramos, o António Cunha e eu, mais de uma semana às voltas pela Tunísia. Ele fotografava, eu tomava notas sobre as basílicas cristãs, das quais ía também fazendo alguns slides. Cidade da maior importância para a História do Mediterrâneo, nela se conservam vestígios de algumas das mais antigas igrejas. Tudo junto, era coisa para justificar três dias de paragem. Totalmente por acaso seguimos uma placa que dizia Hotel Amilcar. Achámos a entrada espaventosa e resolvemos perguntar os preços. Afinal, eram mais que abordáveis. Não sei se pelo facto do edifício, um daqueles blocos anos 60 estilo-Albufeira, ser à data ainda propriedade da UGTT, a central sindical tunisina.

Os motivos de diversão sucederam-se:
Primeiro chegou um saudita numa limusine. Ainda eu mal acabara de preencher o boletim do check-in quando ouço um berro desesperado. O saudita estava de mãos na cabeça: tinham-lhe mostrado o preço do quarto do hotel (se bem recordo qualquer coisa à volta de 30 euros). O empregado do hotel olhava, alternadamente e espantadíssimo, para a cara do saudita e para a limusine parada à porta.
Depois entrou a mulher do saudita, de niqab, a quem ele obrigou a sentar-se de frente para uma parede e de costas para o resto da sala. Durante os dias seguintes, a cena repetiu-se, e a pobre infeliz foi obrigada a tomar as refeições nos mesmos preparos.
Mais tarde, ao abrir a janela do quarto, constatei que o hotel e a praia eram só para turistas: um gradeamento vedava o acesso dos indígenas ao areal (v. imagem de baixo). Pelo menos a alguns. Na noite seguinte, ao chegarmos ao hotel fora de horas quase chocámos no lobby com uma senhora alemã na casa dos 60 que beijava furiosamente (é esse o termo) um moço tunisino que não teria mais que uns 16 anos e que, visivelmente, não sabia muito bem como atuar.
Mas o punch-line estava reservado para a última noite, quando fomos convidados para assistir a um espetáculo junto à piscina. Que deve ter sido muito interessante, pelo menos para conheça a língua alemã. Apercebemo-nos então que éramos os únicos não-alemães no hotel, tomado de assalto por aquelas excursões que vão fazer férias à Tunísia sem chegar a ver a Tunísia. O entertainer tunisino, que cantava e dizia piadas em alemão, fez um enorme sucesso.


Amílcar Barca (c. 270 a.C - 228 a.C.) - general cartaginês, pai de Aníbal.

DESIGN GRÁFICO

Criatividade e sentido de marketing é isto.

Ia a caminho de Moura quando, em Pias, deparei com uma daquelas enormes viaturas de feira onde se lia Walter Dias. Não queria chegar atrasado às comemorações do Feriado Municipal e não parei para tirar uma fotografia (a imagem que se apresenta está na net). Mas não pude deixar de me impressionar com a audácia do empresário Valter Dias pelo descarado copianço ao grafismo da Walt Disney.

Comentei depois com um designer gráfico esta façanha de Valter Dias. Ela já conhecia o logo e rematou, entre gargalhadas, com um "é lindo, lindo!". Não é por nada, mas também acho.

quinta-feira, 23 de junho de 2011

BIBLIOTECA DE MOURA (24.6.1991) / BIBLIOTECA DE MÉRTOLA (24.6.2011)

Fui, entre setembro de 1986 e junho de 1992, funcionário da Câmara de Moura. Ninguém se banha duas vezes na água do mesmo rio e ninguém pode fazer duas vezes o mesmo percurso. Ao transferir-me para Mértola sabia que jamais voltaria ao quadro da autarquia da minha terra natal. Sem hesitações ou arrependimentos.

Desse percurso, curto e intenso, tenho boas e más recordações. A melhor de todas foi, sem dúvida, o processo de renovação da Biblioteca Municipal.

No dia em que assumi a chefia da divisão cultural da Câmara de Moura (25.9.1986) já tinha preparada uma ideia do que poderia ser a remodelação da Biblioteca Municipal. Passei dias a fio, nesses tempos bárbaros sem net nem telemóveis, até localizar a Dra. Maria José Moura, coordenadora do grupo de trabalho e então bibliotecária da reitoria da Universidade de Lisboa. Falar com ela foi o primeiro passo. Nos meses seguintes o programa de intervenção foi-se aprofundando, com a participação renitente do sr. João da Mouca, que preferia um programa mais discreto, e alicerçado no projeto de arquitetura de Maria Teresa Ribeiro. A nossa candidatura seria entregue em maio de 1987. Soubémos, algum tempo depois, que Moura integrava o primeiro grupo de sete municípios que, a sul, iria ter apoio. O contrato seria depois assinado e as obras iniciadas já em 1989.

A entrada em funções de um novo executivo camarário, no final desse ano, implicou mudanças substanciais de orientação na área da cultura. 1990 foi difícil e atribulado. À medida que o tempo avançava dei-me conta que a autarquia não se revia no projeto nem estava minimamente interessada no desenvolvimento das suas fases seguintes. A inauguração, ocorrida em 24 de Junho de 1991, foi o momento final da minha participação, nessa altura já só indireta, nesta história.



Vinte anos se passaram. A Biblioteca Municipal de Moura seguiu o seu percurso, cresceu e afirmou-se, com uma série de projetos de qualidade. O futuro está, agora, noutro edifício e em mais expetativas.

Percurso diferente teve a Biblioteca de Mértola. Inugurada no dia 24 de junho de 1992, teve depois um projeto de ampliação que conheceu um percurso conturbadíssimo. Vencidas algumas arqueológicas faltas de pragmatismo esta obra camarária está, finalmente, concluída. O edifício da antiga cadeia tem agora mais espaço, novo mobiliário e um estilo colorido. Não tenho dúvidas que o público, em especial o mais jovem, vai aderir.

O dia de amanhã será de festa para a cultura, na vila de Mértola. Razões suplementares para celebração terá a equipa residente da Biblioteca Municipal. São quatro: a Isabel, a Fernanda, o Marcos e a Manuela. Poucos mas bons.

quarta-feira, 22 de junho de 2011

GEOGRAFIA FÍSICA: O VENTRE


"O menino da sua mãe"

No plaino abandonado
Que a morta brisa aquece,
De balas traspassado
- Duas, de lado a lado -,
Jaz morto, e arrefece.

Raia-lhe a farda o sangue.
De braços estendidos,
Alvo, louro, exangue,
Fita com olhar langue
E cego os céus perdidos.

Tão jovem! Que jovem era!
(Agora que idade tem?)
Filho único, a mãe lhe dera
Um nome e o mantivera:
"O menino da sua mãe".

Caiu-lhe da algibeira
A cigarreira breve.
Dera-lhe a mãe. Está inteira
E boa a cigarreira.
Ele é que já não serve.

De outra algibeira, alada
Ponta a roçar o solo,
A brancura embainhada
De um lenço... Deu-lho a criada
Velha que o trouxe ao colo.

Lá longe, em casa, há a prece:
"Que volte cedo, e bem!"
(Malhas que o Império tece!)
Jaz morto, e apodrece,
O menino da sua mãe.


Nesta peregrinação pelo corpo - quase só feminino - alguém me disse "falta o ventre". Não o ventre num sentido estritamente sensual, mas o ventre materno. Admitamos que sim. Daí também o sentido da imagem e das palavras. O retrato da mulher grávida (La donna gravida) foi pintado por Rafael por volta de 1505. Está hoje no Palazzo Pitti. A este tema, pouco habitual na época, juntam-se a palavras de Fernando Pessoa. Que nos trazem uma imagem a posteriori. Do tempo que não regressa e da esperança perdida.


Ver:

http://www.uffizi.firenze.it/palazzopitti/

terça-feira, 21 de junho de 2011

POR TEU LIVRE PENSAMENTO


A campanha foi produzida pela FUEL para a Amnistia Internacional. Ganhou um Leão de Ouro no Festival de Cannes (o outro, o da Publicidade).

Do site do Público:
O júri do festival distinguiu a campanha “Mugshot”, lançada em Maio e inspirada no livro “Por Teu Livre Pensamento”, do fotógrafo João Pina, que marca os 30 anos da Amnistia Internacional em Portugal. Nos outdoors e anúncios, a agência usou fotografias reais de verdadeiros presos políticos, retiradas do arquivo da PIDE.

Parabéns aos autores, e um abraço ao meu amigo Carlos Coutinho. Por teu livre pensamento é a primeira estrofe do poema Abandono, de David Mourão-Ferreira. Musicado por Alain Oulman tornou-se conhecido como Fado Peniche (v. aqui).

A ver:
http://www.joao-pina.com/
http://www.canneslions.com/

segunda-feira, 20 de junho de 2011

TEMPO DE BARBÁRIE E LUTA

Tempo de barbárie e luta é o título do livro de Miguel Urbano Rodrigues que, logo à noite (21.30), apresentarei no auditório da biblioteca municipal de Beja. Testemunha qualificada de acontecimentos políticos das últimas seis décadas, o Miguel é um analista brilhante e, felizmente, desalinhado em relação às perspetivas que as centrais de comunicação nos vendem todos os dias. Poder participar neste evento é, para mim, um privilégio raro.

D. JOSÉ POLICARPO

D. José Policarpo, cardeal-patriarca de Lisboa, escreveu, no dia 17 fevereiro, ao papa Bento XVI, a pedir a sua resignação como bispo diocesano quando completasse 75 anos, o que aconteceu a 26 de fevereiro. O papa, contudo, solicitou-lhe que permaneça no lugar até aos 77 (!) anos.

Onde é que os sindicatos andam, quando as pessoas precisam deles?

domingo, 19 de junho de 2011

CHULOS

Ainda a Carmen.

Quase no final do terceiro ato, o coro canta, no momento em que a corrida de touros está prestes a começar:

Et puis saluons au passage les hardis chulos! Bravo! Viva! Gloire au courage! Voici les hardis chulos!

Consegui conter-me e rir baixinho, mesmo ante a surpresa da pessoa ao meu lado, quando vi a legendagem (que também está no programa): Saudemos a passagem dos corajosos chulos! Vejam os chulos corajosos!

Ó diabo! É que chulo designa, em castelhano, os moços de espadas. Pelo que teria sido mais aconselhável algo como "saudemos os corajosos moços de espadas! vejam os moços de espadas corajosos". CHULOS é que não!



Eis o resultado de uma pesquisa na net. Só não escrevi chulo, mas sim pimp. Outra expressão coloquial.

sexta-feira, 17 de junho de 2011

CARMEN



Não é hábito, mas para isso servem as exceções. O texto vem entre duas imagens. O pano de fundo é hispânico. Em cima, a ária Toreador, da ópera Carmen. O fundo da história é conhecido: a cigana Carmen enfeitiça os homens (D. José, Escamillo, Zúñiga...), que se vão perdendo por ela. Aqui, num quadro do 2º ato é Escamillo (Ruggero Raimondi) que tomba ante o encanto de Carmen (Julia Migenes).

A cena foi filmada na Puerta de Córdoba, na cidade de Carmona. Um sítio espetacular, encaixado no meio de penhascos. O filme, rodado em 1984 por Francesco Rosi, foi um assinalável sucesso de público. Vi-o no cinema Londres. Amanhã recordarei, no S. Carlos, essa tarde. Sem a companhia do amigo que então me acompanhou, ocupados por estes dias com atividades pouco salutares...

De um tema se passa a outro. E aproveito o balanço para render homenagem, et pour cause, a um dos meus matadores preferidos, Sebastian Castella, francês e tudo. O ritmo do capote é operático.

quinta-feira, 16 de junho de 2011

RAILROAD TRAIN



Os armazéns vazios pelo sopro da noite

ouvem germinar a erva de betão.

Calcada por combóios e colectivos

a água escorre de ombros para escombros.
As oito chaminés da fábrica de gás

são os pilares de um berço tombado

onde a criança morreu e o choro da mãe

encharca de resíduos a terra que secou.

Comboios de mercadorias pelos postes sem luz.


Railroad train é o título de um quadro de Edward Hopper (1882-1967), pintado em 1908. Serviu de mote a um poema incluído num livrinho muito bonito, escrito por João Miguel Fernandes Jorge (n. 1943) e por Joaquim Manuel Magalhães (n. 1945), com fotografias de Jorge Molder (n. 1947). Intitula-se Uma exposição e é uma edição de 1980 d' A Regra do Jogo. Comprei-o quando andava no 12º ano e queria ser cineasta. Gostava muito das fotografias que Jorge Molder fazia nessa altura. Hoje nem por isso. Uma velha amiga, muito conservadora em termos estéticos, surpreendeu-me ao fazer há dias grandes elogios às séries pinocchio e ocultações. Pensamos nós que conhecemos tudo sobre as pessoas...

O PAPILLON, ESSA PODEROSA ARMA POLÍTICA

Um post mourense:


Recebo, dia-sim dia-sim, em blogues anónimos aqui do concelho, elogios à atividade que exerço como vereador. Assim interpreto a preocupação dos rapazes pelo facto de, por vezes usar lacinho (ou papillon ou bow tie). Que alterno, noutras ocasiões, com gravatas. Tenho esses "desvios burgueses", mas acho de péssimo gosto ser convidado para uma cerimónia e aparecer em bermudas. Pior ainda, os lacinhos são comprados em imperialistas sites americanos.


Em todo o caso, como usar lacinho parece ser o pecado maior do vereador do urbanismo/estudos e projetos/fundos comunitários, não me sinto nada mal.



Winston Churchill (1874-1965) era de direita mas tinha grandes virtudes: não praticava desporto, gostava de charutos, de cognac e, bem entendido, de bow ties. Tenho um igual ao da fotografia...