quinta-feira, 9 de agosto de 2012

CASTELO DE MOURA: ARQUEOLOGIA E RESPONSABILIDADE CIENTÍFICA

Ainda o castelo de Moura, e prometo não regressar ao tema nas próximas semanas:

Sou (em conjunto com a Vanessa Gaspar e o José Gonçalo Valente) responsável científico pelas escavações arqueológicas em curso;

Tenho, enquanto vereador da Câmara Municipal de Moura desde 2005 e em conjunto com os meus colegas, procurado soluções para aquele local;

Para o bem e para o mal, tenho sido identificado com o castelo;

Portanto, e antes que me venham perguntar, não sou responsável pelos conteúdos técnicos e científicos da Feira Medieval em curso.

IGREJA DE SANTIAGO: O MOMENTO KIM-IL-SUNG DE UMA CARREIRA

Quando a Lígia me enviou a sms com o texto “a moeda da ue 9 é um dinheiro de D. Afonso IV (1325-1357)” quase íamos (a Vanessa, o José Gonçalo e eu) tendo um badagaio com a emoção. Comecemos, contudo, pelo princípio. A Lígia Rafael é uma colega e amiga que se disponibilizou a fazer a limpeza e estabilização de uma moeda, encontrada junto a um muro de um vasto compartimento que estava a ser escavado no castelo de Moura. De repente tudo fazia sentido: os muros fortes, o pavimento argamassado, o pequeno quadrilátero junto à parede este, os enterramentos no exterior do edifício.

Se o conjunto de elementos parecia apontar para a presença de uma igreja associada a uma necrópole ainda nos custava a acreditar que pudéssemos estar em presença de um templo medieval. A moeda do séc. XIV no interior do altar ajudou a afastar dúvidas, os ceitis de D. Afonso V pertencentes aos enterramentos do exterior vieram dar solidez a uma hipótese que não sonharíamos à partida. Acabávamos de identificar a igreja de Santiago, referida na documentação medieval mas que estava, até à data, por localizar. É quase um milagre que, ante as sucessivas obras no castelo de Moura, concretizadas ao longo de vários séculos, tenha sobrevivido uma parte importante da cidade medieval.

A igreja é bonita? Nem por isso. É uma simples nave, bem pobrezinha, benza-a Deus. Nada de decoração, nada de elementos arquitetónicos elaborados. Uma nave e nada mais. Talvez mais interessante, do ponto de vista histórico, por isso mesmo. Até porque o ascetismo com que o espaço foi pensado vai a par com o austeridade dos dias que vivemos…

Verdade se diga que, apesar das referências escritas, várias vezes duvidámos da existência da igreja de Santiago, ao ponto de pensarmos ser a alusão ao templo fruto de um qualquer equívoco. A localização é, contudo, perfeita: dentro do perímetro fortificado e junto à porta da alcáçova. Estamos perto, muito perto, do local da antiga mesquita de Moura. As sacralizações destas são, por norma, feitas através do nome de Santa Maria, mas os exemplos de locais de culto muçulmanos convertidos em igrejas de S. João, do Espírito Santo ou, até, de Santiago não faltam. Encontrar uma mesquita no meio dos restos dos enterramentos cristãos e numa área muito refeita após meados do século XIII seria ter uma sorte pouco comum. Provavelmente, não teremos essa fortuna.

Como sugeriu uma amiga “ainda vão dizer que inventaste o nome da igreja, só para ser o teu”. É pouco provável que o digam, mas essa parte é aquela que ao José Gonçalo, à Vanessa e a mim menos interessa. A campanha está ganha e o modelo da ocupação medieval do castelo fica, a cada dia, mais claro. Esse é o dado essencial.




Crónica publicada no jornal "A Planície" de 6 de agosto de 2012

Pequena legenda da fotografia:
1 - À esquerda deste número identifica-se uma pequena estrutura quadrangular, que pensamos ter sido um altar;
2 - Local onde se encontrou a moeda da primeira metade do século XIV;
3 - Enterramento com moeda associada (ceitil de D. Afonso V);
4 - Enterramento com moeda associada (ceitil de D. Afonso V);

quarta-feira, 8 de agosto de 2012

REGENERAÇÃO URBANA: EDIFÍCIO DE RECEÇÃO AOS TURISTAS (CASTELO DE MOURA)

Mais um passo, mais um esforço. Está em fase adiantada de concretização o edifício de receção aos turistas, no castelo de Moura. As escavações arqueológicas ainda em curso serão compatibilizadas com as novas instalações. O processo de valorização por que o monumento passa deverá ter esta fase concluída no próximo outono. A iluminação das muralhas terá lugar sensivelmente na mesma altura.



Imagem de cima: obra em curso
Imagem de baixo: antevisão do edifício concluído (projeto: INTUIÇÃO ARQUITETOS)

Valor de adjudicação da obra: 422.132 €
Financiamento INALENTEJO + Turismo de Portugal: 90%
Câmara Municipal de Moura: 10%

RECORDAÇÃO DO BAIRRO DA SALÚQUIA

O bairro da Salúquia fica em Moura. É uma extensa, e periférica, parte da cidade, delimitada pela estrada de Brinches, pelo rio da Roda, pela Rua de Angola e pelo bairro 25 de abril. É o bairro onde sempre viveu a minha família, e ao qual já dediquei um texto (v. aqui).

Até aqui nada de novo... Mas no outro dia, alguém encontrou lá por casa, durante uma campanha de arqueologia doméstica, uma fantástica caneca onde, a par de um desenho de um pescador, que é um monumento ao kitsch, está a enigmática frase "Recordação do Bairro da Salúquia". Nem mais. Como "Recordação da Nazaré" ou "Recordação de Alcobaça". Não consigo imaginar quem terá sido o autor da ideia embora, tipologicamente, a caneca seja dos anos 70. Haverá canecas de promoção turística de outras zonas da minha cidade? Nunca vi uma "Recordação do Bairro da Porta Nova" ou uma "Recordação do Sete-e-Meio". O que não quer dizer que não existam, bem entendido.


GENE ACTN3

Chama-se ACTN3 e é um gene específico das Caraíbas. E está na base de uma proteína que está na base da aptidão para a velocidade pura. É por isso que ilhas como Trinidad and Tobago, com cerca de cinco vezes a área do concelho de Moura, produzem velocistas a uma velocidade estonteante. Já para não falar em Granada ou em Saint Kitts and Nevis. 20% dos brancos não têm nada de nada do tal ACTN3 (eu sou um deles, tenho a certeza). O gene é específico da região e é por isso que, cada vez mais, são os caribenhos a abarbatar as medalhas nos Jogos Olímpicos (100 e 200 metros).

Tendo em conta que os norte-americanos estão, cada vez mais, de fora ainda vão arranjar maneira de decidir que o tal ACTN3 é, afinal, doping.

terça-feira, 7 de agosto de 2012

A SÍRIA SEM NEVOEIROS - UMA CRÓNICA DE CORREIA DA FONSECA

Com a devida vénia, como em tempos se dizia, aqui vos deixo uma magnífica crónica de Correia da Fonseca sobre a situação na Síria:

1. Nos primeiros dias, e mesmo nos seguintes, a comunicação social reprodutora das versões convenientes contou-nos estórias ingénuas em que quase só acreditava quem queria: em resumo, que um grupo de paisanos bem formados e ávidos de democracia tinha resolvido acabar com uma ditadura detestável, aparentemente quase que usando apenas as mãos nuas e pouco mais. Depois, decerto porque não se pode ocultar tudo durante todo o tempo, foram gotejando informações capazes de comporem um outro quadro. Revelam que os espontâneos e inocentes combatentes pela liberdade manejam material bélico sofisticado, incluindo carros de combate, que dificilmente lhes teria caído do céu aos trambolhões sem que lhes tivesse partido as cabeças. Que os mesmos recebem ajuda, embora não se sabendo quanta e qual, da Arábia Saudita e do Qatar, estados onde a total penúria de respeito pelos tão invocados direitos humanos é aparentemente compensada pela estrita obediência à política de Washington. Que Israel, esse estado que detém, e de longe, o recorde mundial de desobediência a resoluções da ONU, e que aliás desde há muito ocupa ilegalmente uma faixa de território sírio, também está irmanado com o autodenominado Exército Sírio Livre. Que nem mesmo os homens da ONU/USA declararam frontalmente que a responsabilidade pelos horrores havidos na Síria podem ser imputados exclusivamente às forças fiéis ao presidente Assad, bem antes pelo contrário.

2. A este breve arrolamento de factos que têm como que passado pelas malhas da rede manipuladora que a TV, como elemento fundamental da ofensiva mediática desencadeada contra a Síria, tem querido erguer entre nós e a realidade, acrescentaram-se recentemente (escrevo estas notas no sábado, 28) duas informações esclarecedoras, decerto entre várias outras. Uma delas até se reveste de um aspecto um pouco caricato: trata-se da afirmação já reiterada de que o governo sírio disporia de «armas de exterminação maciça», que no caso seriam armas químicas, e que estaria disposto a usá-las contra o «povo revoltado». Todos decerto nos lembramos ainda da repetida afirmação de que o Iraque de Saddam Hussein possuía, também ele, «armas de destruição maciça», e de que esse foi o argumento decisivo para justificar a invasão do Iraque pelos Estados Unidos & Cª., com o cortejo de horrores que aliás ainda hoje prossegue embora já não no seu apogeu. A outra informação recentemente prestada, e sem que dela haja motivo para duvidar, é a de que o ponto mais duro dos combates entre as forças fiéis ao governo e o tal Exército Livre é agora a cidade de Alepo. Ora, acontece que Alepo está encostadinha à fronteira com a Turquia, o que confirma perante quem não tenha escolhido ser míope que a Turquia tem vindo a ser a principal base das operações desencadeadas contra a Síria. Sem surpresas, aliás: a Turquia é, consabidamente e desde há muito, um peão da política norte-americana na região. Que essa sua condição seja agora de facto confirmada também pela TV é, pois, natural e inevitável nas circunstâncias actuais.

3. A mesma TV fornece uma outra informação verdadeiramente concludente no exacto momento em que escrevo estas notas: citando um jornal diário, a apresentadora de um telenoticiário diz que na Turquia está instalada uma base que, com auxílios da Arábia Saudita e do Qatar, se destina a apoiar as forças anti-Assad. É já a Operação Anti-Síria sem os nevoeiros mistificadores dos primeiros dias. Entretanto havia sido divulgada uma outra informação, essa até um pouco patusca: as deserções entre os apoiantes do presidente Assad têm sido em número muito inferior ao que o «Ocidente» esperava e ao que aconteceu na Líbia em relação a Khadafi. Querem ver que o dólar está a perder o seu poder de convencimento?



 

segunda-feira, 6 de agosto de 2012

O LUÍS PEREIRA DE SOUSA DO ATLETISMO

Dizia há pouco, de forma enfática, o comentador dos Jogos Olímpicos na RTP2, durante a final feminina de 3000 metros obstáculos: "Vão cinco mulheres na frente".

Em cada comentador desportivo há um luís pereira de sousa em botão.


Transexual fotografado por Diane Arbus. Não participou, que se saiba, nas Olimpíadas.

LA TERRA TREMA

E por falar em cinema (v. texto publicado ontem) está na altura de recordar um filme antigo e hoje um pouco esquecido: La terra trema, filmado por Luchino Visconti, em 1948. A rodagem teve lugar na Sicília e os atores eram os pescadores locais, uma vez que o tema do argumento a eles se dedicava. O filme foi uma encomenda do PCI, partido no qual Visconti militava. Vi La terra trema na RTP2, nos meus tempos de liceu. Há mais de 30 anos, portanto. Não foi tanto a temática, muito marcada pelo neorrealismo (que, com raríssimas exceções, nunca me interessou), a chamar-me a atenção. Mas sim a ousadia do recurso a não profissionais, a simplicidade formal e o rigor estético no tratamento das imagens. Mas, sobretudo, a sensibilidade no modo de retratar as pessoas e as suas vidas. Eis o final do filme:

domingo, 5 de agosto de 2012

UM DOW JONES CINEMATOGRÁFICO

Acaba de ser publicada a escolha da revista Sight and Sound referente a 2012. A lista é publicada de 10 em 10 anos e envolve quase um milhar de especialistas de todo o mundo. Qual o melhor filme do mundo, segundo a mais recente votação? Vertigo, de Hitchcock.

A lista, publicada desde 1952 e que já foi objeto de textos no blogue (v. aqui e aqui), teve Ladrões de bicicletas, de De Sica, como o primeiro classificado no ano de arranque. Entre 1962 e 2002 pontificou Citizen Kane. Vertigo primou pela ausência em 1962 e em 1972. Foi 7º em 1982, 4º em 1992 e 2º em 2002. Chega agora ao topo.

O que faz uma lista? Muitos fatores, decerto: as sensibilidades de diferentes gerações, orientações políticas, modificações na forma de percecionar a estética cinematográfica, preocupações sociais etc. Isso é bem visível nas oscilações, nas subidas e descidas de filmes, nos que emergem e nos que, depois de conhecerem uma súbita popularidade, são votados ao esquecimento.

Eis a escolha do ano de 2012:

01. Vertigo
02. Citizen Kane 
03. Tokyo Monogatari 
04. A regra do jogo 
05. Aurora 
06. 2001: uma odisseia no espaço 
07. A desaparecida 
08. O homem da câmara de filmar 
09. A paixão de Joana d'Arc 
10. 8 1/2

Há ausências de monta: Eisenstein, que desaparece da lista ao fim de 60 anos, Kurosawa, Coppola, Tarkovsky, Mizoguchi. Kubrick só entrou a partir de 1992, estreia-se agora Vertov.

O filme mais recente da lista é 2001, que data de 1968. Já lá vão 44 anos.
 
  

Não sendo crítico cinematográfico, nem um entendido, aqui ficam os meus dez mais, com muitas lacunas, fruto do muito que ainda tenho para ver e depois de uma revisão a uma escolha :

01. Morangos silvestres (Ingmar Bergman - 1957)
02. O mundo a seus pés (Orson Welles - 1941)
03. Aurora  (F.W. Murnau - 1927)
04. Ivan, o terrível (Sergei Eisenstein - 1944)
05. Apocalypse now  (Francis Ford Coppola - 1979)
06. Metropolis  (Fritz Lang - 1927)
07. Nostalgia (Andrei Tarkovsky - 1982)
08. Tokyo monogatari (Yasujiro Ozu - 1953)
09. 2001: uma odisseia no espaço (Stanley Kubrick - 1968)
10. Janela indiscreta (Alfred Hitchcock - 1954)

E mais estes, que também lá poderiam estar:
Lawrence da Arábia (David Lean - 1962)
Que viva México! (Sergei Eisenstein - 1930)
Amarcord (Federico Fellini - 1973)
Contos da lua vaga (Kenji Mizoguchi - 1953)
As asas do desejo (Wim Wenders - 1987)

Pormenores dos meus mais:
Não há filmes franceses e apenas um italiano.
Há três filmes alemães, dois deles mudos.
Não há nada posterior a 1987.
Há um filme inacabado, Que viva México!.
Não há nenhuma comédia.

sábado, 4 de agosto de 2012

25 ANOS SEM DICK FARNEY

"O que é que andas a ouvir?", perguntou o Carlos José Almeida. "Dick Farney", respondi, quase a medo e quase escondendo o LP. "O Di-ck Far-ney?", soletrou devagarinho, antes de se desmanchar a rir. Fui alvo da troça dos elementos da direção da associação de estudantes de Letras que por ali andavam. Por sorte, eram só mais dois ou três.

O episódio ficou-me gravado. Na altura (1984 ou 1985) não estava muito na moda ouvir crooners brasileiros (ainda por cima, o Carlos José era um fã convicto de Milton Nascimento). O confesso prazer em ouvir Dick Farney não ajudou nada à minha reputação musical, marcada por heterodoxias "pouco sérias", que incluiam os Heróis do Mar, os Delfins, os Specials, Kid Creole, António Machin, Los Panchos, Pepe Marchena, El Cabrero, Carlos Ramos, Amália, Perez Prado, Xavier Cugat etc. Eu dava o flanco e a malta da UEC caía-me em cima sem dó nem piedade.

Continuei a ouvir Dick Farney pela vida fora. Muitas vezes fiz o percurso entre Mértola e Moura ao som de Sábado em Copacabana, de Nick Bar, de Este seu olhar e do extraodinário dueto com Lúcio Alves, que imortalizou Tereza da praia.

Dick Farney chamava-se, na verdade, Farnésio Dutra e Silva (!). Deixou-nos faz hoje 25 anos.
 

sexta-feira, 3 de agosto de 2012

DECIFRADORES DE IMAGENS


O decifrador de imagens
persegue um fantasma de vestígios
como Ulisses amarrado
ao querer do conhecer

A descoberta é invenção provisória:
as vozes não se vêem
o que se vê não se ouve

A imaginação
ergue-se do arrepio da sombra
guerrilha entre parênteses
ergue-se da constante chacina
procurando outra coisa
outra causa
o outro lado do ver 



Somos, nestas tarefas, decifradores de imagens, de vidas e daquilo que ficou quando quase tudo se esqueceu. Pareceu-me que o poema de Ana Hatherly se adequa bem, nessa referência ao outro lado do ver, às escavações arqueológicas em curso no castelo de Moura. Gosto da palavra imaginação, tão necessária na leitura das estruturas e na reconstrução da História.

Eis a equipa, dividida entre androceu e gineceu:
Da esquerda para a direita - João Chamorro, Nelson Esperança, Francisco Seixas, o autor do blogue, Jorge Raposo, Mário Romero e José Gonçalo Valente;
Vanessa Gaspar, Clara Guerreiro, Marta Coelho, Teresa Carmo e Dina Chibito.

MAIS CAUSAS PARA O DESEMPREGO EM PORTUGAL

A expressão "tachista" era muito comum em Portugal, na época marcelista. Referia-se aos membros da oligarquia do regime, que acumulavam cargo sobre cargo.

Essa imagem do passado regressou quando soube que o Conde da Anadia, aka Miguel Pais do Amaral, acumula 73 lugares em administrações várias. Fazendo contas, e esperando estar dentro do espírito do novo Código do Trabalho:

Se MPA trabalhar 35 horas por semana (7x5) dá uns 29 minutitos por empresa/semana;
Se MPA der o litro numas 60 horas por semana (12x5) a coisa passa para 49 minutos/semana.

Um milagre de eficiência e de racionalização, tá a ouvir, Álvaro?

Não se contabilizam as horas no bridge, no golfe e nas corridas de carros, que também são trabalho.

É por essas e por outras que o desemprego entre os administradores de empresas é a desgraça que é...


Miguel Pais do Amaral festejando o 40º tacho. Ainda faltavam 33.

quinta-feira, 2 de agosto de 2012

MIGUEL RELVAS NOS JOGOS OLÍMPICOS

A saga Miguel Relvas, assim tipo Anita ou assim tipo Astérix, chegou a Londres.

O homem do cartaz chama-se José Santos. É um professor, de Cantanhede. É um homem do centro.

quarta-feira, 1 de agosto de 2012

BAB CHARQUI E BAB TOUMA

Foi com um arrepio que acompanhei as notícias, à hora do almoço. O conflito, na capital síria, chegou aos bairros cristãos da cidade. Era previsível que, mais tarde ou mais cedo, a comunidade cristã fosse envolvida na balbúrdia. Estou convencido, e oxalá me engane, que nada voltará a ser como dantes.

Em breve ouviremos falar de Maaloula e de Saydnaia, as aldeias aramaicas das montanhas do anti-Líbano...


Rua do bairro cristão de Damasco (outubro de 2003)

HIERÓGLIFOS E PASSARINHOS...

Recordações do mundo maravilhoso dos colóquios e dos congressos:

Foi há uns anos, num encontro de arqueologia. Um especialista fazia uma intervenção sobre hieróglifos. Com mal disfarçada satisfação, e com nítido talento artístico, desenhava e dava pormenorizadas explicações sobre os símbolos de uma determinada inscrição. A comunicação alongava-se, para evidente e crescente impaciência da moderadora, uma colega com tanto de competente como de intempestiva. Às tantas, e depois de um primeiro aviso de que o tempo se esgotara, resolveu interromper a apresentação, perguntando "olha lá pá, vais concluir ou pensas ficar aí o resto da tarde a desenhar passarinhos?".

Do meu lugar no público enfiei-me cadeira abaixo, como se fosse comigo, e vi uma espécie de película de gelo cobrir a face do arqueólogo. O resto da comunicação não terá demorado mais de 15 segundos.

terça-feira, 31 de julho de 2012

CRYSTAL SPRINGS, MISSISSIPPI

AINDA QUE MAL

Ainda que mal pergunte,
ainda que mal respondas;
ainda que mal te entenda,
ainda que mal repitas;
ainda que mal insista,
ainda que mal desculpes;
ainda que mal me exprima,
ainda que mal me julgues;
ainda mal me mostre,
ainda que mal me vejas;
ainda que mal te encare,
ainda que mal te furtes;
ainda que mal te siga,
ainda que mal te voltes;
ainda que mal te ame,
ainda que mal o saibas;
ainda que mal te agarre,
ainda que mal te mates;
ainda assim te pergunto
e me queimando em teu seio,
me salvo e me dano: amor.

(As impurezas do branco, 1973)


O texto tem a ver com expetativas. O casamento tem a ver com expetativas. Mas não em Crystal Springs. Em Crystal Springs, Mississippi não conhecem, aposto!, Drummond de Andrade. Mas naquela vilória de 5.000 habitantes, 55% dos quais são negros, conhecem bem a palavra preconceito. Daí que mesmo sem conhecerem Drummond de Andrade há igrejas que não permitem casamentos entre negros. Um casamento interracial deve dar origem a marcha do KKK.

A fotografia é do baiano Pierre Verger.

NETBANHADAS.COM

Serve este post para desabafar e maldizer publicamente o sistema de vendas pela net. Não é que tenha sido vítima de nenhum esquema mafioso ou enfiado algum barrete. Mas se me tivesse fiado apenas na net tinha ficado a pé. Ou quase. Os bilhetes para o Met Opera Live esgotaram antes de serem postos à venda. E em Portugal só a Gulbenkian disponibiliza tais espetáculos. Pior e mais desgraçado ainda foi o topete do sítio tauroentrada, que vendia bilhetes para a corrida da próxima sexta-feira, em Huelva, a 230 euros. Que era um lugar VIP e tal... Está bem que é o José Tomás, mas 230 euros... Vão roubar para a carretera, dá vontade de dizer.

segunda-feira, 30 de julho de 2012

DE COMO A TUTELA LEVOU A SUA AVANTE E SANEOU O DIRETOR DO MUSEU NACIONAL DE ARQUEOLOGIA

Conheço o Luís Raposo há cerca de 20 anos. Trabalhei com ele em dois projetos, dos quais conservo gratas recordações: as exposições Portugal Islâmico, em 1997/98 (no Museu Nacional de Arqueologia), e Lusa - a matriz portuguesa, em 2007 (no Banco do Brasil). Foi/é uma relação franca, que se tornou em amizade. Lembro-me que a exposição concretizada no MNA não foi isenta de tensões e de discussões, por vezes acesas. Tudo se ultrapassou, com pragmatismo, e ainda que com algum espalhafato à mistura (para alguma coisa somos mediterrânicos...).

O Luís Raposo colocou o MNA num lugar de destaque dos museus nacionais. Exposições, catálogos, conferências, ações de formação, ciclos de cinema, visitas guiadas, um número infindável de iniciativas marcadas pela qualidade. Concretiizadas com recursos financeiros diminutos. Como várias vezes tenho dito, e escrito, admiro imenso o trabalho do Luís à frente do MNA. Mais ainda, respeito a frontalidade com que defendeu princípios e convicções. Em especial no caso da Cordoaria. Bem como nas fundamentadas opiniões sobre a política museológica da Pátria. A tutela não gostou. A tutela não perdoou. Tentou, primeiro, uma não renovação à má fila. Aproveitou, depois, uma alteração da lei, para arrumar Luís Raposo. Um episódio triste. O Luís sai de cabeça erguida. Já a tutela...

E já que se fala no diretor que sai, aqui fica uma palavra de apreço e de votos de sucesso para o António Carvalho, um colega que se distinguiu pelo grande dinamismo que imprimiu à área cultural em Cascais. Oxalá a tutela o trate com respeito. Ele merece e o MNA precisa.

 

LUZ PERPÉTUA

Mais uma pequena (e inofensiva) mania: colecionar imagens sobre o tema do fogo e da luz. Nada de piromania. Apenas o resgisto dos reflexos nos nossos dias de mais uma tradição vinda do oriente. Da qual temos testemunho sobre a forma de iluminar na eternidade o percurso dos homens notáveis. Esse hábito chegou à pedra dos jazigos. E a representações tão insólitas como esta, que podemos ver à entrada do quartel de Vendas Novas.

Lux Aeterna é o nome de uma peça musical do meu panteão. Sim, faz parte da banda sonora de 2001, de Kubrick.


Lux æterna luceat eis, Domine,
cum sanctis tuis in æternum,
quia pius es.
Requiem æternam dona eis, Domine;
et lux perpetua luceat eis ;
cum Sanctis tuis in æternum,
quia pius es.

domingo, 29 de julho de 2012

UM POUCO DE SUBSERVIÊNCIA OLÍMPICA

Os Jogos Olímpicos dão-nos a oportunidade, de 4 em 4 anos, de assistirmos a um estendal de racismo, de paternalismo, de tiques de superioridade ocidental e de uma insuperável subserviência ante os Estados Unidos.

Somos bombardeados com informações e mais informações sobre as vedetas e as estrelas. Ou é o Phelps, ou são os da NBA, ou é o Romney que foi a Londres dizer bacoradas e levou nas orelhas etc. etc.

Ontem à noite, a imprensa portuguesa on-line esmerou-se. A vedeta das notícias? O norte-americano Lochte, que ganhou os 400 metros estilos, sem bater nenhum recorde. E sobre a chinesa Ye Shiwen, que venceu a mesma prova, estabelecendo novo recorde do mundo? Quase nada.

Vá lá, agora todos em coro nas redações dos jornais:
IU-ESSE-EI
IU-ESSE-EI
IU-ESSE-EI